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sexta-feira, abril 30, 2004

Folhetim calhado

Por motivo de força menor o folhetim segue dia 11 de Maio.

LACP
ASP

quinta-feira, abril 29, 2004

Folhetim calhado

A caminhada do principesco não tem fim, até chegar à porta da sua casa
Já se vê como é comprida e sinuosa a estrada que leva à sua porta. Nenhuma chuva ou noite clara lavou o caminho onde sozinho espera chegar à sua porta. Vai comprida a caminhada e não há fim, a não ser acreditar que o triste chão vai mudar perto da sua porta. Passa desvios, cortadas, paradores e pousadas, fraca é a vontade de continuar sem ter, forte a vontade de desistir sem nunca mais ver. Podia não ser assim, podia não estar assim, nem sempre escolheu, ou seguiu outro caminho, se lhe tivessem ensinado e não deixado à espera desse dia sem nunca mais chegar a ver, mas é tarde para recuar e mudar, sozinho na selvagem e áspera estrada que o conduz à sua porta. Há muito muito tempo que procura a sua porta, pouco mais pode fazer do que continuar sozinho por essa estrada, com a companhia e conforto só de uma ideia, apenas a sua ideia de chegar à sua porta. LACP

( e com os Beatles no the Long and Winding Road)

Olhar Ruminante XXVI
Sobre o túnel do Marquês

É claro que o túnel é um show-off, uma prepotência de um arrivista político populista cujo desplante só é suplantado pelo à-vontade com que gasta os dinheiros públicos.
Quer neste caso, cuja utilidade é muito duvidosa, mas onde vamos pagar mais do que 5 milhões de contos, quer no caso do Ghery, que revela uma megalomania pacóvia, pois nem será o tipo de arquitectura adequada ao sítio do Parque Mayer, contra custos astronómicos, quer noutros espectaculares projectos anunciados quanto mais caros melhor, o homem demonstra uma nítida incontinência orçamental, que raia a gestão irresponsável (ou mesmo danosa) da Coisa Pública.
Governar é assumir opções e prioridades dentro do interesse público e seguramente há muitas mais obras, acções e atitudes para Lisboa, dentro dos valores do túnel ou dos outros projectos santanistas, muitíssimo mais justificáveis para alocar essas verbas (que, aliás, não se percebe bem donde virão).
Porque um presidente não é dono da Cidade, nem dos dinheiros da Câmara, que não podem ser gastos apenas por querer, mas que têm de corresponder a investimentos justificáveis para a melhoria das condições de vida em Lisboa. O túnel não melhorará de forma sensível a circulação na cidade, antes pelo contrário, parece. Será uma obra quase inútil, talvez mesmo prejudicial. Para quê, porquê, fazê-lo?
Deveria ser por aí que se deveria tratar a questão. Com bom-senso, que, aparentemente, faltou e falta nesta questão.
E se o túnel é um verdadeiro disparate, em termos técnicos e económicos, tal deverá ser devidamente explicado aos lisboetas.
Parar a obra, nesta fase de realização, é pior do que acabá-la.
Mas deve ser publicado, para memória futura e para responsabilização do autarca, um circunstanciado e fundamentado relatório com toda a argumentação das razões por que não deveria ter sido feito.
No futuro Lisboa julgará.

ASP


quarta-feira, abril 28, 2004

Olhar Ruminante XXV
A nossa República está doente.


Dos seus 3 grandes Ideais, o da Liberdade, o da Igualdade e o da Fraternidade, o Sistema Político apenas ao primeiro tem ligado atenção, até porque descobriu subterfúgios suficientes para a restringir – ninguém com medo do desemprego ou da penúria é completamente livre.
As desigualdades são crescentes – cada vez há mais pobres mais pobres e cada vez menos ricos mais ricos. No mundo e em Portugal.
A Solidariedade passou a ser, quase exclusivamente, um dever do Estado, um frete que justifique os impostos que a população paga.
Os três grandes pilares do Estado republicano, a Justiça, a Verdade e a Razão, estão, em Portugal, pelas ruas da amargura.
Não me lembro de tanto desânimo, de tão pouca auto-estima, de tanta desconsideração pelo poder político, pelas instituições.
A concorrência substitui em tudo a possibilidade de cooperação.
O dinheiro é sintoma de sucesso e o sucesso é o grande objectivo de quase toda a gente e de todas as organizações.
Contra tudo e contra todos, se necessário.
O sistema partidário existente demonstra-se desinteressado da resolução dos problemas nacionais, satisfeito nos seus poderzinhos, que, no governo ou na oposição, lhes satisfazem os egos e as carteiras.
Os partidos fecharam-se sobre si próprios, não facilitando nem o debate de ideias, nem a renovação ou o ingresso de novos elementos para cargos significativos.
Existe internamente um esquema de clientelas de alguns notáveis instalados – uma nomenklatura - que pode eternizar as suas posições e obviar qualquer renovação de quadros.
Sem ideologia e sem objectivos reformistas concretos, os partidos transformaram-se quase em lobbies, em gestores de influências. A Coisa Pública apenas interessa a esses políticos na medida em que pode ser arma de arremesso contra os seus adversários.
A Política transformou-se num jogo de poder pelo poder.
Os cargos na Administração Pública são distribuídos de acordo com interesse pessoal do poderoso e não com a competência do nomeado ou com o interesse público na nomeação. Criou-se assim um Estado de mandarins, sem iniciativa, sem ideias, sem propósitos de acção. Todos a olhar para cima à espera de ordens, que nunca vêm, porque os chefes não têm estratégias. Veja-se o actual Governo e os seus boys.
Um Estado estático, pasmado, plasmado, onde cada um se limita a observar com ar eficiente, os respectivos umbigos.
Para além dos processos formais, dos rituais do voto, cada vez com menos significado ou apelo, a Democracia vai-se metamorfoseando em Plutocracia ou em Oligarquia.
Sem dever de reforma, sem ética pública, a República deixou-se permear pela fé no deus Mamon e é neste quadro que a corrupção alastrou em Portugal, tornando-se praticamente endógena nos sectores onde há dinheiro – futebol, imobiliário, obras publicas, ambiente.
Quotidianamente nos chegam escândalos nesse aspecto, mas todos conhecemos cem vezes mais casos e a ideia existente, talvez injusta, é que nas câmaras e nalguns departamentos e institutos oficiais, nada se consegue fazer sem o empenho, as luvas, a comissão, corrupção, em suma.
Mas a corrupção é o cancro do Estado. E a República precisa de um Estado saudável e não de um Estado doente, desacreditado e ineficaz.
Exige-se uma participação política de todos os cidadãos. Politica no sentido de um contributo para a “polis”, para a melhoria das condições de vida do País, para a consolidação da Democracia e dos seus pilares fundamentais.
Mas para essa participação não ser em vão, é necessário alterar o sistema político existente, o que passa por mudanças radicais na constituição e, sobretudo, na forma de funcionamento e nos objectivos dos partidos existentes.
Os políticos progressistas, não podem ficar apenas como simples observadores deste processo de decadência do sistema democrático em que acreditamos e para que alguns de nós deram muito do seu tempo e da sua vida.
Cada vez mais a militância política se revela uma exigência ética.
Há que mudar este estado de coisas.
Depressa. Notoriamente.

ASP


Folhetim calhado

Voltar à estrada

Tantos, dias úteis, feriados, natal e páscoa, tantos anos corridos, tantos montes e colinas e rios passados e nem sinal de vida de Leonor perdida, e de repente, como se fosse verdade que quem espera sempre alcança, cai do céu a Tucha com notícias da procurada desaparecida.
Foi um passo feliz, foi um passo com dedinho de sorte, a mesma sorte que sempre quis bem à Ana Boneca Gata, que desapareceu também, mas essa seguiu a estrada acompanhada. E se não fosse a sorte, o principesco podia até cavalgar todo o planeta e não dava com ela. Dar com ela não é bem assim, soube que ela está viva e está longe. Essa é uma segunda parte do ânimo. A batalha não terminou e mais peleja vai ser necessária. É com uma careta de enfado e cansaço que vai pôr-se novamente ao caminho e quanto mais depressa melhor, porque vai demorar, demorar, até chegar tão longe, a esse longínquo lugar. LACP

terça-feira, abril 27, 2004

Folhetim calhado

Chegaram notícias
E um belo dia, a Tucha trouxe novas.
Sim, sabia da Leonor – disse – já está longe, mas mesmo assim acabei por lhe dizer que a procuram. Ficou muito admirada, talvez contente ou a sentir-se importante, mas também receosa.
P.E. ficou de olhos fixos à espera do resto.
E a Tucha: eu sei que em tempos ela gostava de um qualquer, mas nunca nos disse quem era. Sei agora – ficou com ar divertido - que estamos a falar da mesma pessoa... Vosselência é o tal...
Isso não posso adivinhar – respondeu o principesco – nunca lhe falei ... só a vi em Sintra uma vez.
A Tucha ficou a olhar, e pareceu preocupada ao dizer - olha paciência, agora está para lá e duvido que possa ou queira voltar para trás
Mas posso eu ir – quase gritou ele em tom de quem pergunta.
Ir?!
Teriam que se resolver muitas coisas, disse com muita gravidade e algum enigma. LACP

segunda-feira, abril 26, 2004

Folhetim calhado

Nada apaga nada
Mas a natureza humana não segura nem os desgostos, já o viu Camus. A pequena correcção que se pode acrescentar à tão arguta verificação camusiana, é que o desgosto não se vai embora recusado pela natureza, mas antes fica para sempre atolado no fundo, a ferir e a cavar ao contrário, cada vez mais para dentro, no sentido oposto ao choro e aos gritos de fora. LACP

domingo, abril 25, 2004

Olhar Ruminante XXIV
Grande mudanças

Adiadas sempre até as haver, então já não por querer, mas força das circunstâncias.
A podridão do Sistema já se percebe, já se sente. Até vem nos jornais.
Tudo já nasce atrasado, hoje.
A retoma para o amanhã deslizante. O emprego para depois. A felicidade, idem. A imaginação, o empenho, a coragem, a lisura, a transparência, a cultura, o bom senso, a justiça, a verdade, a solidariedade, a honra, a própria inteligência, virão também. No futuro. Sempre no futuro. Seguramente sem se dar por isso, mas virão.
Quando, não se sabe.
Mas virão.
O Sistema já nem sequer se consegue mexer num esforço de recuperação. Nada de sério, de profundo. A pura arte do espectáculo e o para quem é bacalhau basta.
Não há gente em quem se possa crer como melhores dos que lá estão. Ou, se a há, escondem-se nos seus confortos e seguranças de meio nível. À espera da mudança que há-de vir. Quando se verá.
Corrupção, o poder pelo poder, sempre a olhar para o umbigo próprio, escondido sob o espartilho para fingir elegância inexistente.
Poder para mandar. Mas chefiar não é (apenas) mandar. São precisos objectivos, estratégias, fitos. Mas aqui, como nos velhos mandarins, o poder, o cargo, é prémio ou direito pessoal. Fidelidade ao e utilidade para, são critérios necessários e suficientes.
Responsabilidade social. Função pública? Ah, ah, ah ( triste e sarcástico riso).
O sistema e os partidos não são mais do que instrumentos dos interesses pessoais que os usam, máximos divisores comuns, quando não menores múltiplos comuns de interesses-dinheiros.
A questão das moscas.
A República da Estupidez instalada, para uma plateia de papalvos atrapalhados com as coisinhas do dia-adia & futebois.
Repito-me. Repito-me. Repito-me.
Mas que dizer mais, em verdade?
Quanto mais vou sabendo mais me arrepio.
Ai.

ASP


sábado, abril 24, 2004

Rhuamor
Promessa a Sta Catarina, ou talvez Carolina, melhor Cristina.
Nunca Carla.
Rumores de humores de passados vagamente amorosos, gostosos, à antiga.
Há nanazes escondidos nos cachos das uvas bem cheias a transformar em vinho. Para já tinto, boca de inserção num certo grupo que por vezes me interessa.
Ah, nanazes, rapazes! Memórias ainda frescas, como marcas dalma não laváveis pelo tempo.
De facto, talvez, não sei.
Rai-de dúvida sempre a bater-me à porta, numa indefinição de contornos que chega a aborrecer. Basta (acho?) de jogo de manchas, a vida é mais do que cores em suportes vagos. Por vezes há que delinear um contorno, um vulto, precisar a forma, a pessoa, a recordação vivida. (É?) Mesmo nos sonhos, bons ou maus, tal acontece, acho.
Eu.
Eu, de facto, gostava de te ir buscar. Onde, porque, todavia, contudo, per, perante, por.
Mas promessa é promessa, Maio está à porta e mesmo a ideia em si, ou lá, não é desagradável. Confesso que duvido também que as japonesas sejam assim. Calculalá Calcutá!
Um gosto, rapazes, um gosto.
Concordo quando dizes que o reencontro é uma memória do encontro, com vantagens de ser mais manso e dar menos trabalho (uma força vezes uma distância). Um condensado de encontros, em boa verdade. Com moldura de saudade e de algum desejo, que por ser mais frouxo não deixa de o ser (desejo) e de criar esse pequeno e maravilhoso desequilíbrio de alma que promove a vida. Como a dúvida, aliás, para o pensamento.
Regra de dois simples: eu estou para ti, como tu estás para mim? É essa a gostosa dúvida, tão importante e tão pouco importante. Siuoraimin?
Só que não é regra, mas talvez acidente, casualidade, toca-e-foge de encontro de bar, olá então hoitudobem?
Cada qual sabe de si, por vezes. E hoje apeteceu-me apertar-te, deslibidinosamente, de pura ternura infantil, como ao peluche que já me não lembro a forma ou a cor, mas apenas o bom que era apertá-lo para dormir junto. Companheiro, protegido e protector.
Concentrado de eu fora de mim.
Já está. Cumpri.
A promessa.
Tanto gosto!

ASP

sexta-feira, abril 23, 2004

Folhetim calhado

Perder o momento

Também não seria caso disso, perder um momento não é perder a vida toda, nem conviver com os mortos.

“ No tempo em que festejavam o dia dos meus anos Eu era feliz e ninguém estava morto” – Aniversário – Álvaro Campos.

É apenas uma que se perdeu, igual a um possível que não vai dar lugar a nada. Procurar, só porque um dia se viu passar à frente, é manifestamente pouco, quer para tanta busca, quer para tanta melancolia. P.E. só tem que sair do sítio, largar as garagens, debandar, fugir para qualquer lado e quem sabe se não lhe vai ter às mãos a verdade? Muitas vezes acontece com homens e mulheres, a sorte bater à porta sem eles fazerem o que quer que seja por isso.
Sacode pois o pêlo de cão encharcado e eis P.E. a continuar na sua escura gruta à espera de rever a mulher que passa. LACP

quinta-feira, abril 22, 2004

Folhetim calhado

Perdido entre artifícios, mito e nascença
A seguir à garbosa partida da Tucha ao volante do pequeno Lancia com cabelos louros que esvoaçam, PE sacudiu a cabeça tal e qual como o cão depois de um banho indesejado. O abalo era forte, desígnio e intencionalidade estavam abalados. Tinha vacilado.
Qualquer coisa podia então transformar o seu belo horizonte num sórdido beco sem saída. Um nada era suficiente para alterar de rompante e sem aviso, o sentido da convicção e deixar esfarrapado e vazio, um príncipe desembarcado no Tejo com uma missão atribuída e legendada. Bastava uma mulher emplumada para deitar abaixo a mais funda das convicções?
Bem sábios são os que julgam que nada vale a pena. Chega uma para deitar abaixo um pobre dum mito. Perdido o momento, P.E. afasta-se devagar, do ponto em que a loura partiu, afasta-se com relutância. LACP

Folhetim calhado

Uma estrela que vai
O principesco é que põe os pacotes na bagageira, bem acomodados. A Tucha entra no carro com flexibilidade e ligeireza, nada incomodada com o volante, os cabelos vieram a saltar para a cara, disse adeus afectuoso, e, diabo, ela ficava mesmo bem naquele automóvel Lancia Ypsilon creme, só cabelos e cara, um perfil de cara, sem se ver mais nada, só uma promessa. O príncipe rodopiou, ficou com tonturas, observou o carro a sair e voltou para a sua infelicidade. LACP

quarta-feira, abril 21, 2004

Folhetim calhado

Tucha faz compras e alguém carrega
E não satisfeito com a intrusão na loja Habitat, onde se arrastou sonâmbulo entre as quinquilharias, segurou-lhe nos embrulhos como um cavalheiro e diz que a acompanha às garagens. LACP

Folhetim calhado

Palavras ao ar
O principesco não consegue deixar assim sem mais nem menos aquele tesouro de cabelo dourado (ou ruivo?, a luz do néon engana, era preciso ver com o sol a dar ao fim do dia, no Guincho), não pode ir embora, separar-se já, largar, calcula mesmo que o vazio post traumático é mesmo um vazio vazio e oferece-se para a acompanhar ao Habitat, também precisa de lá ir ver um preço, ( mentira, nunca entrou nessa loja nem nunca ouviu falar, também não admira, ainda há pouco chegou do Terreiro do Paço) e assim, quase encontrou a explicação por ter vindo ao Colombo, até esse momento não soube porque é que estava ali, podia ter ido ver ferramentas ao Aki ou electrónicas no Diabo a Quatro, que é uma pequena lojinha cheia de remédios, do que não constava no programa original é Habitat, que é local frágil e amaricado, vai pois acompanhar a Tucha, mas nem sabe para onde vai, só a vê a ela, é uma espécie de cão atrás, e já passaram as filosofias da procura, já não há palavras. LACP

terça-feira, abril 20, 2004

Olhar Ruminante XXXIII
Triste Estado, Acácio

Pois é, Acácio.
Pelo Governo, mal ou bem, vai-se dando por ele.
Lá vão saindo umas semi-reformas, todas a poupar, à custa dos trabalhadores.
E umas bocas futuristas, a prometer a Felicidade e tudo bom, para prazo suficientemente longe para ser possível.
E suficientemente perto para ter efeito nos corações laranjas. Mais de 3000 nomeações de boys em 2 anos. Bom score. Interessa também é saber quantos os novos lugares e os que foram tirar os que já estavam, corridos, por não serem da cor.
Se garantires nadas fazer, nadas veres, nada dizeres, talvez ainda vás para um tacho, Acácio.
Despois há a zona negra, que o governo quer tapar, mas que se sente. Dos preços a subir, da insegurança a crescer, das deseconomias e descoordenações no sistema. A lástima da chamada Justiça. A sensação de baralha amiúde. E corrupção, por todo o lado.
É melhor não se falar nisso. Deprime.
E os jornais estão cheios, todos os dias, de denúncias de moscambilhas, de opacidades processuais, de disparates de gente pública, de atropelos ao bom-senso, numa demagogia a vulso, por aí fora.
Não há dinheiro para nada, a não ser para espectáculo, trivialidades de luxo para alguns poderosos de pacotilha.
Já ninguém se escandaliza, de tão habituados.
Um nojo, amigo Acácio.
É, um nojo.
Sem dúvida um mau governo.
Pois, pois. Talvez não por culpa exclusiva, mas um mau governo.
É.
E a Oposição?
Quase não existe.
É o Sistema, Acácio.
Estúpido. O sistema.
O PS optou por não fazer ondas (ou só as fazer pequeninas por coisas coisinhas). Diz que, mesmo mau, o Governo é para ficar até 2006 e até sugere, respeitosamente, a sua remodelação para não cair de podre antes desse tempo.
Até lá, divaga diletante e confiante em futuras glórias.
Esquisito, Acácio.
O Parlamento continua a chamar ministros com uma frequência e inconsequência admiráveis. Mostra trabalho, movimento, acção. Mas pouco tino. Já ninguém liga. Nem os próprios ministros.
A Maioria viu que dava resultado atacar a Oposição pelas alegadas maldades que o respectivo ex-governo terá causado ao País e usa o truque mesmo a despropósito.
Para quem é bacalhau basta. Ninguém percebe nada.
Eles aceitam, estás a ver, Acácio....
A Oposição continua a zurzir na maioria, num processo de crítica pela crítica, que não convence os portugueses de que, se estivesse no Poder, faria melhor.
Patético, Acácio.
No fundo, todos aconchegados à mesa do Poder, na lógica da alternância de pessoas, mas da continuidade de ausência de políticas. Cumplicidades de semi-cavalheiros à mesa do Orçamento. Ideias & ideologias são coisas do passado. Distante.
De vez em quando lá surge uma causa qualquer (aborto, Iraque, etc) e lá se inflamam as verves e se afinam as oratórias. Mas, apurados os resultados das pugnas (ganha este, ou ganha aquele) fica tudo literalmente na mesma. È desporto, não é política.
É sobretudo triste, Acácio.
Uma pasmaceira. Com o País a regredir em todas as linhas. E a descrença e o desânimo a crescer. Bem como a sensação de corrupção. Águas turvas, águas podres, o pântano.
Claro que é o Sistema, Meu! A questão é que, por cá, não se consegue mudar nem sair deste Sistema.....porque as moscas são as mesmas.
E então?
Apoias-me, Acácio?

ASP


Folhetim calhado

É o que faz andar na rua
O que o desaustinado príncipe perseguidor estava a sentir era íman, mas isso é história velha, todos o sentiam com Tucha que era foco de atracção. E mesmo o principesco cambaleou e tergiversou, já sem acertar muito seriamente com o destino da sua vontade. Podia ficar ali, esquecer a Leonor dos olhos passantes, por ela andava a correr mundo, mas era melhor esquecer, se não estava já esquecido, com aquela brasa a falar à mão. Íman. Não dava para despegar, partir a corrente, cada um seguir o seu caminho, deixar a esquina do Colombo, cabeceou afogueado, podia esquecer tudo, podiam ter sido tudo fantasias numa ilha de imaginação a que se tinha agarrado para iludir as noites frias, que diabo, um ser humano é sempre relativo, não pode andar toda a vida com a mesma ideia fixa e ainda por cima aérea, ninguém pode gostar só de uma pessoa e muito menos quando só passa pela frente um dia, que coisa é essa, estava ali outra, podia ficar, esquecer tudo, ir naquela corrente, não fazer força ao contrário, não se pode nadar contra a corrente, isso é da sabedoria dos povos e dos nadadores salvadores, vai-se ter a terra deixando-se ir e sem cansaço, mas como ele começa a estar calado, parece que não tem nada para dizer, devia falar mais, em vez de pensar, também é da sabedoria, quem fala é que alcança, não é quem pensa, a Tucha assim não ouve nada, não tem nada para dizer e vai à vida, lembrem-se que estão em pé a falar no corredor do Colombo, que se encontraram ali quando saiu da rua Filipa Perestrelo e deu de caras com a Tucha e agora que já falaram um bocado, e perguntou pela Leonor, afinal também não é muito bonito perguntar a uma mulher por outra mulher, e se já tinha dito que não sabia e tinha dito tão prontamente não sabia mais nada da Leonor, que tinha mudado de terra, sabe-se lá se não era competição, mas o principesco está a avançar demais na imaginação em vez de falar ou reagir, se acaso está a pensar que a Tucha está interessada em continuar uma conversa, pode desiludir-se e ir embora, pois a Tucha o que quer é seguir para o Habitat, onde tem que fazer umas compras. LACP

segunda-feira, abril 19, 2004

Barco da carreira dos Tolos

“Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira”
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: inevitavelmente Durão Barroso

Pelas suas bocas sobre Zapatero, Espanha e o terrorismo.
Então o homem não se lembra de afirmar aos 4 ventos que Portugal é muito mais seguro que Espanha quanto ao terrorismo, porque, pasme-se, apoia a política de Bush e tem um contingente da GNR no Iraque???
Está a pedi-las ou quê?
Então o homem não se arroga o direito de criticar desabridamente a estratégia do governo do País vizinho, afirmando que comprou a paz pela retirada das tropas do Iraque, quando sabe perfeitamente que tal se tratou de uma promessa eleitoral, muito anterior a 11 de Março?
Quer criar uma clivagem com Espanha ou quê?
Para quê? A troco de quê?

ASP







Folhetim calhado

O acaso é no centro comercial

Não tinha nenhum assunto em particular para tratar, nem estava virado para fazer mais compras no dia em que o descartado foi ao Colombo, a não ser flanar um pouquinho, olhar para uma montra de telemóveis ou ver o que a Papelaria Fernandes pôs na montra. E no fundo, no fundo, talvez quisesse tentar a sorte do reencontro. Ora acontece por um destes fenómenos impensáveis de acontecer que, quando dobra a esquina da rua Filipa Perestrelo, quase esbarra numa cara bem conhecida, nem mais nem menos do que a Tucha. Quem espera sempre alcança, lá diz o ditado e desta vez, a longa espera quase acertava na muche. Alcança? Então não é na busca que está o ganho? Nisto de ditados há uns que contradizem outros, deve ser por causa da virtualidade para servir vários senhores. Bem, era a Tucha, a amiga. O príncipe recua, receia que ela não se lembre e já não o conheça. Mas não, Tucha faz-lhe um aceno, pára, ficam a conversar e depois das primeiras palavras o príncipe não quer perder mais tempo e diz e confessa, até atabalhoadamente, que anda há muito à procura de encontrar a Leonor, que é feito dela que nunca mais a viu, desde a festa em Sintra, já nem sabe quando isso foi, nem aos outros, também nunca mais os viu, nem a ela nem ninguém.
Que era natural porque a Leonor já não estava em Lisboa há muito tempo. Tinha desaparecido.
Desaparecido? Morta?
Que ideia
Às vezes há pessoas que morrem, não é assim tão raro e não escolhe idades
Que não, nada disso, nem doente nem morta, nada disso, simplesmente desaparecida
Não, não sabe se está sozinha ou com quem, também nunca mais a viu
Está bem, se souber ela avisa, sim, não vai procurar de propósito
Não é caso disso, é só ajudar, pode ser importante, é importante.
É agradável estar com a Tucha, reparou. Tem o queixo proeminente e quadrado, mas não muito grande. LACP

domingo, abril 18, 2004

Folhetim calhado

Jaz cansado e esmorece o príncipe encantado que de longe não esquece, sua dama encontrar
está perdido e sem amor mas nada o demove, tem fé. Procurar procura-se, alguns dizem que na busca é que está a felicidade, mas isso podia ser verdade se o graal fosse de dentro. Mas o pior é que não. É de fora. Fora é que está o encanto, ele está do outro lado. É fora, é no outro corpo, ossos, sangue, palavras, suspiros olhos e outro nome, é lá que está o encanto. Quem é que se serve a si próprio sem aborrecimento? LACP

sexta-feira, abril 16, 2004

Folhetim calhado

Não
Não há inverno rigoroso ou canícula feroz que faça parar a busca da encantada, a dos olhos em Sintra desaparecida. Já correu Lisboa de lés a lés Santarém e Albufeira e nem uma cara conhecida que fosse ao caminho vê chegar. Por acaso por acaso, muitas vezes quem se avista é sempre quem não se quer ver, chegado ao lugar daquele que se quer ter, e por essa frequente e não desejada ocasião, é que se pode mesmo acreditar, que quem procura não encontra e até mais se pode crer, que o destino é acaso e forte não. LACP

quinta-feira, abril 15, 2004

Folhetim calhado

Desventuras e palavras

Vai longa e aquece a procura do encantado, por sua dama corre vales e as sete colinas de Lisboa sobe e desce, vai aos centros comerciais, procura na entrada dos cinemas, nos jardins públicos e praças principais e só não vasculha dentro de prédios, andares e moradias porque não dão passagem a estranhos, mas disso tem pena, é assim a propriedade. Onde estará Leonor? Que fazer para a encontrar? A que lugares visíveis pode ir?
Sábados, domingos e feriados e dias úteis, férias de verão e de natal, em todos os lugares há um príncipe destruído a sorver ao balcão um copo de álcool destemperado, seja gin vodka ou scotch, a trocar filosofias sábias com um dinâmico profissional formado em bartenderismo que acolhe desventura, decepção, reinadios e fantasiosos, todos eles em busca de remediação ou falácia. Não há nada mais triste do que um príncipe perdido ao balcão a desperdiçar palavras, não acham? LACP

quarta-feira, abril 14, 2004

Folhetim calhado

Crítica do Sonho Puro
É verdade, afastado, é verdade, mas não tanto que não perceba que está tudo de pantanas, de tanga não, isso é falso. O que está é tudo irreconhecível e sem ânimo, pelo que é tão vasta e complexa a tarefa, que não sabe qual é o modo de actuação mais pertinente, adequado e eficaz. Se for negociar convocando uma reunião, ficam a conhecer as suas dúvidas e de dúvidas estão todos fartos. Querem respostas. Se for agir sem consultas, ou pré aviso, mandam os exércitos avançar contra ele para que nada mude. Se avançar sem atender às opiniões alheias, dizem que não chegou democrata e é mal formado. Se ouvir e se enfronhar nos partidos, está condenado a lidar com a súcia e suas teias de mentira que lhe vão sabiamente tecer. E por estas e outras razões, o príncipe segue antes à procura dos olhos que perdeu em Sintra e talvez estes lhe dêem bons conselhos. Tanta batalha, tanta luta, tanta guerra perdida, tanto sonho desfeito! O que quer agora é voltar ao sonho puro, lugar onde é ele que é salvo e vê e encontra o encanto. LACP

terça-feira, abril 13, 2004

Olhar Ruminante XXXII
Reparo:
1) Que os Antónios deste blog estão cheios de interrogações. Por mim falo. Questiono-me se os não-Antónios viverão com certezas. Pelo que deles conheço cultivarão salutarmente a dúvida como forma de conhecimento. Amén
2) Que o deputado Lino de Carvalho fez um livro de saudades da Reforma Agrária dos anos 70, que classifica de utopia possível. É estranho como um homem tão inteligente não conseguiu perceber por onde andou metido. É o que dá quando se está completamente cheio de certezas. Extravasam.
3) Que o PS ainda existe por algumas notícias que dizem que por dentro vários notáveis estão a estender o tapete ao líder. Já concluíram que o partido será alternativa quando o for, porque a Maioria governa tão mal que vai ter dificuldades de não cair antes de 2006, de podre. Um descanso.
4) Que o Iraque está cada vez pior. Num ano morreu e morre mais gente do que em 10 anos de ditadura do Sadam. O terrorismo reorganizou-se e demonstra mais força e impõe mais medo do que antes. Um erro à escala mundial. Bush e os seus acólitos europeus objectivamente meteram-se numa alhada a que se não vê solução. Evidentemente mentiram para fazer a guerra. Para quê? Porquê? Dr. Barroso, diga lá, o que Portugal ganhou com a cimeira das Lajes?
5) Que, agora, os causadores deste pandemónio exigem solidariedade perante a catástrofe iminente. E tentam escapar-se, por diluição da memória em eventos espectaculares, estilo Euro2004 e outros futebois, ao julgamento da opinião pública. É típico.
6) Que o processo da Casa Pia quase desapareceu com a mudança do juiz de instrução por outro, competente. Afinal parece que aquele fez todo o estardalhaço que fez sem direito, porque não era a sua vez. Afinal parece que não havia nem razão, nem necessidade, de publicitar os arguidos da forma como foi feito; afinal parece que não havia direito da aplicação da prisão preventiva à maioria dos arguidos, que assim passaram também a vítimas da prepotência do Estado. Parece também que a investigação foi mal conduzida, que é inconclusiva em matéria importante, que é tudo um faz-de-conta, que alguns testemunhos das vítimas são falsos. Parece que a única coisa que há (alguma) certeza é que havia quem abusasse, contra dinheiro, de miúdo(a)s arrebanhado(a)s com aquiescência do(a)s próprio(a)s, na Casa Pia. O resto parece uma grande efabulação elaborada com cumplicidade objectiva do sistema judicial, pelo menos. Parece que a “cabala” delatada pelo PS talvez tenha existido, de facto. Com que objectivos?

ASP

segunda-feira, abril 12, 2004

Folhetim calhado

Encruzilhada

Há perigo de ser visto. Parece-lhe que há gente a falar para o lado, pode ser ideia, mas sente comentários difusos a se produzirem em segredo à volta. Isto afecta as passadas de príncipe enevoado, deviam ser folgadas e superiores e saem tímidas e irregulares. Já ninguém está à espera que chegue e por isso não acreditam que é ele. Das ultimas vezes foi desatento e não teve presente que estava a gerar um forte impacto. Não se imaginou a representar um papel de salvador e pagou caro a distracção, perdeu a mulher e até se poderia dizer que, por consequência, perdeu a vida. Não se acerta com a ideia de que o prestígio se ficou a dever ao mistério e ao súbito deslocamento do mundo sensível. Não se concorda com a ideia de que o silêncio, quando as luzes estão focalizadas e a expectativa cresce, sirva para acentuar o dom da personalidade. É a falar com patacoadas e outros artifícios, que o impacto deveria ser ribombante e por consequência a personalidade aumentar. Isto é teoria, dado que é verdade que o príncipe uma vez enevoado continuou mesmo assim a marcar a dança, lá de dentro das brumas cá para fora. Donde se vê que boas teorias não jogam muitas vezes com o real, uma vez que não pressentem o quiproquó.
Bem, agora que o príncipe falhou em acuidade e percepção, e desapareceu a seguir, é que a lenda cresceu, quando o que deveria ser, era a lenda ter morrido também, quando Leonor a enterrou e outros mais lhe seguiram o costume. Não aconteceu isso. Cresceu a hipótese de ele voltar, e agora que passou o Terreiro do Paço, o homem só pensa no que lhe falta e está tímido para assumir o seu papel. Nem sequer sabe ao certo como e por onde começar. Precisa de cálculo e não o sabe fazer sozinho. O que tem é instinto de fuga e vontade de escapar ao destino. Espera que não o reconheçam, que não lhe peçam nada e o deixem primeiro recuperar forças. LACP

domingo, abril 11, 2004

Folhetim calhado

Enevoado
Mal saído das brumas, P.E. resiste à tentação de entrar lampeiro nos ministérios que cercam a Pç. do Comércio e ao terreiro trouxeram fama e centralismo. Sabe qual é o fado que lhe coube e quer começar a salvar quanto mais depressa melhor, conforme o prometido. Está tentado em atacar imediatamente os doutos ministros e subalternos, ali à mão nos palácios ribeirinhos, mas a viagem de regresso vai longa e está apaixonado por Leonor. Primeiro, reencontrar os olhos do amor, se conseguir. O trabalho pode esperar. LACP

quinta-feira, abril 08, 2004

Folhetim calhado

Desejado
O príncipe encantado é um escravo que se revolta, devia chamar-se Spartacus pois que se partisse para os campos, constituía sem problemas um grande exército de príncipes decepcionados. É por causa desta revolta que o príncipe, que não cobre Leonor, está com sede e fome e tem vontade de agir. Põem muita fé nesse reparador desejado e ele desembarcado sozinho não sabe para onde se virar e com quem pode contar. Se fosse mais hábil talvez fosse de procurar as energias concentradas nos outros escravos, mas como não é uma personalidade clássica e faz um esforço de actualização, ele está a olhar para os gestores a ver se os move para qualquer obra de conjunto. LACP

Folhetim calhado

A trapalhada deixa tudo desencontrado

...porque o príncipe desencantado tem fome de encanto, mas o que lhe falta é alteridade. Está lá numa estratosfera mental, num lugar cosmogónico tão remoto e referencial que ao fim e ao cabo, em termos físicos, não está em contacto com a sua encantada. Esta, passa a vida a esperar que ele chegue, é modelo e medida de todos os actos e afinal as acções acabam por tergiversar dezenas de vezes. Em vez de intervir e dar o corpo ao manifesto, não, fica lá longe. Só serve para decepções, e depois as acções das encantadas não tem mais corpo nenhum à mão e vão navegar para outro lugar onde perdem de vista a referência. Fecha-se o coração, mas fica o corpo. Quem comanda a natureza material? Às vezes afaga-se o coração fechado com um corpo aberto.
Isto não devia ser assim porque acaba por haver gente enganada e há um modelo desusado que pode ficar triste. LACP

quarta-feira, abril 07, 2004

Folhetim calhado

No chão
Mas que príncipe é este que cai num vão da memória e deseja fazer uma reparação? Ele não tem tudo?
Está cheio de sede. Tem um nó seco na garganta, está descontente, está infeliz e com faltas. Sofre de solidão, está descosido do seu encanto. Tanto encanto para outros e para o próprio não sobra nada! Propriamente falando, o que falta ao príncipe desencantado é encontrar encanto. LACP

terça-feira, abril 06, 2004

Folhetim calhado

O momento e o lugar

Numa manhã de nevoeiro, estava o príncipe encantado a passar no Terreiro do Paço, quando foi atingido por um golpe de angústia. A praça é larga, tem ainda os Ministérios, mas já com fraco poder. Parte da praça pode ir abaixo das estacas e pelo menos os tubos abertos para os comboios não se sabe ao certo se vão ser novamente inundados por águas lodosas. Há quem sinta tranquilidade neste espaço, há quem veja sobretudo desabrigo, tal é o vento e a largueza do terreiro quase se imiscuindo no mar vizinho logo ali a perder de vista. E apesar de Jean Daniel ter achado que era uma das mais belas do mundo, só um louco raro a atravessa, salvo os que vão para os barcos ou o turista que não sabe o que anda a fazer. Aqueles e aquelas que vão aos Ministérios, só lá devem ir quem aí trabalha, porque ninguém de bom senso irá a um Ministério, pois que nenhum assunto em mãos será resolvido, se desaparecessem, ninguém dava por isso, então, as pessoas que aí vão, procuram não se sabe o quê, seja uma assinatura ou um sábio despacho, esgueiram-se por baixo das arcadas e nunca pelo centro do terreiro, onde o sol ou a chuva ou os ventos trazem mais intranquilidade que harmonia.
Mas o príncipe encantado pode ter desembarcado vindo da bruma do cais e estar pouco familiarizado com o lugar, ou estar em devaneio ou não ter pressa, enfim uma coisa dessas fútil é que explica essa aventura de ir pelo meio do terreiro. Só, isolado ali, a andar insistentemente, ele é acometido por um percalço de solidão, uma pontada de tristeza, uma dor aguda com ponta de ferro que entra fundo. Esse rebate põe-no de olhos baixos, mas o que vê no chão é nada, a não ser que seja autoregulação do desgosto, muitas pessoas viram a cara para o lado à contrariedade, ou para o chão, não se sabe verdadeiramente como se fazem as compensações, e muito menos se entendem as razões dos rudes golpes súbitos, logo ali no meio da praça? mas o príncipe seja como for, no chão não vê nada não há nada para ver, do que ele se lembra é daqueles olhos em Sintra, os olhos daquela que não era nada maluquinha e lhe disseram que se chamava Leonor. LACP

segunda-feira, abril 05, 2004

Folhetim calhado

Mudança e desaparecimentos
Nunca mais ninguém voltou a ver a Ana Boneca Gata, mestre do devaneio e da água que corre sem molhar duas vezes. Ficou presa num escolho, fixou-se. Habita uma casa com um conhecido e nomeado. Mudou. Os rapazes que andavam tristes, perderam a ocasião. Finito. Tenham paciência, a Gata agora é só para aquele maroto se banquetear, agora come gatas em vez de pintar naturezas mortas.
Quem nos dias de hoje aparece, é Leonor, cheia de graça, cada vez mais magra, mas sem que tenha perdido um milímetro de encanto. Está cada vez mais humana, mais asneirenta, trocou o fato de anjo, vestiu o fato quente de ossos e sangue. Todos disseram que estava cada vez mais formidável.

Mas de repente também ninguém mais a viu. Desapareceu. Consta que criou outros amigos. Noutro bairro ou noutro horizonte. Foi vista a jantar fora com desconhecidos, e ninguém sabe ao certo com quem anda, com quem vive, se vive com alguém ou sozinha, mas a verdade também, é que ninguém quer saber. LACP

domingo, abril 04, 2004

Folhetim calhado
O que se passou na casa de Sintra esteve fora do registo e acabou mal, se não fosse apenas vida que corre e é bem melhor pensar que é assim.
Alguns que conheciam mal a Ana Boneca Gata ficaram admirados com a família ou tios que ela mostrou não se soube muito bem o que lhe eram. Não eram tradicionais nem comezinhos, pelo contrário, eram gente de origem amalucada, com opostos, entre os quais, realismo de várias caras e fantasia. Era gente gasta, sem se saber se eram materialistas ou tolerantes ou ainda ansiosos ou facciosos ou com ideais por realizar. Aquiles era corpo castigado que exibia rugas e uma espécie de olhos turvos que pareciam não dar muita atenção, e, sobre ela, já se disse, era uma mulher que tinha perdido o feitiço e estava fora da página do livro onde se tinha esborrachado a estampa e agora andava aí fora dessa página, seca e passada, os cabelos partidos e com ar geral de estafada.
Pena.
Foram estas espécies de comentários, mais ou menos que se ouviram tipo zunzum.
Não se soube logo é que aquilo acabou mal, com o Aquiles aos tombos na rua, estatelado, e ela, ela, lá para dentro a fechar as luzes e a marimbar-se.
Soube-se mais tarde, uns souberam, outros não, que o Aquiles enregelou no jardim e não conseguiu entrar em casa. Acharam estranho, o homem dá uma festa e zás, fica-se . Também é verdade que a senhora da ceifa fez muita patifaria naquela noite, e então o Sr. Diacho fê-la pela calada e fartou-se também de trabalhar.
Pena.
LACP

sábado, abril 03, 2004

Folhetim calhado

Mais vale mal acompanhado que só, ou então é melhor fazer uma troca, o diabo que escolha.
Leonor agora quer –se ver livre do cavalheiro desconhecido mas não sabe ainda como. Pode chegar ao pé dele e despedi-lo, com ou sem drama, com ou sem tom de voz exaltado, com voz firme e decidido ou de modo manso e tolerante. “Na hora da despedida”, provavelmente ele nem olharia para trás, até podia dizer “não se fala mais nisso”, se fosse um cavalheiro ou fosse muito ao cinema ou lesse livros. Mas à Leonor não está a apetecer passar por um mau bocado, olhar para o espaço vazio, não ver ninguém por perto, já que entre estar lá qualquer coisa mesmo que não valha muito e não estar nada, o diabo que escolha. Já se viu em tempos: Leonor não gosta de estar só. Então pensa que a solução consiste em arranjar outro para substituição e troca imediata. É isso que vai fazer e não vai revelar nada a ninguém, nem ao desconhecido. Ele que aprenda. LACP

sexta-feira, abril 02, 2004

Folhetim calhado

O desconhecido

Leonor já sabe que não gosta do seu desconhecido, já chegou a essa conclusão. O desconhecido faz juz ao seu nome. Compreendem, o relâmpago que atraiu a Leonor para estes braços foi disparado duma terra de ninguém. E foi essa incógnita que gerou a forte atracção. O mundo das incógnitas anuncia e promete, é terra de paixão, exibe por anunciação o paradigma das vidas fúteis, rios cavados entre montanhas belíssimas, seres de amabilidade e gostação, almas gémeas de complemento irreversível e assim, comparativamente com o que já foi dado ver, que foi já usado e que se transfigurou em rotina e familiaridade, o mundo das incógnitas é bem mais sedutor. Se fosse transferível para a qualificação humana, poder-se-ia pensar que a ignorância é a madre de todas as coisas e não o conhecimento, ao contrário do que se diz, mas só no amor é que a ignorância é um valor. É melhor não saber o fundo, é melhor não saber quem é, é melhor não conhecer e manter-se aberta a chama da paixão, e nada de diálogos na casa da paixão. Deixe-se o amor para as famílias que se estimam e fique a paixão como verdadeira bíblia do ser humano. Só que o desconhecido já se conheceu e Leonor não gosta dele! LACP

quinta-feira, abril 01, 2004

Folhetim calhado

ABG põe as unhas para dentro, o que parece não é, e tudo é diferente de tudo
Ana Boneca Gata está afeiçoada àquele atellier e olha para as coisas mais demoradamente e com mais ponderação o que lhe dá um ar muito mais assente, menos sôfrego e mais consciente. ABG que era tão dada e tão simpática sempre pronta a abrir o coração, e atrás dele lá ia o querido corpinho, parece agora enveredar por um reflexo de sentimentos firmes, mais prolongados e cheios de pontadas de consciência. A sua ronda do amor está a chegar ao fim. Maçada com a rotina da instabilidade, não é um paradoxo, pois que despir-se muitas vezes por causas acidentais é uma forma de rotina ao avesso, a nossa querida e dada Ana Gata recolhe as unhas felinas, acoita-se, e bate na mesma tecla, gosta do atellier e volta lá, para o pé do homenzinho que está a fazer borrões e olhem, paciência, os garanhões que aspiravam àquela doçura desenganem-se, a rapariga está fiel.
Isto da natureza tem destas; umas começam pela sede ao deus dará, outros partem do ideal de perenidade, contemplam e concentram, e afinal estatelam-se. É sabido, o espirito não é habilidoso para fixar um absoluto. Opte quem sabe, escolha quem puder. Ana Boneca Gata, que tanto endiabrou e tanto sonho atirou para o vento, está agora recolhida e de olhar calmo e firme. Leonor que tanta concentração e doçura pôs no príncipe encantado anda por aí ao deus dará, à procura não se sabe de quê. Paixões. Se calhar anda à procura do seu amado príncipe encartado, se não se esqueceu desse inútil. Que viva! Que viva! LACP

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