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sábado, janeiro 31, 2004

Folhetim calhado

Está tudo quase preparado

Depois de esforçadas diligências, houve consenso e ficou combinado que a reunião –conferência- festa, promovida por uma tal Ana Boneca Gata, iria ter lugar no sábado, a partir das 17 horas. Ela pretendeu estender o tempo, ao marcar esta hora. Era para as pessoas estarem sem pressa e ansiedade de “partir para outra”: Queria também desviar a ideia de que era convite para uma festa intensa tardia e noctívaga. Foi por isso que não a quis numa sexta ou sábado à noite. Achou que nesses dias e horas não dava concentração e às cinco da tarde é que era bom. Para aguentar as pessoas mais tempo, o local combinado foi nem perto nem longe de Lisboa: Sintra. Em casa de A.V. A.
LACP
Olhar ruminante e negro 1
Sobre o sistema político lusitano – um lamento

Democracia? Não me parece.

Diz-se democrático, quando apenas procura cumprir, nem sempre, os procedimentos instituídos da democracia formal.
Burocratizou-se, corrompeu-se, falta-lhe chama, Ideal.
Transformou-se numa partidocracia (veja-se o afastamento e a desresponsabilização dos eleitos dos eleitores) num contexto mais geral de plutocracia, ainda incipiente é certo, mas no essencial já montada e que está a crescer monstruosamente.

(segue no próximo dia)

ASP

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Folhetim calhado

Preparativos

Leonor insiste com A B G para lhe dar um certo número de telefone. Mas Ana Boneca Gata não quer dar. Diz que não o tem e não se sabe ao certo, é verdade, os números que já tem e os que faltam. Leonor precisa absolutamente de se antecipar, está a correr riscos, pode perder a ocasião de falar com aquele que ama, a coisa está-lhe a fugir das mãos. LACP

Folhetim calhado

A B G começa a organizar a reunião com todos

Ana Boneca Gata começou a fazer os primeiros telefonemas para auscultar a disponibilidade das pessoas par uma reunião geral. Não conhecia todos que contactava e teve que recorrer a muito polimento e a um certo jeito, que parece que tem, para falar com este e aquele sempre à-vontade. Começou também a pensar no local para a reunião e nesse sentido, passou em revista mental os seus amigos e conhecidos melhor instalados na vida, a ver se tinha uma ideia em qual casa devia correr a festa. LACP

quarta-feira, janeiro 28, 2004

O Povo

Vivemos com um povo mitómano.
Age essencialmente pelo sentimento, pouquíssimo pela Razão.
Adora heróis e culpados, que busca incessantemente.
Senhor de uma ancestral frustração, a que é difícil descortinar as raízes, autoflagela-se quotidianamente, sente-se abusado pelo Poder, mas nada faz para que tal não aconteça.
Continua a acreditar em vendedores de sonhos.
Mas recusa-se a aceitar ter sido enganado, quando se desvanecem.
Com a lágrima à flor da pele para dramas individuais (vejam-se as telenovelas), revela-se quase insensível quando o caso se despersonaliza, se torna menos concreto, passa para a escala social.
Acha que, por ser português, tem todos os direitos, por terem sido “conquistados” e apenas os deveres a que é obrigado pelo Estado, que ele desconsidera sistematicamente, que trata de “eles” e de quem desconfia, quase por dever.
Adora sessões públicas de emotividade manifestada, autos-de fé, rituais de lamentação, catarses de um descontentamento estrutural em caldo de orgulho de razão indecifrável.
Mas tem coisas boas.
Por exemplo, ser o meu Povo.
ASP

Folhetim calhado

Números de telefone
Para organizar a reunião dos actores do folhetim calhado, (não entram os do folhetim espalhado, a esses deixem-nos lá governar o país ou julgarem que o governam), a Ana Boneca Gata já tem praticamente os números dos telefones de bolso de quase toda a gente. Não conseguiu o da Tucha nem de outros bloggers em casa alheia. Mas há-de lá ir. Não dá é os números a ninguém. LACP

domingo, janeiro 25, 2004

Folhetim calhado

A senhora da ceifa ataca de novo
Andou metida consigo, a repensar a estratégia e a reprogramar a actuação e findo o tempo de cálculo, voltou para a estrada, onde a ceifeirada não exige grande astúcia. A colheita é proveitosa, é certo, mas na estrada não há muitos companheiros, a velocidade é de tal ordem que evidentemente só por acaso uns se reconhecem aos outros. Ou seja, a metafísica da estrada como lugar de caminhada, onde os insatisfeitos se encontram ou se tocam por afinidade ou partilha ou vontade de se verem, não se poderá verificar, nem na fantasia. Bem, mas como se disse antes, a senhora da ceifa é democrata, não se fixa num território ou escalão etário e vai desta, fez o seu trabalho diário na A1, deu uma mãozinha na A8, umas lançadas na IP3 e resolveu seguir para trabalhos mais esforçados, ceifar antes para um lado onde os riscos não estão à vista desarmada, se instalou a confiança e os terrenos se julgam com um grande futuro. A senhora estragou num só domingo, umas tantas famílias, uns tantos pares amorosos, uns tantos velhinhos, umas tantas criancinhas, mais uma cestada de adolescentes, uma data de garbosos e até gente de muito boa saúde, confirmada esta por doutos e muito científicos diplomados, e, por fim, zarpou para o seu canto escuro, donde observa habitualmente a movimentação incauta dos seres.
Ninguém no folhetim calhado foi atingido. Pode-se acreditar, assim, que a Senhora da Sorte está sempre a convocar Ana Gata, e então cobre com suas asas brancas todos os que estima no tal folhetim e o ataque traiçoeiro da morte passou ao largo. LACP

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Ahmor, pois é
Ah raios
Que espera
Que coisa
Que merda
Que seca
Meio dia
Não vem
Que faço?
Não posso
Três horas
De espera
Que cabra
Estou farto
Embora...
Lá vem
Com calma
Zangado?
Que ideia
Querida
Foi pouco
Um instante
E estive
A pensar
Em ti

ASP

quinta-feira, janeiro 22, 2004

UM ABRAÇO QUE TE DEVO...


Por um instante, volto àquela tarde.
Fazia um dia bonito. E uma luz tão intensa que feria a vista e deixava invisível a outra margem do rio e as siderurgias fumegantes do Barreiro e os recortes cuniformes de Palmela ainda mais ao longe, tão mais ao longe.
Timbuktu fica para lá de Palmela. E a Índia, Mandalay e SAMARCANDA, assim mesmo, com maiúsculas.
Tudo fica para lá de Palmela menos nós.
Um dia sem horizontes: eu ao teu encontro.
Nestas linhas que se seguem vou fazer de conta,
- se não te importas,
que não se passaram entretanto mais de vinte anos.
O meu abraço ficou por dar mas entrego-te confiante uma das mãos que o bolso tinha presa. Está um calor canicular também por dentro, e caminhamos de mão dada por Lisboa com a sensação plena de quebrar factos proibidos.
A tua mão diluída na minha, as pessoas que se cruzam connosco nos passeios, todas a preto e branco, mal fotografadas, mal reveladas, mal impressas. Só nós dois a cores: a todas as cores do arco-íris.
O sol por cima.
Ignoramos o frenesi dos carros e o grito distante das sirenes dos bombeiros que correm em urgências vermelhas a apagar fogos em edifícios suburbanos.
Eu e tu: dificilmente duas palavras ficariam melhor juntas.
Eu e tu com a satisfação antiga das crianças que adivinham ter chegado a hora de saltar o longo risco branco da inocência.
- É isto ser feliz?,
quis perguntar-te e não fui capaz com medo da tua resposta
O que vamos fazer agora não importa. Não importa coisa alguma. Importam os teus olhos claros, importa o sol, importa o arrepio da pele dos pontos em que toca a tua, importa o som da tua voz falando baixo ao meu ouvido todas as coisas extraordinárias que sustentam o universo.
Eu e tu: e o céu por cima.
Para lá de Palmela fica a Índia. A Índia fica na margem esquerda do Tejo, e vou morrendo lentamente na margem direita.
Mas, depois, passaram-se de repente vinte anos.
A vida não tinha o direito de fazer certas coisas connosco,
- pois não?
Pois não.
Mas fez.
Tenho aqui guardado, no lugar das coisas que continuam a doer, o teu abraço ainda intacto, embrulhado no papel vegetal das memórias encantadas. Embrulhado no papel vegetal dos cisnes.
- Onde estás?,
para que possa dar-to finalmente, no ponto final da minha saudade.
Estejas onde estiveres, também não importa. Sejas quem fores agora, recebê-lo-ás, estou certo, da mesma maneira que o esperavas nessa hora da tarde que te devo.
Vejo-te caminhar na minha direcção: abres os braços por tua vez.
Tudo desapareceu do redor. Só ficaste tu. Tu e eu. E um abraço que terás de guardar só para ti nesse mistério que são os acontecimentos impossíveis.


AM
Folhetim calhado

O estranho lugar
É muito estranho. A Tucha alertou toda a gente quando correu que estava livre e era uma brasa. Ninguém a conhecia, mas quando correu isso, ficaram doidos. A Leonor ama um indivíduo e praticamente nunca falou com ele. Então como é que sabe? Será uma biografia de herói que ficou da infância? Sofia Coppola, no filme, também virou o bico ao prego, pois quando se julga que há carnuça no amor, ela aponta para um Estranho Lugar do Amor ( vai estrear em breve). Neste folhetim, contudo, as pequenas estão mal, porque os seres masculinos são muito corriqueiros e têm pouca nobreza. É chato para elas. Têm que andar com um lampião a ver se encontram um de jeito, no lixo. LACP

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Barco da carreira dos Tolos

“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)
Lugar na proa desta semana:

O Establishment, ou seja, o Sistema Político existente, nomeadamente:
· O Grupo Parlamentar da Maioria, por tentar convencer o Zé (Povinho) que a carta do PR não era uma nítida crítica à eficiência/competência do Governo e por continuar a usar a táctica de oposição ao ex-governo (agora alegada oposição) como recorrência sistemática da táctica napoleónica de a melhor defesa ser o ataque. O que já raia o ridículo, com o PS desorientado e manifestamente inofensivo. Apenas chateia, como as carraças.
· Ao lado, na proa, os grupos parlamentares da Oposição, por apenas verem no texto do PR uma crítica ao desempenho do Governo e não vislumbrarem críticas que vão mais longe, à ineficácia da própria Oposição, no sentido de surgir como alternativa credível à Situação, o que não acontece.
· Finalmente, o próprio PR , que faz textos onde partes antagónicas encontram argumentos para eternizarem as suas condutas, ao fim e ao cabo as que textos pretendem extirpar. A não ser que os recados tenham sido avisos e aí outro galo cantará...
ASP

terça-feira, janeiro 20, 2004

Folhetim calhado

Laços Invisíveis II

A Ana Boneca Gata que chegou a esta cidade trazida pelo Fonseca, chegou e não se foi embora, viu-se livre dele e ficou com novos amigos. Leonor veio trazida pela Tucha, é amiga dela, e enquanto a Tucha não é simpática, (parece) a Leonor entrou logo em contacto, é faladora, determinada e está apaixonada, mas não se sabe por quem. A Tucha desencadeou por sua vez uma onda de paixões e sofreguidão, mas não deu nada, ela está sozinha. Parecia de feitio calado, mas surpreendeu todos a fazer retratos agudos de figuras aí da praça, pelo que ninguém teve a noção exacta de que o silêncio dela era afinal uma espécie de qualidade. O pintor J dramatizou-se encolhido lá no seu sofrimento de fora de horas, num atelier onde se desgasta, quase furioso, em pinturetas que alguns talvez vejam mais tarde e não gostem. PG é um ambicioso que ficou com ciúmes de MC por este ter ido lanchar chá com a Tucha, uma vez, para os lados do Chiado. Esse MC saiu dessa cena completamente apanhado e foi visto no Bairro Alto até altas horas a vaguear e sem falar a ninguém.
E é assim, são estes os laços. Uns conhecem-se, outros mal se conhecem, ou só se conhecem de vista, há amizades em curso, há uns que chegam e ficam por uns tempos ou por muito tempo ou podem ir embora e desaparecer, tudo acontece. A Tucha por exemplo, conhece de vista o pintor J e foi-lhe escrever uma carta. A Ana Gata não conhecia bem esse pintor, mas esteve com ele no Bairro Alto a ouvi-lo gritar e não se sabe se seguiu para o atelier. Também se diz que RB dormiu com a Ana Gata, o que não é nada de especial, ela gosta de dormir, mas RB fez um desmentido público no blogue Pais Relativo. Pronto, está bem, foi indiscrição. Agora a Ana Gata, que gosta de todos, é assim o seu feitio, é dada, gosta, que é que se há-de fazer, resolveu que quer juntar todos, para ver se se conhecem melhor, mas não vai ser fácil, dadas as diferenças.
É verdade que a Leonor quer ver aquele que ama e se a Ana organizar, talvez consiga esse desejado encontro. Mas quem garante que aquele que ama está neste círculo? Alguém levantou a hipótese de ser um surfista do Ondas, outros asseguram que é alguém do Rude Golpe, mas afinal, só a mulher é que sofre. Perguntam onde está a lógica disto tudo; mas a lógica é uma natureza do visível e do invisível, do vai vem do reconhecimento, do afastamento e da paixão, da verdade e da mentira, do sofrimento e da alegria, da seriedade e da pândega, da sorte e do azar, da inveja e do ciúme, do desejo e da fuga, do medo, da sombra e da luz, das ideias fluidas e das ideias fixas, do segredo e do que for revelado e dito, a lógica, é a escala das partilhas, umas partilhas já conseguidas e feitas, outras imaginadas, outras para mais tarde...
Bem, esperemos que a dinâmica Ana Boneca Gata consiga mesmo pôr em contacto as gentes deste folhetim. LACP

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Folhetim calhado

Chocolate para dar
À Leonor apetecia telefonar-lhe, mas lá se contem e adia. O problema é que se vai acumular intensidade e a certa altura ela está a dar cabo dela própria. Mais valia que fosse embirrar com alguém, deitava abaixo, mas isso não está no seu género. Quer absolutamente encontrá-lo, forçar a sorte de um encontro, dar de caras com ele, vê-lo. Acredita também, que o elemento indefinido é alimentado pelo fogo, é o seu estado. Nesta ânsia, foi comprar um chocolate, mas é para dar. LACP

domingo, janeiro 18, 2004

Sol
Por vezes o triste mês de Janeiro, esse cinzentão post traumático, resolve despir-se da cor cinza habitual e adopta um claro e brilhante amarelo de Nápoles, iluminado por um rei sol todo poderoso. Quem havia de dizer que a emagrecida Leonor, mesmo sem amor, ia acalentar-se com sol? Já se sabia que é uma mulher de fé, o que nos agrada imenso, já se sabia que é belíssima a conviver na escura tristeza, já se sabia das suas afeições cavas que tanto a prendem ao lado quente da terra, já se sabia que mede com seus olhos debaixo de água e sua voz sumida imperceptível, o movimento de chegada doutros universos, para onde quer ir levada, se pudesse. Julgou-se que isso seria viável num contexto figurativo, com personagens em movimento de dança e sedução, mas afinal bastou uma nesga de sol para a pequena ficar tão feliz, que as prévias convicções sobre a natureza, foram por água abaixo à menor prova real. LACP

sábado, janeiro 17, 2004

Extractos de carta de amor nunca enviadas

Se o século XV o foi dos descobrimentos, os anos 60 e 70 foram-no das descobertas.
O casamento era, então, claro. Não tanto pelo amor mas pela naturalidade própria das coisas que se querem acontecidas, a seu tempo, nos sistemas límpidos, de antigos, de passar a vida.
Germinava, então, a juventude a crer-se em caves de jazz, em grupos fechados e algum reviralho como eco candente do visto lá fora. O jean instalava-se, coçando-se à Dean, as trunfas caíam copiando os Beatles.
Finou-se a gravata, a mulher saía, bem boa, melhor, da prisão do sexo. Murmuravam os velhos. O país batia tão só contra o mundo. E havia coragem. E havia poema, espalhado no ar. Havia um glorioso sentir de se estar numa charneira de época. E as dúvidas surgiam e eram devidamente tratadas em conversas com copos.
Mas fora o dos foragidos da burguesia, o amor esperado era o amor prosaico, namoro à experiência, para seguir família.
A Igreja mandava na vida das gentes. O pecado estava presente no bom. O sexo servia, se sacralizado, para procriar somente, ter filhos sem dúvida, meu Filho sem dúvida, porque o amor meu Filho, conduz ao pecado, deve ser olhado primeiro para Deus, ser canalizado, pelo amor conjugal, numa prece a Cristo, para que nos proteja do mal e nos dê farturas amén. Parece mentira, mas era assim mesmo.
Prazer um com o outro, blasfémia boémia. É gente drogada tarada infeliz, condenada ao mundo, a viver a vida e a perder a morte. Amén outra vez.
E a gente lá ia, concertada e leda, nas nossas presenças de putos crescidos a querer a carne com fúrias de dentro, mas só a comê-la em sandes de espírito e pão integral.

Casei-me contente em festa de praxe, com prendas e bispos e fraques lagostas. E dei-te por prenda a jeito de esperança a cruz de esmeralda deixada da avó. Começou então, (por certo te lembras), a busca de nós, do encontro a dois, para além família.
Casei com os outros nessa festa boa. Só muito mais tarde me casei contigo.
Mas passou depressa. Fizeste-te outra. Já te vejo ao longe.
Por certo agora não olhas o sol pela cruz que eu te dei.
Exposa.
ASP

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Não vejo razão.Insisto em pensar, na modalidade dedutiva.
Cogito ergo sum. Com o jeep ergo o sun.
Contra os costumes instalados, que preferem a indução como forma de entendimento.
Dá no que deu.
Não vejo razão. Só satrapias.
Nabos. Do Cudonosor.
República da Estupidez é o que é.
Posso provar, com testemunhas em leasing.
Antes o Reino, que proporcionava desculpa, pois as monarquias são de fundamento divino.
Oxalá Deus queira.
Não vejo razão. Só mercado.
Já não há democracia, só aparências.
Instala-se a Plutocracia com tranquilidade e segurança.
A posse de dinheiro é o sucesso.
O sucesso é a Felicidade.
A Felicidade é a finalidade da Vida.
O dinheiro é a finalidade da vida.
Q.e.d. (isto é latim do mais primário que me foi possível lembrar, como o cogito acima)
Realpolitik, bardamerda. Pragmatismo, bardamerda.
(Isto, bardamerda, é vernáculo do mais legítimo como processo de raciocínio bardamerda que me foi possível lembrar. Pena que se tenha vulgarizado).
Fim das ideologias, da História, da Família, da Ética, da Honra, do Amor, até do Prazer, bardamerda.
Nem vejo razão.
Assumo-me antigo. Passado, como o vinho que se compra a risco nas casas de comida em transição para agência bancária.
Agora anda tudo ao taco, à unha, à cunha, kusproar na expectativa de uma escolha pela sorte ou pelo Poder, não. Antes o dantes, o Dantas mesmo, Pim.
Poder do taco. Poder poder. Bardamerda.
Cupidez como forma de vida. Autoantropofagia em caldo de estupidez.
Falta de pensamento. Não há razão. Inteligência descurada.
Truques e servidão. Mardaberda.
Eu, pés para que vos quero, pés para a cova.
E tú?

ASP

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Une blague en blogue
Raisonnement en rond.

(ingl. :Doors & military purchases)

L’État c’est moi.

Voyons :

L’État dépend du Gouvernement
Le Gouvernement dépend du Parti
Le Parti c’est moi.

Oui, avec mes petits et grands amis.
D’accord, et mes divers valets
Bien sur, avec mes cent soldats.

La question d’être minoritaire…
est une fausse question.
.
Il me faut du temps. Pour acheter et recevoir.
Est-ce que vous comprenez déjà pourquoi je m’en fiche de tout le reste?
Je suis l’État et l’État est Éternel.

(isto é em francês não sei porquê, talvez pela minha assumida francofilia no que concerne a literatura, filosofia, gastronomia, modas e bordados)

ASP
Folhetim calhado

O figurino
A Tucha regressou cheia de força, poucas certezas e muitas ideias. Surpreendeu os amigos quando apareceu com vontade de falar. Dava a impressão de que o que dizia para fora não era tudo, mas era mesmo assim um pedaço do magma de ideias que nasciam e morriam no caos íntimo.
Disse que tinha estado a tentar fazer um perfil psicológico, pois achava que não se faziam suficientes recortes desse tipo e não se recorre a psicólogos para elaborarem “tábuas de consulta” sobre os homens públicos.
Disse que estranhava a cara do homem, que ela não batia certo, que o pronunciamento do nariz não dava com as sobrancelhas ausentes, de facto não tem sobrancelhas, e também as pálpebras enviesadas para baixo, contribuíam, por esse lado, para o engano;
que os olhos fazem um ângulo descaído, estão na extremidade e alteram de formato, conforme se observa a carantonha de perfil ou de frente;
que o timbre da voz e os dentes de rato debaixo de lábios mal cortados, poderiam ser elementos suficientes para uma qualquer consciência sensata entrar em traumatismo, mas aparentemente esses factores não se imiscuíram na lata dele;
reconheceu que tem um certo grau de sagacidade para detectar o essencial no ar e deixar de lado o acessório;
que adapta a linguagem e esconde o que pretende atingir, fingindo, com palavras dispersas, que está a gerir as circunstâncias;
que é dotado de uma boa memória de actor, pelo que dita se necessário, essas frases de circunstância, mas por vezes estas surgem tão vazias, que vence antes o ar de navegar na estratosfera, desligado dos problemas reais;
que outras vezes responde com repentismo e improvisação vocabular e aí não se dá mal nesse instinto e sabe fazer a coisa;
que salta à vista que o homem não é convicto, é antes manipulador e quando se abalança a chegar ao posterior e não ao imediato, sai desadequado o discurso e deixa a impressão de não estar no seu papel e não estar vestido com o fato à sua medida;
que na realidade pretende jogar em vários tabuleiros, sem ser capaz de ser directo, mas acaba por vencer antes o discurso da omissão.
Há quem chame a isso demagogia, mas a Tucha prefere chamar “retórica do discurso político”.
Isso, dizia a Tucha, não tem nada a ver com o passado de trauliteiro, tem a ver é com a pertinácia e teimosia de bater sempre no mesmo objectivo como quem bate sempre na mesma tecla. Com habilidade apanha facilmente o que importa dizer para despachar, mas é antes pouco informado e pouco lido, mas isso, calcula ela, deve-se à deformação jurídica de ex estudante. A Tucha acha que essa formação jurídica está logo inquinada e não deixa ver os lados reais e difusos das sociedades e além disso, assegurou, envaidece despropositadamente. Não é por acaso que os ex estudantes disso, ficam empinados, acrescentou ela com desdém e alguma injustiça. E mais disse que a vaidade é um dado acumulado desses tempos, que lhe define o carácter, cria distâncias e o faz operar, sem que se consiga evitar a impressão de um estranho perfil fugidio. E mais disse que se mexe com elasticidade, num aparato de actividade e fluidez e, para conseguir esta aparência, deixa o cabelo um nada comprido, natural e não convencionado, por forma a criar uma imagem não cinzenta de homem dinâmico.
Agora que foi avisado que andava longe do país, só lá por fora nas cavalarias internacionais, longe da piolheira, a deixar o país real sem governo, saltou rapidamente para o interior quase profundo, a bandarilhar, num governo aberto de propaganda e maior acuidade. Com isso desvalorizou a inteligência dos outros e continuou o branqueamento.

Em tempos convencemo-nos todos de que nunca a Tucha seria capaz de se interessar por coisas publicas, elaborar um discurso político, participar, e afinal deixou-nos pregados ao chão com a série de tiros de caçadeira que deu neste coelho. É muito perigoso julgar a natureza humana. Aquilo que parece não é, nem em política. É melhor meter a espingarda no saco, sai tudo furado, se calhar este coelho ainda foge. LACP
JÁ NINGUÉM FALA DO PICO RAMELAU

Às vezes, quando o Telejornal falava de Timor, ficava à espera que me falasse também sobre o Pico Ramelau. Há que tempos que não tenho notícias do Pico Ramelau. Às tantas já toda a gente se esqueceu da importância que tinha o Pico Ramelau,
(o ponto mais alto de Portugal com dois mil, novecentos e cinquenta metros de altitude),
como toda a gente parece ter esquecido os afluentes da margem esquerda do Tejo
(Sever, Sorraia e Coina)
e da margem direita do Douro
(Sabor, Tua e Pinhão, Corgo, Tâmega e Sousa),
que a gente seguia através da caninha do professor a indicar os risquinhos no mapa pendurado na parede – Portugal Continental, as Ilhas Adjacentes e as Províncias Ultramarinas – com o Alto Alentejo a rosa-choque e a Beira Alta a azul-pervinca, a caninha a desviar-se de quando em vez do mapa e da parede para mergulhar com um silvo tenebroso
tzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuummmm
em direcção à orelha do distraído do Abilório da fila da frente, a regressar depois tranquilamente para a Serra dos Candeeiros, para o Maciço do Montejunto/Estrela ou para as Ilhas dos Bijagós. A orelha crescia e ficava encarnada enquanto o Abilório da fila da frente a esfregava para cima e para baixo com a mão como se esfregasse a alma humilhada da risota vinda das filas de trás, o retrato de Sua Excelência o Presidente da República, Senhor Almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz
(mais conhecido, em segredo, no recreio, pelo Cabeça de Abóbora),
a olhar reprovadoramente para o Abilório da fila da frente, quase ia jurar que consegui ler-lhe nos lábios
- Bem feito!,
ao mesmo tempo que a caninha avançava depois corajosamente pelas linhas reduzidas do Tua, do Vouga e do Sabor e pelo ramal de Trofa-a-Fafe e pelo caminho de ferro que ligava Luanda a Nova Lisboa que é coisa da qual, estou convencido, já toda a gente se esqueceu.
Ainda um destes dias, a meio do noticiário, me pareceu ver a orelha do Abilório da fila da frente, enorme como nunca a vi, encarnada como um bife do lombo cru, com o Abilório agarrado a ela com as duas mãos como se assim se defendesse melhor da humilhação da risota vinda das filas de trás, amuado com a natureza que o fez distraído, zangado com o padrinho que lhe pôs o nome de Abílio e o atirou, abecedariamente, para a visibilidade da fila da frente, amedrontado com aquele ruído de abelhão
tzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuummmm
da caninha do professor agora entretida na exploração dos dezasseis quilómetros quadrados da Cidade do Santo Nome de Deus Macau, situada no delta do Rio das Pérolas, na descoberta do forte de São João Baptista de Ajudá e na delimitação do grupo oriental do arquipélago dos Açores, enquanto Sua Excelência o Presidente da República, Américo de Deus Rodrigues Thomaz, que há-de ficar para sempre como o Cabeça de Abóbora, deixava cair os olhos de carneiro mal morto sobre o tampo de madeira inclinado da minha carteira, vasculhando os palavrões que a gente riscava a canivete, com certeza para fazer queixinhas à caninha, para a distrair da sua viagem ao longo da linha de caminho de ferro entre Lourenço Marques e a Beira, e a fazer baixar com a rapidez de um relâmpago num
tzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuummmm
mais próprio de um caça-zero na batalha de Guadalcanal sobre a minha orelha que eu protejo já com a mão, antecipando-me, e procurando tapar com o braço livre os nomes femininos e corações entrelaçados que sulcávamos a canivete por entre os palavrões como se, com isso, puséssemos um fim à distância impreenchível do pátio de terra batida que ficava para lá do muro amarelo que nos separava do edifício onde estavam fechadas as raparigas.
Não era. Não era a orelha do Abilório da fila da frente, inchada de canadas e humilhações, era uma reportagem sobre Timor que me deixa logo à coca de notícias sobre o Pico Ramelau. Mas um silêncio profundo desceu sobre o Pico Ramelau, ninguém fala do Pico Ramelau, toda a gente já se esqueceu, certamente, da importância do Pico Ramelau
(o ponto mais alto de Portugal com dois mil, novecentos e cinquenta metros de altitude),
como toda a gente parece ter-se esquecido – palavra!, vi outro dia num concurso – que o Tejo nasce na serra de Albarracim, já para não falar do enclave de Cabinda que está encaixado entre o Congo Francês e o Congo Belga , das seis ilhas de Cabo Verde que formam o grupo de Barlavento
(Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Boavista e Sal, com os ilhéus Branco e Raso),
e da protecção natural da orla costeira ocidental - Berlengas, Farilhões, Forcadas e Estelas.
Não era. Não era a orelha sacrificada do Abilório da fila da frente, as balas das milícias indonésias talvez costumassem fazer um
tzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzziiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuummmm
muito parecido com o da caninha amaldiçoada que fugia volta e meia dos sopés das serras de Montemuro e Leomil, mas não havia nenhum retrato de Sua Excelência o Presidente da República, o Senhor Américo de Deus Rodrigues Thomaz, a olhar-nos numa insistência maldosa de molduras, pendurado na parede branca onde era capaz de jurar que lhe lia nos lábios
- Bem feito!,
de cada vez que nos via a esfregar as orelhas doridas com as mãos de esquecer humilhações, não havia lancheiras de pão com marmelada escondidas por debaixo das tampas inclinadas de madeira das carteiras à mistura com canetas de tinta permanente que tinham o vício terrível de entornar uma tinta muito pouco permanente, nem havia sequer maneira de alguém me trazer notícias desse Pico Ramelau que não sou capaz de esquecer mas que já perdi algures na cartografia da vida.


AM

terça-feira, janeiro 13, 2004

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana:

O cómico Dr. A.J: Jardim, presidente da R.A.Madeira, por justificar, no seu inimitável dialhecto, que as acusações de uma ONG lhigada à protecção das crianças, de que se mantinham na Madeira práticas de pedofilhia e lhenocídio, eram manobras de conhecidos comunistas (maçons & outros pilhantras).
(lembremo-nos do padre Frederico e do seu protector, o bispo do Funchal, só para levantar um pouco o véu pela ponta eclesiástica).
ASP
Folhetim Calhado

Os piores são os melhores
As festas dos outros, as famílias dos outros, as crianças felizes, a vista de tudo visto do lado de fora, o escuro de noites compridas, o frio da casa mal aquecida, azedume enquistado, mal estar de silêncios exagerados, febre e fúria, poder influente despropositado do vão da alma, tudo e mais do que tudo, desespero e gritaria é isto o pintor J. Andou a gritar pelas ruas desertas à noite, escapou-se para o pé do rio já lá não estava ninguém, berrou gritos de fugir, tudo raiva de energia a mais, cama a menos, trabalho atrasado, auto comiseração, demasiado tempo ao serviço do ego, já tão novo a fazer bonecos que outros compram em exibições de teatro, sabe bem que tem de responder à Tucha, deve-lhe uma carta, que ele há muitas formas de outro mundo, e uns mais verídicos, outros mais íntimos e desgraçados, cartas nada certas nem verídicas está-se a ver de longe, tudo tretas e petas e não vai escrever carta nenhuma, há-de lhe dizer de viva voz, isso vai, de viva voz e gritada, àquela brasa, a verdade verdadinha, não ande ela a fingir-se de cavalarias altas, está danado, está danado de o levarem sem o levarem para lado nenhum, disfarce assim não vale, a deambular como um tonto entre o escuro das noites estúpidas, não vai escrever nada, nada.
Não se sabe como, está sentado à espera, talvez num daqueles miseráveis antros da pura decadência do Alto. É Ana Boneca que o escuta, que lhe bebe a bebida, que foge com ele nas raivas inconformadas da gritaria. Que fazes! Que fazes tu! Que fazes nesta vida tu Ana Gata já que aqui estás e a gata que lhe acha tanta graça lá vai ficando, que destino tem se não ficar em qualquer lado desde que seja menos mau do que o sítio anterior? LACP

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana, face ao ocorrido em 2003:

Os agentes judiciais ligados ao Processo Casa Pia – é difícil num ano fazer tão mal à imagem e à credibilidade da Justiça portuguesa, como o conjunto João Guerra + Rui Teixiera + PGR conseguiu.
O papel do Governo nesta matéria primou pela ausência. Também o que se esperava de um ministério onde a ministra está no estrangeiro por três meses e ninguém dá por nada!!!!!

ASP

domingo, janeiro 11, 2004

Folhetim calhado

Os laços visíveis

A ideia da Ana Boneca Gata de fazer uma reunião com todos vai deparar com dificuldades. Por exemplo como é que ela vai conseguir trazer a Tucha para o convívio humano? A Tucha ainda não recebeu resposta do pintor J e nem sonha que não vai receber resposta nenhuma. Ele decidiu que não vai escrever a contar-lhe a vida de pintor porque está inspirado na solução de Miró que até ameaçado de ser enforcado por não falar, não falou mesmo assim e já estava atado. Também acha que não deve falar. A não ser que mude de ideias, o que acontece felizmente a muito boa gente. Vejam a Leonor, também não conhece muito bem o pintor J, não se sabe bem em que grau. Por outro lado Leonor tem ciúmes da Gata e além de emagrecer não convive bem. E há muitos mais casos difíceis. Quem é que quer estar muito tempo com o PG?, ou aturar o Fonseca empreendedor?. É uma trapalhada, se não se fixarem uns aos outros por fios bem mais visíveis. No dia a dia, o que liga uns aos outros? Quer a Gata juntar pessoas invisíveis? LACP


sábado, janeiro 10, 2004

Trechos de cartas de amor nunca enviadas:

Vivo com um segredo: convivo com os deuses em fantásticas ideias do devir.
E tenho. De facto, menos tempo que o tempo total que creio ter.
Pois vivo a renascer sempre que afago, com a lentidão propícia, um sei jovem e dado, adequado ao tacto e túmido de desejo; sempre que encontro, num cruzar de olhares, aquele entendimento que nunca consegui na fala, gesto ou escrita; e, mais que nunca, reconheço em ti, oh deusa, em gente ou ambiente, essa ideia tão simples, tão de sempre e rara, a que se costuma chamar, talvez prosaicamente, amor.
E assim remoço, aos saltos, satisfeito, eu.

Coisas tão simples como percorrer com o dedo mais sensível da panóplia dos dedos conhecidos, a cava suave das tuas costas nuas.
Como soprar-te num vento morno e terno, a penugem precisa da dobra dos teus rins, nas tuas costas nuas.
Como rolar, em lentidões estudadas, os meus lábios vibrantes, nos volumes discretos abertos à carícia, das tuas costas nuas.
Coisa tão simples, tanto imaginadas, mas sempre ultrapassadas por outras coisas simples mas muito mais brutais de quem se viciou na pressa do momento de percorrer, soprar, rolar, sentir, amar, viver, nas tuas costas nuas. ASP

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Sobre o fundo da questão
Diz Você caro cologue (neologismo que significa colega de blogue) que no fundo, no fundo, está o Fogo, onde o chernes se assam, se em fogo lento ou se esturram, se em acesíssima chama.
Mas Anaximandro, que corresponde ao pensamento cruzado de jónico Anaxímanes e do luso Camandro, dizia, porque não sabia, então, escrever:

“ É preciso que a questão tenha fundo”.

O que nos leva a outros géneros de problemas e a toda a tralha cosmogónica que apetece aflorar, mas que não será aqui o local indicado.
Descartes, que deixou de existir simultaneamente quando deixou de pensar, em latim, achava que era, essencialmente, uma questão de lata. Ou seja, que a questão seria concebível à imagem de uma lata, que tem, tradicionalmente pelo menos, dois fundos. Ou, ainda mais profundo, que o acesso ao conteúdo da questão – o que ao fim e ao cabo interessa – se poderá fazer por qualquer dos seus fundos, o que reduz para metade (50% em termos matemáticos) a problemática. Só haveria que prosseguir na metodologia, por saltos matemáticos de 50% e a série daí resultante convergiria para o conteúdo da questão, ou seja, o Zero. No caso vertente, zero, ao centro.

A hipótese non-kanteana (que nega a existência de cantos), exclui a possibilidade de haver fundos, sendo a questão não figurada como a lata já referida, mas sim como um tubo. No limite o fundo da questão situar-se-á no infinito, mesmo ao lado do ponto de encontro das normais linhas paralelas.
Pessoalmente, que nem sou philósofo e que me tento concentrar na realpolitik quotidiana, acho que a questão nacional se situa num entendimento intermédio das duas teorias atrás sucintamente citadas. Assim a política nacional cherniana será um poço, sem tampa, mas, naturalmente, com fundo, que, aliás, começa a aparecer mais nitidamente à medida que a Água (símbolo da qualidade de vida dos portugueses) vai desaparecendo. Resulta de o actual governo ter emparedado o pântano existente no anterior, donde deixou de haver renovação pelas escorrências das redondezas e as águas, ainda mais paradas por confinadas ao rigor pétreo das paredes, apodreceram mais rapidamente e foram-se evaporando.
E pior é que o fundo é lamacento e merdoso. Lá, estamo-nos todos a atascar.
Confinados no tubo da disciplina orçamental do poço. Cheira mal.
O Fogo do Ideal, que está murchíssimo na Política nacional, não consegue secar o fundo e dar-lhe consistência de suporte para uma renovação.
A nossa phénix é mais pénix, macha, congestionada e estúpida, não renasce do fogo, cresce apenas com o desejo. Desejo imediato e primário, apenas formulado e nunca concretizado, até porque vai deixando de haver dinheiro para pagar a energia, ideal, I-D.
Renasça, ao menos, seja do que for.
Mas os chernes não saem fora de água, mesmo quando podre. Morrem lá dentro. Só emergem quando cadáveres, com os enormes olhos numa expressão de espanto.
ASP
Verdades relativas

É próprio dos homens políticos, mesmo que relativos, arquitectar petas monumentais e neste motim público, mentem muito melhor que as hábeis mulheris, as quais em peta caseira não há quem as bata. Há homens relativamente académicos, mais sôfregos que académicos, talvez antes densamente sérios que esperam e amam o drama e as narrações humanas e acumulam pedaços puros da terra experimentados e são melhores que os outros que já estão a dizer mais do que aquilo que são e negam que dormem com esta e aquela, não é RB?, está-lhes a cair os dentes, a esses, e aguentam-se. Fica bem e protege, isso da condição masculina não fazer alarde sobre quem é visitado. Mas tu, tu, só podes contar contigo, homem só. E com as deliciosas pequenas que se deitam contigo por esperança. Recebe um abraço! LACP

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Trechos de cartas de amor nunca enviadas:

Uma vez eu disse-te (e até nem foi difícil porque nos apetecíamos) que te via como o garimpeiro olha o cascalho do rio onde ele sabe certo que por baixo existe o ouro que procura.
Tu riste como eu esperava, talvez adivinhando o futuro que afinal não veio.
E eu fiquei, pateta, mexendo-te em gestos ancestrais de dever-prazer, num doce quente e húmido que ainda hoje sinto.
Foi isto em Sintra, se me lembro bem.
Havia uma fonte e musgo e gente que passava a pé, podendo, contudo, também, ser a cavalo.
Dos cavalos lembro-me dos que nos puxavam naquele trem meio alugado.
Foi aí, agora vejo bem, que te disse mais.
Depois houve o lanche, os amigos rindo, o dizer das coisas tão presas nos teus olhos e também nos meus três vezes se cruzando, três vezes se ligando em laços longos, lisos, fundos, que abarcavam mundo, durante um tempo onde tudo foi, mesmo o tal futuro que afinal não veio.
O decantar de encantos que só o tempo sóbrio e só, o tempo, começou então.
E fui-te sempre vendo entre aquilo que tu eras e aquele raio dourado que atravessou o verde das sintras e das fontes e que tão completamente te envolveu em bruma, em bafo quente, húmido, agarrante.
O tempo, a água e o teu riso cúmplice correndo sem qualquer apelo aos meus esforços esparsos de tentar retê-los nas minhas mãos e vida, rotas de avidez de gozo e de ternura.

Mas tal também passou. E só quando vou a Sintra, ao nevoeiro verde, ao passador de luz dos pinhais da serra, ainda revejo aquele quente e húmido do teu sorriso meu, no carro de cavalos. ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
Um noite. Um Santo António. Uma Alfama. Sem ti.. Noutra época. Há anos.
Tinha a malta toda, a bicha contínua a ser empurrada para ruas de bichas sempre a empurrar.
Havia cantigas e balões e bandas, a gente dançava, tentava engatar, sacar qualquer coisas da pressão do sexo, do deus Dionisius, que o fumo e suor e também o tinto geravam nas moças, mais fáceis, no aperta apócrifo, mais dadas, libertas, da mãezinha chata ou doutros pruridos.
Lá para o fim da noite, raiava a manhã, ficavam os bêbados e também alguns em busca de alguém.
Foi então que ouvi cantar uma voz sozinha, singela, contida, seguida à guitarra que eu depois peguei. Havia viola, gente que gostava e por lá ficámos sem tempo a contar.
Lembro-me primeiro de alguém difuso a ter trauteado e de uma voz soberba de mulher varina, voz quente, vibrante de Alfama e desgosto, de sol sensual, inflexões incríveis de cor musical, a cantar sem fim.

Foi nesse momento que soube de ti. ASP


quarta-feira, janeiro 07, 2004

Bom ano

Passaram todos a desejar bom ano uns aos outros. De acordo. O que é preciso é animar as pessoas que andam nas suas vidas e só se saúdam quando calha e só se tocam às vezes. Daqui esta impressão de que não há linha de rumo e fio da meada entre pessoas que só se avistam ou trocam frases uma vez por outra. Estarem juntas, todas ao mesmo tempo, como se vê, é improvável, porque uns conhecem outros e outros conhecem-se de vista e outros não fazem a menor ideia e é assim a relação humana que não é, está-se a ver, total e omnipresente. Mas lá que o universo existe ele existe, senão donde é que vinham as surpresas?
Bem, talvez para combater aquela contingência, a dinâmica Gata anda a pensar em reunir numa só instância, todos os amigos e hipotéticos relacionados que participam no folhetim calhado. Não se sabe como vai conseguir reunir pessoas tão diversas e de tão diferentes origens. Mas para isso é que ela tem jeito. LACP

Gosto do nosso PR.
Mas na última comunicação ao País desiludiu-me.
Todos já perceberam que o Processo Casa Pia tem sido conduzido ou com muita incompetência por parte dos agentes judiciais (vá lá, que já deixaram de ser identificados como “Justiça”) ou com manifesta má-fé, com intuitos encomendados por alguém muito poderoso e hábil nas técnicas da contra-informação e nos procedimentos da Justiça portuguesa. Há várias teorias quanto a quem é tal “alguém”, mas não vem aqui ao caso.

O retorno da cabala
Parece que, de facto, haverá alguma “cabala”, como o PS dizia e depois se arrependeu.
Deduz-se de todo o processo manipulação, que só pode ter dois intuitos, possivelmente coincidentes: descredibilização das acusações e ataque específico à Direcção do PS, intuitos que se não excluem, antes se completam. Essa descredibilização pode pretender ter efeitos preventivos quanto a nomes que tal entidade saberá que podem vir a lume por envolvimento pessoal na rede pedófila existente.
Passa, evidentemente, pela geração de confusão, por promoção de atitudes e decisões incorrectas (não é crível haver tanta incompetência nos magistrados responsáveis pela Instrução e Acusação, sem uma estratégia subjacente) e por judiciosas “fugas” de informação.

O cúmulo
O cúmulo deste processo foi terem apenso ao processo público, de forma ilegítima, uma carta anónima e meramente insultuosa, de acusação do PR como envolvido na pedofilia (a par de muitas outras figuras), objectivamente para ela ser divulgada pelos media e assim aumentar a descredibilização das acusações presentes e futuras.
A mensagem do presidente não foi clara, dividindo as culpas pela Imprensa e pela Procuradoria (“enfraquecida na sua credibilidade técnica”), mas deixando entender que a primeira seria “mais culpada” na lesa-majestade.

PR vítima? Não, justiceiro
Sampaio apresentou-se emocionado, como vítima de uma calúnia enorme, incrível, o que é natural. Mas não desejável. Deveria sim apresentar-se como justiceiro e punir exemplarmente a incompetência que pôs a figura representativa da Nação na “boca do Mundo” por hipoteticamente ligada a processo tão vil. Uma forma subtil de divulgar uma calúnia. A Imprensa fez o seu papel.

A necessária vassourada
E dar uma vassourada geral nos actuais responsáveis pelos procedimentos judiciários, a começar na ministra e a acabar no procurador-geral.
Quando se demitem dois ministros por se ter detectado “uma cunha”, a manifesta má-condução deste processo, a irresponsabilização dos agentes de atropelos gravíssimos (fugas, escutas, etc), e todo o desnorte que parece existir, deveriam ter conduzido à imediata demissão do Procurador Geral e da sua equipa, a quem, inexoravelmente, são imputáveis estes dislates.
O não o fazer é pactuar com as meias-tintas.

ASP
LFB
É sempre muito triste ficar no cais. Dizem que é pior ainda do que ir. A enigmática e indirecta notícia que chegou já em eco, de que LFB se vai, deixa-nos um amargo de boca. Não se sabe se LFB vai triplicar a enérgica actividade. O generoso, sensível, dotado e talentoso actor, ou autor?, não vai tão cedo encontrar paz de espirito. Ele deseja um pouco mais de céu, mas são as águas turbulentas do inferno escuro que fazem a substância da sua vida. Até breve Luís !. LACP

terça-feira, janeiro 06, 2004

Folhetim Calhado

O fundo da questão?

Alguns analistas ficaram insatisfeitos e pediram mais detalhes sobre o que é o fundo da questão, expressão que foi usada a 20 de Dezembro a propósito da necessidade inútil de optar. Comentaram que se percebe vagamente e não é mais do que conhecimento obtido a partir de uma alusão, o que é portanto um conhecimento instável acoplado à experiência subjectiva. Nem poesia justifica falta de rigor e por conseguinte solicitam os Srs. comentadores mais prontidão, mais definição, mais iluminação sobre o tal fundo. É tarefa excessiva para os cansados ombros dos actores de um folhetim blogue, mas retomando o présocrático Anaxímanes, que, como os seus contemporâneos, procurou explicações para a origem do mundo. Em rigor os filósofos eram cosmógonos, não se sabe se hoje ainda são, o tal présocrático reagiu à ideia que no principio estariam os quatro elementos, água, ar, terra e fogo, e antes explica que a origem do mundo é o “elemento indefinido”. O fundo da questão que foi por nós em tempos referido é comparativamente à criação do mundo, um elemento indefinido. Sexo, se é fundo da questão ( há sempre prismas para tudo, são só prismas, pontos de vista) é um elemento indefinido, entra pelos olhos dentro. È certo que Gustave Courbet no quadro a óleo exactamente como o título “A Origem do Mundo” (1866), teve uma outra visão, seguramente menos indefinida, mas superiormente estética e avassaladora.
Quase se pode acrescentar um pequeno nada ao pensamento do Sr. Anaxímanes e daqui da blogosfera enviar para a Grécia antiga o seguinte raciocínio: o elemento indefinido é alimentado sobretudo por um dos quatro elementos: o fogo. Fogo é também o fundo da questão, é o fogo que quase não tem contornos físicos visíveis e além de queimar e destruir, reproduz-se no espírito com abalos e dor. Assim pelo menos, o fundo da questão compreende o elemento indefinido alimentado por fogo, diz respeito à origem da vida e estabelece a dinâmica da comunicação física e espiritual dos seres vivos que se encontrem por acaso ( não necessariamente).
Compreende-se que o baralho conceptual tem sido afinado pelos Srs. Filósofos. Numa nota aparte, está-se agora a perceber porque é que a linguagem pode ser manipulada de acordo com objectivos de mercado. O Sr. Cherne é o protótipo da manipulação da palavra, levada quase ao absurdo, isto é, dizer uma coisa por outra. Por causa desta dissociação da palavra dele e do real, é que diz que o pior já passou. Mas isso é outra parte do fundo da questão. LACP

No Sossego Escuro da Pensão Flamingo


Não ouço ninguém chamar-me lá de baixo, da entrada.
Não ouço ninguém chamar-me por mais que fique aqui atento a todos os ruídos: o raspar dos ratos por detrás dos lambris; o pingo da torneira do lavatório; o vento nas frinchas da janela a roçar os cortinados; o soalho a estalar; o ranger das portas nos gonzos.
A minha mãe dizia que eu tinha ouvidos de tísico.
A minha mãe falava muito: falava tanto que às vezes me cansava de a ouvir e prestava atenção à brisa que deslizava nas folhas da nespereira podre entretida a morrer aos poucos lá no fundo do pátio onde esvoaçam os pardais.
A minha mão falava e eu não a ouvia na curiosidade dos passos das escadas, à espera de mulheres de roupas coloridas e pernas enormes e lábios pintados de carmesim. Esperava escondido por homens sinistros a seu lado, metido nas sombras do corredor comprido, a mesa do telefone negro com aloquete, as cartas tombadas sobre o tapete da entrada, o envelope da Companhia do Gás com uma pegada desenhada no canto por cima do selo do ano mundial dos refugiados. Escutava com os meus ouvidos de tísico o entrechocar das panelas na cozinha, os sussurros das conversas de minha mãe com a Maria, uma porta que se fechava no andar de cima ao gesto de um homem de chapéu de abas levando na frente uma mulher mastigando um cigarro no canto da boca cor de morangos acabados de apanhar. Escutava o ranger das molas do divã. Escutava a água a correr. Escutava a campainha anunciando hóspedes.
Agora não ouço nada.
Não ouço a doença da nespereira correndo através da seiva.
Ouço um pregão, quanto muito: a varina vendendo as primeiras sardinhas de Junho. E a gota teimosa repetindo-se no lavatório num ritmo cansativo.
As folhas largas do ácer desenhadas nas cortinas de pano grosso cada vez mais comidas pela traça. Uma camada fina de pó por sobre os móveis, o brilho da luz que vem da rua levantando a fímbria das poeiras como areias distantes de desertos desconhecidos. A buzina irritada de um carro ao longe, o peso das horas no relógio da entrada.
Não sei onde escondi a chave do aloquete: se precisar de telefonar, não vou conseguir.
Presto atenção aos ruídos mais pequenos. O som do telefone era estridente e provocava sobressaltos. Há tanto tempo que não ouço tocar o telefone.
O miar inquieto de um gato com cio, a voz de minha mãe saindo das paredes da memória numa repetição de frases que faço os possíveis por esquecer, o fumo do cigarro da mulher alta de olhos verdes do quarto 28. Entro. Pode ser que ela me espere como eu esperei por ela estes anos todos. Pode ser que esteja ainda sentada sobre a cama de molas partidas, as pernas cruzadas, a saia subida acima do joelho, a boca desenhada ao vermelho escuro das pitangas. Entro. Pode ser que ela me afague a cabeça antes de começar a tirar a roupa, pode ser que sinta o seu cheiro a perfume intenso que enjoa e ao mesmo tempo excita, pode ser que ela me fale baixinho ao ouvido e eu não ouça.
A imagem de Nossa Senhora de Lurdes brilha fosforescente nas sombras do fim da tarde. O quadro das caravelas entortou deixando mais claro um ângulo curto de parede. O espelho do toucador exibe o desacerto da fenda raiada.
Escuto e não ouço nada: nem o ranger das molas partidas, nem a voz rouca descendo pelo meu pescoço até aquele lugar para lá do estômago onde nasce o desejo.
Não me ouço a mim nem aos passos na escada.
Não ouço os pardais no seu divertimento de nespereiras.
O carreiro negro das formigas deslizando por entre os diospiros, o zumbido mole das vespas, um vento quente atravessando a rua ao encontro das janelas. Alguém falava no passeio e eu também não ouvia. A Maria limpava pratos na cozinha, as cartas caiam suaves sobre o tapete da entrada, os ratos atropelavam-se do outro lado dos lambris.
Sinto uma mão percorrendo a minha nuca e o olhar severo da Nossa Senhora de Lurdes pousado nas minhas costas onde pousa também o arrepio de uma brisa morna e do suor arrefecido.
A água corre pelas paredes, pelos canos, um cheiro a comida espalha-se pela casa. Canso-me. O fumo do cigarro irrita-me os olhos, a pouco e pouco vou voltando a prestar atenção aos sons com os meus ouvidos de tísico. Uma boca vermelha de sangue desenha palavras que não entendo. Uma sensação estranha como se me tivesse deixado contagiar pela doença das nespereiras. A minha mãe fala. Fala sempre. Fala para sempre. Ouço-a ou não a ouço? Vejo as cortinas estremecerem. Alguém abriu a porta e não dei por isso.

AM

Folhetim Calhado

Muito dinâmica

Ana Boneca desapareceu com a quadra, mas depois da passagem do ano deu sinal de vida. Só RB esteve com ela nas festas. Chegou rosada, bem alimentada, cheia de saúde e sempre a falar ao telefone. Andava a preparar uma festa, a combinar reuniões e entrevistas, idas ao teatro, ceias, encontros, negócios de compra e venda, um caos de dinamismo, sempre a cirandar e em rigor sem prestar atenção e tempo livre para os cortejadores, amigos e amigas, pretendentes e, muito menos disposta a maçar-se com análises, queixumes, assuntos públicos, ou desgostos dos outros. Falaram-lhe que o Cherne tinha dito que o pior já passou e deu uma gargalhada tão original e tão completa que se houvesse alguém em dúvida sobre a sua particular inteligência, nesse instante esse alguém ficaria esclarecido. Ana Boneca Gata é muito fina. Aquele ser está do lado do real e trata bem disso. Parece que anda sozinha, mas ninguém sabe como são as suas noites avulsas. Tem um modo tão determinado e tão directo que os actores do folhetim julgam que está ali uma amiga. É verdade que houve já quem tenha resmungado que ela afinal não gosta é de ninguém, além de se entediar com conversas. Só quer é toca a andar. São talvez opiniões infundadas, de quem não sabe ver. O seu feitio percebeu-se logo que chegou e depois, lá vai indo, a aparecer volta e meia, com o tal telefone sempre a tocar, a fazer de empresária toda mandante. Olha, a senhora da sorte gosta da Ana Gata e vai promovê-la, tão certo como dois e dois serem quatro. LACP

Trechos de cartas de amor nunca enviadas:

Pego-te ao colo. Sento-te junto a mim.
E com a lentidão dos séculos que viremos, afago-te o cabelo.
E penso “afago-te o cabelo”.
Em cada afago vai um pouco do passado, de ti e da alegria, da vida e morte quando tu não estás.
E é no contraponto de tu e tudo o resto, ambos presentes sempre no que eu digo, que nasce o verde.
E penso “o nosso verde nosso”
Verde sol ou verde sombra, amor ou vida, tu ou este povo vago a que pertenço, nem sempre por querer.
E tu mesma, amor, que já foste e ainda és, tantas caras e vislumbres de coisas e condutas! Porque tu mudas como eu mudo, mas nunca totalmente.

O resto está na mesma. ASP

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Trechos de Cartas de amor nunca enviadas

Muito trabalho, não sei de nada, tudo o que gosto vejo-os de zut, bonzinhos creio. Contigo, julgo, vai três a dois ao intervalo, ganhando tu, é natural, pois jogas em casa.
Eu vou pelas ruas casa-trabalho e mais conversa, que parvoíce, não leva a nada, os preços sobem, as vozes sobem, o dedo aponta, a mão se estica, o cinto aperta, eles discursam, já ninguém crê, eu também não.
À unha, à unha, à bicha, à cunha, à rasca, à risca, pobre Zé Povo, que mal trabalha, quer todo o mundo, não sabe nada.
Eu também não.
Só quero
coisas,
ternura,
vez,
que me não vem.
.......
Eu já morri.
Morri devagar, com muita seriedade.
A perder-te aos poucos contra mim.
É a vida.
........
Porque não me soltas me deixas subir e furar a casca do que crês razão?
Porquê tu te negas a deixar-me em mundos só porque não pertences aos seres que lá andam? Porque dizem coisas e rictuam práticas de que tu tens medo?
Porquê tu te escondes nas máscaras que faço a fingir que estou luzidio-contente?
Porque não me usas nos meus eus libertos, nos meus eus reais, nos meus eus mais eus?

Vejamos porquê:
Tu não me queres para nada. Tu queres é ter-me. Mas não leste as instruções.
ASP

domingo, janeiro 04, 2004

Olho-te Olhas-me E assim ficamos no mundo parado a ver-nos
A ver a construção da teia da ternura


Ah quem me dera copiar o tempo
E repetir igual, igual, mas mesmo igual
O teu olhar, aquele teu olhar.

Mas não consigo fugir às engrenagens e aos vícios das fábricas de matar o tempo.
Que só renasce quando

te olho e tu me olhas

E assim ficamos a ver a construção da teia da ternura
ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
Sabes que tudo é simples e complicado, que a questão não está nas coisas mas em nós.
Sabes também o importante que é para quem, como eu, é inseguro, incerto nas suas poucas certezas, mas certo na intenção: âncoras de cultura, formas de prazer carícia, intuitos de cumplicidade-seta, de entendimento fundo, tanta coisa boa e certa e livre a que se agarrar.
Sabes também, disso não duvido, que uma coisa é o ser, outra o parecer e que muita gente, à força de usar máscara, de se forçar a querer e a crer, acaba por ficar naquelas meias tintas que pinta o compromisso e só são definidas quando vista ao longe, como alguns quadros impressionistas.
Sabes como eu sou, porque me conheces, muito melhor sem dúvida que aquilo que eu penso, talvez sem saber, de mim.
E sabes muito mais de coisas que eu não sei.
Mas não é por saberes tanto que eu te chamo amiga, mas sim por teres entrado pelo menos uma vez na minha confiança e não teres saído. NUM mundo que é só meu, por, em uníssono certo, vibrarmos nossas cordas, algures, em algum tempo, mas vibrarmos.

Sabes também que não minha amiga ou mesmo meu amigo quem o quer, nem mesmo quem eu quero, mas só quem pode, quem já nasceu para isso.
Não és, assim, normal.
Não me deixes, pois, cair na tentação de não corresponder, por enfado, cansaço ou ilusão aquilo que tu és.
Ajuda-me, dá-me a mão, mas nunca me segures para além de uma carícia.
Porque ser-se amigo é, acima do restante, estar-se livremente preso.ASP

sábado, janeiro 03, 2004

Crescer
No tempo de Sintra, no tempo de Junho dos anos cinquenta, vivia ainda voando rasteiro das asas cortadas por afectos maternos e outros abraços.
Ternuras e controlo, enlaces sabidos de quem se apegou ao gatinho manso, vector de uma vida, bandeira, razão.
O bicho é doméstico, cresceu no engodo, não sabe o telhado, a gata em Janeiro, o goso do lixo, só lhes vê o risco, a chatice, o cão.

Foi já gatarrão que saltei o muro e vejo-me ainda no Liceu Camões, no pátio dos Velhos cobiçar (palerma) um postal brejeiro de uma gaja incrível que tapava as mamas com um ar putíssimo que me impressionou a estética e a alma, como então dizia.
Nos anos cinquenta mesmo os nus postais para consumo público ( mas sempre à sucapa debaixo da mesa, na moral do espreita) guardavam o mistério do nú integral
O púbis tapado em gesto estudado, ou mesmo tratado com uma mancha branca ou preta ou pintada a imitar o slip.
Mistério danado já fora os calções , mas calaças compridas, o sentir o sexo que empolava a “alma”, o falar em amar, em engate, em vir-se, em palavras gordas sem saber, miúdo, o que tal dizia.
Caminho a trilhar na onda da idade, mas não encetado por mim por querer.

Havia o namoro, algum marmelanço que sabia bem. E mexia em baixo, mas nada concreto, sem razão final.
E diziam-se coisas, palavrões, brejeiros, palavras gritadas, quantas vezes escritas, com gana miúda de armar rufião, herói Constantine, mas tão procuradas para saber ao certo em livros do pai, nas enciclopédias.
Prosápias de engate, prazeres de mirone, dos livros, dos quadros, Rafael e Rubens, de gordas mulheres, de mamas pequenas, púbis à postal.
Tal deu-me até tarde a ideia entranhada da mama-teórica, um pudim erecto em forma de taça, com ponta discreta, semelhante à minha.
E um mistério imenso de diferença vaga, mas muito importante, e que eu só sabia que não era assim,
Ao certo não sei quanto saltei o muro.
Nem me lembro bem do meu primeiro beijo.

Cresci devagar, como as plantas e como elas estou ligado ao sítio, à terra, à chuva, que me deixam viver.
Cresci devagar, sem querer, sentindo o tempo como seiva que sobre e pelos poros se vai, sem ruído, sem qualquer ruído.
Cresci também depressa. Quando dei por isso já estava crescido.
Mas a tal seiva, a dos poros, a do silêncio, a da noite, a da morte, continua.

Eu não sei bem o que fazer...
ASP
Trechos de cartas de amor nunca enviadas
O nosso verde nosso, verde-dinheiro, verde-cor, verde planta, verde musgo.
Há o pano verde, o relvado gasto de cartas e fichas e dramas sem fim.
Há os espaços verdes da urbe cinzenta, o rectângulo verde do relato rádio, papagaio verde do bico dourado. Há os grupos verdes do antinuclear e outros antis. Há alguns a armar. E o Cesário Verde da estátua sem corpo. Há o campo verde da enxada da vida. Há o verde serra e o verde mar das algas dos limos das carcaças podres e das esperanças mortas em barcos no fundo. Há verdes ramagens de chorões caídos sobre lagos verdes de ondulados círculos e seres que rastejam no verde da erva de um verde que mexe sem se ver a forma, em ecos viscosos de verdes mais fundos, de verdes mais fundos da raiz do mundo. E há verdes de fardas, verdes esmeralda, verdes corrosão e tão diversos verdes
Todos
Apertados nos teus olhos verdes
Naquele sorriso tão feito de olhar quando para mim olhas. ASP

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Trechos de cartas de amor nunca enviadas:
Coisas grandes me ensombram o pensar, me inebriam a alma, me tolhem o futuro. Todas, quase todas, viradas para o tempo, para o tempo passado, próximo ou longe, já tão longe que lhe não lembro o sítio.
Ventos grandes me agitam o devir, me vacilam o ãnimo, me embaciam o presente. Todos, quase todos, gerados pela inquietude, alimentados a medo e a ânsias e a virtudes, se é que ao certo eu sei o que tal coisa é.
(Pausa. Penso)
Já não sei que dizer, aqui. Nego-me a confirmar ou desmentir o dito. Foi verdadeiro ao tempo, não sei se o é agora, como aquilo que agora vou contando de mim, por vezes vou contando de nós, nesta obsessão de fingir que não estou só.
Dar, puro dar.
Dar?
Dardo de mim, hora viva e eterna de raivas e confissões de fazedor de olheiras!!!
Salve-se o antídoto, ao menos. Que só conheço um, que só mereço um, que só apeteço um, que só começo e recomeço e quero um.
(Uhm!)
Amor, amor, porque me abandonaste? Porque me deixas tão vago, assim, aqui, agora (antes?).
Amor, amor, se eu sei quem és, responde, vem-te e faz-te ver vestal, cariátide firme do frontão que eu sou.
E não te queixes ( tu não suspeitas) de não seres suficiente. Eu juro, por Vénus, Maomé ou Deus, ou por quem queiras, que me és necessária, muito, muito, muito, mas mesmo muito necessária.
Sem ti não sou, nem eu, nem nada, frontão caído, equilíbrio falso, morto, arruinado.

Já vês, grandes coisas me ensombram o pensar, ventos grandes me agitam o devir.
Já não sei o que dizer, salve-me o antídoto, pelo menos tu. ASP
Folhetim Calhado

Mensagens
Estavam as badaladas no seu tlam tlam e a Tucha mandou uma mensagem de votos de bom ano à Leonor. PG desejou boas festas a J F. O pintor J desejou um ano com muita energia a LCP. O mesmo pintor J enviou um beijo de parabéns à Leonor. R B desejou boa páscoa a LCP. J F mandou votos à Tucha. MC enviou boas entradas à Tucha, ao pintor, e à Leonor. Porém, todos, seja RB, PG, pintor J, JF, MC, LCP e muitos mais, todos mandaram mensagens de amor e prosperidade a Ana Boneca Gata . Só que ela não mandou mensagens a ninguém e deu antes um presente; RB ainda está para perceber como é que acordou de manhã dia 2, com Ana Boneca Gata deitada ao seu lado. LACP

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