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domingo, maio 30, 2004

Havemos de ir a Viana jantar

Não te importes óh Ana de teres perdido os teus amigos, que já outros também perderam, diz-se que ASP também se casou e até já tem netos, e não tarda, Ana Gata, os teus dois filhos vão gerar netos. Sabe-se que a vida de teatro onde o teu filho vence, não é fácil nem estável, mas pode sempre acontecer que uma jovem actriz, colega e de paixão, o beije profundamente, e quanto à tua filha pintora, quem sabe se não terá sentimentos e não vai um dia gerar-te um bébé? Tens que ter fé, Ana Boneca Gata, havemos de ir jantar, mesmo que nós todos levemos os olhos mortiços. LACP

sexta-feira, maio 28, 2004

Faz um esforço para a veres
Ana B. Gata não calculou bem que a Tucha estava longe, um bocado incontactável e mais grave do que isso, raramente voltava a Lisboa.
- Faz um esforço para veres a Tucha ? disse ela com tristeza ? Não há ninguém que a possa encontrar? ? E sempre a virar a cara para um lado e para outro, ouviu-se num murmúrio ? Nunca imaginei que isto acabasse assim. LACP

quinta-feira, maio 27, 2004

Olhar Ruminante XXXVI
Onde pára o Ferro?
Atrás do espelho, como a Alice.

Parece que se está em campanha.
Parece que é para as europeias.
Parece que o PS ligou os resultados ao desempenho do Governo, com a ideia do cartão amarelo.
Parece que as sondagens o colocam quase a par da Situação, pelo que se arrisca a ficar ele com o dito cartão.
Parece que o PS quer o Governo até 2006, porque defende a estabilidade, colocando-se, assim, no maior garante da manutenção do Governo até essa data..
Parece que se arrisca a que ele caia mesmo antes.
Parece que a Situação, em Congresso, atacou a Oposição, como se fosse a Oposição a atacá-la e responsabilizou-a mesmo pelas suas passadas, presentes e futuras incompetências e omissões.
Parece que o PS anda a ponderar se é governo no exílio, se oposição interessada na manutenção da Situação.
Parece que também há outras hipóteses em estudo.
Parece que o BE e o PC não têm dúvidas nesta matéria.
Par S.
Parece que estamos com a Alice na doideira instituída do País das Maravilhas.
Cortem-lhe as cabeças, mandou a Rainha de Espadas!
Para a salvação nacional, bradou o Joker.
Um doce a quem adivinhar o que estou a pensar.

ASP

quarta-feira, maio 26, 2004

Se vires a Tucha diz-lhe olá
Ana Boneca Gata teve dois filhos, em principio por essa razão poderia pensar-se que não tinha perdido a vida, mas desde que o Folhetim Calhado acabou e os seus amigos foram um para cada lado, ela ficou um bocado triste e assim parece que perdeu a vida, ou parte dela. Ana B. Gata disse, com ar meigo, longínquo e uma enorme esperança de remissão:
-- Se vires a Tucha diz-lhe olá. ? e depois de baixar os olhos um nada pensativa ? diz-lhe também, ou pergunta, se ela não quer jantar um dia destes, está bem? LACP

terça-feira, maio 25, 2004

Barco da carreira dos Tolos
?Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira?
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: Durão Barroso
Porque, na boa tradição salazarenta, acusou os comunistas de possíveis (e, pelos vistos, previsíveis) falhas na segurança no Euro 2004, quando tal segurança é, inequivocamente, da responsabilidade do Governo.
Mau sinal esta tendência de ?sacudir a água do capote?, com acusações estilo ?polgrom? quanto aos suspeitos do costume.
Há mais de dois anos no governo e ainda se quer descartar de responsabilidades, à conta do anterior governo. Com jeito poderá ir ainda mais longe e justificar-se com os governos de João Franco, de Cristóvão de Moura, de Miguel de Vasconcelos ou do Conde de Andeiro.
Já só falta acusar os cristãos-novos do disparate de ter envolvido Portugal no buraco da guerra do Iraque....

ASP

segunda-feira, maio 24, 2004

Nova vaga


Contra a futilidade


Enquanto se acumula o ouro e os que não vacilaram na escolarização viraram sofisticados e atingiram nas suas vidas, profissões dedicadas e produtivas, cresce ao lado uma súcia de bandidos cega e louca, dedicada à ignorância, à estupidez e à violência. A par dos primeiros, está livre e aberta a descida ao inferno dos tolos, dos videirinhos, traficantes, ordinários e preguiçosos, os quais infectam a dignidade e altivez dos homens sérios. A referência, um quase espelho de tudo, são as fidedignas e comerciais estações de TV e demais revistas de actualidades, que nos consomem com suas apologias de prazer insano e mentalidade de desvalorização, destinada a atirar a sociedade para o clima geral de idiotia. Mas, estão enganados, a súcia que pretende impor a javardice intelectual, a desqualificação e o opróbrio como referência única e total, está enganada quanto à essência e historicidade deste país, o qual se ficou a dever a muito trabalho, muito sangue e muito combate na construção de vidas de pessoas de sucesso e valor. A turbamulta que invadiu o espaço com seus jornais e organização de futilidade e descaminho, será vencida. LACP

domingo, maio 23, 2004

Olhar Ruminante XXXII
The show must go on...

Surpreendentes as coisas, fenómenos, casos, decisões que se vão sabendo todos os dias.
Agora foi a exoneração súbita, zulu, do Theias. Há quem diga que o homem era honesto demais e que não resistiu sequer aos inícios da privatização das águas.
Surpreendente efeito cénico, a surpresa do descarte.
Já na conferência de imprensa que ele deu, demonstrou uns tiques estranhos, com piadas a que Manuela não achou graça nenhuma, do estilo que o encaixe da privatização era para melhorar as redes de abastecimento e coisas do género.
Com dinheiros não se brinca, claro. Tanto mais sendo sério. O laranja-amarelado do sorriso da mesa prenunciou os desfechos mais cruéis, mas nunca se pensou que tivesse efeitos tão rápidos....
E o efeito-surpresa dá a sensação de capacidade de cisão, de eficácia, bom para o espectáculo em que se tornou a vida pública nacional.
Entretanto outras inefáveis patéticas figuras do Governo mantêm-se, contra assobios sistemáticos das populações desorganizadas e organizadas, contra suspeitas de negociatas mais que evidentes, contra acusações de notáveis da própria maioria, contra a bagunça instalada e a notória falta de respeito associada hoje em dia a todos esses alegados governantes.
O Povo é sereno e a Oposição anda adormecida na sua convicção de imprescindibilidade....
Surpreendentes também o empate nas sondagens, a significar oh pá onde está a alternativa? face ao governo mais impopular desde o tempo de Pina Manique.
Mas ontem foi o dia dos Ps (leia-se Pês e não Pê Esses) ? ou seja, Pensar Portugal Pela Positiva.
Andei à procura, com afã, dos mais do País. Escaparam-se-me quase todos.
Comi sardinhas ao almoço e estavam excelentes.
E deitei-me contente, mas com digestão difícil.

ASP

sexta-feira, maio 21, 2004

Nova vaga

Contra o futebol

Já é tempo de umas tantas vozes falarem mais alto contra o futebol, este abuso de confiança da nossa paciência. Vozes a que este cidadão não se importará de se juntar, pois parece que sendo poucas, não têm sido suficientes para se fazerem ouvir.
O que deu a esta gente toda, nos cafés e lugares, nos jornais e TV, jovens e mais velhos, para pôr um desporto nem sequer elegante, alimentado por uma colecção de avantajados ignorantes sem préstimo de maior senão chutarem com as pernas e até cabeça, o que levou esta gente toda a proclamar essa modalidade infeliz da espécie humana, um quadro de vida acima de tudo e todos?
O que leva essa gente toda a pôr essa combinação de insultos, portas travessas, conciliábulos e mais tretas secretas, a impregnar a nossa qualidade de vida pública?
É altura de dizer não e não ao futebol. Nós queremos outra vida, outro céu, outra terra.
LACP

quinta-feira, maio 20, 2004

Olhar Ruminante XXXI
Portugalidades
Ontem, com pompa e circunstância, vários ministros e personalidades, foram assistir à demonstração de novo equipamento de segurança, nomeadamente de canhões de água anti-motim, tendo em vista o Euro2004.
O facto é que houve um qualquer descontrolo na sua operação e a comitiva oficial apanhou um riquíssimo banho, tendo desbaratado, semi-encharcados, em busca de abrigo onde conseguiram.
Cena hilariante e, evidentemente, notícia. Que até acarreta alguma simpatia para com os notáveis afectados.
Foi assim que a CNN, por exemplo, interpretou o acontecimento e o divulgou.
Já a RTP, pacóvia, atenta, veneradora & obrigada ao poder, achou que a publicação das imagens poderia ferir susceptibilidades no Governo e apenas noticiou a apresentação do novo equipamento, matéria de interesse menos que paroquial.
Talvez tenha pensado que os canhões de água se tratavam de equipamento anti-terrorista e não tenha querido contribuir para o incremento da sensação de insegurança reinante.
Ou, escamoteando o facto, tenha procurado alinhar na campanha de poupança de água que se inicia todos os verões.
Talvez tenha achado que os ministros em causa estão de tal modo colados com cuspo nos seus cargos que qualquer pequeno sopro lhes poderia ser fatal.
Ou tenha tido receio de qualquer coisa.
Talvez.
Assim vai este país.....


ASP

quarta-feira, maio 19, 2004

Folhetim Calhado


Epílogo


Ana Boneca Gata casou e teve dois filhos. A filha Joana seguiu as pisadas do pai e foi pintora. O filho Eduardo seguiu o feitio da mãe e foi para actor. A pintora Joana assinou Gata e o actor ficou conhecido por Ésquilo (!! Com acento, nome igual ao do grego). A pintora que apanhou o jeito paterno mas não o nome, veio a ter muito sucesso; em particular, a individual que realizou no ano 2023 foi importantíssima para essa chamada de atenção. Por outro lado, uma peça de teatro consagrou o filho Ésquilo, como actor de cena. Esteve em palco 6 meses, entre Novembro de 2025 e Maio de 2026.

Foi Tucha a responsável do folhetim que agora termina. Nunca se soube quem era. Foi sempre um mistério. Também nunca se conheceu o seu verdadeiro nome. No entanto, não quiseram saber, e ainda mais, é possível que não gostassem, se ela tivesse um nome, porque isso poderia defini-la e pôr-lhe um limite, circunscrevê-la e torná-la mais pequena e igual, e o que se queria dela, como se queria também que o sonho fosse, era que fosse universal e indefinida.
Quanto mais vaga melhor, quanto mais cheia dessa capacidade oscilante de quem chega e trás consigo notícias doutro mundo, melhor.
Quem chega carregado de ouro e anuncia que há mais mundo, trás exaltação Quem chega com tanto garbo e sumptuosidade, devia saber também que está a criar enorme expectativa, para não dizer esperança, de outros conseguirem por sua vez, largar do inferno colado ao dia a dia.
Era bonita sem se entender o porquê disso. A sua beleza assustava, metia medo, era inacessível. Foi desejada e objecto de atracção e fascínio, mas nunca se deixou ver como seria no dia seguinte.
No silêncio morou noutro mundo, ou deu a ideia de morar, ou ter à mão, outro universo. Não remoeu satisfações, não contemplou as águas passadas, não ouviu com atenção o que desesperadamente lhe diziam para a cativarem, porque sempre soube desertar do autofascínio.
Foi com ela que tudo começou. Através dela conheceu-se Leonor, trouxe a Ana Gata. E passado o tempo, tal como aconteceu com os outros todos, desapareceu, saiu sem ninguém, inacessível e sumptuosa, só e vulnerável, espectacularmente pura e muito livre.
Saiu e desapareceu, com fome e sede de amor, confusa e altiva.
Sempre pareceu que tinha qualquer coisa de Greta Garbo.
Muito mais tarde, já quebrada mas ainda perfeita, retirou- se para o seu parque na quinta que foi da família, onde se dedicou não só a contemplar as suas plantinhas e árvores, mas também a lembrar, seguramente com lágrimas, os amigos que não conheceu.

Do principesco que foi referência e perdeu a sua referida, por distracção e negligência, pouco se soube dele. Tardiamente empreendeu a procura da sua sombra, levado pelo desgosto, infeliz na solidão e desarticulado da própria voz.
Depois soube-se pouco. Uma vez enlaçado pelo voraz Parménides passou para o lado de lá da corrente dos rios onde não se toma banho nunca duas vezes, e foi fazer parte duma horda de infelizes seres, comidos e trinchados pelos ideais substantivos que se dizem imunes às correntes mínimas. Que se há-de fazer ao animal? Uns vão para esses céus, obcecados e fugidos do caos, outros ficam incapazes de sair das ondas encapeladas do sensível e não vão, e os que seguem o caminho rumo à aparente permanência, firmados numa ideia que se repete, mal sabem afinal qual é a dimensão do engano implícito às suas teimas e convicções, que pouco mais são do que representações das puras cavernas da meninge.
De qualquer forma, sempre foi bom e consolador que o principesco, tendo perdido o país e a vida, se tivesse agarrado a qualquer coisita, mito ou tralha, porque alguma coisa a que se agarrar, é uma transcendência, uma vez que nem todos os místicos têm treino e formação para ajoelharem vergados, nas lajes frias de igrejas. Ele há outros que se consomem numa pequena monomania inofensiva, e todos esses, afinal, os místicos sagrados e os místicos profanos, que não largam o sabor amargo da terra, de todos eles, o que se pode dizer, é que de vidas estragadas por ideias fixas, está o inferno cheio.
Foi portanto o principesco correr mundo, se calhar levado pelo desgosto. Meteu-se em persistentes caminhadas e perdeu-se-lhe o rasto. Foi visto de mochila às costas nas ruas velhas de Bolonha, mas não muito tempo depois estava a jantar em Auch já em França. É provável que fosse a amizade por Proust o que o levou a Cahors, mas não se lhe conheceu previamente nenhumas leituras sobre o tempo perdido. Pode ter cruzado os profusos caminhos da Europa em muitas direcções, já que não muito mais tarde, bebia cerveja Guiness em Dublin, cidade onde permaneceu dividido entre as livrarias animadas e os pubs populares. Passou-lhe a vida e não se apurou se reencontrou ou não reencontrou, se chegou ou não chegou à sua porta e se reencontrou ou não reencontrou o momento em que em Sintra, muitos anos atrás, Leonor passou à sua frente para nunca mais ser vista. LACP

FIM

terça-feira, maio 18, 2004

Olhar Ruminante XXX
É impressionante o que está a acontecer com o 1º Ministro. Em sessões oficiais, fechadas, é respeitado, ouvido, lisonjeado. Quando chega cá fora, é apupado, insultado, assobiado.
Por exemplo, agora, em Viseu. Anunciou a criação de uma universidade, perante o aplauso e a expressão babada de uma série de acólitos que o rodeavam, satisfação e gratidão que se me afigurou compreensível, para viseenses. Mas, cá fora, um grupo considerável de pessoas (alguns docentes) protestava, com insultos à veneranda figura do Estado, o que me causou estranheza, porque tinham aspecto de gente séria e não de arruaceiros.
Vim depois a saber o que se tinha passado: o governo PS tinha já preparado tudo para a instalação da Universidade de Viseu. Na sanha anuladora de tudo quanto pudesse ser identificado com o ?antes?, quando formou governo, o Dr. Durão Barroso anulou esse propósito. Não utilizou o poderosos argumento das criancinhas em lista de espera, como na Ota, mas outro qualquer do género.
Agora, dentro do estilo ?promessa deslizante? que adoptou, vem anunciar que decidiu instalar a Universidade. Mas de tudo o que havia de concreto e preparado há dois anos, apenas tem o nome do responsável executivo, Veiga Simão.
Assim vai este mundo lusitano.....

ASP

sábado, maio 15, 2004

Olhar Ruminante XXVIII
O túnel ao fundo da luz
A contestação ao túnel do Marquês é uma emergência de cariz nacional.
Sem estar provada a sua necessidade e muito menos a sua prioridade no contexto dos investimentos no concelho de Lisboa, a sua aceitação sem contestação será significativa que os lisboetas se transformaram em meros súbditos da República Populista das Bananas, em vias de instalação sob a presidência do generalíssimo Santana.
Porque permitem, sem protesto, que um eleito para gerir a Coisa Pública, se arrogue o direito de dispor dos dinheiros públicos como se fossem seus, não no sentido do melhor serviço à colectividade, mas no de prossecução de interesses pessoais, neste caso de demonstração que é um cumpridor de promessas, mesmo que completamente disparatadas.
Os erros processuais, as eventuais moscambilhas nos contratos, as inclinações excessivas, os riscos, etc, por muito graves que sejam, são, do meu ponto de vista, menos graves do que a aceitação mansa de uma forma de governar Lisboa não para os lisboetas, mas auto-centrada numa ambição política e de exclusivo prestígio pessoal.
O presidente da Câmara de Lisboa não é dono da Cidade, dos seus dinheiros e muito menos dos cidadãos, a quem tem de prestar contas e satisfações.

ASP

sexta-feira, maio 14, 2004

Barco da carreira dos Tolos

?Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira?
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: o nosso inefável MAI (refiro-me à pessoa)
Porque o anúncio feito da manutenção do contingente português no Iraque para além de Junho, foi não só desnecessário, como perigoso.
Uma quase provocação, à beirinha dos desafios ao terrorismo que são os eventos próximos-futuros.
É preocupante, num ministério hoje em dia tão importante no contexto de ameaça em que o americanismo do Governo colocou o país, que o bom-senso tenha desertado do MAI (refiro-me à instituição).
ASP

quinta-feira, maio 13, 2004

Olhar Ruminante XXVII (retoma)
Gastei a semana passada uns tempos de férias por França e Espanha.
Senti-me como um internado do Júlio de Matos a quem é dada alta.
Por lá a política (ainda) tem algum sentido, há oposição coerente e perceptível, com propostas alternativas e desejo de assumir o poder. A população percebe suficientemente o que está em jogo, as suas consequências e fundamentação, sem deixar de se interessar pelas trivialidades da vida, como o futebol e as vidinhas dos famosos. Acreditam no futuro e gozam o presente.
Quando voltei, por cá estava tudo na mesma, baralhado, sem rumo, de decisões casuísticas tomadas apenas para se mostrar que se está a trabalhar, mesmo que sejam inúteis, idiotas ou desadequadas. Um país sem rumo. Um país adiado sistematicamente para o ano seguinte, onde haverá retoma e o sol brilhará para todos nós. Um país de palavras, de verbalizações de intuitos, de promessas em que já ninguém acredita, nem os seus proferidores, passe o neologismo. Um sistema estúpido.
Quanto ao Euro2004, o ?grande evento internacional que projectará Portugal no Mundo?, os 8 franceses e 2 espanhois com quem falei sobre o assunto desconheciam que seria em Portugal e quando. Também não vi qualquer propaganda ao evento, salvo um out-door numa bomba da Galp perto da fronteira portuguesa.
Na entrada de Caia, num grande cartaz de lado a lado da estrada, via-se ?Welcome to Euro 2004?, dedicado, naturalmente aos espanhóis e franceses, os únicos que virão por estrada ao evento. Mais nada.
O Rock in Rio nem sabiam o que era.
Espero bem que as anunciadas lotações esgotadas não sejam mais uma patranha da propaganda do Sistema...
Ao chegar, estranhei não saber de mais ninguém preso preventivamente por corrupção, tráfego de influências, simonia, abuso de poder ou fuga ao fisco. Admito que seja pelas conhecidas limitações físicas do sistema prisional....
Na operação ?Mãos limpas?, em Portugal, como era esperável, uma mão lava a outra.
Está-nos na massa do sangue, veja-se a popularidade que detêm Loureiros, Felgueiras, Torres e torres erguendo.....
E o Povo é sereno.

ASP

Tempo
Tucha chega-se muito à ponta, para lá do cais das colunas reposto, onde se vê as ondinhas do Tejo remexidas a baterem. O pesado e escuro mar está a esconder, no sentido de conter debaixo de água, peças de acontecimentos dispensados abolidos perdidos, fazendo mesmo justiça ao rigor da palavra naufrágio. E perante a imensidão de água, em rigor a outra margem quase não se avista, não lhe parece que haja qualquer hipótese de recuperar o que lá está afundado.
Um ventinho fraco levanta os cabelos, é nada parecido com a ventania habitual, e a luz do sol baixo escapa-se pelos fios soltos do cabelo ondulando. A sua figura, assim junto à água, com o sol a bater, fica muito luminosa e tudo aparece afinal muito perto.
Os olhos piscam um pouco, mas logo a seguir concentram-se fixados longe, mas é apenas um olhar que hesita em saber se é tarde demais ou se há ainda tempo. LACP

terça-feira, maio 11, 2004

Folhetim calhado

Tarde demais

No alto do castelo de S. Jorge estão muito mexidas as duas bandeiras, a da C.M.L. axadrezada e a outra da nação. Carros deslizam e cortam o silêncio porque as pessoas, no Rossio, praticamente não se ouvem. A luz das fachadas brancas está intensa e os muçulmanos velhos abrigam-se nas arcadas e balaustres do D. Maria.
Tucha está a atravessar o centro da praça na sentido da pastelaria Suíça. Pensa que é uma maravilha esta cidade, enquanto passeia os olhos de um lado para outro.
Passeia tristemente pelos seus locais conhecidos, da fabulosa Lisboa. Evita o Bairro Alto, mas não se importaria de subir o Chiado, aí aguenta a nostalgia. São lembranças agradáveis. Não está ninguém e parece senti-los. Todos se foram embora. Foram para outros lados, desapareceram levados pelas vidas deles, pelo tempo, pela senhora da sorte ou pela senhora da morte. Mudaram, todos podem mudar, as ideias fixas foram levadas pelo vento, as convicções viraram aparências e da substância ficaram larachas.
Fazem falta. Nada é nada. Tudo é tudo. Nem as palavras sabem o que dizem, nem o coração sabe o que quer, nem as emoções têm destino. Zero. Um fósforo que arde. Nada. Todos podem mudar.
Foram com o destino, no barco dos tolos que vem de carreira mês a mês e tem sempre lugar vago na proa para mais um, depois de cheio o convés.
Ficou em terra. Deixou-se ficar no sítio, não disse adeus nem até à vista, eram todos novos, muito novos e de alguma fé. É tarde, não vai rever ninguém, já não há ninguém para encontrar. Tardia amizade, forte memória, nunca irá esquecer foi o que se disse, porque o que se diz, não se esquece. Tem os braços abertos finalmente, num arrepio de amizade em vão. LACP

segunda-feira, maio 10, 2004

Barco da carreira dos Tolos
?Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira?
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa desta semana: Nós (quase) todos

Das poucas coisas que os portugueses historicamente fazem bem é o comércio, o negócio, o tráfego. Associado a estas forma estão, evidentemente, o lucro e as chamadas ?comissões?, quando legais ou ?luvas?, quando ilegais.
Presentemente em que a ética social está pelas ruas da amargura, consta que é raro o negócio público que não seja acompanhado deste estilo de transacção de dinheiro, muitas vezes a pretexto de alegados ou reais financiamentos partidários.
O facto é que é normal agentes da Coisa Pública, quando detêm poder de decisão sobre licenças ou encomendas, demonstrarem níveis de vida muito superiores aos que os seus rendimentos visíveis poderiam proporcionar. O Povo murmura, mas, por medo ou compreensão, cala-se.
A indústria de material militar é dos sectores onde se diz ser crónico darem-se avultadas comissões quando da colocação dos seus produtos. Vieram a lume vários casos de corrupção a alto nível e não só em países do 3º mundo.
Portugal pretende adquirir, durante o mandato do actual Governo, milhões de euros de diversos tipo deste material, com uma dinâmica de renovação de equipamento nunca visto nas Forças Armadas.
Ainda a semana passada foi assinado um contrato de aquisição de dois novos submarinos (justificados para o combate ao tráfego de droga, negócio subterrâneo), de 700 milhões de euros (cerca de 150 milhões de contos).
Sei que a NATO e o bom-senso acham que a sua aquisição é, no mínimo, inútil e estranha, num país que diz estar com dificuldades económicas e financeiras.
Mas não sei mais nada.

ASP







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