<$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, novembro 28, 2003

Uma sueca no bairro alto causa estranheza

Lá porque comprou um quadro julga que é importante? Ainda se fosse por parecer a Greta Garbo, agora comprar um quadro, o que é que isso tem de importante? Não dá importância, mas a ela deu, disso não há dúvida, gostou. Já se disse antes, deve ser por não falar com ninguém, e então cada um arranja os seus esquemas, uns passam-se e vão desdenhar com azedume, outros fazem festas ao animal de estimação, outros lêem ou compram pintura e é sempre tudo porque não falam bem ou não se divertem, é o que é. A Tucha, aliás Alice, começou por se queixar que não a largam e que não a deixam sozinha na sua reflexão e lamentou desiludir tanta gente quando o que queria era uma cartuxa, mas não especificou essa sua posição, a qual é, na opinião de alguns, uma espécie de suicídio lento, porque quem não se pronuncia, está no vão da escada que leva para o abismo escuro do silêncio nada, já foi escrito na obra de doutos, que comunicar é um acto, não é estar calado, provaram-no filósofos habilidosos e com argumentos, isso mesmo, que ser é comunicar e dizer e de nenhum modo receber inspiração divina, daí que opção trapistas não é ser, é antes um erro da razão e um erro do sentimento que também os há. Pelo menos quatro homens de boa vontade quiseram conquistar o seu coração, não se sabe bem qual parte dele, não importa, um foi jantar à luz das velas e não se lembra de nada, outro foi tomar chá e sobreviveu meio doido e mais cavalheiros meteram os pés pelas mãos sem conseguiram tirar a mulher do antro da solidão erro da razão fragilidade triste. Num mundo de tanta carestia, é uma pena um meio termo entre Greta Garbo e Virna Lisi assim entristecida perdida a sonhar com absolutos e ninguém a olhar para aquela elevação da espécie, embevecido. Ele há coisas! Se lhe elogiam a beleza, fica ofendida e fala de sentimentos e outras pecegadas. Se se fala de sentimentos parece que lhe deviam falar não se sabe de quê, se a convidam para conviver à noite e ir a algum lado, tipo qualquer inocência de tempo efémero, responde com evasivas ou diz que está à espera da resposta do pintor. É uma trapalhada. Tudo por causa do seu modo de encarar as coisas. Tudo porque não há maneira de tomar consciência do aspecto que tem. Assim arrisca-se a perder a vida, salvo se houver alguém que consiga inverter esta situação e arrebate a mulher. LACP
Há quem ache que ele não pinta mamarrachos.

O J pintor nem sequer se ofende por lhe dizerem que há gente a comprar-lhe mamarrachos. É insensível a críticas, já se sabe, também não se diz que o quadro dele é bodegada, o que se diz é que há gente capaz de comprar abstractamente, sem ver bem o quê; são eufemismos de amigos gentis. Isso até devia animá-lo e melhorar a auto estima. Longe de nós a intenção de desmotivar o artista, apesar de ele não precisar de nós para nada, muito menos de charadas de blogue. Agora o cabra sabe que aquela que lhe escreve está ofendida porque no rudegolpe dizem que ela comprou trampa, quando ela adorou o que comprou, e assim o artista tem uma dupla tarefa; presumir a validade do seu trabalho e vender-lhe uma historieta sobre o percurso profissional. E assim fica enleado e tem de fingir que não sabe que é um pintor de merda. Não pode dizer essa verdade a quem lhe comprou, não é? LACP

quinta-feira, novembro 27, 2003

Tucha espera uma resposta do pintor e baralha os assuntos
Entrava pelos olhos dentro que não era preciso escrever nada ao pintor se ela quisesse saber coisas. Telefonava, ou falava com ele ou perguntava a um amigo, a um vizinho, enfim, qualquer acaso servia. Nem o J P morava noutra terra, nem era inacessível e nem tinha carreira nenhuma em especial para ser narrada por epistola a uma bela dama desconhecida. Com trinta anos e no principio de uma carreira, o que é que havia para contar? E isto porque Alice, vulgo a Tucha, é uma distante, ou, então está ainda por perceber o que se passa, ou, sejamos metafísicos: qual é o seu verdadeiro ser? Às vezes, perante raparigas escorregadias a escaparem-se sem explicação, é reconfortante recorrer a esse vazio reparador: Ser. Um homem tem de se agarrar a qualquer coisa, nem é de pau nem homem algum digno desse epíteto aguenta a puta da solidão, por isso mulheres em fuga, que parem se são, esta não equacionou o Aurélio. Bem, volte-se à vaca fria, foi preciso elucidar o J P de quem é que lhe escrevia nessa letrinha miudinha e bem arrumada que ele já nem sabia bem. Ensaiou-se dizer-lhe que era uma assim e assado e nada. Pronto, já fartos berrou-se-lhe que era uma giraça ou bonitona que andou por lá, mais ou menos assim e o J P salta logo: não digam mais, já sei. E nós dizemos: Cá está. Todos acordam logo com o mesmo badalo. O diabo da mulher tem artes, um dia ainda nos zangamos todos se ela vai dar a volta a passear os cães. LACP
Helicicultura
Ponto Um: Introito
Dizes tu que não há Deus, nem deuses, mas apenas deusas.
Lá o saberás.
Por mim, se houver alma, ela pende-me para a androgenia divina, ou melhor, para a alternância. Seria tal modalidade que eu adoptaria se fosse deus, deus me livre.
Escolheria o meu sexo de acordo com as conveniências. Como os caracóis.

Ponto Dois - Redacção, a propósito:

Gosto muito dos caracóis, que soube nos meus estudos que também eram moluscos, coisa que eu antes nem desconfiava.
Bicho simpático, sem stress, livre. Sem morada certa. Sem parceiro certo. Sem sexo certo.
Tem vulgarmente medo, mas não se nota, ao contrário de tanta gente.
Um bicho pensador, antes de agir. Do Sul, querido ponto cardeal, que deveria ser promovido a ponto papa.
Simpático porque perfeitamente desnorteado. Bastante desorientado. Como muitos poetas. E quase todos os doidos e governantes dos países do Sul hoje em dia.
Tem, felizmente para ele, um tubo digestivo, que começa numa ponta e acaba numa outra. Come tudo quanto consegue apanhar, ou seja, coisas paradas, como batatas cozidas, couves, outros caracóis, se mais lentos. E ervas do campo que lhe dão bom sabor.
Mole e duro ao mesmo tempo, saboroso em molhos do Sul, do Sol, hermafrodita, Hermes e Afrodite.
Contem nele o cheiro do mato dos cabeços suaves e o soar das cigarras às três da tarde de Verão.
E fácil de capturar, quando detectado. Som inesquecível, o grito do caracol em fuga.
De Bach.
Acho que é um coitado, pois sei de muito inimigos, mas não lhe conheço nenhum amigo, a não ser eu, apesar de gostar de o comer.

Ponto Três: Momento lírico

Confesso que sou helicicófilo. Até lhes faço versos:

De Bach da minha cama
Encontrê um caracoli
Caracol de quem me ama
E me fez um cachecoli
(alternativas interactivas: 1: Me deu um torcicoli;
2: Me pôs o pauzinho ao Soli;
3. Renhonhinhos renhonholi
4. Tudo isto em mi bemoli)
( NT: bemoli quer dizer duas vezes moli, espécie alentejana de caracoli)

Os latinos, que eram os italianos antes de o serem, chamavam-lhe hélix, que ainda me lembro de serem usadas nos Super Constelation, porque ainda sou velho.

Ponto Quatro – Finale

Mas não me sai da cabeça, de melenas encaracoladas, a tua opinião.
Deusas, amigo?

ASP

Circunvalações do amor paixão delirante agravadas pelo horrível facto de serem meros frutos de imaginação e desejo insatisfeito.
Perigo de dislates grossos na expectativa frustrada de deleites finos criados no subcortex frontal activado por dose extra de aspirinas genuínas.
Risco de deselevação do afecto por sublimação inconsequente do desejo carnal, mesmo que serôdio.
Muito cuidado no tratamento do texto, porque a ideia já está à solta e a sua liberdade nem mesmo é vigiada pelos usos e costumes do grupo.
Mitiga o mito, tem cuidado, pousa, pousa (Repousa).
“Aaaaah, to be or not to be” ( o antebraço direito é levado aos olhos como a escondê-los duma claridade).

ASP

quarta-feira, novembro 26, 2003

O espaço da decisão
Estranho mundo matriarcal delicado e bruto. Doce Leonor escolheste bem sozinha nas tuas sete quintas de gentileza um qualquer trapeiro que vive em Lisboa e só tu sabes qual a sua graça e nem às paredes confessas e, tua amiga Tucha, que tantos devora de desejo e química, só sabe pôr na alheta os mesmos devotos estonteados que esbugalhados são partidos e não há nem um que a demova do duro e sofrido capricho e teima do fechamento. Oh deusasinhas, as outras vontades dos pobres não contam? LACP

terça-feira, novembro 25, 2003

O BURACO DO OZONO E A ALDEIA GLOBAL

Ando muito preocupado com a meteorologia. Acho mesmo que os aspectos relacionados com o clima se tornaram, para mim, uma obsessão (também tenho direito a ter uma ...). Todos os dias consulto as páginas dos jornais (mais que um, de preferência, porque isto não há que fiar...) e ouço vários noticiários televisivos, sempre à espera de saber como vai o tempo por estas bandas. Já sei quase tudo sobre o anticiclone dos Açores, sobre os núcleos de altas e baixas pressões, sobre as frentes frias e quentes ... enfim, tornei-me um perito nestas matérias.
Ultimamente tenho andado apreensivo com o buraco do ozono. É que ainda não consegui descortinar a relação entre este orifício, que se sabe que existe sobre o nosso país, e a tempestade de merda que sobre ele desabou. Haverá alguma conexão entre estes fenómenos? Confesso que não sei. E estou preocupado. Primeiro, porque está a afectar muita gente. Há já quem esteja atascado até ao pescoço e poucos são os que escapam sem uns salpicos. Depois, porque soube que uma das últimas fábricas de guarda-chuvas que ainda laboravam no Norte (fabricavam aqueles objectos tamanho família que por vezes ainda se encontram nas feiras do interior do país), faliu, lançando no desemprego mais uns quantos trabalhadores. Parece que não conseguiu resistir à concorrência com as lojas dos trezentos que vendem chapéus de chuva fabricados na China, que são mais pequenos - é certo; que não conseguem evitar que nos conspurquemos - é óbvio, mas são a um preço imbatível. Coisas da globalização. AVRD

HÁ SEMPRE ESPERANÇA

“Se não fosse esta certeza / que nem sei de onde me vem / não comia, nem bebia / nem falava com ninguém” Resisti às legiões romanas; escorracei árabes e castelhanos; expulsei, por mais que uma vez, os exércitos napoleónicos; desbravei trevas e dei a conhecer o mundo ao mundo; espraiei-me com sucesso pelas cinco partidas; inventei a mulata; acabei com 40 anos de ditadura disparando cravos pelos canos das espingardas; consegui tudo isto, estou seguro e sem qualquer sombra de dúvida: saberei ultrapassar mais este escolho. “O meu sabor é diferente. Provo-me e saibo-me a sal.” AVRD
Seja.Não me importo. Quer dizer, importo-me.
Noblesse oblige. Até os cães se purgam.
E Cristo e Dantes desceram aos infernos. Cada um de sua vez. Sozinhos, como eu.
Mas o que é que eu tenho a ver com os tipos? Hã?
E logo toda a Junta, o Bentes, essa besta. E o prior, cala-te boca.
Jantar de Natal, os principais fregueses, o costume.
Soutor tem que ir, diz-me a Domitília.
Já deu para o S.Miguel o seu paizinho ia sempre

“Haja saúde”, votou ele.
E foi mais um, o enésimo, balão do meio bagaço, doméstico.
Saído directo do alambique lá de trás para a mesa do contribuinte, quer dizer , do cliente, he, he, frase recorrente rábula decorada e aplicada com o sorriso a fingir de maroto do Reis, o proprietário do tasco restaurante snack bar bilhares televisão em continuo, imagem sem som.
“Salvo em ocasiões ocasionais”, dito muito glosado do Cunha, os melhores produtos para a Agricultura e Pecuária, representante das rações Vital e de rolamentos de esferas. E de mais coisas.
Vendia televisões e electrodomésticos.
Todos, por encomenda.
Uma semana e já está toma lá dá cá.
Casa ao lado do bar restaurante bilhares televisão snack, com tabuleta iluminada por dentro, estirada ao longo da fachada porta montra
“ C.C.C – Casa Cunha & Companhia, Lda. - Produtos agrícolas. Vendedor autorizado das rações Vital. Para todo o tipo de pecuária”.
As letras iam diminuindo de tamanho, de linha para linha, de forma a formar um triângulo de bico para baixo.
Queria o Cunha que fosse em honra da Santíssima Trindade, ou não fosse ele mesário da Congregação da Santíssima na paróquia de S. Miguel. Ficou danado quando lhe disseram que o triângulo do Mistério tinha o bico para cima e que o dele tinha conotações malévolas, a apontar para baixo.
Que salixe, tinham sido as rações a pagarem-lhe a coisa, com desenho dele e ficava assim, malévolo ou não malévolo os negócios corriam-lhe bem e o resto também.
Na tasca gritava-se, com bafo generalizado inequívoco ao bagaço da casa consumido em doses de rebentar as escalas da GNR.
Que as nossas mulheres não fiquem viúvas, tchinstchins quase a partir vidro mais brindes mais copos mais faces a encarniçarem-se em tonalidades rubro-roxas, veias a incharem, intensidade dos risos a aumentar, graçolas trocadas sobre alegadas falhas ou vitórias de engates, gente a agitar o sexo porco, sexo demasiado importante nas suas vidinhas para lhes sair das cabeças.
Até o padre cala-te boca.
E aquela da gaja que caldo verde mais febras mais estória da gaja que mais rojões à minhota e à transmontana mais a gaja que coiratos pelo meio e o gajo que lhe foi aos tremoços e vinho em jarro ó doutor isto nem o engarrafado, hein?

Que faço eu neste meu país?
Tira-me daqui, amor. ASP

domingo, novembro 23, 2003

Não importa pagar as contas se fores querida

Anda muito decidida e no entanto não leva um destino certo no vai vem frouxo dos apetites. Mas sabe já, isso subiu para cima de tudo e impôs-se, sabe já que o que subiu e exalta, está saído bem do fundo e permanece, sempre aquele, aquele único a quem quer chamar em definitivo meu querido. E anda assim, com uma espécie de pressa, não porque pense ou acredite que vai achar o seu escolhido não escolhido no caminho, vai assim porque está leve, o dia está bom e é belo passear a sonhar com os amanhãs que cantam, porque, pode-se acreditar, não é só feito de ideologia o sonho de um melhor futuro.
Por acaso começou a chover, ficou com o gorro todo encharcado e arrependeu-se mil vezes de ter saído de casa num dia de tão má catadura. Leonor toda molhada e a escorrer engraçadíssima e qualquer um não se importaria nada de lhe pagar a conta da lavandaria, oferecer um gorro novo e convidá-la até para um café com leite quente e no fim pagar a conta. Mas ela já escolheu um queridão, é o diabo. LACP

sábado, novembro 22, 2003

O nome

Soube-se assim que o verdadeiro nome da Tucha é Alice Barros.
Isto faz pensar que há gigajogas com os nomes. Também como é que Alice dá Tucha? Era preciso constituir um novo blog todo remendado para analisar este assunto. LACP
Tucha escreve a João


Tucha lamenta ter ido à exposição de pintura, ter comprado um quadro e afinal não saber nada sobre o pintor J.P. Está a congeminar como é que há-de resolver este assunto e tem uma ideia luminosa e super moderna: escrever-lhe uma carta.

Ex.mo Sr.
Adquiri um quadro seu de que muito gostei e continuo a gostar. Apreciava ter alguns dados sobre a sua pessoa e a sua trajectória profissional. Passo a dar o meu endereço electrónico para a sua resposta, no caso de não querer responder por correio.
Aproveito para o felicitar pelo seu trabalho e fico agradecida.
Atentamente
Alice Barros LACP

sexta-feira, novembro 21, 2003

DESCULPE, DÁ-ME UM CIGARRO?

Desculpe. Tem um cigarro que me dê?
Geralmente não faço isto. Quero dizer: geralmente não peço cigarros às pessoas. Geralmente não peço nada às pessoas. Tenho vergonha de pedir coisas às pessoas. Ora, mas há dias e dias, não é amigo?
Obrigado. Muito obrigado. E, se não é abusar, dá-me lume? Desculpe lá outra vez. Como dizia o meu avô, do aparelho de fumar só trouxe os beiços.
É giro! Você sabia que eu nem sequer fumo? Claro que não sabia. Como é que havia de saber? Nunca me viu mais gordo. Pois é. Não fumo nem nunca fumei. E no entanto cá estou eu a mendigar-lhe um cigarro, a puxar umas fumaças. Veja lá como é a vida. Você, se calhar, até está para aí a pensar: raios partam o homem que não fuma mas deu-lhe na veneta pedir-me um cigarro logo a mim. Não. Claro que não pensou nisso. Você vê-se logo que é gente fina. Mas se pensasse tinha toda a razão. Só que veio-me esta vontade de fumar não sei porquê, começou a crescer devagarinho e eu a dizer-lhe que não, a contrariá-la, mas qual quê! Ao ponto a que cheguei. Acho que queria fumar para ver se parava de roer as unhas.
Hmmm! Quer saber? Este cigarro sabe-me pela vida! Sinto os pulmões a doerem do fumo, sinto a tosse a subir-me à garganta, sinto a boca queimada e a língua que parece cortiça. Enfim. Sinto-me vivo! Vivo! Qualquer coisa cá dentro ainda funciona!
Se estou doente? Não amigo, não estou doente. Isto é, não estou doente daquela maneira que as pessoas costumam ficar doentes, com arrepios, e febre, e coisas assim. Estou doente mas é de mim próprio. Não se preocupe. Não tem nada que se preocupar. Não tenho nada de contagioso, não precisa de fugir de mim. Ainda bem que a noite está quente, não é? Se não estávamos aqui sentados na laje e já estávamos a gelar no corpo todo. Aí é que apanhava uma tuberculose na certa de fraquito que estou. Nem quero pensar nisso. Que faço na vida? Oh, amigo! Que hei-de eu responder-lhe? Nada? Mas não seria verdade. Faço tanta coisa, afinal, como é que poderia responder-lhe que não faço nada?
Nada... Que palavra tão irónica, não acha companheiro? Todos nós fazemos todos os dias alguma coisa. Está a ver este caderninho? Aqui dentro guardo a minha vida toda. Toda! Inteira. Do princípio ao fim da memória destes mais de oitenta anos que vou tendo. Oitenta? Ah pois! Oitenta meu caro. E aqui dentro está tudo o que vi, tudo o que sonhei, tudo o que pensei. Só não está tudo o que senti porque do que senti esqueci-me. E não quero mais lembrar-me, pode crer. Agora acho que nunca senti nada que valesse a pena.
Olhe lá. Acha que poderia pedir-lhe mais um paivante? Não leva a mal? Não? Mas é o último. Não, não, não insista. Não posso aceitar. Por favor! Sim? Insiste mesmo? Não fica chateado? Se tivesse tempo ainda apanhava o vício de fumar. Mas o tempo que tenho é pouco. Não, meu amigo, já lhe disse que não é nada de grave. É mesmo cansaço e falta de paciência. E por isso fui deixando aos poucos de viver e agora já estou simplesmente à espera. À espera, à espera e à espera. Se soubesse como estou farto. Farto de vadiar de rua em rua sem ter onde dormir, sem ter o que comer. Farto de escrever neste caderninho, dia após dia, sempre a escrever, sempre a derramar a estúpida da vida que fui tendo, pondo-lhe vírgulas e pontos, abrindo parágrafos, encaixando reticências. Não encontrei ainda foi o lugar certo para lhe colocar o ponto final. Deixe lá. Você é um camarada! E tem uma paciência dos diabos para me aturar.
Hmmm! Como me sabe bem o cigarrinho. Sabe porque é que chamam paivante a estas coisas? Por causa do Paiva Couceiro, veja lá, que dava disto às tropas. Cigarrinhos enrolados. Na altura devia ser um luxo. Tem graça o nomezito, não tem? Mas não quero aborrecê-lo com as minhas lengalengas. Você estava aqui tão sossegado, se calhar quase a dormir. Vou tentar encontrar um cantinho para me estender também. Aqui? Acha que sim? Não o incomodo? A sério? Você tem sido mesmo camarada. Se calhar é como eu, consumido por dentro por esta estúpida solidão que nos destrói. Eu não tenho sono, e você? Damos aqui à taramela durante um bocado que pode ser que o sono venha. Boa ideia, não é? Só espero é que não apareça por aí algum polícia bêbado e mal disposto a mandar-nos para outro lado. Nesta cidade há cada vez menos lugares onde um homem possa passar uma noite tranquila, não acha? Mas você é pouco falador, companheiro. Fale-me de si, da sua vida. Não posso ser só eu a falar, a falar, a falar. Daqui a bocado isto não é um diálogo, é um monólogo. Oiça. Se não for muito abuso... posso passar a tratá-lo por tu?

AM


quinta-feira, novembro 20, 2003

Tem um ar infantil

Leonor sai para a rua cheia de energia. Nem parece a mesma tristonha a espreitar pela janela. Leva um gorro e alguns cabelos esvoaçam para cima do pescoço. É um encanto vê-la passar. LACP

O revoltado PG não vê chegar a sua sorte

PG não quer pensar em chatices e quer ser prático no zelo, mas não consegue deixar que lhe cheguem à cabeça coisas impróprias. Aborrece-se. Irrita-o ver as coisas como estão a ir por onde vão. Não é bom para as carreiras. Está tudo a ser prejudicado. Foram buscar às academias aquela gente É aí que cada um gere a sua carreira, espeta as facas que foram precisas no lombado dos vizinhos, se possível eliminando por qualquer meio os inimigos concorrentes. É uma escola de bandidos. Pois é dessa escola que saiem fornadas de imbecis e só ficam lá residentes, portanto não saiem, os mais ardilosos no golpe, no empenho, mascarados de professores. E é esta cambulhada que é contratada para gerir ministério! Que escola! Vão lá repetir o processo: gerir-se a si próprios e mais o cargo! Qual empresa, qual rentabilidade qual carapuça! Mal chegam é logo sobranceria e mau trato, cuspidelas se possível e quem lá estiver no sítio é desancar neles. Empresas sem gente. LACP

quarta-feira, novembro 19, 2003

Trata-me por querido, mas não me peças que pague a conta.
O dia está muito sombrio, há água que escorre e brilha nas copas das árvores e as folhas do outono já fazem o tapete de ocre e sena queimada por cima dos lajedos e basalto. Por dentro das vidraças, Leonor passa os dedos a desenhar uns bonecos arredondados, mas o que os olhos desejam vai para lá e não tem contornos, talvez desenhe uma imaginária saída para a penosa tristeza. (quem sabe o que desejam os olhos que num dia enevoado contemplam? ) Sabe que não se dá bem com o frio nem com o outono nem inverno, que detesta a chuva, as sombras e os ruídos secos a passarem distintíssimos no ar rarefeito e límpido das chuvadas volta e meia. Talvez quisesse o verão, sentir-se outra vez difusamente enroscada no calor e está deprimida. Nada lhe corre bem na vida. Nem gostar, nada acontece, só deserto, deserto e o que os outros dão, não passam de decepções e caras viradas para o lado. A Tucha levou-a a conhecer aqueles meios doidos dos blogs e afinal não percebeu nada daquilo, se estão a gozar ou a falar a sério, vai tudo aos sacões, fazem flashes e desaparecem, mostram desejo e tudo fervilha, têm pseudónimos ou são anónimos, dizem o que dizem, jogam ao gato e ao rato, falam uns para os outros e para todos que calharem ir lá e no entanto gostaria de voltar a encontra-los, pelo menos alguns deles, um deles, apenas um muito especial e poder chamar -lhe do fundo de si e sem vulgaridade: meu querido. Mas a irresistível vontade de se divertir, ser positiva e permanecer criança, fá-la encostar a cara de encontro ao vidro a esborrachar o nariz. LACP

terça-feira, novembro 18, 2003

A Tucha queixou-se que no blog rudegolpe a tratam mal
Não é grosseria tratar mal a pintura, chamar ao quadro que a Tucha comprou um mamarracho e bodegada de côres, mas ela acha que sim, que a estão a diminuir. Viu-se o quadro quando estava pendurado na galeria mas não se soube do curso do seu destino e se o destino foi ou não a parede de um corredor. Isso faz pena e então há razão para o pouquinho de descrença nas considerações que então foram feitas com leviandade. Não haveria outro destino para o esforço que o pintor teve, como se fosse um cego a apalpar um nascituro? Sabe-se agora que a Tucha se alimenta desse quadro que quis ter e que não está no corredor, mas sim na sala, onde pode parar em frente e ouvir música ao mesmo tempo. Foi a expressão que usou: que se alimenta; e que vai sempre descobrindo aspectos em que não tinha pensado e sentimentos que não imaginava que tinha. Etc. Toda a gente tem quadros em casa. Conhecem alguém que não tenha? E nas casas também há, às vezes, se houver sorte, pessoas vivas que cirandam a ocuparem o instante pueril e noutras casas não vive ninguém mais, mas pode haver quadros com os instantes todos acumulados na duração lenta do tempo contra a corrente, vá-se lá perceber bem o que ela queria dizer, e bem assim M C não sabe o que há- de pensar do que ela disse a seguir, durante o chá, que, com o quadro perto, não a podiam obrigar a falar. Aliás, a maior parte da conversa foi tudo enigmas e sinais de sentidos escondidos. Se a Tucha não quer falar, ou não sabe expor com clareza, era preferível que fosse mais simpática. LACP
INDIGNAÇÃOOU INVEJA ?

Conheço o Sr. José há já um bom par de anos. Ou melhor, pensava eu que o conhecia, porque deixei de me dar com ele. Zangámo-nos. Bem, na verdade fui eu que me zanguei com ele. Ainda hoje seguimos de costas voltadas, mas eu continuo convicto que a razão está do meu lado. Pelo que vou contar de seguida facilmente perceberão porque digo isto. O Sr. José é serralheiro mecânico. Mas não exerce. Duvido até que alguma vez se tenha dedicado a esse mister. Não importa. O Sr. José era (e digo, era) um dos meus companheiros de mesa de café, sempre a mesma, onde quase diariamente deambulávamos pelo panorama político nacional e pelo completo desnorte porque se pauta, e sempre se tem pautado, a governação pública. Nessa mesma mesa delineávamos estratégias de governação, elaborávamos leis, depúnhamos e elegíamos governos (algumas vezes até fazíamos revoluções...), condenávamos políticos e governantes, traçávamos os destinos da pátria, enfim, fazíamos justiça e salvávamos o país.
Ora uma vez decidi contar-lhe um sonho que havia tido numa noite mal dormida em que, sob os lençóis, me debatia com os insolúveis problemas nacionais. No sonho eu deambulava por Olivença onde um estranho fenómeno espantava as populações locais: abrira-se uma fenda no solo, fenda essa que se estendia para Norte e para Sul, sempre seguindo a linha da fronteira, e que se ia alargando a cada dia que passava, cavando um fosso cada vez mais profundo que ia separando Portugal das terras de Espanha (não era claramente esclarecido qual o percurso da dita fenda em Olivença, e havia fortes discrepâncias entre espanhóis e alguns, poucos, portugueses quanto à sua correcta localização). O que é certo é que ao fim de algum tempo Portugal já se encontrava totalmente separado da Espanha e cada vez mais longe da Europa, de tal sorte que, após uns poucos de anos e não obstante os generosos fundos canalizados para a aproximação à tal Europa, este pequeno rectângulo à beira mar plantado andava completamente à deriva (eu disse à deriva ?) pelo Atlântico. Fora este o sonho. Então não é que o Sr. José, que mal alinhava duas frases seguidas, que ainda hoje nem sequer sabe fazer a pontuação, então não é que o Sr. José, dizia eu, me roubou a ideia e escreveu para aí uma coisa parecida, que metia uma jangada de pedra, ou lá o que era, navegando mar dentro (como se alguma vez fosse possível uma pedra flutuar!), e nem sequer mencionou de onde lhe veio a inspiração!? Não será isto razão suficiente para ter cortado relações com ele? Ainda por cima contaram-me que juntou mais uns escritos que tinha lá para casa e, juraram-me a pés juntos, que há uns anos atrás acabaram por lhe dar um prémio qualquer, algures para os países nórdicos, onde nem sequer percebem o português. Deve ser por isso! Isto há cada injustiça! AVRD

sábado, novembro 15, 2003

Cães perdidos

Cães perdidos sem coleira é o que mais há nas ruas estreitas do Bairro Alto. Cruzam-se com as adolescentes em festa, com os namorados livres e com os turistas que vão a caminho do fado. LACP
M C ficou muito chateado e bebeu demais

A verdade é que M C depois do lanche e chá com a Tucha ficou cheio de sede. Neste ponto não era preciso PG ter ciúmes, sede tem já demais e por conta própria mata- a, sobretudo à noite. Bem, não se pode saber ao certo onde nasce a secura, o homem beberricou a cházada, é certo que foi coisa absorvida por um esfarelado scone, e este esvaimento pode ter contribuído para agravar o mal da garganta, porque neste local é que se pranta a sede quando há ansiedade e nem um homem tranquilo e casado de fresco, em frente da Tucha fica indiferente à química ambiental. Portanto saiu do lanche a andar por ali desvairado, todo introvertido, levado por uns pensamentos de certeza muito possantes, pois que subiu e desceu o Chiado várias vezes, a deambular para trás e para diante. Parou um bocado em frente da Havaneza, quase disposto a sentar na esplanada da Brasileira, mas embasbacou antes em pé a observar os alemães velhotes à frente, e outros camones de línguas imperceptíveis, claro. Ou seja, parece que o silêncio Tucha é pegajoso, os que contactam com ele, terão de ficar todos assim apanhados? Que vazio, que supressão está a acontecer ao nosso tranquilo jornalista? Que lhe falta agora depois do beijo triste da despedida? Está longínquo, tem as ideias espalhadas?
Vai num virote rumo ao Bairro Alto e segue lentamente entre os escombros, mesmo para não encontrar ninguém, senão fosse assim não tinha evitado o Café Suave mas foi o que ele fez, mesmo para não encontrar ninguém, antes destinado a outro bas-fond decadente, suficientemente sombrio para se enfronhar antes noutra amargura. A noite está fria, não ameaça chuva, não há reflexos de luz nas pedras, a atmosfera está baça e a continuar assim, o nosso jornalista vai agravar o pêsame, lá disso não há dúvida que vai, nem um homem tranquilo pode suportar horas seguidas a sede e a aflição, apesar de Marco Aurélio achar que nada nos acontece que a natureza não seja capaz de suportar.
Ninguém soube o que eles trataram, a Tucha e ele. Mas o que sobreviveu foi um homem quase em pânico que já não anda certo, está quase em corrida, não sabe para onde ir, não se lembra do caminho para casa, em resumo, está meio doido. Foi visto com olhar um tanto bovino ao balcão do casapiano e não respondeu às invectivas corteses de circunstância. Mal saudou alguns amigos que o viram mais tarde sempre sozinho a emborcar um líquido amarelo que não era cerveja nem ponche, foi visto a cambalear altas horas e há quem diga que deu um grito rouco que só um desesperado produz, e, há quem jure que viu lágrimas, mas, quem o conhece, sabe que isso, isso, esse pormenor, isso, não é possível. LACP

Olhar ruminante 13NOV

Não havia necessidade...

De Portugal se ter envolvido como parte beligerante no Iraque.
Para mais gastando 3 milhões de contos/ano com o Corpo Expedicionário da GNR, numa altura em que não dinheiro para, no País, “mandar cantar um cego”.
Calcula-se o que se pode vir a perder, derivado de nos expormos como alinhados com os EUA, destacados da posição geral da UE - constituirmos mais um alvo do terrorismo.
Há quem interprete a vaga de incêndios, convenientemente declarados “naturais” para efeitos de apoios financeiros, como um primeiro sintoma desse risco, por aproveitamento de condições naturais propícias e sem necessidade de grandes planeamentos ou logísticas.
O que se não sabe, nem se perspectiva, são as vantagens desse alinhamento..... ASP

quinta-feira, novembro 13, 2003

poema sem maiúsculas


escuto.
perplexo, ouço-te recitar
as suas rimas das palavras sublinhadas.
escuto os versos
azuis marítimos da tua solidão
e vejo, sobretudo em gestos habituais de fadas
vislumbres nus de ti
pela porta entreaberta dos teus lábios.
sinto.
às vezes sem entender o que dizem as estrelas
nos seus discursos maçadores de astrolábios
que há qualquer coisa que brilha para além delas,
e minto
nos minutos infinitos de silêncio transparente
em que me calo dentro das palavras
que nunca digo.
vejo.
absolutamente fascinado pelo tamanho dos teus olhos
o horizonte da saudade perdido no poente
imenso dos sóis que ficaram por nascer.
o caminho estreito entre nós dois
onde se encontra a nossa distância insuficiente,
a inquietação voluntária dos meus dedos
e o teu som nocturno e importante de mulher.
toco.
na suavidade redonda das tuas formas,
na humidade quente de um teu íntimo instante,
no céu colorido do meu voo tranquilo,
e cola-se-me às asas o pólen mágico e brilhante
dos que se despedem da terra da tristeza.
um sino qualquer
dir-nos-á as horas.
as estrelas desobedecerão às leis da natureza
um sabor a fruta será, por sua vez, o teu sabor,
uma luz azul manter-se-á para sempre acesa,
e o mundo inteiro ficará quieto, à espera
do minuto correcto em que o pássaro da noite
regresse dos subúrbios escuros da dor
e numa manhã inocente de primeira Primavera
pouse na varanda de um sorriso de princesa.

AM

quarta-feira, novembro 12, 2003

P G não se conformaPaulo Guedes não se conforma com o facto de M C ter lanchado com a Tucha. Ele não quer admitir, mas está com inveja e muito menos quer admitir que é um nabo sem a habilidade de um cavalheiro conversador e pior do que isso, que é destituído de arte para conciliábulos. O que ele detestou foram os segredinhos que se passaram lá na mesa da casa de chá. Não se percebe porque é que quer estar em todo o lado presente nas conversas dos outros ou arrebatar as mulheres bonitas sem ser convocado. Quer ser como a santíssima trindade? É auto estima demais. Que arranje uma pateta para se ocupar! LACP
M C contacta a Tucha
O Manuel é um cabra pacífico e de ar cordato. Por trás da aparência deve haver algum sangue frio e então as emoções neutralizadas não interferem na paciência para ouvir o que os outros lhe impingem. É de desconfiar dos homens exaltados a quem não lhes sobra nenhum bocado livre para verem como as coisas são e se deixam ir lá com os assomos de emoção. Em parte, o bom trato subentende uma certa calma e um olhar tranquilo, não é? Assim é que se cumprimenta e se é agradável e se confia. M C é desses, tão agradável que fica com o entendimento à mão, percebe bem. Tem no carácter espaço para perguntar e não é por acaso que é um excelente jornalista; sabe suspender os seus pontos de vista, as suas paixões e convicção. Este perscrutador habilitado mostrou alguma curiosidade pela Tucha, isto é, montou a suficiente estratégia para se aproximar dela e foi o que fez. Não importa como é que a convidou para tomar café, que afinal foi chá ( é mais distinto pensou ele). A casa de chá foi o que se pode arranjar no país: uma coisa metida a martelo para não ser leitaria, umas madeiritas a fingir conforto, toalha branca, cristofles. Um pouco inclinada, os cabelos claros arruivados da Tucha estão a cair e escondem uma parte da cara. Na realidade há algo de centrífugo naquela face que está no meio da juba e é um buraco que puxa e estonteia, a sugar para a devoração no abismo. No entanto, com aquela sua habilidade, lá conseguiram conversar qualquer coisa. Mas de que é que falaram, santo deus? LACP
MENTES QUE BRILHAM

Há uns anos atrás os espanhóis, seguramente por constatarem a velocidade com que nos afastávamos das suas fronteiras, decidiram construir uma linha de caminho de ferro que aproximasse as duas capitais ibéricas (sim, porque em Espanha sempre se disse que Lisboa é o porto de Madrid no Atlântico).
Elaborados os estudos, feitos os traçados, determinaram que a sua linha férrea de alta velocidade terminaria junto à fronteira em Badajoz. Seria ali, e em nenhum outro sítio, que “los portuguesitos” poderiam efectuar a ligação da sua rede nacional aos “ferrocarriles espanholes”.
Pois bem, e nós por cá que fizemos? Reagimos! Se cuidavam que nos iríamos ficar com esta arbitrariedade, equivocaram-se. Se pensavam que iríamos pactuar com esta arrogância com laivos de fascismo, que nos impunha ter que acatar as suas determinações sem mexermos um dedo, enganaram-se. E D. Afonso Henriques? E Aljubarrota? Então como é? Já não se lembram?
Mãos à obra! Há que constituir grupos de estudo e comissões que congeminem os mais adequados pontos de ligação à rede espanhola. Estabeleçam-se novos traçados (não esquecer passar e, se possível, parar em Cabeceiras de Basto, onde reside um primo meu que tem lá uns terrenos que pretende valorizar. Sim, Sr. Ministro, com certeza, Sr. Ministro), verifiquem-se as bitolas, estudem-se alternativas.
Constituíram-se dossiers e mais dossiers sobre as diferentes hipóteses: T deitado, T em pé, T de cócoras, PI, Qui quadrado, Y, XPTO, PQP, etc. Deu-se emprego e tarefa a mais uns quantos “compagnons de route” para mais estudos e pareceres sobre a matéria. Organizaram-se conferências, seminários, “work shops”, sei lá mais quê, e eis que finalmente se chegou a uma conclusão verdadeiramente notável: “Para que os comboios possam circular de Lisboa a Madrid, os carris portugueses vão ter que ligar aos que os espanhóis construírem do outro lado da fronteira”. Simplesmente brilhante! AVRD

segunda-feira, novembro 10, 2003

UM SULISTA NO PORTO (3)
Um destes fins de semana decidi permanecer no Porto e visitar alguns dos locais considerados de interesse na cidade (e não são poucos) e que ainda não tivera oportunidade de apreciar. No sábado levantei-me cedo pela manhã e dirigi-me ao centro da cidade para vaguear por sítios cujo nome já me era familiar, mas que não conhecia “in loco”. Assim, pude ver a Torre dos Clérigos, portentosa obra barroca do arquitecto italiano Nicolau Nasoni, deambulei entre os livros da vetusta livraria Lello, desci até à Avenida dos Aliados, entrei no popular Mercado do Bolhão, subi pela Rua Sá da Bandeira, percorri a Rua de Santa Catarina, bebi um café no imponente Majestic e desci de novo para apreciar os lindíssimos azulejos da Estação de S. Bento. À tarde visitei o Museu de Serralves e os magníficos jardins que o rodeiam, acabando o dia num passeio pelo Parque da Cidade, castelo do Queijo e zona da Foz.
Gostei do que vi. Esta cidade é de facto espectacular e, quem puder, não deixe de visitar o imponente Palácio da Bolsa, já meu conhecido de anterior visita.
O domingo foi para rever amigos de longa data e de outras paragens que se fixaram na região do grande Porto.
De volta ao local de trabalho comentei, da forma mais anódina que se possa imaginar, ter visitado a maior parte do Porto (referia-me aos locais mais turísticos) num dia de sábado. Que fui eu dizer! Como pudera ter tão grande ousadia? Será que estava a sugerir que a cidade é assim tão pequena que pode ser vista em meia dúzia de horas? E em Lisboa, o que há para ver também não se vê rápido? Será que não é possível visitar a Torre de Belém, os Jerónimos, Santa Engrácia, a Sé, o Rossio e o Terreiro do Paço numa manhã de sábado?
Confesso que embatuquei. Não esperava uma reacção tão fervorosa a um comentário dito sem qualquer malícia nem acinte. Fiquei mudo, sem fala, com o cérebro recusando-se a contribuir para uma solução que atenuasse tão grande afronta. E tendo reparado num arco íris que parecia emoldurar a ponte D. Luis, chamei a atenção para a sua beleza, para a paleta de cores que tornavam aquele quadro espectacular. De pronto recebi como resposta: “É um arco íris, pois! Será que na Mouraria é diferente?” Só após alguns instantes consegui balbuciar: “Na Mouraria é diferente, sim. Mas em Alfama é exactamente igual”! AVRD

O lado da barricada

A nossa querida Leonor parece ficar bem no papel de amiga. Pode ser detestável se isso significar neutralidade ou convenção. De conversas sem corpo está o mundo cheio e nós todos fartos. Quer-se fogo e ancoradouros. Ela poderá um dia responder com fogo se a amizade que agora mostra, der lugar a um grito. De qualquer modo, seja o que for que vier a acontecer, quem for frio não poderá ser nosso amigo. LACP
Segredo
Todos adorámos a Leonor que nos foi trazida pela mão da Tucha. Sentiu-se que era nossa, estava do mesmo lado, poderia partilhar o mesmo pão. A leveza e o ar genuíno com que fala não deixa nada escondido. Teve a habilidade de não nos fatigar com argumentos, ideias e pontos de vista, sem que tivesse contudo perdido personalidade só porque foi discreta e mostrou ter espírito aberto. Transmitiu-nos uma sensação de paz e amenidade. Todos quiseram estar ao pé dela. Não deu sinal de pertencer ao outro mundo, o do inferno do céu, e acreditamos que, tão sensata nas suas concordâncias, terá o poder de partilhar qualquer canto afectuoso. Ignoro se houve alguém disposto a isso. Mas também como identificar um aspecto desses, tantos são os segredos? Não soube de ninguém a passar-lhe um número de telefone. LACP

Dureza de carácter

Confunde-se a determinação com dureza. Se não é dureza, o que é que leva uma mulher contingente, atravessada por dúvidas, a pôr na rua um raisteparte? Leva-se muito a sério, julga que é melhor que os outros e confia noutra sorte? Atirar à fava um mariola, subentende presunção e só superficiais ou desesperados são capazes disso. No entanto, interessante imaginar os actos que transfigurem a dureza em fogo.
Mas com o chegar do frio, a Tucha desatou a aparecer com uns casacões que engrandecem a figura mas a escondem ainda mais. Foi assim que apareceu na vernissage do João, com uma autoridade imanente que lhe deu para se mover como quis, despreocupada dos presentes e silenciosa até ao fim. Só as peças pareciam interessar-lhe e não é exagero dizer que uma sombra caiu no olhar uma das vezes em que ficou mais tempo parada em frente dum mamarracho, uma coisa colorida mais ou menos bombástica. Voltou lá diversas vezes e no fim, a Tucha comprou o quadro. Na realidade não se sabe onde é que ela trabalha, se tem ou não dinheiro pessoal e, maior das incógnitas o que vai fazer com ele. E depois, uma pessoa tão aparte, capaz de alguma violência, no que se prende com mandar às urtigas um pobre cristão devoto, para que é que compra um borrão de tintas que vai ficar apenas pendurado numa parede dum qualquer corredor? LACP

sexta-feira, novembro 07, 2003

O QUE É QUE SE FAZ QUANDO
NÃO SE GOSTA DA VIDA QUE SE TEM?



Não gosto.
Não gosto, não gosto e não gosto!
Não gosto mesmo nada de ser conhecido por toda a gente como o Pires das Finanças.
Não gosto que a minha mulher se chame Pureza, Maria da Pureza, e não gosto que ela trabalhe numa perfumaria da Guerra Junqueiro a aconselhar odores de Verão, Primavera e Inverno a clientes velhas que a tratam por Dona Pureza com uma intimidade fingida, a olharem-lhe de soslaio o verniz carmim das unhas e o rímel que borrata sempre por causa da porcaria daquela conjuntivite crónica que a faz estar sempre a purgar dos cantos dos olhos e a esfregá-los com a ponta dos dedos.
Não gosto de saber que ela come todos os dias de pé ao balcão da Mexicana um croquete de peru e um rissol de camarão com aquela colega dela, como é que ela se chama mesmo?, Otília ou Adília ou Emília ou qualquer coisa horrível do género, e que é uma coscuvilheira de mão cheia, sempre a trazer historias da vida desta e daquela que depois sou obrigado a ouvir à hora do jantar.
Não gosto de ter inveja de ninguém e passo os dias a ter inveja de toda a gente.
Não gosto de estar aqui a jantar neste restaurante que aposto me vai custar um dinheirão, a fazer de conta que estou muito contente por o Jorginho estar a festejar os seus vinte anitos quando o que eu queria mesmo era estar a festejar os meus vinte anitos com uma patuscada das antiga lá com a malta dos Olivais, a comer caracóis e a beber cervejas à fartazana. Nesse tempo é que era: a Pureza não estava transformada neste destroço em que está, sempre a atazanar-me o juízo, não platinava o cabelo nem pintava as unhas de carmim, não havia Jorginho nem meio Jorginho que é sempre um corrupio de pedidos que me deixam com os nervos em franja, ó pai abona-me aí duas ou três milenas, ó pai empresta-me a chave do jipe para levar a Estela a jantar fora a Cascais, ó pai isto ó pai aquilo, ò pai a porra que nisto de filhos ninguém tira férias de pai.
Não gosto nada dessa Estela nem percebo o que é que o miúdo vê nela, uma trinca-espinhas sem gracinha nenhuma, sem mamas nem rabo que não diz uma para a caixa sempre com aquele arzinho de sonsa, olá senhor Pires, um beijinho senhor Pires, até logo senhor Pires, a puta que pariu senhor Pires, que a carregue o diabo!. Quem me dera agora no Passerelle a ver as russas a despirem-se e a beber uns Highland Clan com o Antunes da secção das Pessoas Colectivas, ao menos com o Antunes a gente dá umas gargalhadas valentes, troca umas anedotas, larga umas porcarias, é mesmo um ponto o Antunes!
Não gosto nada de estar aqui abraçado à porcaria do saco de plástico com a prenda do kit da TV Cabo como se fosse uma surpresa do caraças para o Jorginho que há anos anda a chatear com a merda da TV Cabo. Estávamos tão bem com a velha parabólica, apanha-se tudo com a parabólica, até aqueles canais polacos do truca-truca, aposto que a Pureza hoje vai beber um bocadinho a mais e vai querer ir dançar aos Stone’s ou coisa que o valha e depois põe-se-me a olhar de esguelha com o rímel borratado por causa da conjuntivite a ter ideias esquisitas lá mais para o fim da noite, a chegar-se a mim, a querer meter-me a mão pelas calças, a sujar-me o pescoço com o rímel, a mordiscar-me as orelhas, a murmurar imbecilidades, então o meu pirinhos?, onde anda o meu pirinhos?, não fica grande, o meu pirinhos?, ora foda-se!, que martírio, quem me dera que fosse já amanhã.
Não gosto de inventar desculpas e já vou ter de inventar desculpas, vou dizer que bebi demais. É isso mesmo! Ou melhor ainda: vou é beber demais! Enfio mais duas ou três caipirinhas mesmo antes de começar a chegar esta comida esquisita e sofisticada de que a Pureza gosta muito para levar para a conversa das amigas, para fazer inveja à Otília ou Abília ou lá que raio é o nome da cabra da velha, e acabo com dois ou três baldes de Highland Clan que tombo na cama como se fosse um morto em férias.
Não gosto nada de ter inveja dos outros e estou com uma inveja enorme, uma inveja profunda daquele casal da mesa do fundo, de esguelha para a janela de onde se vê o Tejo e a ponte e a Praça do Comércio, nem tivemos direito a uma mesa de janela nem nada, o gerente esteve-se bem nas tintas para a reserva do senhor Modesto Pires, chefe-de-repartição de Finanças do 13º bairro, bem me valeu sublinhar ao telefone essa do chefe-de-repartição, isso sim!, quis lá ele bem saber do chefe-de-repartição. Olhem para isto!: deu-nos para aí a pior mesa da sala, já vi que o chefe-de-repartição só me serve é para os salamaleques do Vimioso das fotocópias, sorte teve o casal com a mesa de esguelha, deve estar bonito o sol a descer sobre o rio e a cidade, deve reflectir-se tudo nos olhos enormes que ela tem, por isso é que ele não presta atenção a mais nada à sua volta, está apaixonado, absorvido na alegria do seu sorriso, há entre eles uma felicidade qualquer que eu não entendo, sei apenas que não queria estar aqui preso a este fato assertoado que nunca me ficou bem e a esta gravata pavorosa de cornucópias que a Pureza resolveu oferecer-me como prenda pela minha promoção, chefe-de-repartição. Pfff!, eu, o Pires das Finanças!!! Bela promoção, ora batatas! Que puta de gravata! Comprou-a de certeza na loja que fica logo ao lado da perfumaria e que tem aquele pateta apinocado a servir os fregueses com pinta de falinhas-mansas, o Gonçalo. volta e meia lá vem ela com o Gonçalo, o Gonçalo para aqui, o Gonçalo para ali, desconfio que têm um caso, não gosto nada que eles tenham um caso, mas se calhar já não quero nem saber, tenham para lá o caso à vontadinha, que mudará isso na nossa vida?
Não gosto da vida que tenho, mas o que é que se faz quando não se gosta da vida que se tem? Deita-se fora?
Não gosto de ver o Jorginho aos beijos neste estupor magrinho que resolveu trazer atracado a nós quando isto era para ser um jantar de família, um jantar que ainda por cima me vai custar um dinheirão, só o que para aqui já se bebeu de caipirinhas, vou beber mais uma também, que se quilhe! É da maneira que me esqueço daquilo em que se transformou a Márcia, a minha filha mais velha, ali à cabeceira da mesa que parece um galho seco de árvore morta, a falar só por falar, a falar, falar, falar, falar como sempre faz, feia como uma noite de trovões, saiu mesmo à minha sogra, maldita a hora que me casei também com essa sogra, que avantesma me havia de ter saído, porca de velha que só de pensar nela me azedam as caipirinhas!
Não gosto nada de me lembrar de quando a Márcia era uma menina rechonchuda, a pedir: dá cavalinho papá!, dá cavalinho!, e eu para trás e para a frente de perna cruzada com ela sentada no meu pé, a desgraçar a articulação do joelho que ainda hoje me causa horrores no Inverno, só de pensar nessa menina que ela foi dá-me uma dor na alma que quase me vêm as lágrimas aos olhos, mas para que estupidez me havia de dar!, não devia ter bebido tanto, ainda me vou pôr para aqui a chorar, deixa-me ver se disfarço, deixa-me ver se há em redor alguma coisa que me distraia, me faça esquecer aquilo que sou e de que não gosto, deixa-me olhar para aquele casal que se senta à janela de uma mesa que dá para o Tejo, deixa-me olhar muito para ela e para os seus olhos enormes que reflectem as luzes da cidade, para os seus olhos enormes onde ele se perde absolutamente apaixonado, sem saber o que dizer. Sem que ninguém perceba, vou ficar a vê-los até que me passe esta enorme vontade de chorar. Pode ser que ela se ria outra vez e, de repente, o céu se encha de estrelas.



AM
Oceano
A probabilidade da Tucha se pronunciar sobre assuntos políticos, relações internacionais, actos de governação, vida partidária, vida sindical, literatura arte e cultura e todas as demais disciplinas sociais, é tão reduzida como a probabilidade de um rico entrar no reino dos céus se passar pelo fio da agulha. ( Se passassem nem assim entravam lá, ainda está válido). No outro dia, ela disse uma coisa estranha, tão embaralhada como ela própria é, diga-se, e que era mais ou menos que os meninos da pedofilia não são coisa nenhuma e perversos eram os que pensavam nisso e não os pedófilos. Parece muito embrulhado, e não é muito lógico, deve ter sido uma qualquer coisa mal pensada. Este detalhe que aqui se regista relativo às raras opiniões que ela dá sobre assuntos correntes, na realidade está sempre metida consigo e calada, é só um sinal do confuso magma que está lá dentro do vulcão. Quem a ouve, julga que as coisas não têm um sentido. O que se ouve é uma torrente composta, onde as palavras, os termos e conceitos se aglutinam sem perfil. Esta desadequação da comunicação contribui para o seu fascínio. Se ela falasse bem, tivesse boas opiniões e dilucidasse os assuntos com a mestria e agudeza do bisturi, ou falasse como uma maquina de pensamento juke box, tínhamos ali uma companheira para análise e conforto. Assim o que temos connosco é uma pessoa que não se entende e nos arrasta para uma oceano profundo, no qual não sobrevivem `a superfície palavras, escolhos ou tábuas de salvação. Tudo se afunda. Com Tucha tudo se afunda. LACP
O céu e a terra
Apareceu com uma amiga. É a Leonor. Os cabelos quase pretos, mas os olhos são verdes. Está sempre a dar sorrisos e nem fica forçado. Vê-se que a amiga é um ser simpático. Faz um contraste incrível com a Tucha que é austera e distante, com o cabelo um tanto arruivado e algumas sardas numa pele muito branca. Primeiro que se arranque um aceno ou sorriso é preciso esperar horas e é preciso que desça à terra. A Leonor, pelo contrário, é toda vivacidade e arzinho maroto. Percebe-se logo que está connosco e é capaz de parar para ouvir. Tudo lhe deve correr bem na vida. LACP

quinta-feira, novembro 06, 2003

Excesso
Talvez que a dificuldade dela seja excesso de consciência. Isso torna o seu eu uma espécie de medida de todas as coisas. Por essa razão ela é um bocado concentrada, tem os olhos como que a pairar e quem sabe se não foi por causa do seu excesso intimo que em tempos pôs fora o Martins que era todo tagarela. Esse reduto, cria muitas dificuldades aos homens que a querem. Metem os pés pelas mãos, explicam-se mal, fazem teatro, não são eles próprios e os dias passam e a mulher está sozinha. LACP

O fumo

O tipo era xoninhas mesmo à distância.
Pelo andar se via.
Xoooooninhas gritei-lhe para mim cá dentro que a gente distrai-se em coisas à borla valha a carestia.
Magrito baixito figura cinzenta de óculos bigode e fato coçado de laço apertado. Estaria de luto?
Porque é que ele era tudo baço e triste meio remediado a cheirar a tabaco a pó e a tempo?
Bafo a absinto. Disso não há dúvida. Conheço-o de longe, de perto, de dentro.
Tossia cigarros já enrolados antes (há máquinas que enrolam a mortalha cuspo tabaco faz clac e pronto).
Notava-se-lhe o grão na asa.
Não bêbado
tímido
hesitante
frágil
Tipo que só arranca com algum no bucho mas fica manso em (leite, he he) condensado de ternura. E depois conta a estória da vida da mulher da sogra e o emprego o soldo sempre a acabar no mesmo. Com uma vai-se-lhe a ternura e adeusadeus.
Falas de xoninhas tipo taco de gente sabe-se lá se tísico-siflitico-pneumonico-ictrícico-gonorreico cuidado cuidado Júlia raidevida.
Daqueles que se topa logo que não é costume, que há razão especial a atirar para a
neura
vingança
fuga
a tratar-me por “você”com ares de negócio de compra de ouro, sem descontos, sério tossindo tabaco cigarros já enrolados antes.
Xoninhas dos que se apegam à gente que se agarram a nós como a bóias de náufrago no mar qualquer coisa que nos perguntam a vida e esperam que a gente acredite.
Dei-lhe a tarifa cinquenta paus mas depende.
Vi virem-lhe as duvidas à cabeça.
Cinquenta mil reis é depende de quê do que quiseres, amor.
Xoninhas de um raio está-se a ver que é estreia sorte minha raidevida de aguentar com bimbos em noites de verão de inverno é pior.
Detesto o luar o frio a noite a miséria que me pôs na vida de me dar a porcos. Marialvas de merda nem engatar conseguem.
Será o meu
fado
sina
destino.
Nem arrependida estou de ter deixado a terra de ter dado ouvidos ao amor que tinha antes de ir para a guerra e ficar por lá. Perdi-me com ele. Ele lá ficou.
Perdê-lo e perder-me foi logo a seguir como se fado fosse.
Mas isso é lamuria e ali estava o tipo, cliente à mão, dos que precisam de livro de instruções e dei-lhas a ver:
Primeiro, o depende é se é amor tudo bem;
Segundo, se é coisa esquisita não há nada a dar, vá a outra porta para tentar a sorte;
Terceiro, se é só conversa, desampare-me a loja que me tira a freguesia.
Claríssimo como deve.
Mas não.
Era tudo a sério. Que não era batido nestas coisas - eu vi logo, olho clínico - queria o normal com tempo.
Pagava
tempo
sítio
companhia
vivia muito só o verão ajuda quando o calor aperta as almas dilatam-se mais ou menos segundo as leis da física o gajo é doido e tossia e fumava cigarros já enrolados antes que tirava da cigarreira oferta de sua mãe, dissera.
Diz-me o tipo como é que se chama – Júlia – Júlia não é bem o seu corpo que procuro mas o seu tempo e eu tá bem tenho o tempo todo desde que pagues corrigi para pague.
O tempo é a vida bocados de tempo são bocados de vida e a vida não tem preço mesmo que de má qualidade continuou o gajo e eu apalpei a naifa que anda sempre comigo não vá o diabo tecê-las que há mânfios que vêm com frases assim e nos cortam as goelas na primeira ocasião olha a Andrade coitada com um filho de peito e as histórias do Jáque-o-estirpador ou estripador ou lá o que o cabrão de merda é.
Ou foi.
Olhei-lhe nos olhos a ver
desejo real
luz boa
luxúria
a permitir cem paus à conta do tempo e dez para a pensão.
Dava-me para o dia que o gajo pagava via-se-lhe na tromba.
Tome lá, ó Júlia
a fumar e tossir o cigarro
e a passar-me as notas para as unhas espanto e alegria que contive para não parecer devassa.
Ah, ah, logo ali, como a comprar castanhas.
Depois com o mesmo ar triste e baço como se estivesse acabado de ficar só no mundo disse “vamos” de braço dado a perguntar para onde ali ao pé Sol ao Rato 3º andar a subir á pata ele agora com ar seguro de caçador de leões a pousar para a foto com a presa aos pés. De fora acho que parecíamos um casal normal de passeio depois do jantar para a digestão dos filetes com batata a murro não sei donde me veio esta ideia da fome talvez.
Disso gostei.

No quarto ficou-se de pé só tirou o chapéu preto grande nem laço nem nada.
Seco, nervos de estreante talvez, dispa-se Júlia deite-se Júlia não faça nada Júlia
a tossir e fumar um cigarro já enrolado antes
e eu a rir-me para dentro e a pensar que devia ter máquina que faz isso em casa.
Ficou depois a falar para si a afagar-me o corpo a beijar-me a cara a barriga as mamas pernas tudo menos a coisa que estão a pensar,
a tossir a fumar cigarro cigarro cigarro.
Creio que suava. Nem o laço tirou. Como se quisesse ser sempre vestido e coçado por fora. A falar de coisas esquisitas como para si, para ele, para dentro do fato coçado.
Reparando em mim só de vez em quando, excepto com a mão, uma mão suada de dedos ossudos a afagar-me o corpo, quase por dever, sem nunca parar salvo para escrever ler corrigir com lápis pequeno num caderno liso. O tipo é maluco.
E quando falava, olhando para mim com bafo a absinto e perguntas tolas a dizer-me Júlia? Que via-se na cara que era Sagitário, claro simsim como é que soubeste, ou melhor, o soube, a pensar mentira porque sou Virgem desde que nasci.
Quis-me ler a sina Julinha tão triste de vida tramada amor infeliz paixão sofrimento e morte de amor.
E eu para ali nua, da cabeça aos pés, esticada na cama, à espera do tempo.
Julinha perdida, ora a novidade, do bruxo manhoso por vezes falava em língua estrangeira não topava nada. E o caderninho? E a capa preta?
O gajo era bruxo estava bem de ver talvez fosse mago bondoso infeliz. A tusa não tinha ou muito discreta. Talvez da secreta. Eu não dei por nada.
Perguntou também ó Júlia tem fé e eu fiquei mouca e fui verdadeira na Nossa Senhora Virgem Madalena da igreja da Baixa. Que bom é ter fé e vai protegê-la porque você é boa Julinha tão boa, coração e alma e espírito tão bons e mamas redondas e pernas tão lisas e tudo tão bom gosto mulher muito do teu corpo.
A tratar-me a mim por você e por tu o meu corpo nu.
O gajo era bruxo ou doido ou maluco estava bem a ver-se.
E fazia fumo cinzento na luz sempre acesa e a cinza e a beata no chão da pensão. E eu a pensar varrer se não dá chatice com a dona Luísa, a patroa dona, ao que acho eu..
Foi-se sem se vir.
Nunca mais o vi nem deixou nadinha nem beijo nem nada.
No adeus de saída perguntei-lhe o nome.
Fernando, foi o que me disse.
Apenas e só.
Deve ser verdade.
Deve durar pouco a fumar assim. ASP

quarta-feira, novembro 05, 2003

Foge comigo
Um blogger, provavelmente entristecido com a sua sorte, enviou à Tucha um lamento incerto, parece que foi S.M.S. A Tucha falou-me, quase com voz embargada, que lhe custava muito desiludir tanta gente e repetiu, claro, que queria estar só. Disse- lhe logo que era altura de parar com essa ideia suicida, essa de estar só. Consegui que me dissesse quem é que estava a desiludir e porquê. Houve um – respondeu- que escreve num blog e me endereçou uma radical proposta: Tucha foge comigo! Perguntei de qual blog, mas não me explicou. ( Imagino que é gente do desejo casar, aí é que há gente de revolta, endiabrada, indómita. habituada aos avessos).
Percebi a melancolia da Tucha quando lamenta desiludir. Ela gostaria de estar em contacto. Talvez eu compreenda o que ela quer mesmo, o que ela deseja, o seu ponto de partida e o seu destino. Ela gostaria de fugir, não hajam dúvidas. Se tivesse encontrado, ela fugia. LACP
A presença

Não se percebe como é que o Jorge Fonseca conseguiu convencer a Tucha a ir jantar. Ou antes, como é que uma figura tão superior como ela é, no seu patamar de exigente expectativa, foi partilhar uma refeição com um ser humano. Mas foi. Talvez afinal lhe seja penoso tanta quantidade de solidão e tenha que recorrer a um animal para se reconciliar. LACP
Fábula rurbana

Ó Chico, nem penses nisso, queria corrigir o mundo, assim, depois do almoço, que isto está que não se aguenta, pela hora da morte, isto aquilo isto aqueloutro.
Depois da empazinadela de lulas em caldeirada, regada com o tinto de Palmela ou região conexa. De esperar, dizia-se.
Chegou o Pais, com o Valmiro à laia, como de costume. O quiéque o gajo quer, o tipo é doido, agarra o gajo, tira-lhe a coisa, a arma, porra, gritava alguém.
Ó Chico.
Formou-se gente
Ele insistia, com a caçadeira que fora buscar à furgoneta, sabe-se lá de onde, sabe-se lá se estava carregada sabe-se lá se era só para vista sabe-se lá o quê.
Larga-me, larga-me, que não, isto só a tiro, cabrões de merda de filhos-da-puta, meça-me lá as palavrinhas, ouviu, dizia o guarda, chegado em jeep, cauteloso e cru.
Atenção, suspensão narrativa: As Normas (cf Controlo de manifestações; Precalços pg 23; liderança de multidões) impõem avaliação prévia da situação, a relação de força, e antes da porrada usar o jeito. A experiência de dezanove anos de rua impunha a porrada para já, mas com jeito, para não deixar marcas comprometedoras dos direitos humanos.
Ó Chico, larga, toma, ai, baixe-me lá essa porra, porra.
Baixa mas é o tanas, eles só lá vão a tiro, a tiro entendes, ó Chico acama-te (queria dizer aclama-te, isto é, acalma-te, mas saiu assim, peço desculpa, é dos nervos).
Ele já estava agarrado, o Valmiro fazia-lhe uma chave de braço (chave tipo 3, instrução de atirador especial, Lamego 1970), o Chico gritava ai ai e a Arminda bradava aos céus “aiaiaiai” (fim de citação- a Arminda é uma introdução do relator, por causa das quotas).
O guarda inquiria pelos documentos, o Valmiro agarrava o cano da espingarda para cima, todos esperavam o Pam do tiro, barafunda e animação, multidão a formar-se, cena de rua.
Não deu tempo para chegar a TVI. A arma estava sem cartuchos. A guarda sem paciência. A malta sem tempo. O Chico levou uma caxaporrada nos rins, sem deixar marca mas só dor, largou a espingarda que passou a noite nos arquivos do posto e ficou a ganir que isto só lá vai a tiro.
Mas livre.
Capaz de outras livres expressões de sentimentos gerais, mas escondidos, que só explodem em mais ou menos doidos. Ou muito bêbados. Ou em quem já nada tem a perder. Poetas e pregadores.
Parece que caminhamos todos para estes estados, à escolha.
Porque, no estado a que isto chegou, eles só lá vão a tiro.
A espingarda ficou foi no posto. ASP
DIÁRIO DE UMA MULHER COM FRIO
SEM DIREITO A FIM DE SEMANA


Domingo, tantos do tal

Terá valido a pena vir para aqui hoje?
Que porcaria de noite! Está uma gerpa dos diabos e nem uma alma na rua!
Ainda estou para saber se, para nós, trabalhar ao domingo é pecado em cima de pecado.
Que se lixe! De que me vale ir para o céu se lá não há trabalho para mim.

Segunda-feira, tantos do tal

Está um frio horrível que me congela as pernas por debaixo dos collants, que me faz doer os joanetes dentro destes sapatos de salto alto já todos cambados que preciso é de uns novos antes que fique com um aleijão sem concerto, que me vai deixar com uma gripe pela certa, a gastar um dinheirão em ornades-spansul e a trazer termos de chá-de-limão no bolso do kispo sempre que saio à noite.
Não ganho para gripes. Não ganho para gripes nem para nada.

Terça-feira, tantos do tal

Não vejo nada com este nevoeiro do catano! Só a Dulce ali na esquina, à porta do cento e quarenta e sete da Defensores de Chaves, abrigada do vento, coitada!, nem pode meter uma das mãos no bolso sempre agarrada à canadiana que a poliomielite lhe deu em criança, não percebo sequer como é que ela arranja tantos clientes com aquele aspecto esfaimado, as perninhas parecem dois palitos, e a perninha da polio parece um palito já usado, ainda por cima, negrinha de varizes.
Mas a verdade é que ainda há homens que a procuram, apesar de ela já não ser criança nenhuma, a verdade é que, vendo bem e fazendo contas por alto, avia mais gajos do que eu ao fim do mês.
Há sempre uns espertos que acham que a coxa é a melhor parte da galinha.

Quarta-feira, tantos do tal

Já vi melhores dias e a idade não perdoa. Quando era rapariga para os meus vinte, trinta anos, tinha um corpinho de fazer parar o trânsito, no verdadeiro sentido da palavra. Quando me passeava pela frente do Técnico, muito automóvel abrandava, muita cabeça se espetava para fora da janela para os atrevimentos do costume, para perguntar o preço, para me convidarem para umas porcarias mais valentes num apartamento aqui e ali, com um grupo de gente assim e assado, orgias ou lá que era, eu é que nunca me meti nisso, não senhora! Bem sei o que aconteceu à Fernanda, e já lá vai um ror de anos. Era só uma brincadeira, só uma festarola, vem lá daí que pagamos bem, e ela foi, a pensar que a geraldina lhe rendia massa para a semana inteira e deram mas foi com ela toda rebentada num cubículo de poli-bain lá para os lados de Almada ou do Fogueteiro ou coisa do género, carregadinha de droga, toda espancada, ainda com os dedos de um brutamontes qualquer desenhados no pescoço.
Deus me livre! Sim, Deus me livre! Acho que devo ter tanto direito a falar de Deus como os outros, ou não?

Quinta-feira, tantos do tal

Tenho dois filhos para criar e hei-de criá-los bem se a Virgem Santíssima me ajudar. Deixo-me andar por aqui que conheço as ruas, conheço os clientes, são quase sempre os mesmos, só volta e meia uma miudagem que vem por aí no fim de uma despedida de solteiro, conheço a bófia e os guarda-nocturnos, às vezes até tomamos qualquer coisa juntos nas roulotes do Saldanha antes de voltar para casa. Conheço a vizinhança, que nos dá cabo da pachorra, mas enfim. Até parece que incarnamos todos os males do Mundo, a assustar os homens que aqui vêm com a ameaça de lhes tirarem fotografias às matrículas dos carros e espetarem com elas nos jornais, sem sensibilidade para perceberem que se eles nos procuram é porque em casa lhes falta qualquer coisa, razão tinham aqueles que escreveram nas paredes deste prédio com tinta preta:
Julgamento popular para os opressores
Nada fará calar a voz dos oprimidos.

Sexta-feira, tantos do tal

Acho que hoje fico por aqui mais uma hora, hora e meia. Não se vê ninguém na rua, só a pobre da Dulce, a pôr o peso do corpo sobre a perna boa, a fumar cigarros atrás de cigarros, não sei como é que ela aguenta o vício, não deve ganhar que chegue para o tabaco, daqui a bocadito vou lá trocar umas palavras com ela.
Espera... Vem aí um infeliz todo encasacado, pode ser que ainda safe a noite, com um bocado de sorte discutiu com a mulher na passagem do ano e anda por aí aos caídos,
- Ò simpático! Vai um tirinho?
Pela disposição não só discutiu com a mulher como ela lhe bateu e o correu de casa a pontapé. Bolas! Lá se vai a noite.
Chiça! Está mesmo frio! Ainda bem que não vivo em Bragança.

Sábado, tantos do tal

Não devia ter vindo hoje, a única coisa que levo daqui é um horror de frio e frieiras nos nós dos dedos. Tenho que comprar umas luvas, isso é que tenho, que este Inverno promete muitas noites difíceis. Foi num Inverno assim que a Olinda se foi com uma pneumonia, pobrezita. Mal alimentadinha como era, só pele e osso, como é que havia de aguentar os repentes do frio sempre que era obrigada a baixar a roupa? Ele há clientes muito egoístas. Não querem fazer no carro, que ao menos tem chaufage, preferem fazer atrás dos taipais das obras nem que esteja um frio de morrer, devem ter medo que as mulheres cheirem qualquer coisa nos estofos, há muitos que passam por aqui ao volante, a fingirem-se distraídos e passados cinco minutos voltam a pé à procura de consolo.
Mas hoje, infelizmente, nem a pé nem de carro nem nada. Quem me mandou sair de casa?
Podia ter ficado com a botija ao colo a ver as variedades na televisão ou uma telenovela daquelas que me fazem chorar com todos muito apaixonados uns pelos outros. Bem sei que nada daquilo é verdade mas choro na mesma. Sei muito bem que eles dizem que as amam mas é tudo mentira, que eles lhes fazem promessas a torto e a direito mas que não fazem tenções de as cumprir. Sei muito bem! Também já me prometeram muita coisa quando tinha aquele corpinho de fazer para o trânsito. Também me disseram coisas do arco da velha, também me juraram tudo e mais alguma coisa e olhem só para mim. Sei muito bem que é tudo mentira! E se não é, digam-me cá: por que é que os homens andam por aí, a torto e a direito na cidade à nossa procura como se não pudessem passar sem nós?


AM

ZAPPING

A Rita foi nomeada, mas não merecia. Terá uma semana para provar que consegue superar todas as dificuldades. Antes disso, todos choram. O sofrimento de um acaba por contagiar o grupo. Já não interessam as câmaras. Há um que se vai embora e isso faz sofrer. No intervalo, o advogado do Bibi desafia os outros para um debate. Na televisão, claro. Rebentaram com um helicóptero e apagaram mais uns trinta heróis americanos. Lembro-me dos GNR's que se preparam para lá ir. Como heróis, claro. O banco envia-me uma mensagem escrita a dizer que estou a ficar sem dinheiro. Os Cacilheiros não conseguem despejar gente em Lisboa por causa de uma regata. Tenho dois carros para vender e dois seguros por pagar. A Cinha embrulha-se em peles e fica parecida com o cão.

A febre faz-me doer o corpo. Vou-me deitar. ACA

Convites

Um dos virtuosos convites à Tucha veio de um blog descomprometido que vive duma infinita expectativa de estatutário casamento. Alguém de lá, devidamente identificado e assinado, tomou conhecimento dos acontecimentos que foram brevemente relatados e agiu. Pela minha parte não consegui identificar a carne e osso do cavalheiro, a partir das siglas com que assina, mas isso, julgo, também conta pouco. Aqui nos blogs é tudo assim, as pessoas anunciam, dizem umas tiradas e vão logo para trás. O homem, por conseguinte, devidamente identificado, conseguiu o telefone privado da Tucha, não me perguntem como, há tanta escuta hoje em dia, deve-o ter obtido na polícia, eu não sei qual é o interesse em escutarem a Tucha, mas vá-se lá saber o que anda na cabeça dos gendarmes, e deve ter sido um desses espiões que o passou ao blogger interessado. Pois disse-me a Tucha que lhe falou alguém com voz um pouco aflautada, a expressão é dela, e, mais ou menos, aqui ela riu-se embaraçada e não explicou bem, mas mais ou menos disseram do lado de lá do fio que ela era o grande amor da vida dele e queria combinar um encontro para se verem, tendo acrescentado ?logo que me passe uma dor nas costas que tenho, posso?? Alguém sabe aí qual é o atrevido que anda com dores nas costas? LACP

terça-feira, novembro 04, 2003

Viu a Tucha na rua

Não muito depois de ter jantado, Jorge estava longe de imaginar que ia dar de caras com a Tucha. Dar de caras não é bem o termo porque o que se passou foi que a avistou na rua e ele estava no autocarro. Foi preciso torcer-se, de olhos esbugalhados semi doido, quase tanto como o dr. Jivago a bater nos vidros com a Lara de esguelha a escapar-se e o dr ali encarcerado. A dama lá ia a ficar de costas também e era uma figura espantosa, o homem não gritou nem fez fitas como na fita, engoliu em seco e espera-se que ninguém tenha visto o íntimo sobressalto. Ninguém sabe como relatar as convulsões provocadas por aquele espanto, tudo agravado pela distância e o movimento da figura intangível, de andar ondulante, sem exagero como um facho lento de luz imprecisa, os cabelos esvoaçando devagar, levados pelo ritmo das pisadas e o Jorge pasmado a ver se percepcionava a razão certa de figura tão elegante, incapaz na verdade de entender se é gordinha se é magra, onde está a cintura, onde acabam as altas pernas se há ou não joelhos ponteagudos, se a pele é lisinha ou só parece, se as maminhas adoradas se vão, saídas do resto do colossal ou elegante busto, melhor, da parte de cima do todo inseparável, se o pescoço é alto, se os tornozelos seguram bem, o que as mãos transmitem, o que os olhos vêm, nunca sabemos o que os olhos vêem, tantas são as coisas que eles crivam e seguram disparados, e zás ela sumiu-se e não se percebeu nada, só um buraco mais no meio do peito e uma tremura dos diabos. Aquele fantasma dourado não se deixa agarrar! Passa-nos à frente como uma estrela e é pior assim, fica do lado de lá do absoluto sem contornos, se não for antes tudo gerado dentro do coração susceptível às coisas que esvoaçam, quem sabe? LACP

segunda-feira, novembro 03, 2003

Jorge António foi jantar com a Tucha à luz das velas
Ela sabe o que se está a passar e telefonou-me. Disse que está preocupada por lançar tantas expectativas e que talvez o que preferia era o silêncio, estar só, disse até que uma cartuxa não era coisa de mais. A verdade é que não me admira essa atitude. Já sei que o sagrado é assim, reserva-se, esconde-se deixa-nos para aqui. Aqueles que nos podiam levar ficam-se nas suas sete quintas, não é? Mas disse –me que aceitou ir jantar com o Jorge para ver melhor e estudar as hipóteses. O seu halo, a atmosfera que propaga é indescritível e vai alimentar a emoção do Jorge. Põe a ferver o cérebro, a tensão arterial sobe aos quarenta, desata o profundo coração para o sobressalto, e isso não proporciona um discurso eficaz, coerente, simples, nem sequer a amabilidade dum terrano distante duma deusa disponível. Quem me garantiria que ele não ia saltar e perder-se, saltar para o chão e de joelhos pedir-lhe que o salvasse? Chegou dez minutos depois, estava ele doido na rua a praguejar por ter embarcado naquela e também à socapa a desejar que ela não viesse. E então apareceu saída duma volta da rua, com um sorriso muito doce, atrapalhadamente prometedor. Sentaram-se e escolheram. Mas eu tenho a sensação de que não estavam lá, nem sequer consigo bem nomear as energias que invadiram aquele restaurante com origem nesse canto fracamente iluminado por uma vela baixa e a verdade é que o Jorge António não faz a menor ideia do que falaram, o que se disse, o que pensaram, o que ouviu. Não se lembra de nada. Ficou encantado? LACP

A promessa

Uma simples promessa e todos os espíritos seguros ficam abalados e instáveis. Uma promessa mais ou menos dourada é suficiente para pôr em questão a estabilidade das consciências? Tomam então noção dos muros altos que têm à frente? Apercebem-se que estavam maçados e que há outro planeta mais iluminado? Porque é que a promessa desencadeia tanta turbulência e vontade de ir?
As mensagens que recebo e as propostas que chegam, revelam, todas, mesmo que apenas implicitamente, este desejo de mudança, de movimento e de fuga. O que é que há de fatigante ou insípido na vida deles, para quererem à uma ir ter com a Tucha? Afinal onde está a fantasia? Não podiam ficar por aí ? Têm que se oferecer mesmo? Há erro na vida deles, é uma vida de fantasia e falsa, ou é a fantasia e o sonho da Tucha que está a fazer a estrada da fuga?
Compreende-se que o mistério e o enigma tenham esse papel de substituição metafísica do contingente. A promessa do belo é pois mais forte do que tudo o que foi já conseguido, conquistado e dominado. A promessa é como uma hipótese de futuro diferente. No entanto só eu é que posso fornecer alguns pequenos elementos taxativos sobre essa dita promessa Tucha. Em rigor são talvez poucos os que conhecem a Tucha e eu, Jorge António Fonseca, sou um deles. Todos os que a desejam nunca a viram; tenho conferido este aspecto. LACP

Olhar ruminante autarca
Dez coisas que eu não percebo sobre a Cidade
(Deve ser da idade)

1. Como o edil Santana Lopes, vice-presidente do partido que exige aos portugueses contenções orçamentais dolorosas e excepcionais, se lança numa contratação luxuosa de um arquitecto que, só pelo projecto, leva milhões de contos, cinco vezes mais do que os equivalentes arquitectos portugueses; sem concurso, apenas por querer.

2. Porque é que o Frank Ghery foi contratado, sabendo-se que a sua arquitectura é fundamentalmente espectacular e o Parque Mayer é um espaço encerrado, não permitindo perspectivas que possam valorizar a obra do artista; e se os lisboetas repudiarem o projecto, o que é um risco provável.

3. Onde é que a Câmara de Lisboa vai arranjar o dinheiro para custear as obras que o actual seu presidente quer lançar, para prestígio pessoal, sabendo-se as proibições existentes de recurso ao crédito e a situação difícil das finanças camarárias alegadamente deixada pelo antecessor.

4. Para que se vão fazer torres à Hong-Kong em Alcântara, com desvirtuamento da imagem tradicional da Cidade, que nem o traço do Siza Vieira conseguirá corrigir, quando o mercado imobiliário lisboeta é – e será nos tempos mais próximos – de oferta excendentária.

5. Porque é que uma nítida violação do PDM de Lisboa, que fixa a cércea máxima em 25m, quando as torres têm 105m, é, quando proposta pelo Siza, considerada pelo Presidente da Câmara como “um acto de cultura”, “muito interessante”.

6. Porque é que se está a realizar o túnel do Marquês, quase inútil em termos de trânsito, onerando a autarquia em mais de 20M€.

7. Porque é que, quando se afirma que se quer afastar os carros do centro da Cidade, se procura facilitar esse acesso aos que vêm da Linha de Cascais, através do tal túnel.

8. Quais a vantagens para os lisboetas da cara campanha mediática a relatar actividades correntes da Câmara, algumas insignificantes, outras absolutamente vulgares. Ou era esperável que os milhares de funcionários da CML só lidassem com papeis?

9. Que solução pensa a Câmara dar ás centenas de marginais e drogados “varridos” do Martim Moniz para os Anjos, ex-pacato bairro residencial de Lisboa, onde agora há medo e risco. O show must go on, mas é excessivamente enganoso meter o lixo debaixo da carpete.

10. Porque é que saíram os corvos do emblema da Cidade, nos novos painéis de propaganda da Câmara (Leia-se seu presidente)
ASP
Olhar ruminante 26OUT03
O rescaldo da semana passada ou mais ou menos


1.Diz-se que o principal erro de Ferro Rodrigues terá sido o ter considerado que a indiciação do seu amigo e camarada Pedroso era um acto de perseguição política., sendo subsequentemente a sua prisão preventiva uma prisão injusta e injustificada.
Agora, das duas, uma: ou se trata(ou), de facto, de um acto fundado em razões políticas contra o PS, através de um dos seus mais representativos dirigentes, e neste caso, Ferro Rodrigues, em nome do PS, deveria ter levado as coisas até às suas últimas consequências, que não levou (como analisa, bem, José Manuel Fernandes- Público 25OUT03); ou se trata de uma suposição mal fundada e Ferro Rodrigues deveria ter sabido separar o PS do processo judicial/policial que afectava um dos seus dirigentes.

Seja qual for a situação, andou mal o secretário-geral do PS.
E aparentemente continua nessa confusão e arrastando todo o Partido consigo.

2. Só o julgamento de Pedroso poderá acalmar os ânimos e esclarecer um pouco, mas não totalmente, o acontecido. Até lá, a falta de senso e de tacto dos agentes da investigação/inquérito, juiz de instrução e magistrados do Ministério Público, fizeram ressaltar inúmeras disfunções e alguns absurdos do processo de inquirição como existe. E também a impossibilidade prática de responsabilização desses agentes, que tiveram a liberdade e impunidade de cometer grandes atropelos aos direitos mais fundamentais dos cidadãos, através da adopção de medidas quase atribiliárias, seguindo as suas “interpretações” da Lei, permitidas pelo sistema .

3.. Trata-se de uma investigação e não de um julgamento. É a PJ ou o MP que têm a sua responsabilidade, não os tribunais. Não se trata, como é vulgar dizer-se, de questão de Justiça, mas sim de Polícia
No caso Pedroso, mas não só, o (desnecessário) escândalo que rodeou a sua prisão, a insistência em esconder os fundamentos da prisão, para mais tendo a Relação considerado insuficientes, os truques de Secretaria para impedir que essas razões fossem apreciadas por tribunal superior, a sonegação da acusação ao indiciado, etc, são comprovativos que em Portugal a investigação policial (é do que se trata, pois ainda o assunto não chegou ao Tribunal, onde se faz a Justiça) ainda está imbuída de procedimentos e da impunidade que se pensavam ter sido erradicados com o 25 de Abril;

4. Se se tratou apenas de atitudes pessoais ou de uma maquinação organizada com fitos de menosprezar os dirigentes do PS, talvez se venha a saber no futuro. No caso das “escutas” pressente-se uma “organização” em todo o processo e concretamente na táctica das “fugas” de informação a conta-gotas, com matéria que, por nada ter a ver com o processo em investigação – se o arguido Pedroso usou ou não de prostituição de menores – configura, de facto, um intuito persecutório quanto ao secretário geral do PS. Em todo o processo é nítida a parcialidade do juiz de instrução e uma sua convicção apriorística da culpabilidade do indiciado.

5. Num Estado de Direito, estes factos mereceriam uma condenação pública, sem a qual a imagem dos agentes da investigação, da Polícia e, por arrasto, da Justiça, ficará manchada. Em Portugal as razões-sombra, a solidariedade corporativa, a cobardia cívica, não o permitiram.

6. E usou-se como arma de arremesso a imperiosa necessidade de se “fazer justiça” castigando os culpados do Caso Casa Pia. Misturando organizadores da rede e do tráfego de menores, com proxenetas das crianças e com os “clientes”, mas quase esquecendo os primeiros através da indiciação de nomes conhecidos para os últimos, o que provocou o escândalo e criou uma conveniente “nuvem de fumo” sobre a organização e a rede.

7. Se a intenção fosse encobrir os organizadores e exploradores do tráfego e da rede de prostituição, crime ainda mais condenável do que o da pedofilia em bordeis de crianças, ou não, não se teria procedido de outra forma.

8. Aos evidentes atropelos de elementares direitos dos cidadãos, como a presunção de inocência, a liberdade, o bom nome, etc, uma parte considerável do povo português responde apenas emotivamente com a necessidade de se fazer urgentemente justiça, custe o que custar, ás vítimas, às crianças abusadas, porque ninguém tem dúvida que houve crianças abusadas.
Como se as coisas se não pudessem e devessem separar. E garantir cada qual. Os Direitos dos acusados e a Justiça para as vítimas. É esse o fundamento de um Estado de Direito.
Ancestrais emoções que, no passado, deram por vezes azo a crimes e brutalidades tão ou mais condenáveis do que os crimes que alegadamente pretendiam vingar.
Em caldo do proverbial maniqueísmo de quem sente mais do que pensa.
Pessoas dominadas pela compreensível repulsa quanto aos crimes, mas que para quem não referir “ as crianças” em cada frase é sintoma de cumplicidade ou simpatia com os crimes cometidos ou com os respectivos criminosos.
Não se conhecem as provas, nem coisa alguma que fundamente a acusação dos arguidos, a não ser “notícias” e “boatos”, que nada garante serem verdadeiros ou serem partes de um esquema ardilosamente montado com outros fins que nada têm a ver com a Justiça.
Curiosamente o Estado, concretizado na Casa Pia, que por negligência ou outras razões, permitiu o crime continuado, não foi constituído arguido. Talvez por ser inequivocamente culpado. ASP
A SANTA DA CERA
Nem queria acreditar. Ainda me belisquei para ter a certeza que não era um sonho. Esfreguei os olhos para me convencer de que o que via era verdade. Apurei o ouvido para me assegurar que não era ilusão auditiva. Vi e ouvi na televisão. Era de facto verdade! No nosso país, neste país onde agora só acontecem desgraças, apareceu uma santa que produz cera de um dos olhos. Milagre, milagre, milagre. Santa milagreira. Ora sendo certo que faz cera, apresento desde já a minha proposta ao Patriarcado: que a referida santa passe a ser a padroeira da função pública.
AVRD
MAUS CHEIROS

Esta noite acordei às 4 da madrugada. Não por causa do passarinho ter cantado, como na canção alentejana, mas por outras razões que inicialmente não consegui descortinar. Era uma sensação esquisita, um mau estar indefinido que a pouco e pouco se foi tornando mais evidente no meu espírito: cheirava-me mal! Agitei o lençol e tentei recordar-me do que havia sido o meu jantar da véspera. Perdoem-me os leitores...sou humano e após uma boa feijoada nem sempre resisto.... Mas não, a janta havia sido o mais inócua possível: uma sopa de puré de cenoura e pouco mais, que os tempos não vão de feição. Debrucei-me na cama procurando os sapatos sob o leito. Virei-os e revirei-os de cima a baixo e nada. Nem vestígios de cão nem de qualquer outra matéria que pudesse provocar cheiro tão nauseabundo. Incomodado, levantei-me. Apercebi-me que toda a casa estava impregnada. Paredes, soalho, tudo. Fedia. Já tonto e agoniado vesti-me à pressa e dirigi-me ao quintal para respirar um pouco de ar puro. Mera ilusão. O cheiro espalhava-se pela atmosfera, vinha das entranhas da terra inundando tudo à minha volta. Interroguei-me durante largo tempo, procurando encontrar uma justificação plausível para tão insólito fenómeno. Não encontrei explicação. Só muito mais tarde me apercebi da triste realidade: este país está podre!
AVRD
Olhar ruminante 25OUT03
O descanso dos pirilampos

Adoro arrumações.
Sou, confesso-o sem humildade, um arquivista nato.
Num mundo cada vez mais desordenado, o catalogar, o dispor, dentro de critérios pré-estabelecidos, universais, seja o que for, selos, caras, artigos de jornais, tubos de comprimidos fora de prazo, nomes ou leis é, sem dúvida um princípio da ordenação necessária, um arrumo das coisas, mas também das ideias sobre as coisas.
Excelente.

Tive que mudar de gabinete, com alegria, pois constitui um belíssimo pretexto não só para novos arrumos de papelada e móveis, mas também para revisões de temas e textos que, em tempos, foram julgados importantes para memória futura, por qualquer razão que muitas vezes já me não lembram.
Será a Idade.

Descobri, assim, um texto relativamente recente, num recorte do Público de 7SET03, onde se afirma que a “população de pirilampos em Portugal é razoável”, ao contrário do que faziam crer as expectativas.
Notícia que veio, felizmente, ao encontro dos meus desejos, eu, guerreiro e garimpeiro da Luz, contribuinte que paga pontualmente as respectivas contas, agora chamadas EDP.
Ou entraria no tempo das Trevas, o que quero evitar.

No reino animal (os vegetais estão organizados em repúblicas, v.g. a das bananas, frequentemente sediada em Portugal), temos de reconhecer que os pirilampos, vaga-lumes, bicihinhos cintilantes ou, antes da existência do Benfica, lampiões, é a única espécie que seguiu a directiva universal dos primórdios do Mundo, “fiat lux”.
Teve, ao que se deduz do Génese, um atraso de alguns dias, desculpável pelo facto de o dia só ter existido ao segundo ou terceiro dia, quando o demiurgo inventou as luminárias do céu, o que na altura causou alguma confusão.

Hélas, os procedimentos de investigação usados, por falta de preenchimento de ficha adequada, não merecem validação científica.
Populações superiores a 100 pirilampos foram reportadas apenas em 4 dos 100 municípios investigados, tendo 12 concelhos, 12, “reportado não terem encontrado nenhum vaga-lume” o que os põe ao nível da população do gambusino comum.

Pensava-se, antes do advento do Senhor Pinto da Costa e do inefável Garibaldi do Nuorte, eng. Ludgero, que este simpático animalzinho, o pirilampo, apenas aparecia no sul do País, mas descobriu-se por este estudo que também “há luz nas Antas” e que a situação do País quanto a pirilampos “ não é preocupante”.
Haja alguma coisa que o não seja, neste triste Portugal de hoje! ASP

This page is powered by Blogger. Isn't yours?