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quarta-feira, dezembro 31, 2003

Folhetim espalhado
De acordo com o D. N. de 30 de Dezembro de 2003. o Sr. Cherne, Primeiro Ministro de Portugal, declarou durante a inauguração da linha do metro, que afinal só abre em Maio de 2004, que era “uma excelente forma de terminar o ano e começar o novo”. Este dirigente estratosférico que ainda não há muito também disse que “o pior já passou” tem uma curiosa categoria mental que é navegar numa sabedoria espectacular tão superior, tão superior, que as sentenças que dita para o povo da terra não passam de imbecilidades. O antigo presidente do defunto regime, Sr. Almirante Tomás deve ser o seu modelo de referência.
Estas são as boas notícias de entrada no ano 2004. Viva o novo ano da retoma! LACP

terça-feira, dezembro 30, 2003

Folhetim Calhado

Paixão e Surf

Disseram que um surfista não é adequado para um ser dolente, fisicamente sofrida e triste como é Leonor. Quem vê caras não vê corações, quem vê tristeza pode ver paixão. E de mulher assim, feita de ideias fixas, pode-se esperar constância, absolutos, poder de espirito, fantasia e mudança, insatisfação e sede, e, limpidez, tão transparente como a água transparente do mar. Leonor nunca confessou quem é o seu amor e de quem gosta, pode não ser um surfista e ser uma pessoa por trás disso, vá-se lá saber. Ela não diz a ninguém quem é que ama. Nem por nada. Mas o problema é que assim não pode continuar por muito tempo, emagrece, emagrece, chora, tem que ter cuidado, senão vai-se. LACP

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Folhetim Calhado

Terra

Quem vê a Leonor depois do Natal acha que ela está mais magra. Está mesmo a emagrecer a olhos vistos. Devorada por ela própria, consumida, bater magoado no centro do peito, atravessada por arrepios, tomada por dores de feridas abertas que se rasgam ao ritmo de um qualquer pensamento que calha, vagueia já com olhos a encovar, as lágrimas a rebentarem sem aviso, um monte de emoção balbuciante, corpo drama, paixão presente, fé forte, ainda sempre a sonhar com o dia de amanhã que vai chegar e trazer o seu amor.
Pensamos se não seria melhor os Srs. surfistas do ONDAS darem mais atenção a este caso humano. Não digam que surfar é melhor. Não digam que mulher dá muito trabalho. Saiam um pouco do mar, venham ver o que há cá na terra. Cá também há metafísica. LACP

sábado, dezembro 27, 2003

Folhetim Calhado

Tucha passeia no parque
A Tucha tem uma quinta com um grande jardim. Há quintas com parques privados, pelo menos algumas, com áleas que em circunvolução discreta vão conduzindo as pessoas entre relvas e árvores num aparato de tranquilidade e embelezamento psíquico. É este o caso.
Agora enquanto a casa está calma, dá o seu passeio com uma chávena de café quente nas mãos que vai sorvendo pouco a pouco. Ainda há tempo.
As áleas são preservadas das ervas daninhas pelo saibro um pouco alaranjado que é despejado com alguma regularidade; canteirinhos de rosas parecem pontuar com equilíbrio o inicio da relva, cortada rente e de aparência fresca e bem tratada Convivem sem dificuldade os agapantos com hortênsias e num outro quadrante, os amores perfeitos com jarros, petúnias, rosas e dálias. As mais tristes violetas são então raras e motivo de muita busca de imaginados raminhos de encanto.
As árvores distribuem-se com elegância. Um muito antigo hibisco está agora seco, como aliás quase todas as árvores estão. Só arbustos vivificam. Por isso consegue-se ver para lá das árvores e aparecem no horizonte recortes desconhecidos tapados no verão pelas ramagens.
A macieira velha tem também os troncos descarnados e torcidos em todas as direcções; o tronco principal caído na horizontal, convida a quase se caminhar por cima em algum equilíbrio, pelo menos na imaginação infantil. Os troncos estão cobertos de musgos e líquenes, muitos já ressequidos, e, testemunham a velhice desta árvore.
Uma carvalheira que se pode pensar foi trazida de África, tem, nesta estação do ano, as folhas em vermelhão, carmim e terra sena queimada, num espectáculo cromático vibrante. As belíssimas folhas reviradas em espinhos mantêm o brilho acetinado do verde cobalto profundo próprio do verão.
Dois pinheiros mansos querem cobrir todo o espaço, dão no tempo próprio uma enorme sombra e no lugar variável e oscilante das sombras, está agora um manto de carumas. São árvores portentosas, belíssimas e também ternas. Muitos se sentam em baixo, por vezes encostados ao tronco e procuram ficar serenos.
Ao fundo, depois de um abeto ainda baixo, algumas variedades de cedros elevam-se entrelaçados, rangem com o vento e tapam a luz muito cedo.
O lago dos nenúfares está com agua límpida e os enregelados peixes vermelhos, peixes anjo e peixes fantasma, são pelo menos as variedades que estão, desaparecem no fundo e escondem-se. Todos os peixes têm nome próprio, segundo os baptismos, um tanto baralhados, diga-se, que as crianças organizaram no verão.
Grupos de papiros, depois dos tufos de juncos, em forma de estrelas pontiagudas, sobressaem muito hirtos formando ramos largos e firmes. Não mudam segundo o sol, apenas as ramadas estreitas vão secar e são ocasionalmente cortadas.
No jardim do buxo anão os desenhos estão muito marcados e aludem com timidez à cortesia e cavalheirismo de outros tempos.
Os canteiros de flores são colocados com discrição para não prejudicar o cunho de equilíbrio original, entre a pura natureza e a sofisticação do gosto humano, numa procura conceptual de convivência entre as árvores de fruto, gamboeiras, nespereiras, laranjeiras e um limoeiro abrigado de espinhos grossos, com os abetos, cedros, acácias, carvalhos da índia, palmeiras, loureiros selvagens, pinheiros mansos.

Tucha está sozinha no parque, sem nenhuma perturbadora criança, nenhum gnomo, apenas uma mulher alta, de camisola, cabelo solto claro com ar longínquo.
Quando o dia cai, um vento lento passa entre folhas secas e os troncos finos descarnados. Os troncos dos cedros rangem ainda mais, de forma assustadora.
Tucha puxa a gola da camisola alta para cima do pescoço, passa as mãos pelos jeans. Foi neste jardim privado que muitas vezes recolocou a sua consciência, aprendeu o futuro, o passado relativo, ou partiu. LACP

sexta-feira, dezembro 26, 2003

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Nasceu como todos nascem, pequenino e nédio, se bem que, contra o que é habitual, de pele laranja. Cresceu rodeado de promessas, a todos fazendo crer que dali iria sair coisa que se visse. Cedo, porém, começou a fazer travessuras. Inicialmente no falar. A comunicação foi, de facto, o seu primeiro problema. Armou-se em garnisé, pretendendo calar tudo e todos, mas acabou por acatar, a contragosto, os reparos que lhe foram feitos. Depois foi crescendo, sempre com dificuldades nos estudos, onde arranjou diversas complicações, nomeadamente no pagamento das propinas. Já mancebo, nas fileiras, não se conseguiu furtar à fama de envolvimento em negócios pouco claros e, mais tarde, cumprida a sua obrigação para com a Pátria, veio a conhecer as mais díspares e problemáticas situações de que há memória nos dédalos da justiça. Depois, com o auxílio de algumas “cunhas”, ainda tentou fazer carreira nas forças policiais mas meteu-se em actividades a que a corrupção não era alheia, o que obrigou ao seu afastamento compulsivo. O desemprego que o apanhou ainda a meia idade, aliado à crescente carestia de vida, arruinaram-lhe uma saúde já precária, que as deficientes condições de atendimento hospitalar vieram agravar. Envelheceu precocemente e, sem ter conseguido chegar à sua vez nas listas de espera, jaz moribundo, aguardando a hora que, inexoravelmente, se aproxima a passo cadenciado. Vai morrer. Não deixa saudades. Antes pelo contrário. Muita gente se alegrará com a sua ida. Morra 2003. Morra. Pum! AVRD

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Folhetim Calhado

Sombras de Natal
É certo que Cendrars não estava em Nova York no Natal mas sim na Páscoa, em Abril de 1912, mas podia estar no transsiberiano na dita quadra e quer estivesse num lado ou noutro, estaria agarrado à vida, mas na outra margem da tranquilidade. É verdade que mentia, pois ao contrario do que diz no Bourlinguer não podia visitar Lisboa repetidas vezes num Morris de 100 cavalos; nunca se fabricou com 100cv. Hemingway também diz que exibia o coto a passear-se em frente de toda a gente. É verdade que falava o português e traduziu para francês a Floresta Virgem. Mas se se ler o Moravagine, não pode deixar de se sentir por todo o lado, o cheiro da foret vierge de Ferreira de Castro. Também não parece seguro que tenha partilhado o circo com Charles Chaplin, como jongleur, logo a seguir à fuga de Chaux de Fonds. Bem, não importa, mentira ou arte, Blaise louvou a vida, não estava do lado dos frios e poderia ter passado o natal e a páscoa na angustia do abandono. E ter em qualquer lado dito < Senhor penso nas minhas horas infelizes...
Senhor, penso nas minhas horas idas...
Já não penso em vós. Já não penso em vós. >
Há um triste e às vezes pavoroso reverso para a quente harmonia das ceias entre os que se estimam, para não dizer que se amam, e também para o chilrear da doce puerilidade dos inocentes que vão crescer com estrutura, personalidade e bom feitio por terem sido acolhidos entre os pacíficos.
Enquanto há sons dos sinos e vozes dentro das casas quando as famílias se reúnem, torna-se muito estranho nessas mesmas datas o silêncio da selva. Nada se ouve, nenhum zumbido, nenhum clique ou tiroteio, os olhos podem estar baixos e o que o alferes Pereira viu foi a terra ocre e por cima desta, uma espécie de sal branco que faz pensar em fosfatos e riquezas por explorar O que há para ver, senão pedaços perdidos?
O pintor J está apanhado por ideias que não queria que lhe chegassem na noite fria que se arrasta até à meia noite, esse ponto de natividade cortante e de suspensão forçada da tragédia. Se soubesse agarrava e expunha o que lhe ataca o cérebro em ondas. E então fica sentado em frente do cavalete a mexer nos tubos de tinta de óleo quase pronto para começar o trabalho e por fim, num rompante gemido, ataca. Não terminaria nessa noite o quadro maldito a castanho Van Dyck, com o qual quer à viva força fazer desaparecer uma estúpida angustia.
E quando os familiares se reúnem com amenidade ou cansaço há ainda outros que só esperam a hora de ir e ir. Muitos estão ali a fazer figura, têm que gramar os familiares que desprezam, faz parte. Já chegaram cansados da mania das compras, não têm nada com parentes que não escolherem, que não vêm nunca e que às vezes odeiam e que estão agora pasmados e a fingir. Os reinadios, os estoira-vêrgas, os tontos, os plays boys, os e as divorciadas, os malandrins e até os meliantes, abominam paz a mais e maçam-se. Os fartos, vão sair mais tarde para aliviarem a pressão das ofertas de presentes, dos gágás e das secas familiares, esperam a rua, o tempo livre, aguardam o momento de si próprios. O Café Suave no Bairro Alto, vai encher, mais tarde. Os cabarets vão receber gente solitária e aberta, a rua fervilha mesmo que a noite por tradição esteja fria, nem todos vão em cantigas, os gangs vão operar que é data acertada, o crime organizado vê a ocasião, assalto e roubo, chegou a hora.

Muito tarde, após a vigésima quinta hora, a rua em frente do café Suave enche-se. Vão confluindo pouco a pouco, os que chegam reconfortados com sopa quente, afeições e benevolência e os que não vieram de lado nenhum e só esperaram que as horas se fossem. Leonor já chegou. A nossa querida e simpática Leonor, a sempre disposta a um sorriso de simpatia e cooperação. Está lá. Está com os que ficaram na outra margem. Alguém a viu na rua em frente do café Suave com ar muito alegre, sempre a falar. Alguém terá elogiado o seu presépio com musgo apanhado na mata? Como teria corrido o seu natal? Parece acompanhada por um homem alto e magro, que está um pouco vergado e a ouve atentamente, com olhos capciosos e um pouco marotos.
Formou-se na parte de cima da rua uma neblina de cinza fria. Se se olhar para essa bruma, constata-se que as pessoas que vão ao encontro dos outros saem uma a uma e só pouco a pouco vão ficando à vista e se vai perceber quem são. LACP
AS RAZÕES DE UMA JUSTIFICADA AUSÊNCIA
Estive uns quantos dias (semanas, meses ?) alheio às actividades golpistas, isto é, às relacionadas com o Rude Golpe. Foi um dito – leia-se: um rude golpe – para os meus atentos leitores! Deparei com um coro de protestos. Choveram cartas de todo o país ... algumas (poucas) do estrangeiro, rogando para que não desistisse, para que voltasse às lides, em suma para que continuasse a treinar...(!?). Confesso que não esperava tão pronta e significativa reacção e quero deixar registado, aqui e agora, o meu profundo e sentido testemunho de gratidão para quem, não me conhecendo pessoalmente, me tem em tão grande e imerecida conta. Por imodéstia estive tentado a dizer Sim: que continuaria a verter para estas páginas o estiolado caudal dos meus pensamentos, que de novo usaria e abusaria da paciência e da tolerância dos meus leitores. Mas desde logo me assaltou pertinaz dúvida: como fazê-lo se me sinto abúlico, prostrado e sem pachola para o que quer que seja? O que me tolhe a acção, a verdadeira razão deste alheamento / afastamento, o que me faz jazer, o que tem gerado esta acinésia e acrescência, radica numa incomensurável falta de imaginação, de inspiração, de estímulo, de alento, produto da situação lamarosa deste pais, que por sua vez é fruto, em grande parte, da acção do ominoso governo que nos vai conduzindo a todos, alheados e apáticos, às portas do Hades. A (in)existência de uma oposição(?) que, acárpica e inerme, utilizando velhos actores profusamente enfeitados de “rabos de palha”, se mostra receosa de vir à praça pública tinir armas com as abantesmas que nos (des)governam não é, também, motivo de grande entusiasmo. É esta conjuntura que me constrange as meninges e que, para além de outras coisas, me tem cerceado a vontade de escrevinhar. Além disto, as poucas linhas que, de uma forma atamancada, tenho vindo a alinhavar, coser e recozer, destemperadamente, não justificam, de forma alguma, o meu regresso. Assim, que me desculpem os meus numerosos leitores, mas tomei a firme e inabalável decisão de dizer Não. Continuo, por enquanto e até nova maré, ausente, ábdito, apartado. Em resumo: este texto não existe, não existiu, nem existirá jamais. AVRD

Trechos de cartas de amor nunca enviadas:

Sentei-me um dia num banco de sol. Com a lassidão de séculos para viver, liguei o tempo e a fantasia e gradual, muito lentamente, avancei pela alameda das memórias.

Era um movimento orgânico, sanguíneo, de palpitações de lembranças de linfas e de humores, de sensações de seres e estares, num reencontro cego, extremamente agudo, sensual e bom.

Parei algumas vezes para explorar com cuidado uma recordação mais querida, como quem tenta relembrar uma inevitável doçura musical, afagando-a na avidez própria dos brandos perdidos.

Molhei também a imaginação em copo partilhado e prossegui pensando em tintas de milagre, em cores de lucidez.
(Quantos, oh Omar, usaram este meio para rondarem a compreensão? Quantos buscaram num excitante extrínseco, as raízes da coragem do descompromisso aberto? Quantos se perderam no infinito etéreo por terem largado os pesos todos do seu balão festivo, continuamente a encher, a encher...?)
E os poemas selados no sangue das garrafas, bebidas, com razão, num ritual sabido por milénios de busca, de criação, de amor?

Adoro penetrar. Adoro penetrar em mergulhos lentos e de mão dada amiga, nos copos magníficos de tabus varridos.
Adoro vaguear. Adoro vaguear entre as cores espantosas dos humores sentidos dos que são solidários mesmo antes do bom senso.
Adoro rodear-me. Adoro rodear-me dos prismas coloridos que embelezam a vida.
Adoro-te. Adoro-te assim, só Adoro-te.
Adoro-te ao avançares comigo para além do sonho na coragem grande da busca do prazer.
E se a dor é redentora, como manifesta o “triste deus cristão” dos escritos do Pessoa, então amiga-amigo, estaremos condenados por pecado assumido ás penas infernais.

Mas vem comigo, peço-te, que havemos de trovar assim sejamos puros e fieis ao nosso encontro, o cúmulo dos prazeres raiando a perversão.

Sabes que eu nunca minto.

Por vezes sinto o eu, aquilo mesmo que sou eu, passar as malhas e as gravatas e pôr-se impúdico e imprudentemente a acenar-me oásis de vida e de aventura, miragens loucas que não são para mim.
E insisto a atirar balões para a ida, sonda de imaginação na fantasia. E gosto. Com a sensação concreta que a fantasia tolhe e me convém mais o divagar prosaico.

Mas eu não minto.
Meus mestres na vida, nos ritos da adolescência, gravemente me exortaram ao cumprimento da vida santificada. “Vai e cumpre o teu dever!”, diziam. Completamente.
Meus mestres eram homens bons e nunca os puz em causa. Meu pai, alguns velhos dignos que cruzei, escritores notáveis, filósofos de bem querença, leste e oeste, sem esquecer o divino Wên Chang Ti CHun e a sua mula e servos.
E algumas más companhias, felizmente.
Havia que cumprir o Dever. Meus antanhos, alguns nomes famosos e fotografias tal o exigiam.
E assumi Ahnsiedade!
Porque eu, puto, (ainda hoje), bebi sem perguntar. Incutiram-me o bicho bisonte da responsabilidade da missão na Terra e esqueceram-se de me dizer qual era.!
Percebes?
E assim busco burro, duplamente restrito, o cumprimento de um dever difuso; assim confronto um devir obscuro, chato, chato, que mecanicamente aceito sem revolta, tão naturalmente como a onda volta ao mar após os avanços inúteis na areia nocturna, deserta e uniforme.
Resta o saber do mar, o tal saber do azul, o seu sabor em verde, sobre que falámos.
E o sentido do ritmo secular das gerações que se repetem na projecção animal da manutenção da espécie, por passamento do apenas iniciado, na presunção bacoca de alguém o terminar. Mártires e heróis! E o resto?

Será que entendes o que eu digo? (E eu?)
Ah, a segurança é linda e eu sempre fui bicho de toca, com tapetes persas.
O Homem é o homem.
Pensando bem, dou graças a Deus.

Há o amor, claro. E a consciência da identidade individual, pela criação. E a comunicação conseguida. E o prazer prazer. O humor, Mozart ás escuras, os ritmos oferta dos corpos suados de boite, o bom livro, um riso puto, puro, tu?

Acredita. O compromisso afugenta tudo, tudo, menos as vantagens fofas, que não são nada más.

Lembra-te, eu não minto.
E há a coragem, que eu teria se tivesse certezas.

Mete-me na asa o teu corpo liso.
Deixa-me afagar-te em afeição-ternura.
Não quero descobrir-te já.

Há tempo.
Há tempo.
ASP

terça-feira, dezembro 23, 2003

Folhetim Calhado
A falta da Tucha
A sua ausência deixou muita gente arrasada. Uns meros dias e sente-se terrivelmente a sua falta. Parecem desertos os lugares por onde passa, o restaurante onde costuma ir, o sítio onde compra o jornal, tudo parece deslocado e sem interesse. Como se explica que uma personagem tão superior, que mal dirige a palavra aos pobres da terra, deixe assim um lastro de solidão tão forte? LACP

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Folhetim Calhado

Tucha foi-se embora
Quando acaba a azáfama com as compras, um pouco da cidade de Lisboa fica um nada mais calma. Há sol, um pouco de fresco e muitas vezes uma maravilhosa neblina, em particular junto ao rio e Museu de Arte Antiga. Muitos partem para a terra, na quadra de Natal em perspectiva e parece que é isso que alivia a cidade.
A Tucha já se foi embora. Sabe-se que ela é de Lisboa, mas há uma quinta, onde se geraram muitas memórias e alguns sentimentos graves. Essa quinta e essa memória, quem sabe se não nos ajudariam a perceber muita coisa do seu comportamento? Bem, a Tucha lá foi e deixou-nos. Muitos não têm para onde ir, costuma-se constatar e quando se nota isso, parece que o tempo se torna mais pesado. LACP

domingo, dezembro 21, 2003

Oração

Oh mamuda muda
Oh maminhas minhas
Os seis tão cheios
De anseios de cio
Oh virtude a ver-se
Aceder a mexer-se
Oh virar-se, oh vir-se
E revir-se e rever-se
No ooooh reversível
Invisível
Ser-se.

Oh fada mulherforme
Oh forma multiface
Fútil, fácil, feliz, fiel
Oh taça de hidromel
Táctil e terna e túmida
Oh testemunho aberto
Perto, certo, certo, certo.

Oh tu que foges
Demasiado devagar
Meu amor que vens
Demasiado devagar
Ajuda-me a não fugir
Atrás da fuga que quase apanho
Ajuda-me a ficar inteiro
No sítios onde estou
Ajuda-me a ser eu
Ou no impossível
A ser tu
Naquilo que quero e não consigo
Naquilo que sou e não pareço
Naquilo que peço e não me atrevo.

Oh meu prazer concreto
Fêmea meio mulher
Tu que aceitas tudo
Não me negues eu. ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
Naquela rua nua, naquela casa nua, nós nus nos amámos sem qualquer rebuço
Eram três da tarde os dois nessa casa, minha corça viva num esplendor de ti, nessa casa nua trespassada ao sol dessa rua nua, que só tinha casas sem gente nem lojas, nem carros nem som, nem vida, nem nada a não sermos nós, no abraço longo tardando três horas numa caça à corça, fugindo, vibrando, num esplendor ao sol, sem qualquer rebuço.

Que nua que és, meu amor tardio.
Que casa, que rua, tão rua, tão nua e nós lá em cima, os dois nessa casa tão perto do sol, tão longe de tudo a não ser de nós, tão nós e tão nus.

Depois, segui o teu conselho: cheguei ao fim do dia e segui em frente.
Oh ecos encontrados num encanto de cantos contagiosos!

Huamor. Tú.
.......
Não vamos deixar perder a inocência das vibrações de amor na puberdade. Nem vamos jamais envergonharmo-nos das lágrimas soltas num adeus ou num abraço ao Pai no dia dos seus anos.
Não vamos também deixar de embaciar o brilho estranho dos teus olhos com que nos vemos ambos, com que nos vimos ambos.
Também não acho que queiramos, olhando-te como somos, vender-nos ao silêncio do compromisso fácil de passar de lado.
E sei que não afaremos mentirmos um ao outro.
Não vamos pois perder a inocência ou pelo menos fica a vontade grande e nossa, de um dia a reaver.

Tuamor.
ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:

Falaste-me em tempos em coisas difusas, em seres e em teres ternuras, lugares.
Falaste também em tempo que passa por ti e por mim e todos aqueles que sentem o tempo. Aquele que quando passa já passou.
Falaste-me ainda de te terem dito que o mundo começa num poço sem fundo e a rodar consegues, girando sem fim, alcançar a luz o fim liberdade dos anéis constritos e que o resto passa e que o resto vai-se. Só tu permaneces enquanto viveres enquanto girares qual poço da morte arriscando a vida com gritos, lugares, ternuras , afectos e coisas difusas de seres e de teres.
E disseste mais. Durante três tempos ouvi-te a contar amores e fortunas, deleites, desgostos, prazeres prazenteiros, as dores mais profundas e aquilo que faz um homem girar no tal poço cego, no tal tubo fundo, sem eira nem beira, sem fim nem princípio, sem razão, em suma.
.......
Só a morte dá sentido ao tempo. Só o tempo dá sentido ao prazer. Só o prazer dá sentido à vida.. Só a vida dá sentido a quê?
Ai quem me dera ser vegetal e simplesmente estar e não ser. Só.
....
De resto, já escrevi tudo. Hoje, pelo menos. Para quê dizer mais?
Ah, se eu tivesse certezas!
Seria topógrafo nacional, para imprimir neste meu povo a gana gana de ser livre livre.
Ou seria sinaleiro, nacional e doido, para, rodando sem cessar, indicar a todos, com trejeitos e pescoço e o braço, o dedo e o riso bem esticados, o melhor caminho para qualquer sítio, a felicidade talvez, que eu teria descoberto enquanto garimpeiro dos sentimentos mais sérios.
E talvez conseguisse mesmo ser um sábio, para saber tudo aquilo que eu cá sei e que eu sei que não sei (bem como tudo o resto).
Ou seria pássaro, isso, pássaro, pássaro do mar e andar lá por cima a divagar devagar divagar devagar divagar.
........
Contigo, claro.
Já disse: Eu não vou lá sozinho. Preciso companhia, melhor, preciso companheira, para o caminho, amor, ser vida verdadeira. ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
(A propósito do The touch of your lips)

Os teus lábios não são vibrantes, não são carnudos, não são vermelhos (como as cerejas), nem são meus (porque tu não deixas).
São simplesmente bons de olhar (a imaginar o beijo), de beijar (a imaginar o olhar), de imaginar (quando tu não estás).

Amo-te (estava mesmo a pedir)

ASP

O que aprendi hoje a ler jornal (Público)

O governo avança com cruzamento de dados entre o fisco e a segurança social.
Avançar nos cruzamentos deve ter cautelas redobradas, face ao risco de colisão. O ministro Figueiredo Lopes e o Secretário de Estado em rota colisão, aqui porque não houve cruzamento de dados com a PJ militar.
Não há prazo para se conhecer o novo comandante da BT. ...General Apolinário sempre foi nomeado, apesar dos processos.
“Conhecer” neste caso, não sendo no sentido bíblico do termo, deve ser em termos psicológicos, o que será sem dúvida interessante, tratando-se de personalidade que não só teve a coragem de enfrentar os assassinos das máfias chinesas, como a de, presentemente, os assassinos do volante.
Todos os cargos de chefia na GNR estão nas mãos do Exército, o que acho mal, especialmente atendendo a que há helicópteros, devendo assim a FAP também ter uma chefiazinha, talvez na própria BT, já que há tantos carros a voar baixinho nas nossas estradas.
77.000 escutas à BT de Albufeira de conversas entre guardas e empreiteiros, garantem o sucesso da PT e obrigam a reler Orwell em regime de emergência.
O comandante da BT tem um processo na PJ militar. Mas “o que vale uma investigação feita por uma instituição totalmente desacreditada, caracterizada por uma inaceitável opacidade processual e dilacerada por um estranhíssimo jogo interno de poder?” Pelos vistos, nada. Também “diz-me de quem dependes, dir-te-ei como és”.

Seria um desastre para a estabilidade política em Portugal se tivéssemos um presidente populista (Pacheco pereira, referindo-se a Santana Lopes). Já é um sintoma de desastre ter um candidato. E o populismo é a decadência da República. O que é que querias, oh ingénuo?

P.Strecht continua a alertar para o perigo das crianças e nos “Fantasmas fora do armário”, Leonete Botelho, para a questão de quem não quer ter crianças já depois de as ter começado a ter. “Há, no banco dos réus, em Aveiro, 17 pessoas cabisbaixas, em silêncio. Mas à sua volta tocam sirenes e dançam fantasmas”. Espectáculo dantesco.

Há 10 razões para um sim europeu. Sim Senhor.

Desembargadores obrigam Rui Teixeira a interrogar de novo Carlos Cruz. Rui tteixeira, cuja especialidade tem sido embargar o bom decurso da Justiça, neste caso, pelo menos.

Mais de metade do trabalho dos serviços públicos é para o Estado. Eu pensava que era 100%.

PS dramatiza demissão no Polis. O protagonista do drama é Nunes Correia, que diz que o Polis tem pernas para andar. A Ministra das Finanças pôs-lhe mas é umas grilhetas com pesadíssimas bolas à Metralha. O coitado Polis nem se mexe.

Alberto João brinda-nos com uma das suas habituais palhaçadas: “Se quiserem ver-se livres de nós, com muito prazer”.É uma boa sugestão, pela primeira vez.

Na Grécia procurador pede 11.000 anos de prisão para suspeitos de 17-N grego. Mas, se for em Portugal, por bom comportamento, saem ao fim de dois anos.

Tap e Portugália preparam troca de (boas) acções. É da época natalícia.

A economia portuguesa está viva, garante Carlos Tavares. O seu estado é apenas comatoso.
Santana Lopes pede nova estátua de Sá Carneiro ao autor do monumento do Areeiro. É essencial para os lisboetas, agora para o Inverno rigoroso que se aproxima, já que se prevê debate acalorado sobre o assunto.

“E se ele estiver a tornar-se num subversivo?” (Calvin)

Tintin no Tibet.

Mais nove milhões de raparigas do que rapazes fora da escola. Igualmente com especial relevância no Islão, 99% dos ocupantes dos haréns são mulheres.

Ciência e aventura são feitas uma para a outra. É preciso, de facto, ser-se aventureiro, para se seguir a carreira científica em Portugal.

Rascunho do genoma do chimpazé está pronto.... Portugueses querem conhecer pormenores.

ASP

Folhetim Calhado

A verdadeira decisão

Do que RB se esquece é que Leonor está apaixonada e nunca disse que o objecto da sua exaltação fosse RB. Contra isso, esse desiderato insensato do coração, nada a fazer. LACP
Folhetim Calhado

Decisões e estoira-vêrgas
Alguns comentadores observaram que os estoira-vêrgas é que apreciam a ambiguidade do conhecimento e se desculpam nela para enveredar por pândegas casuísticas. Não se aprecia excessivamente tais estroinas. Nem se aprecia que os pândegos sejam cépticos e os pândegos e valdevinos são cépticos, mas também são lassos, pois então não se aprecia, ia-se a dizer, que esses não decidam nem tomem nenhuma espécie de opções. Os galdérios são fracos de meninge muitas vezes. Essa dilação de escolhas é um aborrecimento, não é apreciável e faz com que algum ou alguma de fora, vá pagar as contas finais. Por um lado, portanto, os boémios são lassos, irresolutos, de mente omissa e de carácter vago como as alforrecas. Por outro lado, não são isso, mas antes genuínos amorosos de vida, estetas desencantados, seres perdidos sem fé, cães com desgostos, corpos abandonados. Não é disto que se trata quando se disse que RB não precisa de optar entre a doce, casta e profunda Leonor e a amável Ana Boneca Gata ( Boneca da mãe Gato do pai, depois virou Gata, claro). Do que se trata é que é que RB tem medo de ficar com uma parte e perder a outra, quando ele o que queria era o tudo. E é por isso que é melhor ele não optar nada e antes deixar correr a ver se fica com as duas. Se outros deixarem. LACP

sábado, dezembro 20, 2003

Folhetim Calhado

Não é preciso optar
R B está hesitante; não quer perder uma chance com Ana Boneca Gata mas tem alguma afeição à Leonor e quer visitá-la. O que é que quer um homem? Claro, não há como prontidão e nisto, a condição masculina dá-se bem nos exércitos em armas. Conversa fiada é bonito e namoradeiro, desde que não ponha exageradamente de lado o fundo da questão. Mesmo a beleza não pode pôr de lado o fundo da questão. É bem certo que alguns pares sentimentais romantizam e espiritualizam de tal modo o seu conluio que quase pensam que o fundo da questão fica lá numa cova para mais tarde. É certo que a paixão se esconde por baixo de máscaras de espírito, dependência, arrebatamento, mas donde vem a paixão? Do fundo da questão. E mesmo o dito amor ocidental donde vem? Se se tirar a máscara da amenidade afectuosa, da cortesia e do cavalheirismo, onde põe ele o fundo da questão? Põe a questão entrevada. Põe-na a ferros. Suprimida. Não prova que não exista.
E assim, postado numa plataforma estática, RB quer ou ir para um lado ou para o outro, ou seja, atacar a casta e profunda Leonor, ou banquetear-se de vida com a Ana Gata. Mas faz mal em pensar assim: « tudo está em tudo » ensinou o filósofo présocrático Anaxímanes, numa antecipação arguta da ambiguidade do conhecimento e, no caso em análise, da necessidade inútil de optar. LACP

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Folhetim Calhado

A senhora da sorte luta com a senhora da ceifa
A senhora da sorte que concorre com a senhora da ceifa, não gosta das pessoas presas dos sentimentos que ficam com os olhos debaixo de água. A sorte não segue o vento justo, nem procura toda a gente, escolhe o que lhe apetece, gosta dos frios, gosta dos alegres, passa ao largo dos emocionados ou dos que desejam muito, dá-se muito melhor com os corriqueiros bens falantes e persuasivos do que com os silenciosos e tímidos mesmo que calorosos, dá a mão aos parvos e facilita a vida aos práticos, esquece os sonhadores e os que desejam outro mundo, prefere os que fazem bons negócios e põe de lado os que preferiram liberdade, premeia os que se contentam com pouco e despreza os que se esforçaram para conhecer e saber para além do horizonte visível, dá voz aos que falam sem dúvidas e com voz clara e esquece-se dos titubeantes e dos fracos e dos que se reservam, abre a porta da abundância aos calculistas e manobradores e esquece os ingénuos e muitas vezes os competentes.
Mas a senhora da ceifa é mais democrática nas escolhas, vai escolher a torto e a direito, tanto a ceifar os poderosos como os fracos, os novinhos como os velhos, as crianças ou os malditos, ceifando com determinação, sem piedade e arbítrio, quer os bem falantes quer os trôpegos, resolvendo, resolvendo, a contingência das opções, as veleidades do orgulho, a vanidade, a predilecção, os habilidosos e os destituídos quer os ultrapassados quer os que estão à frente. Que será feito de Leonor, se não tiver sorte? Que batalhas serão travadas entre essas senhoras do desprezo ? Se estivesse ao nosso alcance, éramos nós que dirigíamos o vento da sorte na sua direcção, mas isso não depende de nós, mas se dependesse, púnhamos no seu caminho o seu amor e talvez assim, ela conseguisse vencer as senhoras da morte ou pedir um adiamento. LACP

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Folhetim Calhado

Solidariedade traquina

A triste e sofrida situação por que passa Leonor deixa muita gente preocupada; ela não merecia tanto abandono e ainda por cima com o presépio feito. Nem toda a gente está a par do dia a dia mais ou menos esgaçado da Tucha e da Leonor, do PG, do pintor J e do diabo a quatro. Há pessoas perdidas que seguem caminhos por aí e umas vezes acompanham as raparigas e rapazes que se aventuram na blogosfera a ver se há desenlaces, novas proposições, outros contactos, outra interactividade. Na confusa rede do planeta comunicacional, espera-se que a Tucha, a Leonor e os outros em busca, se façam notar e sempre que surgirem, se façam assinalar com um flash. E assim as desventuras vão passar a ficar assinaladas com mais luz e é para isso que servem as palavras e os títulos neste Folhetim Calhado. Há o caso de RB que tem altas investigações a correr, livros em lançamento, sucesso na calha calhado e nem sempre acompanha as deambulações, a má sorte e também a boa sorte daquela gente, mas que está também preocupado, e quer seguir o rumo e precisa de ser avisado. E há mais gente que quer seguir também o dito folhetim. RB, ao contrário dos que lêem muito, ele lê muito, sabe de aspectos ao detalhe, há coisas que não lhe escapam e ainda não perdeu o olhar maroto e também sagaz. Por vezes concentra toneladas, parte-se ao meio, mas ainda não tresleu. Não quer admitir que a Leonor esteja assim tão sozinha, acha um erro e já garantiu que, pelo menos ele, ele vai ver o tal presépio. LACP

domingo, dezembro 14, 2003

Folhetim calhado

Passa-os a pente fino e o corpo é que paga

Leonor não gosta mesmo daquela facilidade, não é capaz disso e é assim que se sente inferiorizada e acha que não devia ter aquela mania dos escrúpulos e acha que bem vistas coisas é só timidez. A Ana Boneca vai e deita-se com aquela gente toda e do que Leonor tem medo é de não conseguir chegar a tempo e perder o seu amor. Tem uma inveja tremenda da outra, tem medo e quase uma fúria por ser tão parva. LACP

sábado, dezembro 13, 2003

Folhetim Calhado no Rudegolpe
Leonor chora

Foi almoçar sozinha. Não é nada de especial, andar sozinha é como anda sempre, vai ao cinema sozinha, dorme sozinha, janta sozinha e só às vezes é que não está sozinha e está antes com outras pessoas que estão distantes. Estar sozinha é ela própria e desta vez almoçou outra vez sozinha num dia lamentável e triste que lhe trouxe ainda mais excesso de consciência e talvez mais verdade. Não queria, mas todo o tempo passou à sua frente um filme devorador, e nesse filme de cenas vorazes, ela se afundou, como é costume dizer-se, num mar de lágrimas. Numa mesa ao lado, um velho surdo e uma pessoa velha nunca disseram nada, limitando-se a estarem ali. LACP

sexta-feira, dezembro 12, 2003


HISTÓRIAS DA LUA CHEIA
NUMA VIDA EM QUARTO MINGUANTE



Devo estar a ficar velho. Só pode ser isso: estou a ficar velho.
Passa uma sexta-feira 13 e nem dou por ela, soma-se uma lua cheia e nem me apercebo, não sinto vontade nenhuma de andar por aí, como de costume, de telhado em telhado, de jardim em jardim. Se me cresceram os pelos nas costas da mão nem reparei, se se me alongaram as patilhas estava distraído, se os caninos me saíram da boca devia estar profundamente adormecido no sofá. A velhice tem destas coisas, afasta-nos do universo, deixa-nos longe dos vícios antigos, derrota-nos a vontade, reduz-nos a ânsia a uma recordação pouco clara, difusa e embaciada.
Não sei que dia é hoje, nunca soube ao certo a quantas ando, mas isto não é da velhice, é de mim mesmo, da minha incompatibilidade com os calendários, sei de certeza certa e absoluta que a sexta-feira 13 já foi há que tempos!, a lua deixou de estar cheia, redonda e brilhante no céu limpo
(o céu está sempre limpo nas noites de sexta-feira 13 com lua cheia),
já atravessou quartos minguantes e crescentes, tenho saudades da sensação que me dava a lua cheia a entrar pela vidraça da janela, a encher-me as pupilas dos olhos de um tom indefinido de amarelos, arregalados e redondos como a lua, as gengivas a doerem-me à medida que os caninos, os incisivos e os malares me cresciam desmesuradamente, uma euforia tomava conta de mim como se tivesse bebido uns whiskies bem medidos, mas não!, não era dos whiskies bem medidos, palavra de honra!, era da lua cheia, era de toda aquela juventude de que fui feito e que se foi entretanto, vá lá saber-se para onde, para longe das janelas, das sextas-feiras 13 e das luas cheias, só sei é que agora nem dou por elas, fico sentado no sofá, meio adormecido, a olhar as unhas que não me crescem nos dedos a transformarem-se em garras poderosas. Quero dizer: crescer até crescem, mas tão devagarinho que é uma tortura, mais valia até que não crescessem de tão frágeis que ficam, a partirem-se sem mais aquela no esforço do corta-unhas. Nas saudosas noites de lua cheia havia lá corta-unhas que resistisse, era capaz de dobrar grades de ferro só com a força das manápulas, nenhuma vedação, nenhuma jaula poderia alguma vez segurar-me. Agora já qualquer sonolência me prende a uma cadeira, qualquer programazeco de televisão me fecha as pálpebras, qualquer arrepiozinho de frio me esconde debaixo de uma pilha insatisfatória de cobertores...
Acreditem: isto de estar a ficar velho é uma grande chatice! Foi-se-me a vontade mas sobraram-me as lembranças, embora meio baralhadas, há que confessá-lo. Não percebo, sinceramente não percebo como foi possível deixar passar a sexta-feira 13
(com lua cheia e tudo, ainda por cima)
sem ter andado por aí de madrugada a perseguir gatos pretos, a estraçalhar galinhas indefesas que cabem na cova de um dente, a invadir jardins alheios onde se passeiam, inconscientemente, casais de namorados incapazes de perceberem o perigo que correm, a uivar à lua a plenos pulmões como se cantasse fados com uma voz desafinada de bêbado, mas não!, não façam confusões!, nunca andei por aí bêbado nas sextas-feiras 13 de lua cheia, era a euforia da lua cheia, o feitiço da lua cheia e da sexta-feira 13 que tomava conta de mim, que me fazia saltar da janela para o pátio onde a gataria com cio desatava logo a fugir, entornando os caixotes do lixo. Eu lia-lhes o pavor desenhado nos olhos e ficava ainda mais eufórico, mais exultante, parecia que tinha deitado abaixo umas bagaceiras bem medidas, mas está claro que não era das bagaceiras, era da lua, a cidade que se cuidasse, os passantes que se cuidassem, os cães vadios sentiam ao longe o cheiro da desgraça, ganiam que nem loucos e eu a rir-me de gozo, a encher o peito de ar, a ficar enorme, enorme, para aí do tamanho da Sibéria ou maior, vinha-me uma fome terrível de carne mal passada e uma sede diabólica que só se matava a golos de cerveja gelada, não sei porquê as noites de sexta-feira 13
(sobretudo aquelas que eram também de lua cheia)
sempre me provocaram uma sede diabólica de cerveja gelada, vendo bem todas as noites de sexta-feira
(mesmo as que não eram 13 nem tinham lua cheia)
sempre me provocaram uma sede diabólica de cerveja gelada, vendo bem todas as noites
(mesmo as que não eram de sexta-feira)
sempre me provocaram uma sede diabólica de cerveja gelada.
Vejam lá como as coisas são: agora nem grande sede sinto, sinto-me só velho, quero é que se lixem as sextas-feiras 13 e as luas cheias, estou aqui sentado com a mantinha de quadrados a cobrir-me os joelhos, disfarço as dioptrias à custa da graduação dos óculos, embasbaco-me com os concursos da televisão já sem memória que chegue para responder às perguntas primeiro do que os concorrentes, ouço os gatos com cio a tombarem os caixotes do lixo e já não sinto prazer nenhum nisso, escuto os cães a uivarem ao longe e não sei distinguir se é de medo ou não, não deve ser, nenhum cão vadio tem medo de um velho sentado num sofá com uma manta de quadrados nos joelhos, os dentes não me crescem a rebentarem-me com as gengivas nas noites de lua cheia, pelo contrário, caem-me até, só de me imaginar com este frio de tronco nu num jardim da cidade me faz arrepiar os
(poucos, muito poucos)
cabelos da nuca, não tenho fome nenhuma, só de pensar em carne mal passada fico enjoado para a noite toda. Hei-de comer uma torradinha sem manteiga antes de me deitar, sede tenho alguma, por falar nisso acho que vou beber uma pinguinha dessa garrafa de whisky que por aí tenho guardada quase no fim, pode ser que me anime, que me devolva aquela antiga euforia das luas cheias e das sextas-feiras 13, aquele antigo feitiço que fazia de mim o dono do Mundo, mas não!, não fiquem a pensar que era do whisky, era da lua, palavra de honra que era da lua!, eu é que estou a ficar velho e a velhice baralha-me as ideias e as recordações e deixa-me nesta confusão insuportável e triste de uma vida em quarto minguante.



AM

O feitio de Ana

Um aspecto que quebra a rotina nesta vida, no bairro e entre os repetidos amigos, é a revelação de novos seres que batem à porta, trazidos ou de mão dada por gente cristã ou, vindos trazidos pelos ventos da fortuna.
No caso, já anteriormente referido, foi o Jorge Fonseca que trouxe pela mão uma nova personagem: Ana. Disse-se que ela tinha resposta para tudo, que era muito comunicativa, vibrátil e sôfrega. Acrescenta-se agora que é tudo isso e tem ainda uma outra qualidade que lhe dá sorte: é muito dada. Talvez não haja nenhum espaço vazio entre os factos e os outros e a sua consciência, porque entra logo em contacto, ri-se e chora, deseja-os e vai logo com eles, não perde tempo, nem precisa de nada, ternura ou afeição ou jeito, é logo. É um encontro habilidoso de seres e tão habilidoso que põe e dispõe de universos, os quais desabam e se sentem e vão, com a mesma qualidade dos que demoram a conquistar e se julga que ficam, e se calhar não ficam. É assim que Ana Boneca faz o contacto total com os amigos: conhece-os logo e intimamente, brinca e goza, ri-se e chora e a vida fremente segue. Já se deitou praticamente com todos os rapazes nossos conhecidos. LACP

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Leonor telefona à sua amiga Tucha
Com a caixa de sapatos decididamente na horizontal, não lhe foi fácil encontrar a chave no saco fundo e por fim passar a porta, atirar com as coisas cada uma para seu lado e pousar os musgos na banca da cozinha. Quando enfim pára, deita um olhar para a sala, talvez a procurar o sítio para fazer o presépio, e fica assim, a olhar um bom bocado, com os olhos molhados e a garganta em soluço. Horrível solidão para quem sabe que nasceu para o amor. É a gemer, desconsolada e perdida que quer falar com alguém e foi uma voz sumida, quase mesmo um lamento arrastado e sumido que Tucha ouviu do outro lado do fio.
Tucha também não sabe bem onde vai passar o Natal. Na verdade não pensa fazer presépio em sua casa, prefere um pinheiro, qualquer coisa que já tem e serve todos os anos, desde que o vá buscar à cave. Mas, se a Leonor estiver muito sozinha nessa época é com todo o carinho que a convida a partilhar esses dias. Mas seguramente não fica em Lisboa, se a Leonor quiser ir também, podem ir juntas. Mas a Leonor diz que não, diz que quer estar em Lisboa, que faz um presépio e que, não pensa nem quer ficar sozinha os dias todos. Diz que há-de conseguir e dá a entender que está apaixonada, é o que a Tucha deduz enquanto fica a pensar quem será o escolhido. LACP
Preparativos
A chuva não está muito forte, é mais uma névoa que não deixa ver muito longe e põe um certo brilho nos basaltos das ruas que vistos de perto não são mais do que manchas azul encadeadas de sombras e nódoas. Leonor acabou mesmo de parar o automóvel e está vergada, com a porta de trás aberta, a puxar a caixa de sapatos de cartão carregada de liquens, musgos e também alguns cogumelos ainda pequenos, que serão mantidos para tornar o presépio ainda mais naturalista e afectuoso. Não é que a Leonor seja calculista, mas quem espera ela que vá ver o seu presépio? Sabemos que não tem família, sabemos que não tem namorado nem partilha a sua casita com ninguém. Ou será que ela imagina que vai beber no Natal chocolate quente com alguém muito especial? LACP

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Ideias de cavalos selvagens
Cavalos selvagens são como as ideias
Como as ideias loucas que correm
Quase sempre sós, buscando companhia
Impossíveis de agarrar a bem
Impossíveis de amansar a mal
Loucas de libertas
Libertas porque sós.

Sou caçador de cavalos selvagens
Que apanho e mato devagar
Porque não acedem ao meu manso querer
De tê-los atrelados, limpos, ajaezados,
Na minha carruagem de rodas de vaidade.

Porque não aceitem
(nem sequer me ouvem)
Correr a passo certo para sítio certo
Entre as palmas indiferentes das gentes já lá presas
Por ideias acertadas e domésticas
E com penacho vermelho no alto da cabeça.

Mato-os indiferente aos seus belos corpos corredores.

E quanto mais correm mais os mato
E quanto mais os mato mais eles correm
E saltam e relincham e dançam e seduzem
Os meus cavalos de alforges carregados
De bem-haveres e pareceres de gente séria.

Ah cavalos e ideias que correm
Atraentes, loucas e temíveis
Como cavalos ideais!!!

E eu rendo-me e deixo-os viver
A trote, mas bem delimitados
Protegidos
Na reserva integral
Das zonas selvagens e impolutas
Nas planícies doces por trás-os-montes
Das coisas que fazer da minha boa vida.
ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
Traíste-me ontem por causa de Orfeu e jantei sozinho num tasco sem rua.
Eu queria-te então em sorvos escaldantes, mas roí apenas o tu lá não estares.
Porque era um dia especialmente igual aos outros, um dia em que a tua companhia cúmplice, sem contudo deixar de estar um pouco alheia, era necessária.
Um dia em que a camaradagem a remoer o tempo era suficiente.
Fiquei assim a divagar devagarinho, duplamente só e triste, triste, triste.
.......................
À mesa do restaurante, sentado comigo mesmo, falava naturalmente de mim, de ti, do amor. Mastigava de permeio um prato de qualquer coisa.
Pensando com lentidão vi-te passar de relance num tempo que já passou. E passaram os teus olhos, teu modo meio elegante, aquela saia inglesa que te ofereci há dois anos.
Passaram também meus sonhos (em que tudo é tão bonito).
Vi-te terna, aventureira, sensual, cheia de humor; vi-te sorrir só mais tarde, à sombra do meu sorriso (como eu gostei desse dia); vi-te depois feita onda que para mim vinha rolando; vi-te ainda como ermida e pareceu-me também ver-te num grupo, lá muito ao fundo, onde eu gostava de estar.
Vi-te noiva, vi-te esposa, tua mão presa na minha e eu preso nas tuas mãos.
Vi-me velho, já sem ver-te......

Traga a conta, pago eu......
ASP
O lenço cor de rosa
Era o que se dizia e não foi preciso esperar muito. A Ana Boneca Gata já mandou o Jorge Fonseca às urtigas! Boa! Aquilo é que é! Assim até dá gosto viver! É que ninguém fica indiferente ao exercício da liberdade! Foi assim no 25 de Abril, é assim diferente que se fica ao ver uma exuberante ir por aí no rodopio e o que salta ao espirito, pelo menos para os espíritos generosos, é que ela faz o que quer! Promete! Promete mas não demora. A continuar deste modo, vai tudo bota abaixo, a amazona é que se ri e o corpo é que paga. Ao menos não vai ser preciso comprar coisas para impressionar a insatisfeita. É tudo servido a frio. Viva a Boneca! Nem imaginam como lhe fica bem aquele lenço rosa à volta do pescoço. LACP

terça-feira, dezembro 09, 2003

Silêncio
Julgávamos que a Tucha se ia dar connosco e viu-se que afinal se reservou. Inclusive trocou o nome e ainda hoje não se sabe ao certo como se chama. Pareceu superficial mas enganou-nos, ou então é a sua reserva que nos faz pensar que tem outro desígnio para além das coisitas efémeras. Pensou-se que não faz juz ao seu aspecto ( passam os dias, contacta-se mais com ela, repetem-se as ocasiões e ela continua fascinante) e dispensa-nos do seu convívio e adulação, como se tivesse todas as forças pessoais exclusivas para se aguentar. Mas a hipótese de que mais se fala é que ela tenha uma ideia fixa, um desgosto, uma qualquer mágoa escondida. Pode acontecer que ela sofra, pode ser que ela viva com uma nódoa negra permanente e uma marca de dor sofrida que não vai embora, uma dor moinha constante avassaladora do músculo do coração. Muitos têm escondido, sem nunca revelarem, essa quase linha constante de sofrimento que lhes rouba a paz, e vivem com isso sem nunca dizerem nada. Há casos em que o silêncio também defende uma vergonha. LACP
Leonor vai apanhar musgo para o Natal
Não tem filhos, também ainda é nova e há-de tê-los, e quer já fazer um presépio com musgo verdadeiro. Isso fica-lhe bem.
Ficou toda enrolada, como um caracolinho, mal se vendo a pele corada pelo frio e foi com uma colher que lutou para apanhar pedaços inteiros, de preferência baixos para parecerem mais com veludo.
Olha-se para ela assim tão aplicada e também tão sozinha e então não é mais possível pensar em coisas más. Felizmente que não se pode fazer festinhas a torto e a direito, não fica bem. LACP

sábado, dezembro 06, 2003

Proposta de
EXPOSIÇÃO-QUEIXA
Ao
Senhor Presidente
da Câmara Municipal de Lisboa


Excelência

Foi com grande consternação que detectámos que tinha sido alterado o brasão de Lisboa, alegadamente por instruções de V.Exa.
Não duvidamos que tenham sido seleccionados os mais caros designers estrangeiros de reputação mundial.
Temos consciência que, à falta de outras iniciativas ou ideias, o velho brasão da Cidade estava mesmo a jeito para V.Exa mostrar trabalho e que “alguma coisa está a mudar”.

Mas discordamos de se alterar a conhecida e tão querida caravela & corvos, para um grafismo em xadrês arco-iris, tipo etiqueta de peúga e desertor do tão antigo preto&branco lisboeta, talvez demasiado maniqueísta para uma presidência tão envolvente de comunicação e simpatia por todos (e especialmente por todas) como a de V.Exa.
É certo que tal xadrês, a se manter em crescendo a tendência futebolística quanto a um sistemático sucesso nortenho, se arrisca a fazer confundir Lisboa com um clube de futebol portuense, o que se configura uma hipótese a evitar, o que poderá justificar a preocupação de V.Exa.

Mas os corvos, os simpáticos Vicentes, como V.Exa sabe, são, desde tempos imemoriais, emblemáticos desta cidade. Situam-se entre o pacifismo idiota das pombas e o belicismo das bombas, estas representadas pelos falcões.
Pombas em mutação lusitana para ratazanas de asas nas zonas velhas da Cidade.
Falcões que, os que não foram para o Iraque, têm emprego e casa posta no aeroporto da Portela, sendo-lhes permitido comerem todas as aves que forem menores que eles, num descaro de avipedofilia ainda sem qualquer contrariedade.


Mas há mais para além da ablação corvídea: V.Exa consentiu, se não mesmo determinou, o desaparecimento da caravela, tão interiorizado símbolo das mais altas épocas do nosso País!!!
Referirá V:Exa a conveniência de mudança, de modernização da imagem, da emergência da promoção de novos criativos.
Sim senhor;
Apontará que o novo emblema foi adorado pela maioria das tias e santanettes autarcas a quem foi solicitado parecer e que até nem foi particularmente caro, apenas uns milhões de euros, a pagar pelos seus sucessores logo que para tal tenham disponibilidades;
Admitamos.
Insistirá V.Exa que o corvo é soturno, nem bico amarelo tem, como o melro, gentil ave que provavelmente V.Exa prefere; e que a Câmara mantém os contratos de prestação de serviço para 11 corvos, no Castelo, para croaçarem para os turistas; fora os do Zoo, se é que lá existem em full-time e não são os mesmos que fazem uma perninha nos já referidos terreiros do castro lisbonense.
Ficamos cientes.
Argumentará V.Exa que, após o abate da frota nacional, não seria razoável conservar a vetusta recordação naval que constitui a caravela, que sem os conhecidos irmãos Vicentes, se demonstrava inútil e desasada e já está sobejamente representada nos acervos dos museus navais e pró-navais que pululam pelos municípios com porto.
Compreendemos.

Mas não nos conformamos. Até porque não compreendemos as razões.

Fomos informados que, antes dessa decisão, V.Exa teve ameaças (talvez de alguns sectores dos mais nortenhos da Coisa Pública), ameaças de lhe partirem os corvos, de lhe afundarem a nau, de lhe rebentarem com os paços do Concelho, de pintarem de vermelho, verde ou azul às riscas, a flâmula axadrezada da Cidade.
Mas não terá sido porque tais ameaças lhe tivessem feito medo que terá havido tal mudança; porque um homem da noite, “jet7 pilot” , como V.Exa se assume, não tem nunca medo, qualquer espécie de medo, mesmo o de estar a alimentar, na sua alegre política de charme, o deficit camarário.
Também não terá sido por mero desejo de mudança pela mudança, cara para mais, pois pelo contrário é reconhecida a V.Exa. uma estabilidade afectiva, profissional e de opiniões, que não encontra nas figuras notáveis da nossa Grei equivalente contemporâneo.

Então porquê a ablação dos corvos? Que motivos, que razões, são aduzidas aos lisboetas corvófilos, como os signatários?
Receamos que não venhamos a obter resposta e que o MAL já esteja feito, quem sabe se irreversivelmente.

Mas, com os nossos cumprimentos, não queremos deixar de expressar assim aqui o nosso protesto

ASP

A sorte não é para todos
Depois o Jorge Fonseca trouxe a rapariga para a vista dos mortais. Não é alta mas sim empertigada, ou pareceu. Tem resposta para tudo e em vez de estar quieta, exuberou vibrantemente, mas é melhor pensar antes que é vaidade desgovernada e não acuidade. A bocarra é prometedora, os olhos são constante inveja e o J F ali a flanar é futuro abandonado e um mero capão. JF é talvez um bom protótipo. Ganha dinheiro, faz negócios e ninguém sabe sobre quê, ou antes, só alguns sabem e basta, foi jantar com a Tucha em tempos, mas tudo indica que ela o despachou, (haja alguém!), o indivíduo desapareceu por uns tempos, quem sabe se humilhado, de facto as pessoas parece que não gostam dele, é o que é, e então o modelo que se apresenta formoso e poderoso, consegue pôr-se lá na caminha da recém boneca, chama-se Ana Boneca, mas não se pode garantir o seu verdadeiro nome, pois como se viu nos dias anteriores, anda tudo com os nomes trocados e o da Tucha não há maneira de se saber qual é, e nós tristes com isso porque nos leva verdade. A gente também não gosta que o JF se deleite, essas coisas é melhor não se saberem para evitar ciúmes, até porque a rapariguinha, apesar de levantada, de carácter, entendamo-nos, é muito sôfrega e a gente gosta disso. LACP

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Danças com o real e o imaginário
O revoltado PG sabe que nas trevas não vai distinguir as formas e contornos à sua volta. Também ninguém sabe donde nasce a distinção dos contornos, se é coisa subjectiva ou se é suficiente real. Por vezes uma impressão diz-nos que há excesso de real e outras vezes uma impressão diz que há sujeito a mais. Por outras palavras, egos grandes sobrepõem-se ao redor e certos egos percepcionam generosamente tanto objecto que a força do real está lá. Bem, só com muita luz se vê bem e só assim se distinguem parcelas do lado de lá do real. Vem isto a propósito da negra constatação de que os seres cativantes nos enganam, porque quando bem iluminados parecem todos iguais. A ser assim, não há diferença entre a Tucha, a Leonor e outras, a não ser do lado de cá dos sujeitos encantados; como aconteceu com o herói de Yourcenar que só tardiamente percebeu que as mulheres são todas iguais, e já era tarde: tinha já perdido a vida.
Esta trapalhada é filosoficamente inconsistente e conduz a falsos juízos, derivações e até patetices, dado que é no chão dos prazeres que se deslocam os humanos, e aí, a intencionalidade e a beleza dançam de braços abertos em busca do infinito. LACP

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Siderados
Absolutamente espantados com a revelação involuntária da Leonor, que, numa conversa natural, elucidou que a Tucha não se chama Alice. Em rigor a Tucha usou um pseudónimo para escrever ao pintor. Porquê?! Porquê!? A Leonor não sabe bem, mas acha que foi para se defender e preservar a sua intimidade intocável, mas muitos pensam que foi antes para representar um papel, e por isso usou uma máscara. Esta baralhação continuou a acrescentar mais enigma à já secreta substância que se gostaria de encontrar debaixo de um nome, fosse ele Tucha ou Alice ou enfim o verídico termo que a nomearia. Regressou com toda a força a incógnita: quem é afinal a Tucha? Que essência dominante perdura e passa de um minuto a outro, que estrutura pode a sua intimidade repetir e porquê recorreu à mascara de actriz e disse que se chamava Alice, quando não se chama nada assim? Afinal, que dúvida a rói ou que desgosto ou mal ou perda faz com que a Tucha nos fuja, como uma actriz volúvel, levada e atravessada pelas veleidades do mundo? Julgávamos que era uma mulher bonita e marcante, julgávamos que poderia estar à mão de um ou mais cavalheiros galantes e delicados e afinal, ela foge escondida por trás de uma máscara doutro nome, e complica ainda mais a sua natureza . Revela enfim que há um motivo inacessível para a sua beleza, uma razão irrevelada onde se esconde e confunde um drama obscuro? Sentiu-se isso. Não é por acaso que a Greta Garbo lusitana nos puxa tanto. Não se sabe se a beleza vem do fundo escuro onde tudo está sem contornos e nada se vê. LACP
Absurdos
O Jorge Fonseca andou fugido, não tem dado notícias e pensou-se que tinha ido para o estrangeiro. Fazer o quê ninguém sabe, talvez algum negócio. Agora apareceu num descapotável. Também não se percebe para quê. Dizem que foi para impressionar uma conquista. Dizem até que o descapotável é emprestado. Tanto faz; dele ou emprestado foi buscá-lo para impressionar. Acontece que a dita, por sinal uma mulherzinha, deu-lhe guarida nos lençóis, mesmo sem precisar de andar com os cabelos ao vento, pois cabeça de vento já a tinha em conta. E assim o carrão ficou parado todo o sábado, em baixo, encostadinho ao passeio. Mas se era para ir dormir com ela todo o dia, para que é que pediu o descapotável emprestado ou comprou? LACP

quarta-feira, dezembro 03, 2003


segunda-feira, dezembro 01, 2003

UM SULISTA NO PORTO (4)
Hoje dei comigo a pensar o que seria se quem tem a responsabilidade por tudo o que se passa no Universo fosse submetido a um processo de certificação da qualidade. Qualquer coisa como a averiguação do cumprimento das normas da família ISO 9000. Seria, por certo, desastroso. Chegar-se-ia seguramente à conclusão que neste mundo poucas coisas estão bem executadas e a insatisfação dos clientes é notória.
Uma das “não conformidades” é, por exemplo, só termos uma vida. Não me parece que seja correcto não haver oportunidade para reprogramar toda a nossa existência e eventualmente corrigir os erros do passado. Os que acreditam na reincarnação assegurarão que este é o processo a que estamos submetidos e que as sucessivas existências se destinam à purificação da alma até atingir o Nirvana. Só que não tendo consciência das minhas vidas passadas, estou impedido de efectuar quaisquer tentativas de correcção de erros que eventualmente tenha cometido em outras épocas. Mas quando falo em erros, não se trata de corrigir as faltas e ofensas cometidas no passado. Refiro-me às grandes linhas de orientação, à rota que traçamos (ou que foi sendo traçada) ao longo da nossa existência. Confrange-me a ideia de já não poder dar um rumo totalmente novo a toda a minha vida. Porque gosto de música, caso tivesse enveredado por essa actividade, poderia ter sido maestro; ou talvez pintor, já que me dá satisfação borrar telas de cores fortes. E porque não, marinheiro, pois tudo quanto se relaciona com o húmido elemento me atrai e apaixona ? E mais e mais coisas que gostaria de ter feito / sido e nunca fiz / serei.
Parece que já estou a ouvir os meus amigos a dizerem-me: “Estás sempre a tempo. Nunca é tarde”. E é possível que seja assim, pois que se há coisas que estão irremediavelmente perdidas, outras há que ainda podem ser recuperadas. Por exemplo a História. Foi sempre um tema que me entusiasmou (gostaria de ter tirado um curso de histórico - filosóficas) e ainda hoje me apraz ouvir ou ler tudo o que com ele se relaciona. Principalmente História de Portugal.
Gostaria de ter os conhecimentos (e a memória) que alguns possuem sobre os acontecimentos passados. Não só da História dita oficial, mas também da pequena história. Da que não faz parte dos compêndios escolares, mas que corresponde às grandezas e fraquezas do género humano. Não se trata, como poderão pensar, de gozo em vasculhar as vidas alheias, de coscuvilhice. Não, acreditem. È que tudo é cíclico e a história repete-se. Inexoravelmente. Daí o interesse em conhecer o passado para mais facilmente se compreender o futuro. E para demonstrar esta afirmação, nada melhor que transcrever (a memória, ou melhor a falta de memória, não perdoa ...) um excerto de uma publicação que me veio parar às mãos por gentileza de um amigo. (1)

Passo a citar:

“Era jovem e destemido. Nada o fazia demover quando se propunha a uma empresa. E aquela não era de somenos. Pensou desbaratar o infiel, alargar o reino até novas fronteiras, fazer com que a moirama se arrojasse aos seus pés. Era sonho que já povoava a sua mente desde criança. E se bem o pensou, melhor o fez. Quiçá mal assessorado, rodeado de intrigas palacianas, lá seguiu rumo ao Sul de “peito afoito a setas e alfanges”. Não foi feliz. Bem cedo as coisas começaram a não correr de feição. Os primeiros embates foram violentos. A moirama era hostil e não lhe dava um segundo de descanso. Tal porém não o esmorecia e continuava pelejando, espadeirando a torto e a direito, parecendo indiferente a tudo e a todos e sem recear o fim que já se adivinhava. De pronto se viu isolado e cercado de infiéis. Os poucos amigos e companheiros que restavam deixaram de o poder ver, não sabendo se pereceu ou se foi feito prisioneiro. Dizia-se que tinha morrido, mas o povo sempre se recusou a acreditar em tal hipótese. Foi sem dúvida um período conturbado da nossa história. O problema da sucessão acarretava graves perigos para o reino. Os pretendentes ao trono degladiavam-se sem, contudo, conseguirem impor-se às forças vivas da região.
Esse mesmo povo que o adorara e aclamara em tempos idos, acreditava ( e ainda hoje há quem acredite piamente) que ele ainda haveria de regressar um dia, numa manhã de nevoeiro, envolto em brumas, das muitas de que aquela zona é farta; que uma nau entraria na foz do Douro e que, no meio de denso nevoeiro, D. Fernando Gomes, o desejado, regressaria, miraculosamente, ao Reino do Norte para tomar de novo as rédeas do poder.
(1) Trata-se de uma publicação intitulada “O Puorto é uma Naçãoe”, de Valtazar Balente, Edições Bibóporto, 1945. AVRD

Olhar ruminante 27NOV
Sidadania

O problema da epidemia da Sida tem, parece, carácter episódico, por campanhas ao sabor das disponibilidades financeiras.
Os portugueses, de índole indisciplinada nestas e noutras coisas, interiorizaram que se não fossem (muito) drogados ou desvairadamente promíscuos em matéria hetero ou homossexual, “não havia de ser nada”.
Mas tem sido. Tem sida.

Portugal está, parece, na Europa, com a maior taxa de infectados heterossexuais. E a crescer.
As autoridades, como é típico do país, fazem o diagnóstico, a propósito sugerem umas medidas mais ou menos a vulso e consideram o caso tratado, até próxima ocasião onde repetem a dose.
Insuficiente, como se prova, apesar de alguns resultados positivos nos chamados “grupos de risco”, que agora é uma designação tecnicamente incorrecta.
Agora o certo é referirem-se “comportamentos de risco”.
Bom trabalho.

Para precaver a continuação da epidemia há que convencer todos os cidadãos e similares em idades sexualmente activas, o que significa uns 7 milhões de sexos em Portugal, que o HIV os pode, realmente, atacar, se não tiverem determinadas prudências.
E que só por se não ser cidadão de Sodoma ou Gomorra se está protegido de o apanhar.
Como se dizia na guerra : “ O inimigo espreita em todo o lado! Cautela!”
Neste caso não é com o que dizes, mas com quem o fazes ou como o fazes.
E que é porreiro comer rebuçados sem papel, mas há que garantir previamente a qualidade dos ditos.
Nisto é fácil cair na ordinarice pura e simples, mas não há que hesitar se tal, por choque, deixar um grilo conselheiro na tola dos mais ardentes amorosos.

ASP
O que é isso de blogg ( blogue? blog? belogue?).

Há por aí quem se interrogue por quê e para quê a recente vaga de blogs.

Para mim, é uma prova de vida.
Isto está mau, colegas!

ASP

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