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quarta-feira, junho 30, 2004

Olhar Ruminante68
Cientific Repport 12339-USA-0-bem

Fontes científicas americanas ligadas ao Pentágono, asseguram que a migração de chernes para Bruxelas recentemente detectada, se deve ao início da formação de um buraco negro na parte ocidental da Península Ibérica, apenas indirectamente atribuível aos efeitos de estufa. Em termos de temperatura, esta migração é acompanhada por um nunca visto fenómeno de coincidência térmica divergente, ou seja, de um arrefecimento da economia acompanhado de súbito aquecimento dos ânimos públicos, originados por paroxismos de auto-estima pelos sucessos do Euro 2004 e por raivas mais ou menos contidas de quem acha que estão a fazer dele parvo.

ASP
Olhar Ruminante 611
Adoro
I
Estou muito satisfeito com a ambição pessoal do Dr. Barroso.
Por um lado o seu governo já estava no fim, a chatear mesmo, sem perspectiva ou chance de animar a malta. Um pântano, como lhe chamaria o Eng. Guterres, com conhecimento de causa.
Acima (até Bruxelas) o Dr. Barroso!
Animou a vida política numa altura em que os poucos que ligavam à coisa já se estavam a passar para as ingentes preocupações do futebol, nacional ou internacional, vai dar tudo ao mesmo, jogo, sexo, dinheiro e aventura ? adrenalina em estado bruto, em suma.
Havia que abater os chatos dedicados aos projectos, aos orçamentos, aos calendários e ás outras chatices que o povo identifica como responsabilidade governativa. A golpaça, de surpresa, apanhou-os todos a trabalhar, convencidos que estavam para durar, que riso....
Grande homem, grande português! Adeus, adeus.

II
Por outro lado aquela clique recém-poderosa do PSD, lambe-botas e carreirista, incondicional adoradora de um líder de pacotilha, estava mesmo a precisar, como é que se diz, de um par de cornos, uma traiçãozinha comezinha, indesculpável.
O grande timoneiro pô-los-lhes (termo difícil, convenhamos), sem dó nem comiseração e é ver os inimigos de ontem, os adversários na ocupação dos cargos e postos por apaniguados do seu próprio rebanho, hoje verem entrar no redil, com escopeta e um risinho irritante, o lobo mau dos seus piores sonhos. Cavacos, Manelas, Mendes, Veigas, Capuchos, Arnauds, e por aí fora, como foi que isto vos poude acontecer?
Gloria mundi etc e tal, será a melhor resposta que me ocorre, de momento.

III
Mas o cúmulo é ser-se seduzido e abandonado e ainda ter que gabar o egoísta sedutor, seguramente por tique de adulação sistémica.
Chega a ser patético o desnorte, o desconchavo, a tonteira de barata com ?Flit? em caixa de sapatos.
Por mim, estou satisfeito de assistir a este espectáculo. A queda da Babilónia, Sodoma e Gomorra da política caseira, os tachos, meu Deus, os tachos.
Depois do cherne, o dilúvio. Chove já que se farta..
IV
Diverte-me também a ascensão dos actores, dos entertainers, dos artistas funâmbulos da vida, dos ilusionistas, dos mágicos, demagogos e outros aldrabões. A caminho da pobreza geral, mas alegres, gastadores, magnânimos com os dinheiros públicos.
D. Pedro, o Magnânimo. D. Paulo, o Pomposo (que transporta a sua própria estátua, segundo E.Lourenço).
E as suas cortes de santanetes, pauletes e salmonetes, laranjas da noite. Tias, gestores e sobrinhetes.
Que giro, adoro!

V
O pior, é o resto

ASP

terça-feira, junho 29, 2004

Olhar Ruminante69
Ruminação especial, mais demorada, por mais difícil e indigesta ao olhar de entendimento
1. Durão Barroso
Subitamente, sem dar Cavaco, o 1º ministro português foi tratar da vidinha, à pressa, deixando a baralhada que isto está para quem vier a seguir fechar a porta.
É, evidentemente, prestigiante para o país que o presidente da CE seja português. Já o era quando Guterres foi convidado e rejeitou, exactamente porque era 1º ministro e porque queria concluir o compromisso que tinha assumido para com os seus eleitores. Igual rejeição aconteceu com o 1º ministro do Luxemburgo, por razões idênticas.
Fora a honra, para o país, o cargo estar nas mãos dum português, de um checo ou de um finlandês é praticamente igual.
Também o processo de escolha, opinião internacional, não foi muito prestigiante, dado terem lá chegado por exclusão de partes, último recurso e não propriamente po apreço positivo e específico.
Mas enfim, é, de facto, prestigiante para o país, ter um conterrâneo no 3º ou 4º posto formalmente mais importante do mundo.
Para Durão Barroso é a sorte grande: prestígio, dinheiro, poder q.b. e um razoável pretexto para se livrar duma situação que de dia para dia piora sem se ver saída.
Quanto a isto estamos conversados.

2. O Governo
O actual governo cai sempre com a demissão do PM.
Está instituído que, para formar novo governo, deve o PR convidar o partido que obteve mais deputados no Parlamento nas eleições legislativas. Neste caso, é o PSD.
O ?partido? é, evidentemente, representado pelo seu líder.
O líder do PSD é, até sair, o Dr. Barroso. Mas com a sua saída, quem o substitui? Ou melhor como é escolhido o seu substituto, o futuro líder do PSD.

1ºcenário ? não dissolução da AR
A simples nomeação por Barroso de Santana Lopes ou a sua cooptação em Conselho Nacional do PSD como líder do partido, enfermam de ilegitimidade interna flagrante e, como tal, não deverão poder ser aceites pelo PR. Estatutariamente o seu presidente deve ser escolhido em Congresso, pelo que se vê difícil outra solução que não passe pela realização de um congresso extraordinário para o efeito. Há diversos vice-presidentes do PSD e, que se saiba, nenhum pode ser considerado primus inter pares em termos de assumir a presidência automaticamente.
Até à nomeação de novo governo, o actual funcionará em gestão (o do PS esteve quase 4 meses nesta situação) sendo coordenado por um dos vice-primeiros ministros existentes, por hipótese a Drª Manuela F. Leite.
Como a coligação com o PP foi post-eleitoral, o futuro líder do PSD, eleito em congresso, poderá criar um governo em coligação com o PP, ou um governo minoritário só de sociais-democratas. Aliás governar sem maioria absoluta é normal e os governos PS sempre o fizeram. Após o desastre eleitoral nas europeias da coligação (em que tiveram menos votos juntos que o PSD isolado nas de 2002) parece que o PP constitui uma menos-valia eleitoral e que, por outro lado, pode impedir a concretização de um qualquer pacto de regime sobre alguns pontos concretos com o PS.

2º cenário ? dissolução da AR e marcação de eleições antecipadas
Pode o PR considerar que as condições actuais quanto a previsíveis apoios populares ao PSD são tão diversas das existentes há 2 anos, que a manutenção desses pressupostos seria um erro grosseiro em termos de representatividade democrática.
O clima de hostilidade (apupos, assobios, etc) mais ou menos generalizada ao Dr. Barroso e Dr. Portas, as greves, as sondagens e, sobretudo, os resultados da últimas eleições (que, se bem que tenham sido para o PE, não devem ser ignorados), podem justificar que, face a uma situação que ameace constituir uma maior instabilidade que a manutenção da AR, o PR resolva tirar as coisas ? a limpo?, dissolva a Assembleia e marque nova consulta ao eleitorado, possivelmente para Setembro/Outubro.

Quer um quer outro cenário são legítimos e possíveis.
O que se estava a preparar, de, por artes de prelimpimpim, o Dr. Santana Lopes se assumir, de uma penada, novo presidente do PSD e 1º ministro, com negociações com Portas para um novo governo de coligação, era uma golpada, um golpe de estado, inaceitável (e inaceitado) pelo PR e pelo Povo português.

ASP

segunda-feira, junho 28, 2004

Olhar Ruminante 68
Torres e torres erguendo


Já se percebeu que se não encontra outra razão para se fazerem as torres de Alcântara na modalidade que o arq. Siza Vieira propõe, a não ser por ser uma proposta dele e o promotor gostar da polémica para divulgar o empreendimento.
Em contrapartida perverte a imagem da Cidade, local e a vista do Rio, cria uma escala despropositada para a zona e contraria a maior parte dos moradoras do bairro e mesmo dos lisboetas.
Há uma modalidade alternativa que corresponde a uma ocupação ?clássica?, em quarteirão, de prédios de altura média (8 andares), que garante ao promotor a mesma área edificada, não sendo, assim, aparentemente pelo menos, prejudicado quanto a direitos adquiridos (nem subsequentemente pagando menos à Câmara).
Já foi por demais evidente que a maioria dos lisboetas não quer três torres na baixa de Alcântara, a ultrapassar o tabuleiro da ponte. Pode ser giro para Hong-Kong, para Manhatam ou Singapura, mas não tem nadinha que ver com a velha Lisboa riberinha. Aparentemente, um caso nítido de confronto entre interesse individual e o público.
Assim sendo, para quê mobilizar o Conselho Consultivo do IPPAR? A decisão vai depender do seu parecer? Se sim, sobrepor-se-á a toda a opinião pública já manifestada? Se não, para quê?
A CML, que licencia, não tem critério ou poder para decidir?
É divertida a ideia do referendo que o Dr. Santana Lopes quer. Anima as gentes, é lúdico e ainda permite uma ou duas sessões culturais de debate. E pode pegar como critério para a gestão urbanística da Cidade, extensível ás obras coercivas, às multas de estacionamento e ao regulamento para passeio higiénico dos cães de estimação.
Mas há, convenhamos, uma ciência, uma técnica, critérios, que não só permitem avaliar a adequação dos projectos propostos às condições planeadas da Cidade, como pré-definir determinadas formas de ocupação do seu espaço e de conformação da sua imagem. E a CML tem, seguramente, dezenas, se não centenas, de técnicos habilitados a interpretarem o PDM e demais PMOTs da zona. Ou a revê-los. Ou, caso queira usar especialistas fora da ?casa?, dezenas de arquitectos e urbanistas que o podem fazer com eficiência, competência e a preço de esmola comparado com o do arq. Frank Guery.
Porque é que se continua com a proposta como hipótese? Para ?crescer? a contrariedade e depois se fazer um bonito a resolver a coisa? Para distrair as ânsias de participação cívica da ?inteligenzia? lisboeta doutras ideias menos fáceis de resolver?
Pelo IPPAR, para já, fica-se a saber que as 3 torres de 105 metros, ali plasmadas na baixa de Alcântara, ?não colidem fisicamente com a zona de protecção da antiga fábrica ?A Napolitana?. Daí a não haver objecção.....valha-nos o bom senso dos senhores conselheiros, gente que, na maioria, passa por o ter.
Assim seja.

ASP


Olhar Ruminante 67
Do legal e do legítimo e a manifestação cívica de ontem


Há quem tenha condenado a manifestação espontânea junto a Belém, contra o golpe de estado populista em curso, por não ter sido autorizada, segundo os trâmites instituídos.
O facto é que ela se processou com civilidade, com umas 3000 pessoas perfeitamente apresentáveis, entre os quais algumas personalidades da nossa vida cultural e social. Diziam que não aceitavam mansamente um estatuto carneiral e manifestavam o seu protesto contra a forma como a transição do poder se estava a realizar.
Correu bem.
Talvez não tenha servido para nada mas fizeram o que achavam que deviam fazer, nas circunstâncias, como manifestação de cidadania e participação política.
Os partidos, mesmo os da oposição, não gostaram, nem nunca gostam de nada que lhes possa fugir ao controlo aparelhístico.
Quanto à legalidade, em verdade vos digo que nem todas as manifestações não legalizadas, que implicam requerimento ao Governo Civil , etc, podem ser consideradas ilegais. Só aquelas sobre que existe uma declaração formal nesse sentido, o que não aconteceu neste caso.
Se assim não fosse, as longas filas de carros a apitar com bandeiras, interrupção de tráfego e nítida alteração da ordem pública, incumprimento da Lei do Ruído, etc, que decorreram dos resultados do Euro 2004 um pouco por todo o país, deveriam ser exemplarmente reprimidas e encontrados dispositivos policiais para as evitar.
Depois, para sermos justos no pensar e no agir, mesmo seguindo as Escrituras, há que não submeter o conteúdo à forma.

ASP
Olhar Ruminante 66
A via sacra dum coup d?État engasgado, em discurso directo
Passo 1:
Durão Barroso - darei todo o meu apoio à candidatura à presidência do Comissário Vitorino;
Passo 2:
Durão Barroso ? declaro solenemente que não sou candidato à presidência da CE;
Passo 3:
Pacheco Pereira e Lobo Xavier - Durão Barroso abandonar o Governo, pela presidência da CE? Impossível, um suicídio
Passo 4:
Media ? Durão Barroso convidado para a presidência da CE, aceita; Santana Lopes substituiu-o como primeiro ministro;
Passo 5:
Santana Lopes ? estamos preparados para assumir as responsabilidades que nos forem incumbidas;
Passo 6 :
João Soares e outra oposição menos o PS ? houve hipocrisia no processo, pois Durão Barroso enquanto dizia que apoiava Vitorino, andava já em negociações para ser ele próprio o escolhido...o governo não é propriedade do Dr. Durão, pelo que não pode, por si só, dá-lo a quem entenda... a única solução democraticamente sustentada é a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições;
Passo 7 :
Media ? Santana Lopes e Paulo Portas reunidos para constituírem novo governo
Passo 8:
Presidente da República ? esqueceram-se que eu existo? Quem manda nisto sou eu. E ainda não há oficialmente nada estabelecido;
Passo 9:
2500 cidadãos (dês)organizados reúnem-se (quase) espontaneamente frente a Belém contra a nomeação de Santana Lopes (vade retro Santanás) e reclamando eleições antecipadas;
Passo 10:
Notáveis do PSD ? não é legítima a nomeação seja de quem for para formar governo sem ser em congresso extraordinário do Partido
Passo 11:
Presidente irlandês do PE ? oficializamos o convite a José Manuel Durão Barroso;
Passo 12:
Marcelo Rebelo de Sousa ? um conselho ao PR: escolha eleições antecipadas se quem for recomendado pelo PSD para formar governo provocar mais instabilidade;
Passo13:
Porta Voz do PS ? declaramos que nada declaramos sem sabermos claramente o que vamos protestar
Cena 14:
Povo Unido ? Portugal vai ganhar por 2-1 à Holanda

ASP

domingo, junho 27, 2004

Olhar Ruminante 67
Complicações matemáticas

O PP afirma que, nas últimas eleições europeias não perdeu nada, pois manteve dois deputados no PE e que, se tivesse concorrido isoladamente, os teria mantido na mesma.
Daí se deduz que, na coligação, as perdas foram não só apenas do PSD, como de sua responsabilidade exclusiva.
É caso para propor a alteração da relação das forças coligadas e propor o cargo de primeiro ministro ao líder do CDS/PP, já que o PSD está em tão manifesta derrota.
Não se percebe é porque é que são os apelidados sociais-democratas a se mostrarem desejosos de se livrarem do parceiro e não o contrário.
Tratou-se apenas de uma confusão matemática: ?o menos por menos dá mais? só funciona em multiplicação e não em adição.

ASP
Olhar Ruminante 66
Quem me dera ser palhaço


Hoje em dia, fora do Governo onde os critérios de escolha são ainda mais herméticos, a atribuição de cargos públicos pouco ou nada tem a ver com as competências específicas ou conhecimentos do nomeado para as funções, mas muito com a imagem de simpatia ou competência geral que ele possa publicitar.
Essa imagem é quase que exclusivamente adquirível por performances repetidas na TV, desde de comentador político a autobiógrafo convidado.
Não estranharei, assim, que um dos candidatos mais referidos como interessantes para disputar a liderança do PS possa vir a ser o Batatun.

ASP

quinta-feira, junho 24, 2004

Olhar Ruminante 64
A esperança
Hoje é um dia de esperança em Portugal:
- a equipa lusa vai aos quartos da final do Euro 2004;
- diz-se que Durão Barroso pode ir para a presidência da CE, um prestígio e um alívio para o País.

Assim seja

ASP


segunda-feira, junho 21, 2004

Olhar Ruminante 63
A mudança
O Governo apanhou uma ?banhada?, assumida, nas ultimas eleições.
O 1º ministro disse que ia tirar as ilações dos votos.
O SG do PS, idem.
Esperava-se alguma mudança.
Mas não: o Governo nem uma remodelaçãozinha ameaça fazer, a não ser quando a Oposição já se estiver esquecido de o reclamar. Figuras patéticas na governação irão assim continuar a aparecer e a ficar a desagradável sensação que Durão Barroso pensa intimamente que ?os cães ladram e a caravana passa?.
O PSD descobriu que a coligação com o PP era apenas táctica em torno do poder e que lhe estava a sair caríssima em auto-estima e votos. Mas o que pode o Secretário Geral do PSD fazer, se sem PP o Governo não se aguenta? De tanto sapo comido já croacha.
O problema é que nesta chantagem mútua é Portugal que perde, pelo menos, a fé no sistema democrático e na República.
No PS a tónica da ?estabilidade?, mesmo que de águas paradas, também se manifesta.
Vem o secretário geral desafiar a oposição interna e declarar, inopinadamente, que se propõe continuar sine die, com mais do mesmo.
O País, mais do que o Partido, apreciam-no. O PS nunca tinha tido tão bom resultado, era a prova que o País o apreciava. Esquece-se que há uma enorme diferença entre os indicadores de simpatia pelo PS e pelo seu líder, nas sondagens e que não terá sido ele quem foi sufragado, mas sim a Oposição como alternativa ao Governo.
Mas contraditoriamente afirma que lhe não serão devidos os louros da vitória, mas sim a Sousa Franco, o que parece ser verdade, se abstrairmos que, apesar da notável dinâmica e qualidade que o Professor incutiu à campanha, os resultados se deveram mais a demérito da Situação do que a mérito da Oposição.
Anunciando a sua recandidatura, Ferro Rodrigues abriu, com 4 meses de antecedência, a campanha para a chefia futura do PS. Opositores formais já há dois. Outros conspiram e organizam-se.
Não havia necessidade, para já. Quando o PS precisa de se assentar em ideias e ideais que não tem manifestado nos últimos anos, de se reorganizar contra os caciquismos e corrupção vigente, de mudar, em suma, o desviar as energias para a luta interna não parece ser muito curial.
Até porque sem se saber o destino do D.Sebastião Vitorino todas as conjecturas sobre o assunto são prematuras.

ASP

quinta-feira, junho 17, 2004

Olhar Ruminante 62
As cortes e as cortesias


Os partidos, hoje em dia, são apenas estruturas de poder. O intuito de reforma da sociedade de acordo com ideologias ou ideias esvaiu-se nos pragmatismos da realpolitik. E são estruturas de poder ao estilo das antigas cortes monárquicas e não como organizações democráticas e participadas.
O PS, desde 2000, consolidou uma estrutura deste estilo. Com a imprevista saída do príncipe D. António a corte cooptou por D. Eduardo, mas manteve as cortes de aldeia dos vários barões e a rede de influências urbanas à conta de diversos notáveis, condes, duques e marqueses, mais ou menos assentes na estrutura formal existente.
Esses notáveis mantêm os seus sequazes organizados numa espécie de ?sindicatos de votos?, que mobilizam quando das eleições para os diversos órgãos do partidos-cortes, de forma que a corte se consolida cada vez mais, com votações que, ao estilo da Coreia do Norte, ultrapassam os 90% de adesão ao príncipe e ao sistema.
No PS, o novo príncipe prometeu mudanças, porque uma dinâmica de mudança é apanágio da Esquerda . Garantiu abertura a ideias não conformes ao ?espírito da corte?, diálogo, lugar a novas caras.
Era (e é) geralmente considerado como homem de bem, sério e cumpridor.
Mas ninguém deu por mudança alguma. Terá sido absorvido pela corte, num abraço de solidariedade que lhe tolhe os movimentos.
O PSD é também outra corte, com outro príncipe, duques,.condes e barões.
Igualmente estática, sem uma ética social ou reformista explícita, que nasceu devido a ser governo, por sua vez decorrente da inevitabilidade, neste sistema parlamentar, da rotatividade no poder das cortes mais importantes. O PSD vive a euforia do poder, dos cargos e prebendas, que acentua a conveniência de vassalagem.
Há também outros partidos, mas não são determinantes, por enquanto pelo menos, para a Política actual.
Uma situação semelhante à dos fins do século XIX. Mas então como agora, a vida pública não se faz apenas nos partidos-cortes, nem a Política é apenas o jogo do Poder (leia-se interesses). No século XIX foram as Conferências do Casino, os Vencidos da Vida e tantos outros grupos de cultura e debate de ideias, que encontraram uma nova Ideia para Portugal e uma ?saída? para a situação de descrédito da Política e dos políticos na Nação, através da República. Os partidos ocupavam-se a encher os bolsos e os egos dos respectivos lideres.
Agora, não há Ideia nenhuma em alternativa à decadência crescente do Regime. Mas começam a surgir, mais ou menos associados aos partidos, mas laterais, clubes de reflexão democrática, onde a segunda e importante componente da Política com P grande se intenta realizar: o pensamento, o debate de ideias, a formação de novas ideologias, a reflexão sobre o tempo presente, a nível sócio-económico, ético, cultural, nacional e internacional.
Só no PS já há três. A que, curiosamente o partido pouco ou nada liga e a que a estrutura instalada ? corte, establishment, aparelho, nomenclatura, sistema, chamem-lhe o que quiserem ? interpreta como oposição interna e como tal combate.
O Povo, se é que ainda se pode chamar assim a população, mormente o eleitorado, percebe, ou melhor, sente, que o actual sistema o não satisfaz, nem corresponde ao modelo da República apregoado. Mas, pelo menos por mais uma ou duas gerações, não lhe é dada outra atitude do que a participação pelo voto na escolha de uma das duas cortes existentes, no limite com mais uma ou duas cortezinhas anexas.
Que grande chatice! ASP

quarta-feira, junho 16, 2004

Olhar Ruminante 61
Sans souci I


Está tudo na mesma.
Com eleições ou sem eleições, Portugal continua como se a vida política nacional se tratasse de um fluxo de um pachorrento e caudaloso rio no seu percurso para uma prometida foz, absurdamente cada vez mais longínqua, como se o caudal andasse para trás.
62% de abstenções significa que uns 5 milhões de portugueses se auto-alienam da cidadania. Que mais de 50% dos eleitores entende a Política como qualquer coisa exterior às suas vidinhas. Que nos políticos nada vêem de sua representação, mas apenas uns tipos espertos que sacam do erário público o mais que podem. Uns 5 milhões de portugueses que se auto-consideram como papalvos explorados por um sistema a que não conseguem, nem querem, aceder.
E mais coisas que me não quero incomodar em lembrar.
Esse Sistema é constituído pelo Governo e pela Oposição e parece encontrar no mero jogo do Poder razão suficiente para a sua existência.
Como, no limite, precisa (ainda) dos votos dos restantes 40% de eleitores, quotidianamente procura convencê-los, através de promessas do arco-iris e/ou críticas acusações sobre os adversários, afirmando que são melhores do que estes.
O País é entendido como o campo deste jogo.
Há muito que deixaram de ter ideais ou sequer ideias para este campo.
Limitam-se a gerir a coisa, a consolidarem o controlo sobre postos estratégicos com gente de confiança e a verbalizarem reformas, ou ensaios de reformas, que quase nunca chegam a uma conclusão visível.
Isto tudo envolve dinheiro, muito dinheiro, que tem, na actual ética liberal, o maior interesse de passar de propriedade pública para a privada. E há milhares de formas de o fazer, desde as luvas, a comissões, subornos, mordomias, tachos, privatizações, partenariados, concessões, etc, até às sobras dos chamados financiamentos partidários, que nalguns casos mais não são que extorsão pura e simples.
As eleições para o PE em nada alteraram este panorama.
Demonstraram que o Governo só é apoiado por pouco mais de 18% dos eleitores (0,3 x 0,6= 0,18), o que se adivinhava pelos sistemáticos apupos com que era premiado nas suas saídas públicas e que cerca de ¼ dos eleitores lhe prefere o PS.
O Governo diz que sim-não-senhor mas não tenciona alterar em nada a sua política; e o PS reafirma o seu intuito de nada fazer, a não ser guerrilha erosiva, até às próximas legislativas, à conta de um conspícuo conceito de ?estabilidade?, curiosamente dum governo que acusa de ser o pior desde o 25 de Abril e que está a conduzir o País para situações dramáticas em termos sócio-económicos.
O povo murmura, mas é proverbialmente sereno, especialmente se distraído com jogos de Verão e construções de areia.
Tudo pode, contudo, ter alguma (pequena) mudança consoante hoje Portugal ganhar ou perder à Rússia.
Os dados estão lançados.
Haja Deus.

ASP

sábado, junho 12, 2004

Olhar Ruminante 44
Talvez o pântano


Ao contrário dos ricos-homens e cortesãos dos tachos, em Portugal o Povo anda triste.
Murmura.
Porque é sereno, apenas murmura.
Contra o Governo, evidentemente.
Nem sempre sabe perfeitamente porquê, mas culpa-o do lamentoso estado da Nação.
O Governo é sempre, mesmo que de facto o não seja, o culpado do que acontece na Coisa Pública.
E, neste caso, apesar de pateticamente se vir vindo a desculpar com o passado (onde tudo era melhor, curiosamente) essa desculpa já não colhe, prescreveu.
E o Povo, não entendendo tanta baralhação de ideias, tanta desorganização, tanta incompetência flagrante, tanta promessa por cumprir, murmura.
Mas começa a serenidade a acabar e o murmúrio a crescer de intensidade.
Com laivos de rancor.
Pelo desemprego, pelos abusos e desigualdades, pela arrogância, pelo novo-riquismo dos poderosos, pela manipulação das condutas.
E o murmúrio transforma-se em assobios e vaias um pouco por todo o sítio onde os governantes mais representativos aparecem.
Mas o Governo faz o que pode. É intrinsecamente sofrível, mas tem gente bem intencionada. Mais do que a causa deste descontentamento crescente do Povo, o Governo é um sintoma de qualquer coisa de mais grave, como um tumor num corpo o é de um cancro escondido.
O cancro, em Portugal é o agora chamado Sistema, ou Situação, para recuperar um conceito pré-®evolucionário.
A Situação é o status quo, o equilíbrio estático de forças políticas, o pântano de águas paradas, a ausência de dinâmica, de reformas e de intuito reformista, nos homens políticos e nas organizações que partilham o poder ( e o contra-poder é também poder).
Quando não há essa dinâmica reformista, quando não há ideais, metas, ideias, objectivos e projectos, como acontece presentemente, a Política transveste-se em carreirismo e corrupção, e a Rex Pública desfalece em torno de interesses de lobbies ou de mandarins e cortesãos.
Talvez fosse pela convicção que não conseguia sair desse pântano que Guterres tenha saltado do Sistema.
Talvez.

ASP

quarta-feira, junho 09, 2004

Olhar Ruminante 43
Campanha ou propaganda?
As actuais eleições, para eleger os vinte e tantos representantes portugueses ao Parlamento Europeu, entre mais de 600 representantes de outros países, têm, principalmente, outros intuitos.
Os candidatos são cooptados pelos partidos nacionais e, apesar de se dizer o contrário, para além da primeira ou segunda figuras das listas, a sua qualidade individual tem pequeníssima importância para a eleição.
Cada lista contém a totalidade dos nomes, como se pudessem ser todos eleitos, mas cada partido sabe que não conseguirá elegê-los a todos, havendo mesmo alguns que não conseguirão sequer eleger o cabeça de lista.
Muito dificilmente os primeiros 9 ou 10 das listas da Coligação ou do PS não serão eleitos, situando-se a dúvida em se o PS mete 11 ou 12, se a Coligação mete 10 ou 11, se a APU mete um ou dois e se o BE consegue eleger o seu cabeça de lista, Miguel Portas.
Seria completamente indiferente, para além dos cabeças de lista, ser o Sr. X ou a Srª Y a integrar a lista, pois está-se de facto apenas a escolher partidos, quais clubes da nossa preferência, representados por um específico e determinado campeão de imagem de competência pública.
Parece que estas primeiras figuras têm algumas ideias sobre a Europa e o País, se bem que quase coincidentes entre os dois maiores contendores (contentores de esperanças dos seus adeptos).
Para além dos pequenos partidos, a participação do eleitor individual reporta-se, em concreto, entre a Situação e Oposição, à escolha de entre os candidatos situados entre o 9º e 12ºlugares das respectivas listas.
Mas ninguém faz a mínima ideia do que eles pensam, se é que alguém sabe quem eles são?..!


ASP

Nova vaga

Contra as praias


Apesar de não se ver com clareza como, a geografia conta para o desenvolvimento.
Chega um nico de sol e zarpa tudo a fantasiar devaneios, cresce a fadiga das rotinas nos escritórios , o trabalho que espere, é hora de ir despir para as praias logo ali à mão.
Fica tudo doido com as praias, seja dia de semana ou domingo. Não me perguntem como é que as praias produzem mentalidades pândegas e lassas, se afinal são cortes de prazer em vidas insípidas e representam a suspensão de trabalhos caricatos e desordenados. Mas umas coisas puxam outras e talvez que o frio do inverno concentre espíritos, enquanto a febre dos calores difunde corpos e vontades.
Quem sabe se não se vencia a crise e o défice, se, em vez de tanta gente disparar para lá, antes fossem flanar nessas praias os Srs. ministros mais os srs. secretários de estado. Então é que ficávamos livres, mas na cidade. LACP

segunda-feira, junho 07, 2004

Olhar Ruminante XLIII
Um regime parlamentar para lamentar


É possível encontrar boas semelhanças entre o regime político sob o Rei D. Carlos e o actual:
· Formalmente democrático e parlamentar, sob a égide de uma figura suprapartidária mas de pequeníssimo poder efectivo.
· O Governo constituído de gente videirinha, de demagogos populistas, sobre que recaíam muitas vezes suspeitas de conduta menos limpa.
· Os deputados às Cortes entretendo-se em disputas estéreis, retóricas, capitaneados por grandes tribunos que encontravam satisfação pessoal nas pequenas vitórias nessas pugnas estéreis.
· Dois grandes partidos que se alternavam no poder ? Regeneradores e Progressistas ? não tanto por mérito próprio, mas por cansaço do eleitorado e falta de alternativas. Partidos esvaziados de ideias, de iniciativa e de ideologia, pelo que apenas eram diferenciados pelas pessoas que surgiam como seus representantes.
· A vida política transformada num escadote para todos os carreiristas, sendo-se nomeado para os cargos públicos não por especiais competências ou vocação, mas apenas por confiança pessoal do líder na altura no poder.
· Grandes fortunas súbitas, negociatas, corrupção mais ou menos generalizada, a todos os níveis.
· Portugal internacionalmente encarado como um país atrasado, sem qualquer representatividade no concerto das nações europeias, a que se podia fazer ultimatos injuriosos sem a mínima capacidade de reacção.
· O Povo a queixar-se (mas o Português queixa-se sempre), mas sem ser capaz de entender concretamente porquê e, às vezes, de quê.

Houve, contudo, o movimento republicano, uma esperança que iluminava o futuro e apresentava uma saída para a situação pantanosa existente. A Monarquia caiu de podre, sendo pouquíssimos os que a procuraram defender até ao fim. Instalou-se a 1ª República.

Na 1ª República, após uns inícios fulgurantes de ideal e de reformismo, o regime parlamentar rapidamente reconstituiu o ?pântano? das discussões vazias, da demagogia do ?bacalhau a pataco?, da incompetência na gestão da Coisa Pública.
Houve, contudo, uma ideologia, agora de direita, o movimento nacionalista e integralista, que apresentou uma saída concreta para a situação pastosa existente e se consubstanciou na ditadura salazarista. Instalou-se a 2ª República.
O salazarismo caiu de podre, sendo pouquíssimos os que o procuraram defender até ao fim. Instalou-se, após o 25 de Abril, a 3ª República.
Voltou-se, agora, na actual 3ª República, ao parlamentarismo e ao estilo de fazer política de há 100 anos atrás. E o regime dá, novamente, sinais de apodrecimento, ético, pelo menos, com políticos sem representatividade real, sem dimensão reformista, sem ideais ou ideias, puros carreiristas do poder e uma corrupção instalada a horizontal a todas as classes e actividades.
Só que agora, por enquanto, não há um ideal para alimentar a esperança ou a alternativa.
O que virá então?
ASP

domingo, junho 06, 2004

Olhar Ruminante XLII
Tiro curvo

Parece que as expectativas quanto ao impacte turístico do Euro2004 foram muito exageradas. Quer nas viagens, quer nas marcações do hotéis, está-se muito abaixo do esperado, sendo até, por exemplo no Algarve, o número de turistas esperado inferior ao normal sem Euro.
Típico do populismo, o entusiasmo excessivo, o foguete antes da festa.
Em tiro curvo, para acertar longe, mas sem se saber calcular bem a artilharia.
E algum provincianismo, também. De quem pensa que tem todo o mundo a olhar para si e para qualquer coisinha mais fora do comum que use. Um pouco a história do João Valentão (não confundir com Valentim), que matou sete de uma vez.....

ASP

sábado, junho 05, 2004

Olhar Ruminante XLI

O Rei vai nú. Olha a novidade!
O prof. Augusto Mateus revela, num seu relatório sobre a situação de Portugal face ao alargamento da EU, grande preocupação com as circunstâncias existentes no País:
Desorganização generalizada, baixas produtividades, insuficiente formação, despesismo, um Estado rígido, com uma organização esclerosada, muitas vezes um tropeço no sistema produtivo, corrupção endógena e quase generalizada, enfim, uma lástima.O modelo económico português está esgotado.
E nada se tem feito para a apregoada retoma, que mais não passa de propaganda.
Os grandes projectos (Euro, Rock, etc) mais não passam de foguetes de pequeno impacte na economia e os fundos europeus têm sido, e continuam a ser, canalizados para investimentos em matéria não directamente de apoio à produção, muitas vezes redundante e desnecessária.
O consumo é excessivo para as capacidades do País, correspondendo a volumes exagerados de crédito mal parado e a insolvência de cada vez mais famílias.
Os níveis de vida usados como paradigma são incomportáveis para o País, que não gera riqueza suficiente para os manter.
Uma pedrada no charco das rãs.
Mas não é novidade. É apenas a confirmação escrita do diagnóstico mais ou menos intuído por todos os portugueses.
Diagnóstico ?déja vu?, recorrente, limpa-consciências de governos que não têm sabido, ou podido, inflectir a situação. Incapazes de um surto coerente de organização vectorizada para a produtividade e para a produção. Verbalizadores em excesso e incompetentes em concreto.

É tempo de abandonar os diagnósticos e se avançar para a terapêutica, começando numa qualquer ponta para a resolução destes atavismos que arrastam o país para o subdesenvolvimento.
Claro que há circunstâncias culturais específicas que dificultam essa dinâmica.
E entre elas está, lamentavelmente, o Sistema Político que deixámos instalar e que se não vê forma, a curto prazo, de alterar. Um sistema em que os partidos, para se financiarem, forçam a corrupção nas autarquias e nas instituições públicas onde colocam gente de confiança, boys, aí colocados não por competência ou para qualquer tipo de reforma, mas para o maior imobilismo, apenas por razões de confiança pessoal e possíveis cumplicidades.
Corrupção que já se tornou endógena e permeabilizou toda a sociedade, a nível de tráfego de influências, interesses em negócios, comissões e pagamentos de favores.
Chefias públicas de cortesãos ou mandarins, tecnicamente incompetentes. Que usam os cargos públicos para se servirem e não para servirem.
Sistema sem ideologia, ideia ou projecto político, a não ser o poder, poder pelo poder. Agentes públicos carreiristas do tacho, à sombra da Democracia, que cada vez mais se transforma em plutocracia.
Sistema que é consequência e causa do atraso sócio-económico existente.
Uma cultura imediatista, materialista, individualista feroz.
Uma sociedade do espectáculo e da diversão. Uma assumpção da cigarrice como forma de vida. Sempre pendurados ?lá fora?, o tráfego da Índia, o Brasil, as colónias, a emigração, o turismo, os apoios europeus.
Cá dentro é a intriga, a confusão, a mediocridade e a inveja que quase sempre pontificam.

O notável professor Mateus, foi lá pelos números, pelos indicadores, onde a maioria do Povo, mesmo com os lamentáveis níveis de literacia que possui, já tinha percebido pela constatação das consequências nos seus quotidianos.

O Rei vai nú. Olha a novidade!
Mas se o rei insiste em se não vestir, o que pode o Povo fazer?

ASP

quinta-feira, junho 03, 2004

Olhar Ruminante XL
E agora?

Como se esperava, Paulo Pedroso foi ilibado na acusação de pedofilia.
Tudo aquilo cheirava de longe a urdidura, a esquema montado, a, possivelmente, compra de algumas testemunhas e/ou manipulação de outras.
A acusação não resistiu às suas contradições, inverosimilhanças, impossibilidades.
O MP e o primeiro juiz de instrução, que se soube depois que se havia oferecido, quase forçando, para o lugar, conduziram manifestamente o processo de forma parcial (o que será compreensível no primeiro caso e indesculpável no segundo) e procurando dar a maior espectacularidade ao assunto.
Sentia-se por trás alguma força poderosa a mexer cordéis.
As suas motivações provavelmente só conjecturas as poderão perceber.
Ficam para memória futura os escândalos das escutas, das fugas do segredo de justiça (com J pequeno, pois por enquanto, pelo menos, não merece a maiúscula), os atropelos aos direitos dos cidadãos no processo de averiguações, a irresponsabilidade dos agentes, as confusões, etc, etc.
Tudo perante a passividade (quase cumplicidade) dum PGR temeroso, baralhado, baralhante. E dum governo-avestruz.
Nunca, em tão pouco tempo, se desfez tanto a confiança na Justiça portuguesa.
E agora?

ASP

quarta-feira, junho 02, 2004

Olhar Ruminante XXIX
Futebol é assim mesmo

Se há actividade em que os portugueses se reconhecem é no futebol: é um ludo, com as subsequentes aventura e emoção, todo táctico, praticamente desprovido de ideias abstractas ou de estratégia, que permite o uso da maior subjectividade e emotividade na apreciação dos factos, que envolve muito dinheiro, arquétipos de vida luxuosa e heróis de curta e média duração, para não aborrecerem.
Quase ninguém em Portugal desconhece as suas regras e inclusivamente já se criou um léxico específico que passou para a linguagem corrente e para a escrita com a naturalidade das coisas culturais essenciais. Toda a gente identifica a palavra ofessaide, golo ou penálti com determinados factos do futebol, coisa que há cem anos muito provavelmente quase ninguém seria capaz de fazer.
Os novos heróis são jogadores, os novos estrategas são treinadores, os novos caudilhos são dirigentes de clubes.
E cada português partilha o triunfo ou derrota do seu clube, numa fidelidade canina que não tem para mais coisa nenhuma, encontrando nas centelhas de glória ou nos desgostos das derrotas uma razão de vida, até morrer. Se possível subitamente, no estádio, a assistir à vitória por goleada do clube rival.
Tudo o resto tem pouca importância, hoje em dia, para o português corrente.

Perceberam isto os profissionais da política nacional. E digo profissionais da política e não políticos, porque estes agem de acordo com ideais e projectos de natureza social, enquanto aqueles se preocupam, de forma quase exclusiva, com o poder.
Assim nasceu e cresce todos os dias a futebolização da política. Com a comunicação, a propaganda, a procurar adequar os termos e os conceitos do futebol, facilmente compreensíveis pelas massas votantes, à mensagem política.
Por exemplo, para ?capitão da equipa? dos candidatos às eleições europeias, o PS foi buscar um prestigiado profissional, muitas vezes internacionalizado, que na altura não estava apanhado por nenhum outro clube (partido). Uma espécie de Figo. Podia seguramente ter encontrado nos elementos-militantes do partido alguém igualmente respeitável e respeitado. Mas sabia que os adeptos preferem ver jogar campeões de fama consolidada e que na própria surpresa e circunstâncias das contratações está um pouco do envolvimento popular nos clubes.

A utilização da figura dos ?cartões?, amarelo e vermelho, é também um sintoma da futebolização da linguagem, se não mesmo da política portuguesa:
Achou o PS que era interessante associar os resultados das eleições europeias em Portugal à opinião que os portugueses terão da actual maioria ou do Governo.
A ideia era simples: as sondagens à Opinião Pública referem que cerca de 60 a 70% dos eleitores não gostam da Situação e que 20 a 30% a detestam mesmo. Tal descrédito repercutir-se-á nos votos e tal resultado será uma comprovação real (em reforço das sondagens, na sua opinião de pouca credibilidade, vá-se lá saber por quê) da impopularidade do Governo. Uma penalidade-aviso, tendo em vista as eleições legislativas daqui a dois anos. Em futebol quer dizer que está a jogar para segundo, mas a treinar para ganhar o campeonato só em 2006.
Uma ajuda até, pois ?quem te avisa teu amigo é?, o que é confirmado pelas reiteradas declarações do secretário geral do PS em abono da ?estabilidade? do actual poder e de garantia que ?deixará? a actual maioria governar até ao fim. Mas, contraditoriamente, todos os dias, se bem que quase sempre inconsequentemente, a ataca por ser altamente prejudicial ao País, por dar cobertura a negociatas lesivas do interesse público, por falta de tino e estratégia na governação, etc.
Face ao desinteresse declarado de derrubar e substituir o poder executivo, essa dinâmica só pode ser entendida ou como treino para a argumentação eleitoral, daqui a dois anos, ou como demonstração aos adeptos, de ?serviço? que justifique os cargos & prebendas que acompanham o estatuto de profissional do político, em Portugal.
A ideia do aviso quanto a comportamento indevido ou falta é, no futebol, consubstanciado por um cartão amarelo que o árbitro (neste caso figurado pelo povo eleitor) apresenta ao jogador (neste caso figurado pela lista da Maioria). Se apenas tiver 20 ou 30% dos votos significará que o Povo está descontente com a governação e que.....o quê?
Que o Governo terá de melhorar a sua governação e a sua imagem junto do Público? Um conselho da Oposição?
Que o PS se candidata a, desde que possa, o substituir?
Não, em abono da alegada ?estabilidade?, o PS nada fará para derrubar o Governo até à altura própria, dentro dos calendários formalmente aprovados.
Então o quê?
Por outro lado o risco de, nesta eleições, em que a taxa de abstenção se deve situar nos 60 a 70%, a diferença de votos nas listas da Maioria e do PS pode não ser significativa. Ambos terão uns 15 a 20% de incondicionais fieis (como os clubes, aliás) e as sondagens não dão expressivas diferenças entre os partidos, em termos de intenção de votos. O que existe é uma geral desconsideração pelo ?Sistema? político existente, Situação-Oposição e não apenas pela Situação ou seus partidos. Se bem que injustamente, começa a espalhar-se perigosamente a ideia que os ?políticos? ?estão lá para se servir e não para servir a República?, que são geradores de corrupção, demagogos e enganadores por sistema. E tal abrange, indiscriminadamente justos e pecadores.
Tal, aliado à sensação de minúsculo significado do voto individual na política europeia (mínima influência na escolha do deputado nacional, pequeníssima influência do deputado nas decisões do Parlamento Europeu, pequena influência do PE nas decisões da EU, reflexo diluído dessas decisões na política portuguesa, etc), aliado ao futebol, aos feriados, ao tempo de praia, etc, provocará, previsivelmente, um record (isto é, o registo mais alto) de abstenções (que, curiosamente, o Sistema pouco tem feito para combater).
Essa abstenção, que se situará nas camadas menos engajadas partidariamente, pode conduzir a resultados imprevisíveis. O que são esperados correspondem a uma pequena vitória do PS, mas por diferença que não pode ser entendida como qualquer ?cartão amarelo? ao Governo.E assim, com a ideia do cartão, se estas previsões acontecerem, o PS acaba por perder esse round. Raio do futebol.....

Mais patética ainda é a réplica da Situação ao cartão amarelo, a pedir aos eleitores um ?cartão vermelho? para a Oposição. O significado deste cartão é o da expulsão do campo. Um cartão vermelho apresentado à Oposição significará o seu abandono do estatuto de oposição, passando ipso facto para Governo, o que se afigura ser exactamente o contrário do pretendido. Raio de futebol!

Mas enfim, futebol é assim mesmo e prognósticos só no fim do jogo.....

ASP

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