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quarta-feira, março 31, 2004

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: era para ser o (alegado) líder da Oposição, mas passou a ser o laureado Saramago

Porque simpatizo com o primeiro e antipatizo com o segundo.
Do primeiro encontrei razões em ele afirmar que não queria que o Governo caísse. O dever cívico e político da Oposição, especialmente quando o Governo está a governar tão mal, é substitui-lo o mais cedo possível e se não acomodar no cumprimento estrito de verbalismos parlamentares, à espera de melhor ocasião para se mostrar alternativa.
No segundo devido a se deixar incluir nas listas para as eleições europeias e, simultaneamente, propor o voto em branco para o mesmo acto eleitoral. Congruência nítida!!. O ser o único prémio Nobel português de Literatura deu-lhe uma postura arrogante, uma vaidade que avassalou a respectiva qualidade. A fama libertou-o da disciplina das ideias comunistas. O hábito não. Nessas meias tintas quer-se indefinível, mas é apenas difuso. Não gosto dele. Foi para a proa esta semana.
Boa viagem.

ASP

terça-feira, março 30, 2004

Folhetim calhado

Indecifrável se a tranquilidade parte da impressão subjectiva ou se há algo nas ruas da cidade que decide a tranquilidade.

Prováveis são as horas do dia em que se combinam os extremos, o áspero vermelho e o tranquilo azul, o lado de lá da rua e o de cá, o fumo das castanhas no céu neutral acinzentado em vez do volumoso azul do verão, algum silêncio ocasional resultado de uma forçada interrogação sobre os infindáveis ruídos urbanos e da parte de dentro, quem sabe se a suspensão também de um conflito e adiamento de uma decisão de risco, o controle de uma ambição que se alimenta de fortes emoções e que assim por razões convenientes se esvaem, as emoções e os gabaritos do desejo e vontade, e então conciliados o sujeito e a ambiência neutral da cidade, então pode a Tucha pensar e sentir que a cidade e ela vivem tranquilas...
Mas são apenas instantes de uma manhã, numa tarde, uma hora, só instantes, apesar de terem impacto igual ao universo. Depois, angustias, e, mais e maiores emoções voltam à desfilada para arregimentar o corpo, rumo a novas batalhas mortais. LACP

segunda-feira, março 29, 2004

Olhar Ruminante XXIX
O Sistema

Suponho eu, a não ser quem dele faz parte integrante, ninguém está satisfeito, hoje em dia, com o chamado Sistema Político instalado, isto é, aquilo que os anglo-saxónicos chamam de “establishment”.
Culpando-se normalmente o Governo, porque está mais à mão e porque, de facto, não tem resolvido a maior parte dos problemas portugueses (antes os tem agravado, nalguns casos), o facto é que há a sensação geral de que a “culpa” do estado de coisas decepcionante em que se vive transcende a governação e tem a ver com a Política no seu geral, ou melhor, com o sentido e a forma de fazer política presentemente.
Resumidamente, ao Sistema faltam-lhe ideais, faltam-lhe ideias , faltam-lhe lideres.
Enquanto a Direita acolheu com entusiasmo o quadro ideológico do neo-liberalismo, na crença das virtudes reguladoras do Mercado, a Esquerda ficou enredada com a queda do Muro, não encontrando ideologia adaptada à realpolitik e sem cabeças que lhe gerem um neo-socialismo que lhes valha. Adaptou-se. A maioria dos seus dirigentes aconchegou-se mesmo e há quem fale, em Portugal, num sinistro Bloco Central de Interesses.
Começa-se agora a ver a outra face da moeda, com as desigualdades a crescerem, acompanhadas de tensões sociais e criminalidade, o egocentrismo-individualismo feroz, com destruição de valores morais e sociais determinantes, como a Família, a Nação, a Honra, etc. Os indivíduos, perdendo a noção da solidariedade social, concentraram-se na busca de um “sucesso” que lhes dê a sensação de identidade, baseado no exibicionismo de bens materiais e numa “importância” proporcional à riqueza. Gradualmente deixou de se viver em democracia, a não ser formalmente. Passou-se a uma plutocracia, onde o dinheiro é a causa e o fim de tudo.
Quase toda a gente está descontente, desanimada, muita gente infeliz, mesmo.
O Governo, de Direita tem sido, em Portugal, o grande campeão desta forma de viver.
Esperava-se da Oposição propostas nítidas e fortes que o contrariassem.
Esperava-se do PS, o principal partido da Oposição, que demonstrasse empenho em acabar com este estado de coisas e se propuzesse substituir a Situação, em eleições, evidentemente. Seria esperado que tal fosse manifesto e que a sua principal acção fosse não apenas criticar verbalmente a acção governativa (ou os seus agentes, porque, na tradição portuguesa, atira-se sempre à figura) mas demonstrar que tem ideias, estratégias e gente preparada para a alternativa, que se quereria o mais cedo possível.
Mas não.
A Oposição não quer que o governo caia! Acomodou-se e defende a “estabilidade”, mesmo que tal signifique retrocesso, estagnação e mau governo para o País!
Na melhor das hipóteses só haverá mudança lá para 2006. Se a Situação cair, de podre.
É o Sistema no seu melhor!!!!

ASP

domingo, março 28, 2004

Folhetim calhado

Mito

O senhor príncipe encantado nem sequer protege as que o amam. Deixa-as fazerem tudo, espécie de egoístas remotos e desatentos que não se dão a conhecer, metem-se lá nas alturas e elas que se tramem a decidir fora do curso da verdade. Leonor passa o tempo à procura das feições dele, perdeu-lhe o rasto, só tem a vaga emoção das suas grandes qualidades. Também que se há-de esperar dum mito, senão esquecermo-nos dele? O chato é que o mito está sempre a marcar a dança. LACP

sábado, março 27, 2004

Olhar Ruminante XXVII
Entre-os-Rios

Para quem percebe destas coisas, o desastre da Ponte foi 90% um “act of God”, um azar, uma fatal coincidência para as vítimas de estarem no sítio errado, na hora errada.
Restam os outros 10% de causa.
Aí estamos todos nós, representados no Estado, a nossa balda endógena, o desleixo, o desenrasca como forma de abordar as questões, o passa-papel, a rainha Burocracia, a finta, a preguiça militante, o nacional-porreirismo, o sermos todos primos. E o Estado é a JAE, a Câmara, O IND, a fiscalização dos areeiros, da EDP, etc., etc.
A JAE porque, tendo detectado o descalçamento de dois pilares, não providenciou a sua correcção. Se conhecermos os procedimentos burocráticos necessários, talvez se compreenda porquê. Neste caso, entre alguém-chefe tomar a decisão de realizar tal correcção e a sua conclusão mediariam umas largas dezenas de actividades e correspondentes aprovações, todas devidamente postas à consideração superior. Perto de 3 anos ou mais. Provavelmente até estariam em curso o pedido de licença para cabimento do concurso para projecto das soluções adequadas para irem a concurso de obra. Se se mantivessem as chefias, o que, na JAE, com a incrível rotação de 8 CAs em 6 anos, não aconteceu.
Os areeiros porque sempre foi assim, pagam licenças e luvas para tirarem a areia – se não for ali onde é que o Norte a arranja? – e nunca ninguém os avisou de que se não houvesse cuidado podiam afectar as margens, a ponte, a ecologia, etc. Apenas uns “verdes”, barbudos e radicais, faziam barulho, mas isso era coisa de folclore do Porto.
O Instituto de Navegabilidade do Douro, porque está é preocupado com a navegabilidade do Douro e, para isso, quanto mais areia se tirar, melhor.
Os fiscais dos areeiros, pois, sempre foi assim.
A Câmara preocupou-se com o que se via, o tabuleiro, cujo alcatrão do piso estava em mau estado. E foi para tal que chamou a atenção.
As barragens fizeram o que tinham a fazer, face aos caudais extraordinários das afluências. Não podem ser galgadas, é sabido. Avisaram as autoridades competentes, da forma rotinada.
Mas os portugueses querem culpados, caras, gente, sobre quem possam cuspir impropérios, se possível apedrejar, linchar. É um lado bastante incivilizado que perdura nas lusas gentes, mas é assim. O ministro de então, o secretário de Estado, o presidente do IEP estavam longe de mais, em Lisboa.
Era preciso alguém próximo, alguém que uma vez, ao menos, tivesse tocado na ponte, mexido na ponte, visto a ponte.
O ministro ao demitir-se assume implicitamente que a responsabilidade foi humana, não da Natureza, ou do Azar. Obriga a demitir-se o presidente do IEP, reforçando esta ideia. O Estado, na comoção geral que se seguiu ao desastre paga as indemnizações, assume a balda nacional e bem. Afasta de si esse cálix.
Não sendo um azar da Natureza, um “acidente natural”, tem que haver “culpados”, para exorcizar o desgosto.
Daí o processo criminal contra os vinte e tal arguidos, nomes um pouco arrebanhados na gente que estava mais à mão.
Fez bem o juiz que não seguiu com o processo. Nunca seria possível, em verdade, relacionar qualquer desses arguidos com qualquer causa do acidente.

ASP

Folhetim calhado

Paixão
Leonor sente muito frio dentro dos ossos, é coisa que se relaciona com a impressão de estar muito sozinha e decidir talvez mal. Mas como muitas vezes acontece consigo, qualquer pequeno nada a puxa para outro lado e isso quase parece uma pirueta e um paradoxo, mas não é mais senão autoregulação do espírito que quer viver. Porque acima de tudo, Leonor é paixão. Esta é um tónico de fogo que se espraia pelas artérias, sobe ao centro do peito, dilata carnes, ruboriza a pele, explode em cataratas de emoção, vida é o que a leva para fora, insatisfeita por muitas vezes não encontrar onde pôr e dar a sua intima paixão. Sabe que não pode ir contra a natureza de paixão e vida, sabe que está a forçar a evidência, pois que mesmo abraçada ao desconhecido, o centro da paixão continua ser visitado por outro, por aquele que ama, pelo seu príncipe desencontrado, é vida que precisa, quando se deita por baixo do seu desconhecido e o seu príncipe desencantado continua a chegar, ao âmago da paixão, por baixo dos beijos sôfregos que dá a outro. Muitos vivem a vida toda assim: enganados no lapso, sempre a pensarem noutro que as alimenta. LACP

sexta-feira, março 26, 2004

Olhar Ruminante XXVI
Perplexidade MCCLXXV (é nº avançado, mas o que é que querem, neste caldo de irracionalidade em que se vive?)

Mário Soares disse, a vol d’oiseau, que como não era possível aniquilar todos os terroristas, havia que ir às causas e “negociar” uma solução, para ela existir.
Toda a gente rasgou as vestes e bradou “blasfemou”.
Bem.
Com o terror não se pactua, não se negoceia.
Dois dias depois, a propósito da reacção de Israel ao terrorismo palestino, com o assassinato do tenebroso sheik da cadeira de rodas, toda a gente protestou e afirmou que com o terrorismo há que negociar.
Bem.
E, de facto, é o que a Sociedade Internacional faz, bem: com o terrorismo não negoceia e negoceia.
Com a maior das coerências.

ASP

quinta-feira, março 25, 2004

Folhetim calhado

Gelado
Aquiles Alarde não tem força para chamar o sargento e mandar formar a guarda. Está ao chão, rasteja, quer chegar a casa, logo ali depois do jardim extinto, mas não vai lá. O frio vai cair sobre aquele meio corpo, falta-lhe uma perna e mulher, o militar pode ficar gelado ou morto, quem sabe ? LACP
Folhetim calhado

De braços abertos

Estão a entrar de mansinho às escondidas, entra, entra, vem para aqui dormir é o que diz Leonor a puxar o desconhecido pela mão e logo que se fecha o portão da casita, pois que há casitas que têm portões para fora, muito altos e muito largos e espessos e é por isso que não se ouve o que se passa na rua, quando se está bem dentro e apertado nessas casas urbanas de interior sobretudo secreto e logo que se fecha o portão, a Leonor abre os braços todos para fora e encaixa o cavalheiro nessa lua entreaberta de devoração sempre a chegar.

Vão de gatas dois felinos desde o hall lá para dentro a rocegar onde se abandonam pedaços de um e uma e quase miam quando os cabelos esfregam o chão e a cara se enruga e a alma se estende e o ser permanente se acena estouvado, ido ser de acto, pequeno nada duma questão insolúvel e se atinge um quarto que é mais uma gruta, trancada do exterior por um portão de enorme corte e na gruta se vão deixar outras peças de roupa tão fúteis como as que se perderam no caminho amontoadas, do lado das peças de uma eternidade, acasalamentos são contradição nos termos, antítese? LACP

quarta-feira, março 24, 2004

Bate, tonta cabecinha
Tenta, insiste, rebenta
É só um vidro sublimado
Que te impede o acesso
Ao outro lado da vida.

Nunca lá chegarás
A não ser num talvez distante
Se tiveres sorte
E um anjo da guarda influente.

Mas insiste, estúpida.
Pois se não o fizeres
De que te serve a vida?

ASP

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: um mano-a-mano, já que a proa do barco é larga assaz para pares e mais gente até: o Ministro do Interior e o Ministro da Cultura, como é que eles se chamam?

O do Interior por aparecer; o da Cultura por não aparecer.
Aparecendo, o primeiro, reforça a desconfiança e a insegurança, no Povo.
O homem treme, titubeia e apresenta como grande medida anti-terrorista o pré-aviso de ir fechar as fronteiras em data pré-marcada. Pressente-se no discurso redondo insegurança própria, incapacidade de definir estratégias e acções, insuficiência na liderança.
O outro por deixar entender que a Cultura nacional nem existe, tão invisível como o seu tutor.
Alegadamente condenada a tal por falta de verbas (meios).
Mal vai um povo quando relaciona de forma tão inequívoca dinheiro e Cultura.
Ou que aceita sem protesto como responsável nacional pela sua Cultura, alguém que tão objectivamente invisível, inserido, satisfeito, estático, transparente, cinzento, venerador e obrigado.
Como pessoas, quer um quer outro, são respeitáveis, sérios, até simpáticos.
Como governantes merecem estar na proa desta carreira, infelizmente tão cheia.
Como outros que por lá já passaram e outros que lhes seguirão.

ASP

terça-feira, março 23, 2004

Folhetim calhado

O inferno é cá em cima

Está grosso no corpo, tem matéria em excesso que lhe prende os movimentos, foi-se a ligeireza, bamboleia-se aos trambolhões e ziguezagues, entre a cinza lúgubre do ex jardim agora caos de ervas, pedras sem sítio, tábuas que escondem por baixo ratazanas e répteis e onde voam por cima, pássaros livres entre dejectos e restos. É um arrepio que o leva, tropeçando, a arrastar a perna falsa que parece desconjuntar-se e sair do corpo e ficar viva. Há um momento em que o sinal de desequilíbrio não é combatido e Alarde deixa-se ir, faz um movimento em falso, vai de joelhos ao chão e estatela-se. Exagerou a queda, a cara bate na terra suja e fica com a impressão de que alguma coisa lhe entrou na boca, ou foi ilusão ou foi cinza, levanta-se um pouco, mas os olhos estão –lhe a fugir, quer voltar a subir a escada necessária para ficar em pé, mas o esforço é grande e intolerável, só tem uma perna e custa endireitá-la sem o apoio forte dos braços, o que está a faltar, coisa da idade, não passa dum farrapo que anda, cepo velho, semi batido no jardim sem uso à mesma altura dos outros cepos, as mãos de lado à procura de se levantar e afinal sempre tinha batido com a cara na terra, sujou-se, há sulcos que descem entre crateras dos olhos para baixo e se misturam nos cantos da boca, como na pintura de enganos, dos tempos.
Apareceram da sombra algumas figuras que espreitam. Muito recatado, mas vigilante, Lúcifer espera a hora. Mais longe, já fora da cerca, a morte aguarda, e, um pouco aterrorizada, a senhora da sorte recolhe as asas brancas e vê o seu destino benéfico sem saída plausível. – Não preciso de fazer nada de especial – disse o Belzebu para o prostrado Aquiles -. Basta-me esperar, porque vais ser meu.
Aquiles implora clemência, diz que já lhe levaram uma perna, que já lhe tiraram a sexualidade e os amores e as mulheres, que agora lhe querem tirar a vida, o que é exageradamente inútil e manifestamente exagerado. Prefere ficar como está, no chão, de rojo, neutro, sem paixão, sem sexo.
Mas o inflexível dono das trevas grita-lhe imperioso: Basta! Mereço-te justamente numa cozedura aos negros! Não posso esperar mais, tanto foi o vermelho de sangue gasto com a tua negligência e utilitarismo! É chegada a minha vez! - e com voz cansada e esganiçada, termina: - O seu a seu dono.

E assim se pode por um triz acreditar que o inferno serve para alguma coisa, já que coze mercenários, e se não fosse assim, porque razão está o Aquiles de rojo, pregado ao chão, a perna que há sem forças, a cara enlameada do chão sujo, é porque há inferno, na hora final ou nas trevas cosmogónicas ou no coração ou no corpo não se sabe nem importa saber dessa geografia, quando o Demo arremessa o rude golpe de dor e de vingança o seu a seu dono, que ele existe, existe, não importa onde. LACP


segunda-feira, março 22, 2004

Folhetim calhado

O farrapo que anda
Deitado da tripeça para o chão, os olhos na cinza, é assim que Aquiles enregelado deixa o fundo do jardim . Vai a coxear e aos safanões, arrastado e sem força, olhos injectados de sangue, o pouco cabelo desgrenhado por cima das orelhas, a raiva no meio do corpo velho, o cérebro desgovernado a chispar ódio e derrotas.
Mas pouco mais terá esta figura a desempenhar no folhetim calhado, foi apenas o dono da casa que Ana Boneca Gata arranjou para a reunião dos laços invisíveis, e ele sabe que foi usado e que não pertencia nem pertencerá ao grupo que só lhe fez o favor de lhe atirar para cima, para cima da recta final, e de chofre, um sopro de energia e futuro. Ele não pode mais fazer outras opções, estão todas tomadas, está já tudo decidido, não poderá voltar atrás escolher outros caminhos, recuperar a pele lisa de mulher estampa antes de estampada sem feitiço, é um mercenário à espera da morte, sem corpo para segurar o passado, ao contrário do bando de juventude displicente onde sobra tempo para enganos, erro, adiar, preferir, escolher amanhã e não hoje, julgar que têm amanhã sem encontrar a morte na alma desfigurada pelo passado acabado.
Não é uma bravata de homem que passa a chave na fechadura da rua, é um farrapo que anda, um trapo final. LACP



domingo, março 21, 2004

Olhar Ruminante XXV
O lobo no galinheiroConhece-se o caso TAP. Sempre foi considerada inviável até ser contratado um gestor profissional. E não comprometido com a partidarice nacional.
A situação equilibrou-se, os trabalhadores mobilizaram-se, as coisas começaram a correr bem, mesmo num contexto económico desfavorável, no país e no mundo.
Dentro dos costumes nacionais, foi então nomeado para a presidência mais um comissário político do Governo. Aparentemente com a missão específica de “lubrificar” a privatização da Companhia.
Para tal era muito inconveniente ela ser lucrativa e não dar problemas com o pessoal. Ataca assim a gestão do Executivo, a pretextos de intrigas de comadre e propõe-se tomar o controlo absoluto da gestão, apesar (ou por isso mesmo) do sector saber nada e da fama de perdulário público que lhe advém do passado (cf Expo98).
Um gestor público deveria zelar pelo interesse do Estado nas suas funções. Este, com a TAP a ficar rentável, diz defender a sua privatização e aborrece-o o “sucesso” dos gestores profissionais, porque demonstra que, afinal, o Estado também pode ter vocação para gerir “convenientemente”, desde que haja dedicação e competência.
E dificulta a hipótese de um bom negócio para qualquer lobby privado.
Que Estado é este que mete o lobo no galinheiro?

ASP

sexta-feira, março 19, 2004

Folhetim calhado

Deserto
Já todos tinham saído e Aquiles estava fora de si, roído de inveja e outros vazios. Só lhe faltava roncar com a envelhecida mulher presente que tinha perdido o feitiço. Virou-se a ela: - Levas uma surra – gritou-lhe para dentro do ouvido de estampa falida – e sabes que mais, deixa-me em paz! E atirou com a porta da rua, ela aos gritos: - não tens nenhuma razão para andares nessa revolta! O arremesso da saída foi forte demais e quase deu o primeiro trambolhão cá fora. Apertou a perna postiça, bamboleou, atirou três palavrões para cima dos pássaros e resmungou que só vêm para ali fazer festas e é o que querem eu que me lixe e vá para o inferno. Desceu pelo deserto da terra queimada e cinza até ao portão, cada vez mais lúgubre, farroncas para baixo e não sabe para onde ir e ali fica encostado ao muro cabisbaixo, uma carrada de tempo os olhos pregados ao chão, talvez numa cavalgada de pensamentos caóticos próprios do descalabro.
A estampa perdida, ex estampa, fechou a janela, a ultima luz da casa, olhou para fora, afastando um pouco o cortinado da vidraça, e não conseguiu distinguir o Aquiles encostado ao muro, ao fundo da quinta. Foi-se deitar, estava farta de tudo. LACP

quinta-feira, março 18, 2004

Olhar Ruminante XXII

Um perigoso dislate

É claro que os aderentes à Cimeira dos Açores ficaram automaticamente na lista dos inimigos da AlQuaeda e inscritos como potenciais alvos do terrorismo ignóbil que promove.
Madrid foi prova disso.
Para além de ficar num cantinho da fotografia (só faltou estar fardado de mordomo) ainda não percebi quais as contrapartidas que o Dr. Durão Barroso conseguiu dos USA para esse compromisso. Aparentemente não existiram. Que parvoíce!!!!! Comprometer a segurança de todo um Povo, para mais contra a opinião manifesta desse Povo, para coisa nenhuma a não ser uma fugaz vaidade!!!!!

O improviso

Os portugueses serão, provavelmente, os campeões do improviso.
Nota-se na forma de fazerem política, de tomarem decisões, na ausência de planeamento, na inexistência de previsão, na capacidade inata de baralhar as questões quando de debates e discussões, que, assim, nunca chegam a conclusões.
Mas a ideia que se tem da Segurança, dos seus agentes e métodos é completamente contrária ao Improviso. E assim criou-se um sentimento geral, na Nação, de insegurança endógena.
À portuguesa, vai ser levado durante os próximos dias a alguns exageros e, após uma ou duas semanas, cai no profundo esquecimento, logo que apareça qualquer outro entretenimento mais envolvente.
Então, começa o verdadeiro perigo.
Madrid fez-nos passar abruptamente do “não há-de ser nada”, para declarações de “paninhos quentes” de que “não há nada de concreto” em termos de ameaças, “mas que está tudo sob controlo”.
Claro que não há nada de concreto, ou está-se à espera que terroristas da espécie destes avisem com 24h de antecedência?
Ninguém acredita que esteja tudo sob controlo, mas também nada se ganha com isso.
É suposta uma desorganização e indisciplina “à portuguesa” mesmo nos nossos serviços secretos e nas polícias especializadas. O que vem a público é preocupante quanto a non-sense, raiando o absurdo. E temos um ministro que sempre que fala ao público transmite, só por si, uma enorme insegurança pública.
Mas talvez o improviso resolva aquilo que o rigor e profissionalismo doutros sítios não tem resolvido.
Oxalá.

ASP
Folhetim calhado

A tentação da tragédia

Logo que puderam NCS, LFB, LCP e ainda LCA convocaram o belzebu para uma reunião. Lúcifer fez-se muito rogado à proposta de abrir mão da tragédia aos interessados de fora parte. Ainda tentou convencer argumentando que podia vender sofrimento aos humanos, mas a isso LFB ripostou que já cá há muito. Após longas conversações em romarias de tentação, Lucifer acabou por tolerar um pequeno nada, que sim que abria a porta da tragédia se LFB pagasse pessoalmente por isso. Não explicou completamente que saída malévola estava a congeminar e qual a dimensão desse preço. Em rigor Lúcifer não compreendia o particular interesse deles em penetrar no âmago trágico infernal quando parte está já disponível no mercado terreno em várias versões e nem sequer difere substancialmente do sofrimento.
Disse também num assomo de autonegação da sua condição infernal, que, para os humanos seria bem melhor que se ficassem pela pantomina em vez de se tentarem pelo fundo da condição humana, mas ripostaram que não cabe ao demónio demover ninguém de ideias exploratórias sobre a natureza da verdade. O animal calou-se e deixou seguir. Perante a insistência relativa ao preço a pagar, não estavam na realidade a perceber bem o fundo doído do preço pessoa a pagar, o diacho espantou-se e gritou: o preço? Depois, de forma relutante mas esclarecedora, o mafarrico explicitou, como se fosse bem fácil de compreender, que o preço a pagar era construir palavra a palavra um drama em vários actos, e, ser-se por consequência e por fim, um autor. NCS compreendeu o tremendo preço, esse tremendo preço, ser pessoa a pagar em espécies; de dor, de contrariedade, de dificuldade, de sofrimento e de muitas mais inomináveis formas. Nada se faz sem sangue. O negócio ficou suspenso em virtude de não constar no contracto inicial qualquer clausula relativa à tragédia, tendo-se nessa altura apenas contextualizado em termos jurídico formais e por cedência demoníaca, o acto da sátira, esse sim, o demónio dispensou. Foi um subterfúgio para adiar uma concessão, já que quanto à tragédia, um género demoníaco de eleição, desse, o demo não quer prescindir. Mais tarde – resmungava o satã meditabundo e triste, a carregar nos erres – mais tarrde.... Ficou em suspenso se haveria outra ronda de negociações. LACP

quarta-feira, março 17, 2004

Folhetim calhado

O caminho da tragédia

NCS e LFB abandonaram a casa de Sintra, rumo a outras desventuras susceptíveis de um bom exercício de assentamento das matracas. Com as capas em contacto, basaram, a correr em frenesim e sem paragem, numa cavalgada noite fria serra de Sintra abaixo entre penedos e ravinas fundas, rumo a outros lugares de carpir, bufar e pregar em vão.
Foi nessa altura que NCS pensou que uma cláusula mais o Lucifer talvez não se importasse de negociar. Mas NCS sabe que, da matéria própria não larga a mão o diacho facilmente, a não ser que o valor da troca tenha alto preço. É que actuar sempre a botar abaixo presunção, desinchar crápula ou deslaçar vendilhão, através das sátiras encapeladas, isso é só o meio caminho para atingirem a tragédia. Mas dessa o Lúcifer não larga a mão . Que se pode oferecer para a troca? LACP

Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: Durão Barroso

Devido à situação que criou com a inútil e inoportuna adesão à Cimeira das Lages, que agora lhe trazem (e a todo o País) preocupações e riscos completamente desnecessários.
Pelas patéticas atitudes dos seus porta-vozes, a fingirem que está tudo normal e que “não há nada de especial”, depois de se saber, após Madrid, que as ameaças se concretizaram e o Terror se virou para os amigos europeus do Bush.

ASP

segunda-feira, março 15, 2004

Folhetim calhado

Tucha deixa a casa de Sintra muito devagar

À ida teve a companhia de Leonor e agora que ela desapareceu, sente que lhe falta qualquer coisa quando desce pela apertada e perigosa estradinha de Sintra, de regresso a Lisboa. Vai muito devagar, os olhos fixos num pensamento fugido e nem parece que vai com atenção à estrada. LACP

domingo, março 14, 2004

Folhetim calhado

Fuga

Leonor encheu-se de pressa, queria ir embora rapidamente, não queria mais estar, pede num tom de voz esdrúxula ao seu desconhecido, a segurar-lhe na manga para lhe chegar ao ouvido, que a leve depressa, não há mais nada a esperar da casa, nem daquela gente nem de ninguém. Depressa, depressa, vamos, - quase berrava - a pegar nas coisas sem acertar com a entrada da manga do casaco atrapalhado a vestir, a correr à frente do desconhecido, semi aparvalhado com a pressa, talvez compreensivo, num quase histerismo – não se diz nada a ninguém, vamos fugir!. Vamos para o Guincho, vamos para o Cabo da Roca. – afogueada de energia, para fazer frente, nas horas tardias, ao cansaço, às nódoas negras e às olheiras.
E escapam-se sem dizer nada a ninguém, nem à Tucha. Os faróis vão a serpentear a estrada e rasgam o nevoeiro, deixando à volta, manchas escuras que sobem para fazer uma abóbada por cima deles, muito instável e mal segura. Sentem-se rajadas de vento a balancear o carro que se afasta para um espaço onde não está ninguém.
No Cabo da Roca, quase ao pé do obelisco, Leonor sai num rompante e ambos correm para se juntarem ao abismo. Mas deste, têm medo, é muito fundo. Outros também não têm coragem, o nevoeiro também não ajuda e desistem por uns tempos. O vento levantou-lhe os cabelos e desponta um irreconhecível pescoço estreito e alto, semi fecha os olhos que passam a frinchas, arte de pálpebras a fazer frente às navalhadas da rajada contínua e as mãos estão sobre o peito numa defesa desajeitada e esforçada para chegarem sempre mais até ao fim. LACP

sexta-feira, março 12, 2004

Folhetim calhado

Já não há tempo, Aquiles.
Quando Leonor voltou para baixo eram horas. Uma luz pálida passava pela janela a fazer um quadrado na carpete mesmo no centro da sala. Havia já pouca gente e de olhos fatigados – Acho que são horas de ir, meu caro Aquiles – disse a Tucha extraordinariamente simpática contra o que era habitual – Vou mesmo – enquanto Aquiles também muito gentil a queria convencer que podia ficar e havia muito, muito tempo. LACP

quinta-feira, março 11, 2004

Olhar Ruminante XX
A política e o futebol – dois parágrafos
1º parágrafo
Sousa Franco foi contratado para a equipa do PS para jogar a capitão-avançado-de- centro no campeonato europeu. Boa imagem, chuta bem e muito, estava livre, sem compromisso de equipa, transferência barata. Não é militante socialista, nem mesmo será simpatizante (nem antipatizante), ninguém sabe bem se o que ele pensa sobre a Europa corresponde ao que o PS pensa, que, em boa verdade, para além de uns chavões comuns a todos os partidos, não é muito claro o que seja.
Enfim, foi o artista de telenovela convidado para abrilhantar o Carnaval do Rato, no espectáculo mediático em que se tornaram as eleições, designadamente as próximas, para o Parlamento Europeu. Nas anteriores até ídolos do futebol foram mobilizados. O carácter internacional destas impôs um pouco mais de decoro....

2º parágrafo
Claro que daí advém uma abstenção de 70% ou mais. Votar só por votar, a fingir que somos todos cidadãos europeus cordatos e satisfeitos e com isso dar cobertura a um sistema político que hoje está imensamente desacreditado, não dá. Desiluda-se PR, Governo, Oposição e a Drª Isabel Meireles.
Já se deu para esse peditório. Não tem credibilidade.
Depois há a ideia de que o Parlamento Europeu não tem influência quase nenhuma (o que é verdade) e só interessa ao menino Jesus e aos deputados europeus pelas suas prebendas; que dentro do PE o grupo português não tem influência quase nenhuma (o que é verdade) e que só interessa aos deputados seus componentes pelas condições salariais que lhes proporciona; os candidatos a deputados são quase todos mais ou menos iguais e vá o Diabo e escolha, pensando quase nada e agindo de acordo com a cartilha partidária que lhes mandam para ler (o que não é totalmente verdade, mas é o que consta).
Se não for para fazer pirraça ao partido A ou ao B, ou para dar uns cobres ao DrX em vez de ser ao EngY, para que é que vou gastar uma manhã para escolher uns figurões que não conheço e que irem para lá ou não irem será previsivelmente exactamente a mesma coisa, em termos de ligações EU-Portugal?
Para não haver 95% de abstenções (sendo os 5% os deputados, respectivas famílias, líderes partidários e apoiantes próximos) há que fazer como o PS propôs: incentivar o espírito lúdico e mobilizar a malta para o cartão amarelo ou não cartão amarelo, ao Governo, inserindo assim ainda mais a Política no Futebol, que é o que está a dar.
É giro. Assim já voto.
Ah, e podem fazer uma toto-voto, que ajuda à adesão.

ASP

quarta-feira, março 10, 2004

Folhetim calhado

O príncipe encantado não serve para nada

Foi por causa de um relâmpago que Leonor voltou à sala vinda do quarto de dormir. A sua entrada fez um estrondo, e o relegado príncipe encantado, já se sabe que estava na festa, às vezes aparecem, não esquecer, perante tanto surgimento ruidoso, levantou os olhos. Talvez não fosse a primeira vez que a via, teve mesmo a ideia de já a conhecer, talvez a conhecesse há muito tempo até, a cara era-lhe familiar, não soube donde ou quando, ainda não a tinha visto naquela noite e nesse preciso instante da porta que se abre com estrépito e os seus olhos subiram nessa direcção, os olhos não muito molhados de Leonor desceram para os dele, num instante de precisa permanência. Observaram-se, Leonor parou, o companheiro desconhecido passou para a frente, afastou-se para dentro da sala e os olhos fixos de Leonor deixaram-se estar nos olhos daquele que amava renunciado, o seu príncipe perfeito, que julga que a conhece de qualquer lado, que faz um pequeno movimento a pensar ir na sua direcção, mas tem medo daquele olhar de súplica e trespasse. Até olhou para trás, parecia que ela olhava para qualquer coisa atrás, não devia ser ele, mas não, não há ninguém, é mesmo para ele que vai esse olhar de pedir que parece que não vê. Ela avança, quase se perdem os olhos nos passos levados por obstáculos que os separam, ela fica em frente e pára, o mesmo olhar fixo, quase sem expressão, o olhar de um cego, quase sem destino, um olhar isolado, retirado do fundo dum corpo, e, o príncipe sem amor, baixa a cabeça num esboço de cumprimento solene, respeitoso mas inseguro, é assim que se cumprimentam as pessoas que não se conhecem bem a não ser de vista. Mas Leonor já não saúda desse modo um momento perdido e final, o ultimo instante provável duma eterna saída para sempre Leonor diz só o que conseguiu dizer entre dentes para ele ouvir “ eu queria tudo”, o seu príncipe fica sem perceber, faz um ar de espanto parece que vai dizer qualquer coisa, julga que está à frente dum lapso, mas a Leonor volta a olhar mais de frente outra vez como se não visse e sai-lhe muito baixinho: “era para ser”. O seu príncipe não vai dizer nada, não emite um som, não compreende, há pessoas que dizem palavras soltas, coisas que não se percebem, relapsos, distúrbios, sons deseloquentes, palavras fugidas das suas frases, sons fugidos das suas palavras, frases fugidas dos seus contextos, desarrazoáveis punidos numa corrida para fora desordenados numa barafunda de caos pretérito e volta a baixar a cabeça quando ela passa ao lado pela sua frente e desaparece.
--Como se chama esta madura ? pergunta o príncipe para alguém ao lado. LACP


terça-feira, março 09, 2004

Folhetim calhado

Trôpego ou coxo

Já era de esperar; Aquiles Alarde viu-se livre da mulher sem feitiço que o queria levar à força para o defeso, voltou para a sala e foi-se à Tucha. Como dono de casa, não fazia muito por conviver, nem amabilidade ou atenção, deixava tudo para ali. Mas não podia ficar indiferente à vamp que lhe encheu o sítio. Chegou-se, andou por perto a cirandar e lá ficou perto. É verdade que o Aquiles tem muita personalidade, encara as pessoas de frente, e a nossa costumada Tucha levantou –lhe o nariz e ele nada, não se encolheu, aguentou-se, tem personalidade. Disse-lhe umas vulgaridades e entrou imediatamente no aconselhamento serôdio, género não perder juventude, misturado com elogios discretos, mas a Tucha respondeu que ”isso de juventude já tinha perdido”. Ele também prontamente: “ Engano, só se perde quando se vão embora os nossos.. Eles é que levam para fora a nossa juventude. Vai agarrada à morte deles”. Tucha encolheu os ombros sem esconder que se estava a maçar e disse mesmo “ agora o que mais me faltava era filosofia” É muito simpática, a Tucha. Mas o Aquiles não se importou ou fez que não viu que ela estava a sacudir, o que era coisa normal nela, como se sabe. Talvez tenha achado que estava a exagerar e acrescentou “ não estou felizmente a contar com ninguém” O Aquiles não percebeu ou então percepcionou o desconchavo da conversa e sai-se com outra: “ sabe; mesmo coxo ia lá e punha ordem nisto” A Tucha não mostrou interesse pelo resto. Ia lá onde? Pôr ordem no país? Aonde ia?
Não se tinha notado que era coxo, podia até faltar-lhe uma perna, não se dava por isso, eles fazem próteses que é uma maravilha. Não devia estar contente, viu que a conversa não tinha nexo, fez um movimento brusco e teve que se segurar ao reposteiro. A sanefa aguentou, mas o pano ficou mais torto do que estava. A estampa envelhecida, a mulher sem feitiço que já o vigiava há muito, passou ao capítulo dos ralhetes. LACP

Olhar Ruminante XIX
Está tudo bêbado? (alocução de político ilhéu)

Foi em nome da Igreja, que foram distribuidos folhetos de enorme violência verbal e de imagem, pornográficos mesmo, para alegadamente combaterem o movimento que pretende descriminalizar as mulheres que pratiquem o aborto, nos termos previstos nas propostas de lei existentes. Milhares de panfletos nojentos, entregues a centenas de crianças horrorizadas, sob o olhar baboso de responsáveis irresponsáveis.
Terá sido sob os auspícios da Igreja (Católica Apostólica e Romana). Mas só o padre qualquer coisa, um que pinta o cabelo, é que deu a cara, pateticamente a balbuciar umas generalidades. Não percebeu.
Por mim não percebi é como é que tudo o resto foi montado, texto, imagem, tipografia, distribuição, à revelia da hierarquia e dos pios católicos envolvidos nestas questões.
Será que o radicalismo cega?
Um pecado, sem dúvida, até por auto-mutilação de tiro no pé.
Valha-nos o lado luminoso da Igreja, que o há.


Olhar ruminante XXI
I do it my way....

O presidente da Câmara de Lisboa, dentro do seu conhecido feitio de incontinência verbal (de verbas da Câmara) resolveu fazer um bonito e contratar, sem concurso, o mais caro arquitecto do mundo, para fazer o projecto do Parque Mayer, não se fosse pensar que ele não quer para a Cidade o que há de melhor (e mais caro) no Mundo.
Alguém pagará.
Mas esqueceu-se de duas coisas :
a) que , ao contrário, por exemplo, de Bilbao (o paradigma da moda para autarcas populistas), com amplas vistas, o lado bom da arquitectura do Ghery (desconstrutivista, com formas espectaculares, mas, funcionalmente medíocre), nunca conseguirá revelar-se num recinto fechado por prédios e montes por todos os lados, como é o caso do Parque;
b) e que não é dono de Lisboa e dos seus dinheiros, pelo que tem de obedecer a normas e procedimentos de contratação, que exigem pelo menos a consulta a outros arquitectos (porque não portugueses?).
Protesto para aqui, Tribunal de Contas para acolá, resolve-se a coisa passando a responsabilidade da promoção da obra para a EPUL, empresa totalmente pública, só porque tem uma artigozinho nos seus estatutos que (parece) lhe permite contratações sem concurso!!!!!!
Consta que o custo da prevista obra é exorbitante; o preço do projecto desproporcionado e que o que já se gastou, que acabou por permitir a fotografia mais cara do mundo (o edil com o arquitecto a subirem uma escada), daria para construir uns 50 fogos para lisboetas carentes. Não se viu ainda mais nada.
Se isto não é populismo, onde é que está o populismo?
E onde está a modéstia pública recriminada pela crise manuelina?

ASP

segunda-feira, março 08, 2004

Folhetim calhado

Leonor chega abruptamente aos finalmente.
Leonor fez um pequeno sinal à Tucha mas ela não compreendeu. Viu depois que não estava na sala, mas não acreditou que se tivesse ido embora sem avisar, sempre tinham chegado juntas e não era ainda tão tarde como isso, a ver os hábitos. Tinha decrescido um pouco a agitação, alguns tinham ido, ou agrupavam-se mais contemplativos, sentados e cabisbaixos. Não se apercebeu que a Leonor seguia para o andar de cima, mas foi o que eles fizeram, o desconhecido levado pela mão apressada, embaraçados a abrirem a porta que dava acesso à escada para o andar superior onde estava o quarto de dormir. Não era uma porta recuperada, era antiga, fazia barulho e rangia. Mas talvez todas as portas que se abrem façam ruído, em particular as portas que dão lugar a outro espaço, quando se escancaram. Talvez também que o tempo para chegar perto de uma coisa desejada, não passe afinal duma porta encravada que se pode abrir num relâmpago.
No quarto fechado pelos enormes reposteiros que quase não deixam entrar a luz neutra da manhã, Leonor pede resolução e pressa. Como se disse antes, era desde o inicio muito provável que o quarto de dormir viesse a se utilizado por alguém naquela noite. LACP

domingo, março 07, 2004

Olhar Ruminante XXVIII

Faz-me confusão algumas coisas:

A Drª Ferreira Leite tem fama ( e proveito, ao que sinceramente creio), de grande rigor comportamental, nomeadamente na chamada prestação de contas da actividade pública nacional.
Então porque é que, instada sobre pormenores da operação Citibank, disse que desconhecia se haviam juros, de quanto é que poderiam ser, que não tinha sido ela a assinar qualquer contrato e, de forma geral, se distanciou do negócio?
Negócio inédito, de avanço/empréstimo de mais de mil milhões de euros, que permitiu mascarar o deficit, para (apenas) formalmente cumprir o disparate dos limites do PEC.
Será que é sério? O que, de facto, se passa?

ASP

sábado, março 06, 2004

Olhar Ruminante XXVII
Rendimentos suplementares

Por sugestão do interessante apedrejamento do Diabo, que anualmente é levado a cabo em Meca, com umas dezenas de vítimas do entusiasmo dos fieis, surgiu-me uma ideia que poderá aumentar os rendimentos próprios da AR (e, portanto, do Estado, que se escusará aí de subsidiar viagens e outras despesas próprias dos deputados) e, simultaneamente, constituir uma espécie de Observatório da popularidade dos lideres partidários:

Trata-se a ideia de mandar erigir as efígies dos 5 lideres partidários com assento na AR (com esquecimento voluntário dos Verdes, que nunca percebi muito bem) or exemplo no terreiro entre escadarias e disponibilizar, por um euro, por exemplo, pedras, a quem as queira atirar às ditas efígies, com um profundo conteúdo simbólico de extirpação do Mal, focalizado, para o efeito, no líder partidário a apedrejar pelo cidadão.

Para além dos consideráveis proventos que a instalação do esquema proporcionaria, constituiria uma sondagem permanente da popularidade dos partidos em causa, sem recurso às empresas especializadas, que levam uma brutalidade por cada sondagem, mesmo que seja absurda ou esteja em completa des-sintonia com as restantes.

Daria, também, emprego a jovens e/ou deficientes qualificados, para organizarem as filas de espera para esta espécie de exorcismo cívico, e para imigrantes, eventualmente mais qualificados, mas passemos, para recolherem e contarem as pedras atiradas.

As pedras poderão ter duas categorias, nomeadamente 1ª e 2º categoria, correspondentes a serem calhaus mais ou menos rolados e subsequentemente proporcionarem preços diferenciados consoante a sua categoria.
Por sondagem ad hoc nas ruas de Lisboa à possível adesão ao esquema, crê-se que o orçamento da AR e uma quota parte substantiva do OGE poderiam ser financiados pela iniciativa. As figuras dos Drs Paulo Portas e Durão Barroso são determinantes para o sucesso económico do projecto.


ASP

sexta-feira, março 05, 2004

Folhetim calhado

Fumo

Depois do jantar as pessoas foram regressando às outras salas e saletas agora muito mais esfuziantes conversadoras e risonhas alguns contribuíam com exaltação e gritos para acelerarem o ambiente efervescente e os movimentos bruscos das cabeças que falam projectam ideias e lançam ao vento mesclas de cabelos coloridos que se confundem com braços que gesticulam da gente que dança e saracoteia entre fumos que se evolvem num espaço já completo de sons palavras e olhares dum ondulante aperto de laços entrelaçados deslaçados. LACP

quinta-feira, março 04, 2004

Folhetim calhado

Laços ao mesmo tempo invisíveis e visíveis
Todos transportam consigo um insolúvel rude golpe calado e incomunicável. Mesmo os mais novos levam as carnes frescas martirizadas por dores agudas que se transfiguram pouco a pouco em nódoas negras e mais lacerações graves. Leonor está junto á janela, mas de costas, virada para dentro. Vê cabeças pintadas de cores extravagantes, cores de fogo, cores mesclas ruivas e pintocoloridas que lhe parecem sobressair entre fumos e anidrido carbónico. Junto à janela fracamente iluminada e debaixo de um friozinho a escapar-se pelas frinchas, Leonor atrai-se pelo desconhecido e enlaça-se nele. Vive uma explosão confusa de vibração e tremura e os seus olhos meigos brilham intensamente. LACP

quarta-feira, março 03, 2004

Folhetim calhado

Despropositado
Aquiles Alarde já com uns copos e outros acrescentos de frustração, começou a ficar despropositado, a pregar secas e opiniões passadiças, sobretudo às meninas. Mais grave do que isso, fazia gestos largos ( é daí que vem o nome Alarde?) como se as bravatas de militar decidido não fossem hoje mais do que uma pantomina sobre o antigo dinamismo. O que salvou a situação foi a mulher que perdeu o feitiço, que, quando cheirou o desvio, veio a correr em vez de fugir, laçou-o com palavreado disssuador e o levou. Nem todas fazem assim quando os maridões brigões ficam bêbados e chatos. Como não estão para os aturar, piram. Ficou-lhe bem essa atenção salvífica e subiu na escala da consideração de muita gente. Só que ele pode voltar á carga, não haja dúvida. Mas com ou sem feitiço, uma mulher é uma mulher, olarilolé. LACP
Barco da carreira dos Tolos
“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: o Berlusconi duriense

Ele é a Lei. Local, pelo menos.
E pela Justiça, local, pelo menos, tem passado incólume. A rir-se.
Sempre a conseguiu rodear, com os seus grupos de violência política, local, pelo menos, o seu dinheiro fantasma, local, pelo menos, o simplismo, local, pelo menos, de quem sabe que as sociedades se mexem através dos homens e que os homens se mexem por interesses, como uns empregos, locais, pelo menos, por vezes mesmo honestos.
Respira o poder do dinheiro, condição necessária e suficiente para a admiração e vassalagem do povo local, pelo menos.
A maralha, local, pelo menos, gosta de gente assim. Sem peias, nem meias tintas, à bruta, à homem, carago. Protector, local, pelo menos, de quem o serve. Destruidor, local, pelo menos, de quem se lhe opõe.
O centro do mundo.Um mundo pequeno e sub-distrital, mas o mundo para quem lá vive e de lá terá grandes dificuldades em alguma vez sair.
Um certo espectáculo, local, pelo menos. Com direito à indignação por coisas coisinhas, dislates de jogo. Indignação não pela iniquidade ou injustiça, mas porque lhe afectavam o seu interesse. Local, pelo menos. O clube é a terra, a terra sou eu. Ofensa pessoal inadmissível.
Um erro a punir, imediatamente, localmente, pelo menos, de cabeça perdida.
Algo se lhe fugiu ao controlo, ao mando, local, pelo menos. Intolerável. Na “sua” terra, no “seu” estádio, com o “seu” clube, à vista dos “seus” esbirros, dos “seus” eleitores e clientes, perante as forças de segurança, locais, pelo menos, à rasca para se não prejudicarem, depois, na “sua” vidinha do dia-a-dia.
Atitude de dono absoluto. Dono da bola. Dono daquela gente. Dono do mundo. Local, pelo menos.

ASP

terça-feira, março 02, 2004

Folhetim calhado

Apertar os laços

Se a intenção da organizadora Ana Boneca Gata era introduzir uma interacção entre as personagens vitais do folhetim dos desacertos, não se pode dizer que, para quem estava presente, a festa não estivesse a correr bem e nesse sentido, os laços invisíveis, pelo menos alguns deles, viram a luz do dia e estavam a preencher e apertar uns e outros, conforme o acaso e em menor parte conforme as decisões tentadas. Tucha continuava livre, desacompanhada e variável. Leonor estava atracada à força. A própria A B G diminuía o seu papel de semi anfitriã organizadora e pairava hesitante muito tempo junto do seu conversado pintor J. Deve presumir-se que ele se deixou de gritos e raivas como as que teve junto do rio, naquele dia em que a A B G teve paciência, o ouviu e talvez tenha seguido a seguir para o atelier e daí tenha ficado qualquer amizadezinha e demais sabores, porque agora, naquela festa saciado e bebido, inundado de felicidade, não gritava coisa nenhuma e até parecia antes um general sorridente e bonacheirão. Coisas dos tempos. LACP

segunda-feira, março 01, 2004

E se o prazer for forte
talvez te esqueças de recordar
e o regresso fique parado
na esfera de qualquer coisa vaga.
Talvez um desejo não desejado
sirva de pretexto prematuro
do que sabemos não deixar de vir
como chegam maldosamente os fins
especialmente dos prazeres tão fortes
que nos fazem esquecer de regressar.

ASP
Folhetim calhado

No calor do vinho
Cresceram os ritmos das gargalhadas, cresceu a bravata dos piropos, desataram-se as línguas, aumentou o fumo do tabaco, declararam-se intenções que esperavam a luz do dia, cresceu o divertimento, redefiniram-se campos e linhas de água, tudo aos trambolhões logo a seguir à refeição e aos vinhos, e nem sequer tinha chegado a hora da exaltação das outras bebidas e já Leonor se deixava ir interessada e por encanto, levada no oceano surdo da assertiva presença do galante companheiro desconhecido. Não tinha tempo de se lembrar onde podia estar o outro senhor príncipe perfeito com que tinha sonhado tanto e que agora se afundava sem contorno e sem vida numa água escura e pesada. LACP

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