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terça-feira, setembro 30, 2003

Olho Rosa

Mas também há coisas rosas e doces.
A Catarina vai ser mãe. O JM pai. Um filho da Cultura..

E a família Dias Laranja casou com a família Rosa Rodrigues. Esperam-se para daqui a uns tempos Larosas e Rosanjas, que irão salvar Portugal. Um Romeu & Julieta com final feliz. Os tempos também são outros.
Como há o Bloco Central de interesses, também o há do Coração.
Rudegolpe na bipolarização, a caminho do Conceito Ùnico e da entropia final. A pasmaceira vazia de qualquer conteúdo ideológico. O contraditório, a dialéctica, deixaram de fazer parte do processo político, substituídos pela intriga surda que gera a manobra para o poder.
Mas isso é vinagre desta velha carcaça desiludida. (Patético)
Os noivos nada têm a ver com isto, claro. São simpáticos e desejo-lhes felicidades.
O Governo decidiu pôr os monovolumes a pagar nas portagens como classe 1 em vez da 2, como actualmente. Pensei que tinha sido pela tomada de consciência da estupidez e discricionariedade da decisão.
Mas não, foi para apoiar as vendas dos monovolumes da Ford-VW de Palmela.
Mais tout c’est bien ce qui fini bien.

Troçolho

Houve feira de brinquedos no Porto. Sábado.
Eu gosto de brinquedos.
Há feira da Ladra todas as 3ªs e sábados.
Eu gosto dessas imersões no povo, por vezes mais ou menos. Com sorte podem-se observar furtos em directo e pequenas cenas canalhas. E verem-se polícias king size, com casse-têtes em proporção, de olho nos negros. Nada, meu.
Também houve noite dos Antiquários na rua de S. Bento.
Tipo europeu, com performances indecifráveis ligadas ao fado e a cascos de cavalo a baterem na calçada. É sempre agradável ver coisas bonitas, mesmo que inacessíveis sem empréstimo bancário, numa boa noite de Lisboa, entre archotes, tapumes de obras, apitos irados de carros que não conseguiam passar e grupos de beautifull people rodeando o Presidente da Edilidade, numa sua surtida mundana. Algumas lojas davam champagne e tapas reconfortantes quanto a um nível de vida que ainda existe, para alguns.

Talvez como compensação pela não demissão do ministro Portas, um novo jogo está agora a fazer furor no Governo – o das demissões relâmpago. Ganha quem conseguir demitir um qualquer responsável em menos tempo após o conhecimento da alegada causa.
No caso do IEP não se percebeu em que é que a saída do presidente resolvia o assunto. Se houve erro técnico, obviamente a culpa não foi dele. Se não houve, por mais razão deveria manter-se. Concluiu-se que a insegurança reinante na solidez das infraestruturas rodoviárias, se devia a falta de meios para uma monitorização eficaz e para a subsequente atempada correcção. E que essa situação de asfixia financeira e de meios, era decorrente de instruções do Governo, exclusivamente preocupado com o famoso deficit das contas públicas, que continua, hélas, a escorregar, a escorregar.
Donde porquê sair? Só pode ter sido por exorcismo ou para por água na fervura numa opinião pública saudosa dos pelourinhos e dos autos-de-fé de notáveis, poderosos ou ricos, movidos por esse sentimento tão lusitano- a inveja.
Também se não percebe, a não ser como bodo às massas neste aspecto, a demissão relâmpago, zulu, do comandante dos bombeiros de Viseu, sem ser ouvido ou aprofundado o inquérito sobre o uso de um helicóptero para voos turísticos. A conjectura imediata é que o homem tinha uma estrangeirinha com o piloto e fazia dinheiro na venda de tours à conta do Estado.
Veio depois a saber-se que os voos não eram suportados pelo Estado, que o helicóptero voava apenas fora das horas de serviço público e que os passageiros seriam pessoas que tinham filantropicamente ajudado na luta aos incêndios, sendo o passeio, assim, uma espécie de prémio.
Onde está então o mal? Porquê a demissão? ASP

segunda-feira, setembro 29, 2003

DRING E O SEU ECO

Um céu escuríssimo preenche a noite de Bamako. Um sossego profundo dos homens e da natureza. Nem uma brisa leve faz tremer o pano esgaçado das bandeiras que se perfilam à entrada de um aeroporto perdido em lugar nenhum.
O grilo trila furioso de encontro ao silêncio grosso.
Homens negros, altos, de camisas claras até aos pés, passam de quando em vês pelos halos de luz baça antes de desaparecerem na escuridão. Mulheres enormes de roupas coloridas e penteados estranhos senntam-se pancientemente nas cadeiras das esperas. Não há palavras nem sons.
O telefone toca no aeroporto. Faz eco nas lajes brancas sobre as quais pousam as moscas flácidas. Faz eco no vazio dos corredores e na submissão dos rostos fechados e mudos.
O telefone teima em tocar na noite. Um
DRING
Insistente ao qual só o eco continua a responder.
Quem telefona para um aeroporto quase vazio? AM

E a hipótese de um grande rude golpe?.
Os amigos americanos estão em todas e em tudo.
Entrámos no eixo, o eixo atlântico em alternativa ao bloco europeu.
Por convicção e empenho pessoais do 1º ministro ( que ainda está convencido que há armas de destruição maciça no Iraque) e dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. Chegou-se a argumentar com negócios para Portugal, que ainda se não viram. Mas isso é outra história.
Voltando às armas.
Todos os negócios de armas implicam enormíssimas luvas para quem tem poder de decisão e está metido nas aquisições, imperadores, príncipes, presidentes ou ministros. A Lockheed era campeã no assunto. Há, pois, a priori, um elevado risco de trafulhice nestas coisas, que envolvem montantes que nem nos passam pela cabeça.

Por cá os ingredientes também estão sobre a mesa para o cozinhado: os enormes montantes; a tradição da “comissão”, uma opinião pública distraída com coisinhas.
Mas temos uma originalidade procupante: um decisor que por muito menos terá já prevaricado (vide Moderna), com um futuro a médio prazo muito problemático em termos de manutenção no poder........
Talvez seja má vontade de velho e ex-combatente que não confia nem um mícron no homem, mas mais vale prevenir e tornar, sempre, tudo claro, por exemplo envolvendo comissões independentes de avaliação ou acompanhamento, divulgação dos critérios e dos relatórios, com os esquemas de pagamento, fontes de financiamento, etc, etc. ASP

Olho de ruminante

Isto está tudo parvo, ou é outra coisa?
Então e a notícia de que o Governo vai comprar dois submarinos?
À HDW, que era alemã, mas agora é americana (95% do capital). 1100 milhões de euros, 220 milhões de contos.
O argumento aduzido pelo pomposo ministro do pelouro é que é para ajuda ao combate à droga e à imigração ilegal!!!!!
Que desplante! Quês desperdício! Que lata!
Um quase insulto à memória dos 18 cidadãos que morreram nos incêndios e às centenas que perderam quase tudo o que tinham, porque por muito menos se não adquiriram aviões, helicópteros e carros de combate aos incêndios, “para poupar”!!!!
Um quase insulto aos funcionários do Estado, que por falta de verbas muito inferiores,”para poupar”, não conseguem manter as estradas e as pontes; que não tentam sequer lançar uma política cultural e científica de nível rudimentar por padrões europeus; que não completam o plano de rega do Alqueva; ou que não investem em projectos essenciais para nos tirarem deste marasmo medíocre em que estamos imersos. “Para poupar”
Poupar no essencial e estrutural da Paz; desperdiçar no conjuntural da Guerra. Rudegolpe. Rudegolpe.

Mas golpe ainda mais rude é saber-se que a seguir aos submarinos virão 300 blindados para o Exército; e não sei quantos aviões Lockheed para transportes de tropa; uma catrefa de helicópteros militares, fora o que se não sabe.
E para se sentir a enormidade da despesa, usando o macro-câmbio do dia, tudo junto dará para mais de 100 estádios do Euro2004.
Mas estes, pelo menos, ainda dariam receitas em turismo, jogos e espectáculos!!!! O material militar só será útil – e por pouco tempo – em caso de invasão do país ( pelos mouros? Espanhóis? Hunos?).
E já houve os F16, que ainda se não viu por cá para que é que servem; e as famosas Meko; e os helicópteros militares; e o envio da GNR para o Iraque, que farão sair dos nossos bolsos mais de 5.000.000€ por ano. Para quê? Porquê?
Quando se corta em investimentos super-necessários, mesmo a nível de defesa nacional.
Que raio de conceito de defesa nacional vigora? ASP
SHIVA, O VENDEDOR DE JORNAIS

A carta chega-me pela inevitabilidade do correio.
Traz um remetente: Shiva, Newspapers Seller, Colva, Goa, Índia.
Não precisa de nada mais.
Shiva: como o nome do destruidor das coisas.
You are the origin of the worlds.
And you are Time, their destroyer.
É assim que canta o Mahabharata.
Este Shiva não tem a sua morada por entre as neves do Kailash. Vende apenas jornais. O Times of India, o Herald, o Indian Express. Vende também, às vezes, postais de Colva e dos barcos nos quais pousam os corvos ao fim da tarde, das palmeiras curvadas de Palolem, da igreja branca e azul de Panjim. Ora pro nobis...
A carta não traz notícias nem saudades, Traz frases soltas, algumas delas sem sentido.
Traz frases em português e erros de ortografia. Traz o português incompleto de um lugar onde ele, apesar de tudo, ainda existe.
Shiva: já o ouvi falar tantas línguas diferentes. Francês escorreito, alemão entaramelado, italiano rápido. Para cada turista o seu diálogo. E vende apenas jornais, de vez em quando postais também. O seu remetente é simples e não está sujeito a enganos: Shiva, Newspapers Seller, Colva, Goa, Índia.
A sua carta chega-me pela inevitabilidade dos meus regressos.
E traz uma pergunta: quando voltas?
Não sei. Mas sei que já estou a caminho. A M
Desejo Escrever

Um post não será nunca suficiente para ser absolvido do rude golpe de nunca ter escrito nada para o blog do meu irmão.

É verdade que o desejo que tenho em casar é maior hoje do que alguma vez imaginei, mas a verdadeira razão pela qual nunca escrevi é simples: não consegui. Não consegui ultrapassar as dificuldades informáticas; não consegui ultrapassar o medo de enfrentar a responsabilidade de ser chamado "New Blogger"; não consegui ultrapassar o facto de saber que aquela gente escreve melhor do que eu; não consegui ultrapassar o facto de não ter lata de usar um chapéu igual ao que o LFB usava no dia em que o conheci; não consegui ultrapassar o facto de nunca ter retribuído o tempo que me foi dedicado pelo NCS durante a minha primeira visita aos Açores; não consegui.

Hoje, talvez com algum conforto da protecção paternal e insensata que tenho de LACP, uma identificação de sangue com a loucura de AM e a lata de conseguir usar um laço igual ao de ASP, consigo finalmente encontrar um escape para as golpadas que me cravam nas costas cada vez que me viro para o lado. ACA

domingo, setembro 28, 2003

Sobre quem governa


A tomada do poder não é calculada na fria lógica da movimentação de peças. Por vezes uma jogada importantíssima não é mais do que um delírio, e no entanto ela contribui para o processo da conquista do poder. As jogadas sem lógica na aparente impertinência de em nada contribuírem para alcançar o objectivo, baralham e divergem, abrindo espaço para os verdadeiros golpes.
Fico a pensar se o proselitismo e a ideologia não é um pouco como uma manobra de aparente ineficácia, mas que afinal, escondendo um mundo submerso e tão incontrolável, abre o espaço necessário ao golpe eficaz.
A ideologia não é mais do que um campo obscuro de actores incertos, um vestuário de máscaras de carnaval à mão de ambiciosos, que no chão esperam para conjugar as peças que faltam para se chegarem à luz. Muitas vezes as ideologias alienam os espíritos sérios, tiram-lhes a carne e o senso e por causa delas, a coberto delas, é a escória que chega.
A invocação dos valores que é também uma aparente inutilidade, não só serve para tranquilizar inquietos, mas também para iludir o ziguezague do desnorte e assim fingir que há uma direcção e um rumo.
Combater no campo escuro da estratégia e da ideologia e, ao mesmo tempo, na superfície do saracoteio estonteado das palavras, isso quase exige duas almas. LACP



Índia
Fiz uma vez a promessa de ler tudo o que encontrasse sobre a Índia. Tento cumpri-la com persistência e método. Leio sobre cidades, aldeias e lugares: e depois vou.
Não resisto à canção da Índia: Tiruvannatapuran; Tiruchchirappaly; Gangtok; Darjeeling; Pondichérry; Bangalore; Nuvem...
Vou. Vou sempre.
Não quero é ficar aqui. Ficar aqui dói-me. «Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo», escreveu o Bernardo Soares que sabia do Ganges como ninguém, tinha em si o desassossego de viajar por dentro e sonhava com ilhas do sul e Índias impossíveis. É disso que tenho medo: de endoidecer de aqui mesmo. E que haja, em algum lugar, uma Índia impossível.
Continuarei a ir. E a escrever de febre como se viajasse.
Hei-de ir tanto, tanto, que não será mais possível voltar. A M

quinta-feira, setembro 25, 2003

Dullblogs, bulldogs e ideias correlativas

A solidariedade bloguista impulsiona-me a referir o Muitomentiroso, desaparecido em combate.
Muitomentiroso, centro de contra-informação que, contendo alguma mentira, dizia aquilo que os orgãos de informação não podem, ou não querem, dizer.
Sistematizava o Boato, essa instituição nacional de informação-contra-informação.
O nosso ex-colega Mentiroso não seria correcto.
Talvez fosse abominavelmente difamador, escondido no anonimato.
Mas era útil, porque tornava concreto o tal outro mundo da perfídia onde "vale tudo", mas que vive impune, porque os prevaricadores sobreviventes à Justiça, são competentes nas suas prevaricações e seguramente têm o cuidado de delas não deixarem provas.
E sem provas só um louco ou um anónimo se mete a fazer as afirmações ou sequer a colocar as dúvidas do Mentiroso.
Donde a justificação do seu anonimato.
O que não exclui a insanidade mental, que aparentava não existir.
Pelo contrário, seria gente esperta, hábil, eficaz.
E bem informada.
Talvez acusasse inocentes, na sanha de apontar culposos.
Não seria, para o observador técnicamente menos informado, muito diferente daquilo que o actual sistema formal de Justiça aparenta praticar, pelo menos nalguns casos mais mediáticos.
Talvez deformasse, também, alguns factos.
Talvez difamasse, à sombra da convicção de impunidade, algumas pessoas justas, inocentes, vítimas.
Talvez estivesse a soldo de interesses escondidos.
Seguramente era um truque, um oportunismo nas fissuras da Lei.
Mas ali, mesmo que falso, era-se concreto.
Lidava-se com clareza.
Essa clareza, mesmo mal escrita, mesmo por vezes internamente inconsistente, era convincente.
Porque ia ao encontro daquilo que o comum cidadão acha que se passa.
Aquilo que os indícios e as vaguidões da informação pública criaram como sendo a realidade escondida e protegida por interesses do Poder-sombra, o do dinheiro.
O ter sido silenciado sem ser devidamente esclarecido os limites da verdade e da mentira das acusações feitas, cria um enorme desconforto no cidadão.
Cidadão, que pode pensar que terá sido por ser verdade que foi silenciada.
Para mais tê-lo-á sido quase como por assalto.
De forma brutal, preocupante, à moda de uma nova nova-Pide, a crer no seu texto de despedida " O salazarismo não acabou", com a foto do ex-ditador e na grosseria obscena da última mensagem, em inglês.
Frase atribuível já aos assaltantes e actuais bloguistas e não aos anteriores, até porque está permeada de raiva porca e densa, como se houvesse algo de vingança de ofensa pessoal no acto.
O ser em inglês piora.
Térá sido, contudo, um acto legal e legítimo.
De protecção a possiveis futuros nomeados quanto a difamações e acusações infundadas.
Mas não deixa de ficar o amargo de boca em quem o lia, mesmo sem querer acreditar no que dizia.
Porque se havia matéria de injúria ou calúnia individual, outra havia que, para descanso do cidadão atento, mereceriam investigação e desmentido formal por quem de Direito.
Que não houve.
Porque, por não constituirem denúncia formal, para as polícias é como se não existissem!
Como se a função das polícias não fosse investigar e combater o crime, mas apenas responder a queixas concretas de cidadãos.
E a serem verdade algumas das acusações e fundamentadas algumas das perguntas do Mentiroso, os cidadãos têm razões para ficarem preocupados com o estado a que o País chegou..

Não se deve, assim, deixar a coisa pelo silenciamento do blog.
Há que dar explicações.
Ou, no mínimo, haver alguma entidade "acima de qualquer suspeita" que garanta que as acusações mais graves não passavam de completas invenções sem qualquer fundamento.
Alguém como o Procurador Geral, por exemplo.
Se não o acto de silenciarem o Muitomentiroso é um Rudegolpe na nossa Democracia.

Mas isto são conjecturas que me não estavam a apetecer, como disse. E são conjecturas chatas, desconfiadas e amargas, nada de acordo com a minha condição normal. Depois, só tenho a certeza que só tenho dúvidas. A pensar mais, depois, pois. A S P

Em 1990
(acho que foi em 1990)
cheguei pela primeira vez à Índia.
A verdade é que eu já fora muitas vezes à Índia e sabia-o: os factos é que não. «O Ganges também passa na Rua dos Douradores», dizia Bernardo Soares. E o Ganges passou sempre por debaixo da janela do meu quarto, em Águeda, um quarto grande de soalho forte
(e o calor de Agosto fazia cantar o soalho forte),
com a janela da varanda virada a sul, virada para a tristeza, porque é sempre a sul que fica a tristeza.
Índia.
Para mim Índia leva um ponto parágrafo.
Eu sabia, portanto, que amava a Índia, mas não tanto. Amava a Índia desde sempre, como se tivéssemos sido prometidos num dia qualquer da infância de nós dois. Não é fácil explicar, mas tento. A gente por vezes ama coisas de nós mesmos que nem sabemos ainda que existem. Como um filho: não nasceu, e a gente ama-o já. Mais ainda: ainda não foi concebido, e amamos tudo o que projectamos dele. E depois ele torna-se real e percebemos que o amamos ainda mais do que pensámos ser possível.
O Ganges passava por debaixo da janela do meu quarto com a sua lentidão submersa de rio sagrado, um calor de Agosto fazia cantar o soalho forte, o cheiro amargo dos choupos subia de um rio Águeda mais pequeno e mais real, e a Índia crescia por dentro de mim como um chamado. Ou talvez como um encantamento.
Em 1990
(não tenho a certeza absoluta de ter sido em 1990)
cheguei pela primeira vez à Índia. E não deixei mais de lá ir.
Viajo em febre. Não há nada a fazer contra, por mais que se tomem comprimidos. De repente, um lugar qualquer do Mundo chama-me e eu vou. Às vezes é um som: Ngorongoro, Panachajel, Tegucigalpa, Timbuktu, Machu Pichu. Não resisto à atracção musical dos nomes.
Índia.
A dimensão do teu nome.
Bruce Chatwin dizia que o homem viajava pelo impulso nómada e que o tempo o amarrara a uma sedentariedade que o tornava infeliz. Chamou-lhe: «Anatomy of Restlesness».
Sinto-me inquieto quando estou quieto. Há sempre alguma coisa que me puxa para longe, não sei ao certo o quê, mas não garanto que não seja eu. Uma noite li algo sobre Bobo-Dioulasso, no Burkina-Faso. Na semana seguinte estava lá. Em casa do velho Mamoudh, que tinha uma irmã gorda e uma mulher nova, passei tardes a ouvir histórias absurdas. Certa madrugada, o velho Mamoudh pôs-me uma espoleta nas mãos e levou-me com ele à caça de pombos e lebres. Caminhámos mais de vinte quilómetros pelo mato rasteiro e vimos o sol nascer sobre os baobás. Dei três tiros e não cacei nada: recuso-me a matar o que quer que seja. «Anatomy of Restlesness»: parece-me bem. A M

quarta-feira, setembro 24, 2003

O nó na garganta

Aqui se aprende como lidar com os rudes golpes sem arrancar cabelos, chorar no ombro de uma amada(o), fazer um escarcéu ou interiorizar mais ainda o desgosto, de joelhos na laje de uma qualquer capela sombria.
Para os que julgaram num breve instante ou numa prolongada época juvenil que iriam encontrar uma parceira superior leiam este blog.
Para todos aqueles que desejaram outra profissão e lhes calhou uma fraca, mal paga e rotineira, recomendo o nosso blog.
Para os que queriam ver a neve cair numa qualquer tarde de volta a casa e só viram caras de enfado de personagens sem nome cheios de pressa em chegar a destinos obscuros...
Para os que podiam ir embora, mas se fossem era pior do que o mal em que vivem e têm de ficar...
Os que esperam no dia a dia ver outro mundo e só encontram trampa, consolem-se neste blog.
E se nenhum destes itens corresponde à sua contrariedade e o seu nó na garganta não é nenhum destes e não se desfaz com ideias e blogs, então leia na mesma para se esquecer. Nada permanece. Nós por cá fazemos a apologia dos prazeres estóicos. Nós por cá já estamos habituados. O nosso dia a dia é fraco e relativo. Nem sequer sabemos o que nos espera. Talvez ideias e filosofias baratas.LACP

terça-feira, setembro 23, 2003

Saudações

Somos recém chegados. Já se anda a blogar, entrados com pequenos passos de aprendiz, sem grandes arremedos, os cutelos baixo pouco lançados, as forquilhas em descanso, poucas línguas de fora, também não somos maus rapazes malcriados, o que houve foi queixumes, por ora, e, tudo assim porque somos recém chegados a este território bloguista onde outros já lidam com experiência. Aonde é que isto vai parar isso não sabemos, o futuro não sabemos bem qual é, a não ser que é promissor. Portanto, com um futuro tão certo e ao mesmo tão incógnito, o presente é bombástico, era bom que fosse, dedicado e múltiplo, antes fosse, nós por cá todos tímidos. Não fomos apresentados, caros mil blogers companheiros, não há anfitrião nesta treta? Bem, nós os recém chegados, devemos uma palavra de respeito a quem nos precedeu e já cá estava antes a fazer das suas. É agora chegado o momento respeitoso de enviar uma sentida saudação a todos os brilhantes intelectuais, escritores, anotadores sociais, teóricos, reinadios, sentimentais, jornalistas, sátiros, cientistas de roupa leve, amigos às dúzias que encontramos e encontraremos ainda neste frenesim postista: as nossas saudações e cumprimentos!

Uma palavra de admiração pelo vosso brilhante trabalho desenvolvido. Sem menor consideração por outros não citados, deixem-nos felicitar a grande equipa do garboso Desejo Casar e do heróico País Relativo e dentro destes, os nossos familiares e amigos, o descontinuado desconstrutivista imaginário de grande estilo, fino humor e bela cicuta disponível que dá por LCA.. Não ficaríamos felizes se o manso e polido, arguto e de recortado sentimento que assina NCS não fosse agora lembrado, e do denso LFB registamos a arquitectura que tanto rigor leva para o pensamento. Homem rebelde, nitidamente, sempre insatisfeito com a personalidade que deus lhe deu, até no pensamento! Felicitamos a MVS. a quem particularmente devemos a sua gentileza para nos construir esta página. E também o duro de roer FN., e bem assim o infatigável e amável M.C. E o azougado R.B. italiano cujo concentrado pensamento nem sabemos aonde o vai levar, mas é longe de certeza. E à S.S de olhos largos lembranças. Ao filho Pedro, que se confunde com a nossa própria vida, enviamos solidariedade! Deixem-nos também felicitar, noutro horizonte, o misterioso Sr. Pipi. Bem sabemos que ao citar tal personagem de mistério corremos altos riscos de sermos imediatamente desancados, crueldade não lhe falta, mas, pedimos clemência. O vacalhão é garboso, diz que diz, inventa com as artes do demónio, vira do avessso, o homem tem estilo, é letrado, na redondilha poética vence os mais consagrados mesmo que adeptos do bolo rei, tem vislumbre, amplitude nos sinónimos e nisso não há quem o bata. Pipi és o nosso herói, as nossas felicitações e admiração. Vais longe meu sacana!
Sérios amigos, encartados politólogos em dúvida, ai do nosso país relativo que se esfuma, não fossem as vossas encantadas prédicas, onde disparam vocês mordacidade e bota abaixo elegante, sem nunca sabermos afinal de quem gostam. Para onde vão vocês no futuro, se tiverem sorte?
Ficaríamos de bem com a consciência se fosse possível uma referência pelo menos nominal a todos os cromos com os quais mais temos convivido. Mas não nos vamos estender, pedindo desculpa pelas omissões...
Sabem, isto é a nossa parte estóica: amabilidade. Por baixo nem imaginam! Azedume, dor, decepção, rudes golpes aos montes, corpos danados, almas partidas e, abandonadas! Jura-se, não é figura de estilo, a coisa pesa, racha, espatifa.
E agora dêem-nos licença, queremos entrar... LACP

Hora de fechar a tenda

Os lourinhos ainda pequenitos que brincam nas praias tão felizes, estão a suspender o azedume das mães. Estas vão também levadas pelo sol e deixam para trás as arrelias e esmagamentos que ficam das decepções lentas dos amores. Mas têm os filhos, têm os filhos. Para alimentar esperanças e destinos. Encantam-se a vê-los rebolar nas ondas e chapinhar como heróis, e ficarão facciosamente dependentes dos seus caprichos. Julgam-se realizadas, mas são só novas. Mal sabem o mau carácter que se forma dentro dos filhos, coisas de egoísmo, de habituação à vontade emproada sempre satisfeita. Alguém pagará as favas dos filhos felizes.

Os bebés, os que já andam, a encher as praias com alaridos, nessa aliança original de natureza, bebé e terra, são os que mais enlevam as mamãs e algumas tias legítimas. E aos pais masculinos, isso o que faz é uma confusa coincidência de sentimentos e uma consequente hesitação entre olhar para o lado, ou enveredar pela família, a tal coisa que faz adormecer. Quem não deseja, por um breve instante, deixar-se ir tranquilo no chão da família? Mas onde estão as crianças das famílias e as crianças que não têm família? Talvez que as crianças, pela possibilidade que são e pelo encanto tocante, não sejam muito mais do que um larvar rude golpe de enganos.

Agora há uma espécie de neblina que é um tipo de luz que embranquece a areia.. O verão a ir, apresenta já a sua nostalgia. Já está tudo queimado. Mesmo as hipóteses, também essas já morreram. As nádegas sobressaem mais brancas do torrado chocolate solar. As maminhas das lobas querem voltar à sua função original, alimentar, chupadas por lobinhos dentados. Os quadris das mamãs, as mamãs que antes davam sumos aos filhos, vão –se arrepiar enfiadas nas calças e saias opressivas. As grandes mamas deixarão o drama e todos vão cantar versos dos Xutos, à uma, num bar animado. O fim. Isto é o fim.

Tudo acaba como na canção francesa, com a debandada. É um vento que varre, montado num cavalo rasteiro, as areias sujas dos usos, e, leva, sem contemplação, as alegrias dos puros e dos reinadios e dos felizes. O fortuito prazer da praia, iniciado com a exibição das carninhas, termina saturado no cinzento dos espíritos arreliados. Os chapéus de sol enferrujados não voltarão para os arrumos de inverno e ficarão de cabeça para baixo em qualquer balde de lixo. Está perdido mais um verão. Afinal não foi desta que se fixou o tempo feliz e em definitivo, para sempre. Ir embora, virar costas, tremendo golpe. Que o digam os que têm entre 3 e 16 anos.

Bye Bye!

Sinto pelos que vão abandonar e estão já nas ultimas horas com os olhos postos no horizonte. Compreendo a nostalgia de um sinal transcendente e anunciado, que ficou de um beijo molhado. Gosto da espiritualidade que permaneceu de um desejo consumado às escondidas. Desejo ter o empenho fútil de amar rapidamente e de nos vermos livres. Sinto, como os que partem, a língua que humedece mais a boca e vasculha os dentes e traz doce e devagar, a essência. Adoro as mamas descobertas sofregamente apalpadas por gestos de mão inoperantes e incapazes em mostrar o abismo. Vejo a beleza nova que ensaia sentir e encontrar. Verifico o laço das praias com a verdade e desta com os cabelos frescos e com o sal e a pele queimada e a ondulação dos corpos nas danças e o nascer de promessas contínuas e o crepúsculo, seguido das sombras iluminadas das noites e a reserva que fica sempre depois da vida aberta, no canto fundo do silêncio e do segredo, quando voltarão a se verem os que se amaram nos instantes tremendos? Curtos amores já tão vastos de emoção, amores e rudes golpes de ir, vejo a partida e o fim do engano e aquele vazio do vento sobre as praias marcadas, quando olham uma ultima vez e o mar já está com ondas altas e já não há ninguém, ninguém!. LACP

terça-feira, setembro 09, 2003

Apresentação:Este blog ocupa-se da temática do corte. Como se compreende é uma área vasta e de muitas dimensões. É feita de roturas, de desenlaces inesperados, de decepções e azares, de batalhas e vontade perdidas, e disto estão o mundo e alma de cada um cheios.
A maioria dos golpes são aplicados pela calada da noite e de surpresa. Muitas vezes são aplicados no meio da viagem, antes de se avistar o fim da estrada e de os objectivos traçados se cumprirem.
Há muitos rudes golpes.
Há os golpes vítimas. São os sofridos no silêncio, quando o machado do azar cai, duma assentada, num golpe curto e certeiro, sobre o corpo crédulo.
Há os golpes desejados aos outros, digamos, por possível encomenda do desejo...
Há os golpes de sentenças concluídas, mas isso será matéria judicial, onde o dever do silêncio e respeito nos obriga a parar já.
Mas justos e merecidos rudes golpes é caso de haver poucos, que é mais obra da ambição e portanto pouco possíveis de concretizar. Quem é que pode alguma vez tirar meças dum agravo? É raro voltar a ocasião.
Há negócios cortados a meio. Há traição que muda o rumo dos encontros. Há quem fale mais alto, há quem se meta à frente, quando o terreno estava livre e um pequeno atraso nos deixou para trás. Mas por entre a rude imensidão dos percalços, talvez que os mais dolorosos golpes, sejam os pequeninos, os que vão de mansinho e parece só mossa e afinal é dor lenta...
Como se adivinha, a temática de referência deste blog é por consequência vasta. Pode ser tudo, o que é o mesmo que dizer que é matéria indefinida; mas o que podemos desde já garantir, é que de certeza, não vai ser nada. Tudo é superável, tudo se esquece...É apenas um rude golpe. LACP

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