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domingo, fevereiro 29, 2004

Folhetim calhado

Extravasar
Abundância, diversidade, composição harmoniosa por cima dumas belíssimas toalhas de renda, fazem os ingredientes mais do que enormes para mudar o estado de espirito de seres rezingões. As avalanches que acometiam atiradas por um balanço de sequiosa e faminta batalha ficariam muito decepcionadas se o terreiro fosse nada. Mas não era. Por vezes a agressão das batalhas e o instinto de destruição e saque, cega o bom senso e o cuidado. Muitos guerreiros caiem porque se espevitaram demais levados pela confiança sôfrega em disparar, destruir e salvar a pele. Nem sempre se é tolhido pelo medo; pelo contrário, há um conjunto de sentimentos que geram auto desprezo e afirmação de violência. Os banquetes e as batalhas produzem qualquer coisa comum, e o que é sem nexo é fantasia, largueza, superação, desejo e vontade de ir. LACP

sábado, fevereiro 28, 2004

Folhetim calhado

Ao ataque

A ânsia do banquete catapultou a humanidade para a frente da batalha num acotovelado atropelo para atingir cada um em primeiro lugar desejado as presas abandonadas em cima das mesas. Só depois das primeiras hordas se servirem e a seguir tacitamente recuarem é que uma segunda linha se posicionou junto ao perímetro final do campo dos alimentos carnais. Nem sequer era um jantar invulgar, não era, mas estava bem mascarado, peru assado parece que faz sempre boa figura, em tamanho concreto e também promessa. Mesmo que por fim a carne seja maçaroca de farinha. Outras viandas, sanguíneas por vezes ou melhor assadas noutras travessas, fariam divergir as opções e gostos pela natureza dos detalhes. Dum outro lado um inevitável salmão marinado. Fora da mesa principal a fervilhar espera uma infindável comida quente aprontada numa linha contínua. E não longe, as garrafas de tinto, sem rótulo e sem rolha, devia ser produção familiar, foram imediatamente manuseadas ainda antes de passarem dos prolegómenos a toda a metafísica futura. LACP
Olhar ruminante XXVI

Os meninos de ouro
Estes notáveis do Poder pensam-se imprescindíveis ao País. Uns príncipes por direito natural. A fama enche-os de vaidade e, enfatuados e pomposos, reclamam privilégios sucessivos, que consideram lhes serem devidos por tal razão.
Acham-se com direitos de colocarem em cargos públicos, pagos pelo erário público, quem bem entendem, na maior parte das vezes gente sem currículo ou perfil profissional minimamente adequado a tais cargos. Manifestações e provas de poder, já o que é o poder se não a capacidade de facilitar ou dificultar a vida alheia?
O Portugal público parece ser deles e como tal actuam.
Como nas cortes absolutistas de antanho.
E como em tais cortes, o rei (neste caso o primeiro ministro) detém poder q.b. sobre os seus duques, condes, marqueses e barões e respectivos serviçais de diversos níveis, que estes se encarregam, por distribuição de prebendas e cargos, de manter satisfeitos a olhar para o umbigo, sem veleidades críticas quanto à governação e sem ideias, porque é das ideias que nascem opiniões e iniciativas, muito inconvenientes num clima de corte pasmada. O pior neste estado de coisas são os mexericos internos e as broncas, que abundam. Mas se abanam o barão X ou o marquês de Y, não afectam a Corte, até distraem o bom povo das falhas da governação.
Claro que há candidatos ao trono. Mas pouco fazem, porque sabem que, com este estilo de reinação, mais dia menos dia cai o rei. E novo rei virá, logicamente eles. É questão de tempo. Mais nada. Em Portugal, recentemente, o poder não se conquista, ocupa-se por “horror ao vazio”.
O povo murmura, claro.
Mas, como paxá do Império otomano, o actual poder sorri-se, de seguro e pensa:
-Deixem-no murmurar.

ASP
Poema
Passa difusamente o tempo
mascarado de vida tão premente
que se lhe apercebe o tino.
Passa a vida também no mesmo estilo
mascarada de acção ou posição
que nunca chega a ser, nem o contrário
porque as coisas são assim
naturalmente
ou talvez não.

Mas o tempo passa
E a gente pensa que não pensa
nesse passar subtil e morno, felizmente
Mas mesmo sem pensar o tempo passa
e o temo é vida, a nossa com certeza.

E o passar difuso do tempo mais não é
do que a vida a esvair-se sem sentir
E por ser difuso e fluido o tempo
o sentido é vago e a vida esparsa
Esboroando o ser, a alma ou o que seja
por um tempo contínuo e uniforme
que passa sem desejo ou o contrário
Carroça atrás de nada
em descida mansa de suavidade atroz.


ASP

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Olhar Ruminante XXV
Ando sem pachorra (ou será paxorra?) sequer para pensar.
Por causa disto.
“Isto” é, politicamente, a Situação e a Oposição, existencialmente, o estado do País, os impostos, o trânsito, a estupidez diversificada, os ricos e o pobres, o futebol e a tv, a Justiça e a malandragem, o faz-de-conta que não é nada, o não há-de ser nada, o nacional porreirismo sacana, a cultura da vigarice, o apreço militante no Chico-espertismo, o pasmo, o espírito coisinho, a mediocridade impante e arrogante do poder, o desconchavo imanente a tudo, o fosso entre a “inteligência” nacional e a realidade nacional, enfim, Isto.
Isto está a apanhar-me, a amarfanhar-me, a abafar-me o ideal romântico e a crença num mundo melhor. O tempo voa (fugit) e eu não vejo ponta por onde pegar, nem gente suficiente para desenredar esta coisa em que se transformou a vida pública portuguesa, Isto.
Porque “isto” é culpa d “eles”.
Eles são os responsáveis por Isto. Eles não pensam, são incompetentes, venais, viciosos, prepotentes, arrogantes. Eles têm o rei na barriga: Eles vivem à grande. Eles são cúpidos, estúpidos, têm mau hálito, cheiram mal, são grossos, escrafulosos, incultos, ricos, corruptos, mandam.
Nós, os que não somos eles, somos vítimas, mas somos bons, não muito bons, se não passávamos para eles, mas suficientemente bons para entendermos que temos razões para nos queixarmos. Evidentemente para além da inveja.
O que cria um estado generalizadamente negativo que contribui para o triunfo disto. E deles, que se estão nas tintas para nós e talvez mesmo para isto.
Depois, a verdade é que, se enxergo uma possível substituição deles por nós, passando nós, então, a eles, já não vejo como alterar isto para aquilo, porque não sei o que aquilo é ou pode ser.
Assim ando sem paxorra (ou será pachorra?) sequer para pensar.
E, assim, pelo sim pelo não, digo mal.
Distancia-me disto e deles.
E nesta bolha de virtude me vou morrendo.
Grande chatice.


ASP


quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: o actual candidato às presidenciais.

Faltam para aí uns dois anos, uns 700 dias. Dá para ter dois filhos, seguidos. Para acontecer muita coisa no mundo, em Portugal, em Lisboa, em S. Bento e no equilíbrio, instável, do Poder político.
Antes ainda há as europeias e as autárquicas, pelo menos, pois se isto continua assim, ainda temos eleições antecipadas para o parlamento, devido à instabilidade social e ao descrédito insustentável das instituições.Com a actual oposição não é de contar.
O desânimo grassa e, por muito que ele se defenda, grande parte dos portugueses relacionam este estado de coisas com o Governo da actual Maioria.
Propor-se agora como candidato, declarando que o seu fim principal é consolidar a coligação da actual Maioria, é argumento de tiro no pé, pois a maioria dos cidadãos não a quer mais e mesmo internamente reina a cizânia e a discórdia, com os PPDistas mais ferrenhos já enjoados de sapo azul a todas as refeições.
A esta distância-tempo, pressionar outras figuras públicas para se precipitarem numa definição, sem qualquer razão a não ser por achar que sim, é despropositado, desqualificador e gerador de reacções negativas e desnecessárias.
Não é por muito madrugar que se amanhece mais cedo e o Povão não gosta que em cargos importantes, para que elegeu Fulano ou Sicrano, tais personalidades os exerçam com a displicência dum part-time, deixando a impressão que mais se não trata do que um degrau de uma carreira de grande e nervosa ambição.

ASP

Folhetim calhado

Conflito e súplica
Ouviu-se uma chamada aguardada há muito: a chamada para o jantar e então há uma movimentação lenta na direcção da sala. A Leonor e o desconhecido, que não se viram mais vez nenhuma desemparelhados, convergem, numa simpatia cautelosa entre a toada dos companheiros ofegantes, rumo à sala de jantar. Não há como um desejado, firme e prévio príncipe perfeito para preparar o terreno à entrada fulgurante dum sancho pança. São estes gorduchos que chegam ao banquete e o príncipe lá se dilui atrás, esquecido, enevoado e perdido na concentração abstracta muito prévia. É o que acontece às ideias fixas do espirito iludido pelo universo, quando julga que o todo cabe no coração e afinal tudo desaba no fortuito, na cedência e na alternação. Parménides ontológico enganou-se nos destinatários do ser permanente, uma vez que esse ser durável não é coisa humana e esta é, ao contrário, natureza fluida e emoção estouvada. Leonor já pôs aquele que ama nos baixios do coração, da cabeça e mais corpo, já caminha aquele que ama no caminho desvanecido da mera referência enevoada e no seu lugar, o corpo presente que está, é sancho pança bem falante tão galanteador e próximo que a mulher não sabe já seguir o seu destino, levada pela conversa e outras coisas mais, arrebatada pelo instante e sem dar por isso. Se não é assim, o que é aquele olhar de súplica que se vê lançado para o outro lado da sala, na direcção do seu príncipe perfeito? Só que aquele que ela ama, não vê, não dá por nada, está mais cego do que Ícaro quando se chegou ao sol.
Debaixo de um lustre incompleto de pedrinhas em forma de pétalas de vidro, a toalha iluminada pela incidência da luz, faz um enorme contraste com a sombra da sala, e, assim se vive um ambiente pesadíssimo, mas muito solene. LACP



terça-feira, fevereiro 24, 2004

Folhetim calhado

As senhoras

Não há nenhuma razão para acreditar que a senhora da ceifa tenha sido convidada para este banquete na casa de Sintra. Pode presumir-se que há aqui muita solidariedade e então ela não encontra brechas para passar. Os seus caminhos ínvios estão apertados com o calor humano e o gosto dos convidados em estarem juntos. Ela prefere espreitar na estrada, lá fora, entrincheirada no escuro, e aguardar para laçar na hora de regresso, mais tarde.
Isso poderia acontecer, se acaso a senhora da sorte, as duas eternas rivais, não estivesse à mão no baralho, pronta a mostrar outro divergente vaticínio. Aliás, a senhora da sorte gosta daquela casa e já gostou do mercenário seu dono, poupou-lhe a vida, não uma, mas várias vezes e quando a senhora pressente um par ou dois de amores a chegar, esquece as dúvidas e torna-se caridosa e flexível, pronta a estender as suas asas brancas em protecção. Está por ali, sente-se que a senhora está por ali, já que muitos querem estar bem uns com os outros. LACP

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Folhetim calhado

Aonde é que isto vai parar?
E o jantar ainda não foi servido e já há gente bem bebida; não sabem que as bebidas avançam logo, quando caiem na fraqueza? Ignorantes. Já devia chegar uma sopa quente, deve ser caldo. Enxuga e prepara para mais cavalarias altas. Senão o PG fica doido de vez. Parece que está furioso, quando fala são uns arremessos e a maior parte do tempo não fala, anda dum lado para o outro. Talvez não goste de festas. Há mais doidos dum lado para o outro. Há vozes que começam a subir de tom e as risadas e gargalhadas estão a tomar conta de gente. LACP


sábado, fevereiro 21, 2004

Folhetim calhado

Vidraça
A Tucha volta a espreitar pela janela. O que quer ela ver lá fora naquele jardim extinto? É verdade, a Tucha tem uma quinta com um parque bem arranjado, deve ser por isso, nunca nos esquecemos dos pontos de partida. Deve fazer-lhe muita impressão o contraste. A noite caiu completamente. Está escuro total lá fora, já não se distingue nada Os vidros por dentro estão a ficar foscos. Já há marcas de dedos e alguém desenhou um boneco numa das vidraças. Pode ter sido a Leonor. Em tempos também esborrrachou o nariz numa vidraça, quando estava muito aborrecida e isso a divertiu, mas agora está contente, tem um fulano atracado. Já não anda à procura do seu amor. Está abocanhada. LACP

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Folhetim calhado

O pintor J fala enfim a com a Tucha
Também apareceu MC que em tempos tomou chá no chiado com Tucha e a seguir ficou louco e bebeu demais no Bairro Alto. Agora, na casa de Sintra, paira aparentemente desinteressado, mas para quem o conhece, está com atenção, apesar de não saber bem que fazer.
E o pintor J que se afeiçoou à Ana Boneca Gata, dizem que sim, que ela abre a porta do atellier , a quem bate, não é para sair, abre a porta para outros entrarem, ou outras, uma vez abriu a porta a outra, mas então dessa vez Ana é que saiu. Bem, o pintor J está para ali e é Ana que o vai apresentado a quem não sabe quem ele é, nem como pintor nem como o resto, só que ainda não chegou a vez de o apresentarem à Tucha, ele anda a fugir dela, de sala para sala, só por aquela razão, a de lhe dever a carta de resposta.
Mas afinal quem os vai apresentar, não é a ABG, mas Leonor, que perguntou com ar muito entusiasmado se afinal se conheciam ou não. A Tucha olhou um pouco de lado e diz com a mescla do cabelo a cair-lhe para os olhos, que era só de vista. O pintor J disse num rompante que lhe estava a dever uma explicação, agradeceu muito ter-lhe comprado o quadro, só que metia-se tanta trapalhada que não conseguia ainda responder ao seu pedido naquela carta. Mas ela foi muito tolerante, “que não faz mal, não faz mal, que ideia, eu compreendo isso” e ele mais socegado, não se percebe afinal porque dava tanta importância à carta, lá se foi desculpando “ é que também, sabe, eu não gosto nada de escrever e mandar-lhe um currículo também acho que não era o que queria” .
Depois a conversa continuou, e quando foi empurrada por outros, ele foi atrás e ficaram a dizer qualquer coisa imperceptível. LACP

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Folhetim calhado

Estrelas suspensas

Não passou muito tempo já a Leonor estava com o palrador, cujo nome não foi por agora apurado, na saleta das bebidas, os dois a servirem-se. Então ele já não fazia a corcunda como foi preciso para, vergado, se fazer ouvir. O mesmo não se dirá da Tucha, cujo verdadeiro nome é melhor nem apurar, que não bebe já, só vai beber,(prognóstico), daqui a cinco anos, quando tiver mudado a solidão. (desejada?) LACP

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Folhetim calhado

Contracto infernal
NCS, LFB e LCA beberam umas cervejitas que o dono lhes passou e já zombavam sem ser por capricho. Têm um contracto acordado com o diabo, em que este último concedeu prescindir da sua parte de escárnio a troco de alguns lugares nos serviços do Estado. Foi depois desse acordo que se acentuou o descalabro nos ministérios. A instalação do demónio na administração do Estado e Governo, por troca com a sátira, ficando esta à responsabilidade dos civis, foi um negócio proveitoso para ambas as partes. A parte do mal, fez emergir os agentes demoníacos directamente içados do inferno, os quais conseguiram abater tudo o que mexe, à força de peta, falcatrua, mutismo, preguiça, inveja, soberba, intemperança e muitos mais malefícios, numa corporização nunca conseguida até hoje, do dobro dos sete pecados capitais. A parte da sátira além de dar trabalho a uma pequena equipa, apesar de mal paga, transformaram a vida duma data de seráficos, num verdadeiro inferno à face da terra. LACP

domingo, fevereiro 15, 2004

Folhetim calhado

Chega sempre mais gente
LCA chegou atrasado mas chegou; não era habitual chegar atrasado. Desde que inaugurou a sátira, a personalidade desvalida passou aos hábitos ingleses da pontualidade e não se sabe se com isso esbanjou carácter ou ganhou mais dele. Também passou a usar agenda o que deve ter ajudado; é nela que anota meticulosamente as datas e horas dos afazeres, desde os minúsculos aos grandiosos. Não se sabe é se a consulta com regularidade, mas deve consultar, já que agora passou a chegar a horas. Essa capacidade de sair da desordem para a ordenação metódica, revelou a maior das competências. Desta vez chegou atrasado e passou às desculpas, invocando não a dificuldade em acertar com o caminho e de encontrar a casa, mas sim com a ideia inconvincente de que tinha estado a pintar e a óleo. Com efeito, a gramática da sua alma, indica que também a pintura espera a sua não irónica contribuição. LACP

sábado, fevereiro 14, 2004

Conversas imaginadas entre o Cor. Falcão e o Dr. Rola (personagens fictícias)

Cor. Falcão- Estou muito satisfeito. Portugal está, finalmente, a voltar à sua grandeza passada.

Dr. Rola – Então porquê?

Cor.Falcão - Estamos, como nos tempos imperiais, a tornarmo-nos uma potência militar. Portugal está a armar-se até aos dentes, o ministro da Defesa manda no Governo, os generais estão a engordar e a ficar luzidios, mais dia menos dia invadimos Espanha. Ou Marrocos, é melhor. E dinheiro não falta. Os “sacrifícios” para a Função Pública deve ser só para os meter na ordem.

Dr.Rola –Então como é?

Cor.Falcão - Mais de 500 milhões de euros para 300 blindados de rodas para o Exército e 22 para a Marinha (deve ser para os cabos do mar); mais 5 Meuros para a modernização do software dos F16; 450 Meuros para os Helis EH101; a substituição das G3; mais novos aviões para substituir os Aviocar e upgrading do C130; ainda estamos a adquirir e pagar os F16 e as fragatas ; e há os submarinos, estes á volta de 1000Meuros; e as minudências militares, como o treino da GNR e doutras NT em cenário de guerra, a 5 a 10 Meuros/ano; o upgrade de diverso software, etc, etc. Eu sei lá, milhares de milhões de euros, uns 600 ou 700 milhões de contos (lembras-te?) suficientes para equipar os bombeiros contra todos os fogos, acabar com todas as listas de espera, construir a Ota, o TGV e sei lá mais quê..... Mas isso não tem importância, face a voltarmos a ser uma potência, pelo menos relativamente ao Gabão e à Albânia.

Dr. Rola – Oh Sr. Coronel, isso deve dar umas comissões do caraças!!!!

Cor.Falcão - Pois é. Espero que fiquem na Defesa.

ASP

Olhar ruminante XXIV

Anúncio para aquisição de Bom senso – projecto Minerva

Pretende-se adquirir, urgentemente, para Portugal:

a) 10.000.000 (dez milhões) de doses individuais de senso comum, para fornecimento gratuito aos cidadãos;
b) 1 mega ams*, para uso político, com a seguinte repartição:
b1) 300.000 ams para o Governo;
b2) 300.000 ams para a Oposição;
b3) 300 000 ams para os autarcas;
b3) 100.000 ams para os restantes políticos;
c) Igual quantidade para uso pelo Sistema Judiciário, sendo 50% para Juízes e 50% para Ministério Público.

Resposta com certificações e amostra de qualidade do produto para a Junta de Salvação Nacional em formação.
Assunto sério. ASP

* am – unidade nacional de bom senso – iniciais de um conceituado homem público reconhecido pela qualidade do seu pensamento e acção, que seria de pouco senso nomear.



sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que estralam
ACA fez a sua entrada triunfal. Ele não, foi ela, a namorada é que fez a notada entrada, o cabelo a voar, em triunfo. ACA anda sempre bem acompanhado, com estrelas que brilham, estrelas que esperam, e estrelas que estralam, mas às vezes perde-lhes o rasto e quando se avistam outro dia, já parecem estrelas fugidas. ACA diz que tem os números de telefone, o que já não é mau. LACP


quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que não param quietas
Muitas pessoas que a Ana Gata convidou são amigos dela ou doutra parte, ou amigos de amigos. Em princípio ela quis, com este party, apertar os laços invisíveis do folhetim calhado, mas como se viu, deve ter considerado que eram poucos corpos e demasiados laços e encheu a casa com mais gente, os tais levados por outros, que, não conheceu antes, aliás como no folhetim; sempre levados pela mão d’alguém ou chegados por um acidente de percurso. Foi assim que se misturaram na casa em Sintra, pessoas, idades e géneros, uns com idades de paizinhos, outros já seráficos, outros a fingir o que não são. Muitos foram apresentados, outros escaparam-se disso, mas houve quem reconhecesse muitas caras de gente entre os que não foram apresentados, como é o caso de LCP, a ver tudo com ar de não se saber quem é e sete estrelas seguras nas mãos. LACP

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Olhar Ruminante XXIII

Anda tudo a pensar por encomenda quanto ao novo modelo económico para Portugal, para fazer aproximar os nossos indicadores econométricos dos da média europeia.
Sim senhor.
Sexologia angélica, pois o cerne da questão não está no modelo económico (liberalismo semi-selvagem de 2ª categoria), mas sim na cultura vigente.
Esta cultura, isto é, a fundamentação para as vidas, os critérios da estratificação social, as formas de relação, os objectivos existenciais, etc, regrediram para os de uma sociedade rígida e muito convencional, materialista à ultrance, em que os valores da solidariedade e da cooperação deixaram praticamente de existir.
Instalou-se no sector público um verdadeiro mandarinato: os cargos são entendidos como prémios de fidelidade e os mandarins ocupam-nos apenas para exercerem a gestão corrente e pelo “horror ao vazio” quanto a liderança.
Qualquer iniciativa é mal vista pela hierarquia e, por prudência, os mandarins não as tomam. A inovação é suspeita. A “liberdade de pensar” é restrita para filosofias e futebois.
A dialética ou a prática do contraditório, em termos concretos, é uma actividade institucionalmente suicida.
Uma pirâmide de carreiristas a olharem para cima á espera de directivas.
Deixou de haver estratégia(s); o planeamento é ridicularizado.
E a previsão, assume-se, não é portuguesa. Português é o “não há-de ser nada”.
O conceito de chefia é o mandar. Mesmo a vulso, sem objectivos ou explicação, o chefe manda, o subordinado obedece.
Enquanto estas mentalidades dominarem a Coisa Pública, enquanto esta cultura conservadora se mantiver, o País está congelado, quase morto.
O tão glosado “reino cadaveroso”.
Na melhor das hipóteses demora uma geração a corrigir este estado de coisas, se poderosamente motivada.
Estarão os nossos yuppies e jovens virados para tal?

ASP
Folhetim calhado

Engraçados
Os mais jovens têm uma postura de grupo. Se calhar há códigos de referência. Por um lado estão codificados, mas julgam que são livres e por outro lado são livres e não têm códigos. Deve ser por terem ideias a mais. Até o Fonseca, habitué da palermice, se estava a safar na confusão. Como não havia nexo, o que era uma inevitável consequência da animação, também ele não foi empurrado pelos seus instintos para se pronunciar excelentemente, como julgava que acontecia quando puxava da prosápia, julgava. Não quer ficar atrás nunca e no entanto não tem nada para dizer, muito menos quando a conversa fica séria. Aí vai mesmo para fora dos carris a atirar o disparate alto e bom som para a assembleia e não vê que é melhor estar calado e faz melhor figura se estiver no lugar. Muitas pessoas perdem personalidade se não estão a fazer ruído. Mas ninguém naquele grupo de oscilação convivencial iria reparar quem é rico ou quem é menos, quem diz mais disparates ou mais coisas chatas, desde que seja engraçado, tudo bem. LACP
Barco da carreira dos Tolos

“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: o Torrismo

Já se sabia que a inefável classe profissional que dá pelo nome de “promotores imobiliários”, gostava de torres, que são a forma mais simples de valorizar o terreno.
Neste mundo cada vez mais preocupado apenas com o dinheiro, alguns arquitectos também perceberam que a torre era a modalidade de melhor relação honorários/trabalho. E que melhor os publicitava, se forem espectaculares.
Para alguns pacóvios fascinados pelos modelos urbanos neo-capitalistas, as torres fazem-nos sentir nova-iorquinos, los-angelinos ou, como dizer, chicaguinos.
Mas o fazerem-se arranha-ceús nas zonas antigas (e baixas) de Lisboa é atentar contra a sua imagem tradicional e descaracterizá-la, vulgarizá-la, retirando-lhe, assim, um dos seus principais encantos e trunfos de identidade e apelo.
A malha viária da Cidade, as redes de águas, esgotos e energia, etc, são antigas e não estão dimensionadas para acréscimos localizados de população, como as torres proporcionam.
A “cultura” de Lisboa é ainda europeia, de relações sociais ao nível do chão, “horizontais” e não neo-mundista, de actividades emprateleiradas.
Lisboa tem casas e escritórios a mais para a procura real que existe e os que tem para oferta estão a preços despropositados para o uso normal pelos lisboetas. . Lisboa antiga está a desertificar-se, de velha e a “arruinar-se” por falta de novos usos
É tempo de recuperar e reconverter. É a Lisboa antiga que é bonita e boa de passear. Não os novos bairros. É tempo de consolidar o tecido urbano antigo, valorizá-lo e usá-lo modernamente. Mas como o investimento não é infinito, há que evitar ou dificultar novas construções, especialmente torres ou grandes edifícios.
A escolha de bons arquitectos para as torres em nada resolve estes óbices.

ASP

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que gostam
No primeiro momento até julgou que era o seu amado, no segundo momento assustou-se quando viu que era outro, no terceiro tempo gostou do que viu. Isto do amor é preciso que haja algum, tanto faz quem o ocupa. Maldade. Se o Sr. Kant fosse pingamor e não um chato, apesar de lúcido, a sua categoria apriori aplicava-se não só ao processo do conhecimento, mas também ao processo dos afectos. Mas ele não aplicou. Ou seja, abusando da tolerância intelectual do senhor, o amor é um apriori, ele existe antes, no processo da paixão e mostra a cara quando uma cara se pranta à frente, e há química e uma boa dose de palavras emergentes. Assim, uma personagem mascarada, pode tomar o lugar de alter ego, sem que o cenário de base prévio seja trocado. Há apriori? Então é só encher. E assim, a frouxa-firme Leonor que tanto ama e com obsessão, sem dizer a quem, já está enredada noutro desconhecido que lhe está a cantar uma doce canção de embalar. LACP
Olhar ruminante XXII
Irra! Acabem com isto!

Façam o julgamento urgente, zulu, imediatamente, já, do Carlos Cruz, do Pedroso e também dos outros, mas ao menos dos dois primeiros, onde há mais confusão.
Ou tirem o espantoso juiz Rui Teixeira deste folhetim. O homem já fez que chegue para o desprestígio da Justiça!!! Onde entrou, deu bronca, neste caso.
Mete-se pelos olhos dentro que foi um erro de casting, espero sinceramente que casual.
Já perdeu validade a fábula dos juízes, todos os juízes, serem óptimos, imparciais, inteligentes, poderosos, cultos, justos e incorruptíveis, só porque são juízes.
Eu ainda me lembro do meretíssimo Verdasca Garcia, por exemplo. Um escândalo de corporativismo!!
Tirem-me agora este voluntarista júnior judiciário deste folhetim e normalizem a coisa, como nos Açores, por exemplo. E de caminho varram a ministra, o procurador geral, o Ministério Público, o enervante João Guerra e alguns conspícuos inspectores da Judite, que só baralham, não sei se designadamente se não.
Senhores da Justiça, se não assumem que isto não tem corrido bem e muito por vossa culpa, acabam por se ver enrolados, em conjunto, no descrédito crescente dessa sagrada instituição.
Acabem com tudo isto antes que isto acabe com o que resta de credibilidade do sistema judicial neste País.
Irra!
Acelerem, meus.

ASP

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que precisam

Uns estavam alegres e levados pelos contactos, numa festa de ambiente bizarro pouco convencional e cheio de promessas, onde podiam sentir e mostrar à vontade risonho, graça e humor e também comedimento nas frases trocadas. Percebia-se que os excessos ainda estavam adiados, mas, seguramente há que admitir que no subtexto da convivência, havia ali quem, à partida sentisse sobretudo enfado. Enquanto os que se conheciam estavam bem e contentes, pela oportunidade de uma maior afeição, os que não se conhecem, medem e desconfiam. Embaraços. No entanto, tudo se cobre de gargalhadas e vozes entrecruzadas. Mas acontece sempre assim, a compressão avança, forma multidões e por isso ficam todos vagos, múltiplos, indistintos, muito difusamente conviventes e gulosos de presença corporal. As pessoas fazem o ambiente, diz o Palisse, mas uma loura alta e belíssima faz dois ambientes. O ambiente ganhou com ela, mas isso não é igual a dizer que a Tucha está a ganhar com aquele ambiente. Não parece o dela. O seu espaço é menos lateral do que este party na casa semi abandonada dos tios da Ana Boneca Gata, e se ela mesmo assim está ali é porque é uma pessoa aberta. Isto pode dizer-se de muita gente que precisa, é o que vale. Ao contrário, a Ana é activa, fala pelos cotovelos e tem resposta para tudo, portanto provoca uma certa óbvia simpatia. A Tucha é um enigma e continua enigma, está perto e está longe, tudo ao mesmo tempo. Está ali com as pessoas e ao mesmo tempo está longe. Como se sabe não há ninguém que consiga entrar em contacto com S. Ex.a. Vão, fascinam-se, metem os pés pelas mãos, desistem, ficam escravos calados e depois deixam de contar com a Tucha. A Leonor chegou com ela, as duas amigas vieram juntas, e pareceu receosa e hesitante, os olhos a brilharem, sorridente. O seu amor calhado está na sala e ela lança-lhe sempre novos olhares de uma comunhão improvável. Mas não é capaz de se aproximar, iniciar uma conversa, está bloqueada. Andou na sala um pouco sem destino, mas quando se sentou, com muito cuidado com medo da cadeira de aparência trôpega ir abaixo, chegou-se logo um cavalheiro falante. Podia ter-lhe dirigido a palavra antes, quando a Leonor andava em pé por ali, porque assim, ele fazia uma corcunda. Se não se debruçasse, ela não ouviria os piropos e conversada que lhe estava a dar. LACP

domingo, fevereiro 08, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que se abatem

Não se vê nada por fora disso do patrão da coisa ser mercenário, não há cicatriz, olhar vítreo, tosse convulsa ou perna manca. A não ser que conte, para se ver esse passado, o negrume geral do abandono circundante, as cadeiras partidas, as molas dos sofás espetadas, o ranger das madeiras nas escadas e corredores, ( fora das três salas arranjadas, do quarto de dormir não se sabe não se viu não se usou), por conseguinte esse caruncho provável do exterior, o descalabro do jardim ex jardim agora cinzento e também ruína com fumos de queimas e mais o portão nos gonzos sem rodarem, cravado de óxidos de ferro, tal e qual como os óxidos que se vendem para pintura a óleo, Rembrandt da Talens, transparent oxided yellow, transparent oxide brown e outros correlatos, em várias línguas, e também o Lasur oxid- braun e red ou rot da série Mussint da Schmincke, sem esquecer as séries de still de grain amarelas e castanhas, claro, se se quer falar de portões enferrujados, em boa verdade, porque a verdade está do outro lado, percebem-me?
Por conseguinte, se este aparato exterior disser respeito ao passado deles, esse passado é sobretudo ruína.
Mas isto não chega para garantir que se é mercenário e que esta palavra seja automaticamente sinónimo de ruína. Nem por sombras. Primeiro, com aquela idade não pode ser mercenário ou pelo menos mercenário no activo. Segundo, se foi no passado e não voltou à liça, o tempo que ficou a seguir, deu para enveredar por outra actividade e quando as actividades e profissões se acumulam, todas elas se somam para atingir a ruína e em matéria de profissões nada ressalta que nos diga que andar à berlaitada num qualquer país africano ou europeu, seja mais mercenarismo do que alguns empregos em que a paga é paga de venda. Isto não é branquear o passado do anfitrião. Pois que, se é verdade o que disseram, que ele ganhou umas massas com instrução militar, isso não é bem ser mercenário é ser militar e se ele foi apenas contratado para umas bernardas reais numa qualquer mata africana, tal só podia ter acontecido mesmo há muitos, muitos anos. Nos tempos de hoje que são da expansão da democracia, da velocidade da comunicação e da electrónica, esse tipo de contractos estão a coberto de outra sofisticação e a filosofia dos mandantes e as trocas de papéis por encomenda, estão a coberto de uma eficaz agência central, muito mais poderosa do que a central models. Disse. LACP

sábado, fevereiro 07, 2004

Estrelas que esperam

O que faz aqui a Tucha, neste ambiente descalabrado e velho? Não faz nada, está ali, como os outros, à espera, a tactear o ambiente, segura de si, com toda a presença atirada para a frente, mais ou menos próxima das janelas, volta e meia a medir qualquer coisa lá fora, mas não vê nada fora, não há jardim arranjado como ela está habituada e, quanto a animais vivos, o que vê é só um passarão negro descomunal que esvoaça por cima do jardim extinto. Isso tem a ver com a soma de anos acumulada do proprietário e as poucas hipóteses que ele já tem de corrigir o passado. LACP

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Folhetim calhado

Estrelas que brilham

São muitas pessoas estranhas. A Ana Boneca Gata que é tão dada e com tanta ansiedade insatisfeita, salta em passagem breve de um nómeno para outro nómeno, na sinuosa estrada universal. Se não fosse ela ser leve, parte não levantava voo, o que poderia causar-lhe enormes danos, assim a saltitar de ser para ser num maravilhado instante divertido. Seriam bocados que ficavam pelo caminho, mas parece que ela vai toda outra vez. Não satisfeita com a sua estrada de absoluto, a relativa mulher convidou meio mundo, dia a dia mais expressiva com gestos largos e exclamativos, afinal escondendo que nada nem ninguém a consegue satisfazer. Isto acontece a muita gente que vive como as estrelas: Brilham, rasgam, impressionam e lá se vão, infelizes, a se apagarem na linha do horizonte, em cumprimento do irresistível destino efémero.
Então a Ana tem ali à mão muita gente, mas por mais que passe de grupo em grupo, não apanha as conversas todas e há meadas da estrada universal que lhe escapam e a inquietam. Não será tão cedo que vai conseguir conformar-se por não ter tudo. O seu horizonte já se disse, é céu! LACP

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Folhetim calhado

A mulher que perdeu o feitiço
Ex mercenário ou boato, não devia haver suficiente roxo para manter habitável a casa toda, e muito menos o jardim. De qualquer modo não é próprio de um mercenário aquela arte de aproveitamento e aquele sinal de vida criativa, nos meros desarrumos e meros desarranjos de um dia a dia de sinais de bom gosto. Só se se ficar a dever à mulher que perdeu o feitiço e está baça e com calças que parecem um pijama. Não se sabe, não se percebe. Mas não dá, não é ela, é demasiado magricela, talvez mal aprontada, não é figura de vanguarda, presume-se, é de arranjo lateral, compostura para mais tarde, depois da preguiça, enquanto ele, o Aquiles Alarde, ele não, ele tem ar. Ah perdeu a frescura é o que se refere com o feitiço perdido. Azares. Recortada na janela, com a luz pálida por trás, a silhueta fica bem, mas na outra janela, a silhueta recortada é a da Tucha e claro está, fica arrasadora, enquanto a magra ex feitiço parece antes uma estampa esborrachada nas folhas de um qualquer livro arrumado na biblioteca. LACP
Folhetim calhado

Quarto de dormir
Certamente que existiam mais quartos, pelo menos para dormir, pelo menos um, mas não se foi conduzido lá. Isso não tira a impressão de que ainda naquela tarde ou lá pela noite, ele vai ter uso. A ver pelo à-vontade de certas pessoas. LACP
Sobre o sistema político lusitano – um lamento

É o que há. E se não gostam, comam menos...

São assim os principais partidos. Pelo menos os que ambicionam chegar ao Poder.
Os outros transformam-se nisto, quando do poder se aproximam.
Mas quase não há vida política fora dos partidos. Alguém que queira manifestar a sua cidadania em termos políticos, de contributo para a Coisa pública, para o seu país e o seu tempo, não tem, na prática, alternativa.
E mesmo quem tenha optado por se inscrever num partido e quiser militar segundo os seus ideais e ideias, se se não associar à partida a um qualquer “primo”, “padrinho” ou amigalhaço, ou a uma das muitas cortes, baronetes e ducados que constituem a nomenclatura partidária, os chamados “aparelhos”, bem pode esperar.
São muitos os inscritos, mas poucos os escolhidos.
Estes são os que interessam pessoalmente aos leaders instalados, que assim se transformam em verdadeiros caciques, locais, regionais ou nacionais, consoante a sua importância, e que se traduz por duas coisas:

-capacidade de arranjar emprego para os protegidos;
-capacidade de influir em negócios, através da sua influência no poder.

É desgostante, mas é verdade. Decadência típica.
À conta da Política, da nobre actividade de agente da Polis, é pena haver tantos figurões a encherem-se, enquanto discursam de acordo com as regras estabelecidas do politicamente correcto.
O primado do “eu” é nítido, face a qualquer espécie de altruísmo que sempre tem que enformar a actividade política.
Não é difícil compreender porque reina a descrença e o desânimo a nível do lusitano comum, que não partilha desse jogo redondo, de poder pelo poder.
Corrupção grassante. Inevitável dentro do Sistema, quando e onde haja dinheiro.

Porque é que todos os projectos em Portugal são tão caros?
Desorganização, seguramente, mas não só.
E a vida política, afastadas as ideias e os aspectos utilitários que a corrupção patrocina, transformou-se num circo mediático necessário para entreter as massas, lhes dar a ideia que vivem em democracia e que os “eleitos” se preocupam com a melhor governação da “Rex publica”.
Tretas!

Mas o pior é que se não vê alternativa.
E que nem todos todos os políticos são os trastes atrás descritos.
Há poucos, mas ainda há, idealistas, gente honrada e preocupada com a Coisa pública como justificação da sua acção.
Mas perceber quem são e que o manto respeitabilidade não é apenas o das aparências? Há-os, certamente, em todos os partidos e correntes ideológicas.
E, se referenciados, como os organizar e lhes criar massa crítica para constituírem a “reserva do Estado”, a génese da salvação nacional em caldo de liberdade e de respeito pelos direitos instituídos?

É preciso esperar.
Até o sistema se tornar insuportável.
Quando?

(não segue no próximo dia)
ASP

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

Folhetim calhado

A. V. A.

Este dono de casa devia ter algum gosto. É que há um dono de casa que está quase à porta a receber, não é muito formal é apenas uma presença acolhedora. Saúda e desaparece, para ser visto não longe num entretenimento seguinte. Direito, com uma camisola de gola alta, sem barriga, o cabelo curto. Parece desprendido. Também há uma dona de casa. Tem os cabelos claros muito finos escorridos, está magra e usa umas calças de uma matéria baça que lhe dá um ar caseiro não muito feliz. Foi-se- lhe a frescura, mas isso é uma vista do exterior.
Alguns podem ter ficado admirados com este maduro e perguntarem donde é que ele apareceu. Outros com a indiferença habitual da juventude deviam achar que era mais um gimbrinhas. Mas são parentes da Ana Gata, uma espécie de tio ou tia. É por isso que ela continua a ter um papel destacado; depois dos contactos, de acertar datas e hora, agora move-se na casa com muito à vontade. A.V.A., são as siglas do estranho nome, Aquiles Vibrante Alarde. Alguém elucidou que o Aquiles era um mercenário. Esse qualificativo pareceu tão insólito, ou divertido, que acabou por não ser levado a sério, e correu depressa. Não é todos os dias que se vai a casa de um mercenário. Foi posto a correr entredentes num sussurro pouco credível, mais vago do que explicito. Mercenário de quê? Também as putas são mercenárias e os empregados e os outros e os maridos. Estes são mercenários mesmo. Mas quando? Onde? Esta dúvida inquietante e atraente deixou-os por um lado de malas aviadas para uma aventura e por outro lado, dadas as incapacidades e mole afectividade, a treparem para o palanque do desprezo. Mercenários são os brutos, os reaccionários. Em casa de um selvagem? LACP

Folhetim calhado

A sala com mais gente
Mas a realidade é que se concentram sobretudo numa das saletas onde estão as bebidas. Também era talvez a mais agradável, mais cheia e mais desarrumada ou vivida. Era aí que se podia ouvir música com duas moderníssimas colunas oblongas e uma aparelhagem Marantz. A um dos cantos, estendendo-se para as paredes, meticulosamente arrumados, o dono da casa escolhia os CD favoritos. Mais em baixo, uma biblioteca de DVD em formação.
Então o espaço de vida está assim concentrado no hall e numas meras três saletas, as quais se enchem de convidados: A desaustinada biblioteca, a casa de jantar e o antro da música. O conforto e arranjo não vai para além destes espaços. Outras divisões, corredores, salas e salões estão todos fechados, a cair e sem qualquer uso. Tudo o resto é caos. Escadas partidas, armários cambados, pó e traças.
Como na parte de fora. Talvez haja equivalência ao percurso e história de vida dos donos e parte do percurso dos dois tenha sofrido um grande rombo. Outra parte, em simultâneo, lá se vai alindando.
E o que se pode ver da janela para fora, por entre os vidros foscos, é aquele fumo de cinza que enevoa e difunde contornos. LACP
Olhar ruminante e negro 4

Sobre o sistema político lusitano – um lamento

O interessante jogo do Poder
A política, em Portugal, está assim reduzida a um mero jogo de poder. Para a sua conquista ou sua conservação. Oposição ou situação funcionam no mesmo comprimento de onda, porque ambas constituem e conformam o Sistema, o establishment.
Comem todos do mesmo tacho.
Mais nada. Na melhor das hipóteses no pressuposto que, uma vez conquistado o poder, estarão em condições de governar, ou seja, de aplicar reformas e de pensar em ideias para melhorar a vida na Nação.
Primeiro o poder. Depois a Nação. Mas a Nação é usada como o principal pretexto para o Poder.
Isto tudo numa dinâmica pela negativa. Não se trata de demonstrar que se é melhor, que se tem boas e adequadas propostas para a governação ou para a resoluções dos diversos e crescentes problemas nacionais.
Não. O que interessa é abater o adversário, na segurança de que, por horror ao vazio, no actual sistema, se não forem “eles” somos “nós”. Basta. Assim, abatê-los.
Depois se verá, basta aguentarmo-nos até eles nos abaterem.

(segue no próximo dia)

ASP

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: O Governo.

O PEC deu volta ao miolo dos responsáveis governamentais:
Um ministério pede emprestados à banca 300 milhões de euros (a que banco, com que critérios, a que juros?) para pagar uma dívida ao ministério das Finanças; o próprio ministério das Finanças retém indevidamente 120 milhões de euros do IVA, que deveriam ter sido entregues a diversas empresas, sem apresentar justificação; o ministério da Justiça disfarça a contratação de 600 funcionários com esquemas imaginativos e retém-lhes os descontos para a Segurança Social; por todo o lado há trapalhadas e desorganização. E já se acha normal, de tão frequentes.
Ninguém percebe se o governo está ou não a conseguir controlar o deficit: uns dizem que cresceu para 5 e tal por cento, outros que desceu para 1 e tal por cento. Todos com ar sério e gravata. Nós, os governados, vemos as despesas a crescer e o ordenado a diminuir. Sem perspectivas de melhoramos a breve prazo.
É de parafrasear o Grande Ilhéu: “Está tudo bêbado, ou quê”?

ASP

Folhetim calhado

Os convidados vão –se distribuindo
As pessoas são levemente conduzidas para uma das salas não longe do hall, esta divisão é grande, cheia de livros, mas nem todos em bom estado, umas ou outras colecções de pele de carneira e sobretudo papel velho, e estantes que já não chegam para livros novos, então encafuados na horizontal por cima dos outros verticais, numa atmosfera de uso ou passagem, tudo aquecido por um fogão a gás, dos grandes.
Depois as pessoas são discretamente convidadas para outra sala com varanda. Mas as janelas têm a aparência de nunca terem sido abertas e não há acesso para essa varanda. É uma sala convencional com sedas nos estofos esgaçadas e alguns dourados velhos sem viço post patine. Em seguida as pessoas já não são mais convidadas para nada. A seguir vão –se espalhando com liberdade de movimentos, seleccionando os espaços de adopção intuitiva, de acordo com os confortos e o bláblá da comunicação. LACP

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Sobre o sistema político lusitano – um lamento

Ideias para que vos quero?

Os políticos hoje em dia acham que não têm que ter ideias.
Têm é que parecer que as têm.
Refiro-me a Ideias com “i” grande, as que conformam as ideologias, as que definem formas de governar com iniciativa e que provocam mudança.
Não as golpaças, o desenrasca luso para solucionar de improviso coisas que mereciam ser planeadas e pensadas com tempo.
Tácticas, truques e toda a sacanice necessária (e infelizmente suficiente em Portugal), para se chegar ao Poder.

É tal, hélas, o que enche as mentes dos agentes da Coisa pública hoje em dia.
Mas a praxis política sem Ideais e sem intuitos de reforma à luz desses ideais, é uma imoralidade cívica, um oportunismo ético.
Mas “who cares”?

(segue no próximo dia)

ASP

Folhetim calhado

De surpresa em surpresa
A maior das surpresas vem a seguir. Passa-se a porta da casa velha e chega-se ao bafo quente de uma casa muito vedada, muito aquecida, muito confortável, com tinta de parede clara e acolhedora e com as paredes repletas de pintura moderna, e nem as vozes de circunstância conseguem diminuir o peso do silêncio ambiente. Não é pintura naturalista, é trabalho abstracto executado em casa fechada. Pode-se pôr a hipótese de os actuais donos detestarem jardins ou desprezarem a natureza. A casa por dentro, pelo menos na parte vista, é uma ilha de conforto e criatividade num caos de perdição exterior. Não apetece voltar para trás, mas antes sentar e se possível ficar por ali. LACP

domingo, fevereiro 01, 2004

Folhetim calhado

Num local sem árvores vivas
A casa escondia-se no fundo de umas arvores descarnadas, o que podia tanto ser resultado da velhice ou do inverno. O portão de ferro era dos antigos, estava cambado, cheio de ferrugem e provavelmente não fechava. Entrava-se por uma espécie de álea decadente que ia pelo meio do ex jardim de relva ratada, muitas folhas aos montes e ar de frio desconsolado. É possível que para trás da casa estivesse uma horta de apoio ou um pomar ainda em exercício. Dantes poderia ter existido um quadro de recursos anexo, para assegurar o fausto da fachada da frente, senão, com as crises, ia tudo por água abaixo, não havia casaronas que se aguentassem. As crises às vezes são velhas. Na frente, jardim ou parque que tivesse sido antes, o que era agora, era mas era um escombro do tempo vivido. O aparato, de uma mansão debruçada sobre a paz de um jardim, tudo dentro de uma cerca alta, estava furado e banido. E também a cerca à volta, o muro de pedra, estava arrombado. Tudo podia ser devassado, a entrada era livre, livre o acesso à ruína do jardim, fumegantes as cinzas do passado queimado, atravessado pelo grasnar de aves finais aduncas e sobreviventes, porque as aves, essas quase de rapina, já se sabe que preferem os destroços do que as épocas douradas, onde ficam tímidas com as vozes dos ricos e se escondem. Depois com a humidade do inverno, sentem-se livres do constrangimento e rasam os locais. Melros, gralhas e outros vingadores engordados de pilhagem, perseguem com gula feroz as cobras e minhocas e lagartos que se tinham assenhoreado dos espaços não tratados, num maná de ciclos de vida e alimentação em que as aves são talvez o fim da linha desse ciclo, já que ninguém as abate, salvo se um gato abandonado, de dono já defunto ou com dono vivo mas vago, se atirar a elas e as vencer. Note-se que, se gatos gigantes houver nas redondezas, mesmo domésticos e em interacção dentro de casa com uma ou um dono vivo, hão-de sempre fugir para uma inevitável caçada furtiva. Bem, nesta casa, está a começar a reunião do folhetim calhado. Este espaço velho e desencantado, está a ser invadido vez a vez por jovens frescos, umas meninas alouradas, uns rapazes muito heróis, uma rapariga lindíssima e alta a que chamam Tucha, uma outra sorridente e doce a que chama Leonor .... estão todos a chegar pouco a pouco. Tocam na entrada uma campainha que faz um som estridente e alto que ofende as árvores velhas e assusta o cemitério involuntário da velhice. LACP
Sobre o sistema político lusitano – um lamento
O que é preciso é distrair a malta

Face a uma iletracia mais ou menos generalizada, que a estupidificação nacional pelos media acentua, Portugal entrega-se desvairadamente a todas as intrigas de comadres que lhe vendem e que confunde com casos sérios, por inépcia crítica e cultural.
Flagrantes casos de corrupção, de simonia, de abuso de autoridade, de irresponsabilidade cívica, de violação de direitos, de prejuízos à Republica, interessam menos os portugueses que a pornografia mental de se imiscuírem nas desgraças ou vícios alheios. Veja-se a porcaria da abordagem no caso da pedofilia. A bandalheira da tutela do Estado que permitiu a rede de pornografia infantil, o tráfego de menores, o esquema organizado da prostituição de crianças, tudo isso, gravíssimo e nojento, ficou quase esquecido perante a curiosidade obscena nas descrições das práticas e na condenação de notáveis como consumidores finais. E se não houvessem nomes conhecidos à mistura, todos os crimes tinham passado desconhecidos do público nacional.

Sem espírito colectivo, sem civismo, com medo de pensar, arrogante na sua mediocridade civilizacional, o chamado Povo entrega-se, rezingão mas conformado, ao populismo e à demagogia de uns patifes mais ou menos disfarçados de políticos.
A qualidade mais apreciada num homem público é a simpatia e a capacidade de comunicação. E o humor, talvez. Como os palhaços. Seriedade, honradez, dedicação à causa pública, competência, são valores esquecidos, apenas interessantes para chatos e velhotes.
O que é preciso é distrair a malta.
Pratica-se a mentira e a hipocrisia como processo de convencer o País, que não mais se lembra, crente dócil nas estórias de encantar, de conferir as promessas ou os dados fornecidos.
Por hábitos de fé apriorística no poder, por ignorância, por índole e por preguiça.
Política espectáculo. Espectáculo como política.

(segue no próximo dia)

ASP

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