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sábado, julho 31, 2004

Olhar Ruminante 729
29JUL
Se a visão rosa sobre a situação de Portugal é negra, a laranja é arco-iris com passarinhos chilreantes. Um espécie de filme de Walt Disney. Para tontos e crianças acreditarem, com sorrisos e pequenas lágrimas.
Diz o Público de hoje que o actual primeiro-ministro, em tempo de antena PSD, vai fazer um retrato do País que o torna irreconhecível. Assim diz ele, a sério, que agora ?existe um Portugal dinâmico e feliz?, subliminarmente pelo privilégio de o ter como 1º ministro.
Por exemplo ficaremos a saber que Portugal já saiu ? de uma situação orçamental grave????!!!???, opinião que prenuncia gravíssimas enxaquecas para o presidente da República.
A confusão entre o sonho e a realidade daria uma tese de doutoramento em psicologia do autismo. Um texto exemplar do surrealismo fantástico aplicado à demagogia.
Afirmará também que ?as reformas indispensáveis para o nosso futuro foram feitas?, referindo a da Administração Pública, a da Saúde, das Florestas, dos curricula do Ensino Secundário, etc, etc.
Mas uma breve conferência nos mostra que, afinal, o deficit está nos 5 e tal por cento e que o património alienável quase desapareceu; que nunca a Administração Pública teve tanta gente, mais desorientada, desmotivada, a fazer quase nada a não ser, lentamente, cobranças e licenças estranguladoras duma dinâmica económica que ainda se não vê; que as listas de espera na Saúde, contra todas as promessas, aumentaram e o consumo de genéricos vem descendo; que nada se fez no ordenamento florestal preventivo dos fogos e que mesmo agora pouco se faz perante a nova vaga de incêndios; que o reordenamento administrativo do País é uma bagunça; que a revisão curricular do ensino secundário foi vetada e tem de voltar ao princípio; que dos pagamentos aos ex-combatentes ainda nada se viu; que as reformas continuam aquilo que se sabe; que a descida do IRS talvez só lá para daqui a dois anos; etc, etc.
Auto-estima governamental em quê? Porquê? Será da semana de governação que tem? Pelas novas instalações em S. Bento? O novo carro oficial, melhor que o anterior? Mais guardas-costas? Ou por estar convencido que as suas inexcedíveis qualidades resolverão, num ápice, todas as incompetências do governo que o antecedeu?
O script dos 10 minutos na TV, como espectáculo de ficção, apesar de um pouco exagerado, terá originalidade e a interpretação será excelente.
Mas não sei se a ocasião será apropriada, com o desespero que reina um pouco portodo o país, em chamas, sem meios.
À noite não consegui ver , nem consegui encontrar ninguém que o tivesse feito. Talvez não tenha mesmo ido para o ar. Porque logo a seguir todos os noticiários focaram o horror do fogo em Alportel e o drama das pessoas a verem as suas casas e os seus haveres a arder, inermes. Em circunstâncias onde os meios aéreos dispensados por este governo teriam sido, seguramente, muito úteis.
Não creio que alguém que tal tivesse visto achasse o nosso país, agora, ?dinâmico e feliz?, como terá afirmado o primeiro ministro.
Amanhã saberei se existiu, afinal, um pouco de bom senso.

ASP


sexta-feira, julho 30, 2004

Olhar Ruminante 728
Esquerda, Direita, um, dois
 
Fala-se muito de esquerda e de direita, mas, com o tempo, esses conceitos perderam a nitidez que tinham  e  necessitam de um  esclarecimento.  A esquerda de 1820 correspondia à direita de 1920, por exemplo. E a de 1920 é bem possível que hoje em dia seja considerada inadequada para os tempos presentes.
Esses conceitos são, também, subjectivos e relativos, em cada país. A esquerda do Irão, por hipótese, provavelmente será considerada direita em qualquer país europeu.
E o  meu conceito de direita, por exemplo, não é, seguramente, o mesmo que o do Dr. Santana Lopes.
Dentro destes pressupostos é, contudo, possível definir com traços largos o que difere a Esquerda da Direita:
·        A atitude normal da  Esquerda é progressiva, baseia-se na mudança  e na imaginação criativa; a Direita é conservadora, baseia-se na tradição, na segurança e na estabilidade.
·        A Esquerda acredita na cooperação como motor da sociedade; a Direita na competição;
·        A Esquerda entende o esforço social do Estado como um dever, correspondente a um direito dos cidadãos; A Direita encara esse esforço social como um fardo para os mais produtivos, uma espécie de grilheta ao seu desenvolvimento;
·        A Esquerda sente como missão o apoio aos mais desfavorecidos, aos explorados, às minorias, aos velhos; a Direita aprecia os mais fortes, os mais ricos, os de maior iniciativa e sucesso.
·        A Esquerda assume-se com responsabilidades para com a Sociedade e rege-se por uma ética social; a Direita é intrinsecamente  individualista, personalista, segundo uma moral marcadamente individual.
·        A  Esquerda encara o poder numa óptica de dever social dos poderosos;  a direita respeita o poder por ser poder.
·        A  Esquerda tende para o equilíbrio entre as condições de vida de todos os homens, é igualitária; a Direita aceita e até promove as diferenças e aceita os desequilíbrios com  naturalidade  darwiniana.
·        A Esquerda  encara as empresas numa perspectiva económica e social (emprego, produção); a Direita na perspectiva financeira (lucro, dinheiro);
·        A Esquerda é tolerante; a Direita intolerante.
·        A Esquerda é mais idealista; a Direita mais pragmática
Muitas mais diferenças existem, evidentemente, algumas subtis, outras claríssimas. A forma como Esquerda e Direita encaram por exemplo a Justiça, a Verdade, a Segurança, a Assistência, etc, são diferentes.
A atitude de esquerda terá sido ler este blog até ao fim, concordando ou discordando; a de direita ler as primeiras frases e dizer para que é que isto me interessa?

ASP


quinta-feira, julho 29, 2004

Relances 78
28JUL
Soube agora que o governo português recusou apoio de meios aéreos para combate a incêndios, da Alemanha, Reino Unido e Noruega. Faz sentido. Por um lado poderiam pensar que Portugal não está devidamente apetrechado para o efeito, o que seria um pouco vergonhoso. Por outro lado  são técnicos que falam línguas difíceis de entender pela generalidade dos bombeiros portugueses, o que iria aumentar a confusão característica dos combates nacionais ao fogo, sob a superior  coordenação  do MAI. Finalmente, iria atrasar o PNEPN (Programa Nacional de Erradicação dos Parques Nacionais),  que pretende, a bem do crescimento do PIB, tornar produtivos, para celulose, agricultura, turismo ou imobiliário, estas tão vastas zonas entregues aos bichos.

®

Os italianos dizem que os carabinieri que estiveram sediados  no quartel onde presentemente estão os (nossos) GNR, no Iraque, foram afectados por  radiações decorrentes de urânio pobre, parece que usado pelos USA nos bombardeamentos da zona. Haverá uns 16 homens hospitalizados. O comando da GNR diz não. Os USA dizem que nunca usaram tal material. Após insistência negaram até que tivessem alguma vez bombardeado o Iraque,  povo amigo dos americanos. Pensavam ser uma ilha ao largo das Faroé.

®

A notícia estalou como uma bomba (de incêndios) ? a maioria da AR  apoiou o seu governo de coligação PP/PSD (sobre que existem sugestões para se passar a chamar PPS - Partido Portular Santanista). O  1º ministro, atacado quanto à sua legitimidade democrática,  interpelou a Oposição para se realizarem  já eleições, para provar a sua alegada supremacia no voto, o que, intrigantemente, provocou grande  hilaridade na Oposição.  Dizem que o PR, consultado informalmente sobre a hipótese, resmungou uma nega, sem explicações, que demorariam mais de hora e meia a ser lidas.

®

 
No recente desafio de oratórias parlamentares, a propósito do exercício de estilo chamado Programa do Governo, este perdeu, apenas tendo conseguido acertar 3 dos 21  discursos possíveis. Tal não tem, contudo, qualquer importância, dada a confortável maioria que o apoia.

ASP

A protecção portuguesa
28JUL
 
Assinala-se hoje o Dia Mundial da Protecção da Natureza.
Portugal comparece com dois Parques Naturais ainda fumegantes e milhares de ha de floresta em chamas.
Recusando o auxilio de alemães, noruegueses e ingleses no combate aéreo aos fogos, por falta de dinheiro que, contudo, há para submarinos, carros topo de gama e uma série de desperdícios. Num desrespeito por quem perdeu e irá perder casas, bens, por vezes as vidas.
Acha o Governo que ?não há-de ser nada?, que o calor não sobe, ao contrário da humidade, por pedido expresso  a S. Pedro ( e S. Paulo).  
Ou que os parques e zonas protegidas não valem a pena serem protegidos de incêndios, pois é bem sabido o pequeno contributo para as finanças nacionais que facultam.
Por isso estão entregues aos bichos.  Uma chatice. Uma inutilidade. Um custo sem dividendos. Mau negócio, pois.
Se ardidos, ainda se podem dinamizar acções interessantes no campo dos negócios, como campos de golfe,  urbanizações ou outros investimentos, nacionais ou estrangeiros.
Pensa o Governo , talvez, assim. Pelo menos age o Governo, objectivamente, assim. O investimento e o esforço de ordenamento e protecção são ínfimos face ao necessário.
Mas o que se perde em termos económicos e ecológicos, sem contar com vidas, vale muito mais do que o eventual aluguer de  muitos aviões.
Uma árvore demora dez governos a crescer, se crescer.
Seria melhor que, no futuro, o Dia Mundial da Protecção da Natureza calhasse no pino do Inverno.
A memória é curta e não teríamos, assim, de sofrer esta vergonha de apenas precavermos os fogos com palavras.
ASP

quarta-feira, julho 28, 2004

Relances 77
27JUL

a)      A Secretária de Estado das Artes e Espectáculos, que parece ser eficiente e polivalente, deveria ser adstrita ao Gabinete do 1º Ministro, para gerir a palhaçada em que este governo se está a tornar ( ver cenas cómicas da tomada de posse, por exemplo);

b)      O Ministro da Administração Interna, instado sobre uma alegada falta de meios no combate a incêndios,  respondeu com uma ?palissade?: ? Se os fogos foram extintos é sinal que não houve falta de meios?. Tal carência também não acontecia, por exemplo, na Roma de Nero, que esteve a arder durante vários dias, mas em que o fogo  acabou por se extinguir;

c)      Ainda sobre incêndios, o simpático ex-ministro Sevinate Pinto garante que fez tudo o que podia para prevenir os fogos florestais, concretamente 90 milhões de euros. Mas, para o efeito, o que se gastou apenas indica o empenho do ministro, não a sua eficácia, que, pelos vistos, foi pequena.  Fogo!

d)      Parte do Parque Natural da Arrábida foi queimado num dia. Havia zonas em que para não perturbar a Natureza, dizem que era interdito mexer, mesmo para acções preventivas contra incêndios. O fogo destruiu tudo. Naturalmente.

ASP

Olhar Ruminante 723
Q.e.d.

O pomposo líder do PP, argumentando para o seus correligionários em torno da adequação do Dr. Nobre Guedes para o cargo de ministro do Ambiente, descansou toda a portugalidade, afirmando que  o  CDS/PP  era particularmente ambientalista, porque ?era  pela vida e quem é pela vida é pela Natureza?.
O público presente aplaudiu, como aplaudiria se ele tivesse dito que CDS/PP era o partido do Bem e que quem é pelo Bem merece dominar o Oceano; ou que o CDS/PP gosta do azul e como tal deve ter 14 secretários de Estado neste governo. Já o lobo argumentava de forma semelhante para o cordeiro. E o abominável Torquemada. E alguns polícias de trânsito ao passarem multas.
A argumentação não tem qualquer valor, mas a corte dos avos (atentos, veneradores & obrigados)  acha pragmaticamente que  é melhor aceitá-la do que contrariá-la. Apesar de haver muita gente que se dispõe  a morrer para mostrar que tem razão, mas normalmente acabam mal. E a vida não está fácil para quem almeje um tacho ou um pequeno lugar ao sol.
Para isso os adeptos dos actuais lideres políticos são de uma subserviência servil, consubstanciada por uma idiotice ou uma aceitação acrítica das baboseiras com que, normalmente, eles os primam. Um pouco menos nos partidos da Oposição, um pouco mais nos da Situação.
Também me fazem lembrar o Muttley, aquele cão do Red Baron dos movies, que se vira contra o dono sempre que este fica na mó de baixo.
Veremos
ASP

terça-feira, julho 27, 2004

Olhar Ruminante 726
Ideia grátis para uso do Senhor Primeiro ministro

Assim como  o cumprimento do Plano Rodoviário nacional tem mais a ver, hoje em dia, com a manutenção da industria das obras  públicas do que com a consecução de uma política de transportes coerente, também é de procurar por vias imaginativas tão ao gosto do actual governo, solucionar as crises noutros sectores, especialmente se se demonstrarem polivalentes  e actualizadas para as questões existentes..
Por exemplo, poder-se-ia diminuir largamente o risco de incêndios florestais, se se criasse um sistema de sprinklers em toda a área silvícola, abastecido por bombas de pressão adequadas e servido por rede devidamente dimensionada de tubagens de pvc reforçado. Estes dispositivos disparariam, a titulo preventivo, quando o binómio temperatura-humidade chegasse a determinado ponto,  por hipótese denominado ?x? ou, a titulo correctivo quando a detecção de fumos ou o incremento súbito de temperatura o justificasse. A tecnologia está perfeitamente ao nível da nacional, mas pode justificar a criação de alguns postos de trabalho na formação, para alguns familiares do responsável pelo programa.
O abastecimento da água teria por fonte a  rede hidrográfica nacional, que todos consideram tão mal aproveitada. Em casos singulares poder-se-iam encarar partenariados público-privados para este objectivo, incentivando assim a corrupção local e regional, conhecido incentivo à prossecução de ideias descentralizadas.
A rede de tubagens e os dispositivos a ela associada,  instalados de forma progressiva nas várias dezenas de milhar de ha do espaço florestal, permitirão não só a resolução da crise de emprego no sector da pichelaria e ofícios correlativos que grassa no nosso País, como será um poderoso incremente à produção de tubagens,  tês, ligações, válvulas e outros dispositivos hidráulicos, para que existe tecnologia nacional suficiente, mas sem correspondente escoamento, porque a AEPBEC (Associação de empreiteiros, patos bravos  e correlativos) prefere  a produção espanhola, que lhe permite maior margem de lucro e comissão.
As escavações para a colocação das tubagens poderão também constituir a primeira campanha sistemática de prospecção arqueológica em espaço florestal nacional, sendo previsível que se encontrem vestígios de civilizações e culturas pré-históricas, proto-históricas e extra-terrestres que potenciem os respectivos locais em termos turísticos, sector que, a prazo, constituirá o ganha-pão da maioria dos portugueses. A mobilização de mão-de-obra  com formação histórico-arqueológica para a fiscalização da abertura e tapamento das valas pode ser uma via da sua utilização com intuitos da sua valorização profissional e utilidade nacional.
Em termos políticos será entendido como uma medida de aproximação campo-cidade, ao abrigo da pergunta ?se os centros comerciais têm sistema de prevenção e combate de incêndios, porkék o espaço rural não o poderá ter? ? ou por outra razão que os lideres políticos não terão dificuldade em  encontrar.
Por fim, mas não com menos importância, permitirá ao 1º ministro sugerir uma medida verdadeiramente original, que entreterá a Oposição durante duas ou três semanas a criticar, sem o chatear em matéria para si mais importante, que passará desapercebida.

ASP


Cá estou eu, finalmente, sem ser apenas em espírito

ASP

segunda-feira, julho 26, 2004

Olhar Ruminante 723
Q.e.d.

O pomposo líder do PP, argumentando para o seus correligionários em torno da adequação do Dr. Nobre Guedes para o cargo de ministro do Ambiente, descansou toda a portugalidade, afirmando que  o  CDS/PP  era particularmente ambientalista, porque ?era  pela vida e quem é pela vida é pela Natureza?.
O público presente aplaudiu, como aplaudiria se ele tivesse dito que CDS/PP era o partido do Bem e que quem é pelo Bem merece dominar o Oceano; ou que o CDS/PP gosta do azul e como tal deve ter 14 secretários de Estado neste governo. Já o lobo argumentava de forma semelhante para o cordeiro. E o abominável Torquemada. E alguns polícias de trânsito ao passarem multas.
A argumentação não tem qualquer valor, mas a corte dos avos (atentos, veneradores & obrigados)  acha pragmaticamente que  é melhor aceitá-la do que contrariá-la. Apesar de haver muita gente que se dispõe  a morrer para mostrar que tem razão, mas normalmente acabam mal. E a vida não está fácil para quem almeje um tacho ou um pequeno lugar ao sol.
Para isso os adeptos dos actuais lideres políticos são de uma subserviência servil, consubstanciada por uma idiotice ou uma aceitação acrítica das baboseiras com que, normalmente, eles os primam. Um pouco menos nos partidos da Oposição, um pouco mais nos da Situação.
Também me fazem lembrar o Muttley, aquele cão do Red Baron dos movies, que se vira contra o dono sempre que este fica na mó de baixo.
VeremosASP

Olhar Ruminante 726
Ideia grátis para uso do Senhor Primeiro ministro

Assim como  o cumprimento do Plano Rodoviário nacional tem mais a ver, hoje em dia, com a manutenção da industria das obras  públicas do que com a consecução de uma política de transportes coerente, também é de procurar por vias imaginativas tão ao gosto do actual governo, solucionar as crises noutros sectores, especialmente se se demonstrarem polivalentes  e actualizadas para as questões existentes..
Por exemplo, poder-se-ia diminuir largamente o risco de incêndios florestais, se se criasse um sistema de sprinklers em toda a área silvícola, abastecido por bombas de pressão adequadas e servido por rede devidamente dimensionada de tubagens de pvc reforçado. Estes dispositivos disparariam, a titulo preventivo, quando o binómio temperatura-humidade chegasse a determinado ponto,  por hipótese denominado ?x? ou, a titulo correctivo quando a detecção de fumos ou o incremento súbito de temperatura o justificasse. A tecnologia está perfeitamente ao nível da nacional, mas pode justificar a criação de alguns postos de trabalho na formação, para alguns familiares do responsável pelo programa.
O abastecimento da água teria por fonte a  rede hidrográfica nacional, que todos consideram tão mal aproveitada. Em casos singulares poder-se-iam encarar partenariados público-privados para este objectivo, incentivando assim a corrupção local e regional, conhecido incentivo à prossecução de ideias descentralizadas.
A rede de tubagens e os dispositivos a ela associada,  instalados de forma progressiva nas várias dezenas de milhar de ha do espaço florestal, permitirão não só a resolução da crise de emprego no sector da pichelaria e ofícios correlativos que grassa no nosso País, como será um poderoso incremente à produção de tubagens,  tês, ligações, válvulas e outros dispositivos hidráulicos, para que existe tecnologia nacional suficiente, mas sem correspondente escoamento, porque a AEPBEC (Associação de empreiteiros, patos bravos  e correlativos) prefere  a produção espanhola, que lhe permite maior margem de lucro e comissão.
As escavações para a colocação das tubagens poderão também constituir a primeira campanha sistemática de prospecção arqueológica em espaço florestal nacional, sendo previsível que se encontrem vestígios de civilizações e culturas pré-históricas, proto-históricas e extra-terrestres que potenciem os respectivos locais em termos turísticos, sector que, a prazo, constituirá o ganha-pão da maioria dos portugueses. A mobilização de mão-de-obra  com formação histórico-arqueológica para a fiscalização da abertura e tapamento das valas pode ser uma via da sua utilização com intuitos da sua valorização profissional e utilidade nacional.
Em termos políticos será entendido como uma medida de aproximação campo-cidade, ao abrigo da pergunta ?se os centros comerciais têm sistema de prevenção e combate de incêndios, porkék o espaço rural não o poderá ter? ? ou por outra razão que os lideres políticos não terão dificuldade em  encontrar.
Por fim, mas não com menos importância, permitirá ao 1º ministro sugerir uma medida verdadeiramente original, que entreterá a Oposição durante duas ou três semanas a criticar, sem o chatear em matéria para si mais importante, que passará desapercebida.

ASP


Relances 76
Provavelmente inspirado pelas ?e as crianças, Senhor? da Balada da Neve, PSL criou um ministério que especificadamente tutela ? a criança?. O pelouro, que pressupõe elevados conhecimentos e uma especial dedicação pedofílica  (para distinção da conotação negativa vulgarmente dada a pedófilo) coube, no sorteio dos cargos, a um conceituado especialista em polícia judiciária.  Podia ter calhado menos a propósito, pescas, turismo, ou coisas assim.
Mas esta dedicação súbita pelas crianças encobre uma enorme injustiça: se há, em Portugal, grupo etário desprotegido e quotidianamente abusado, não é o das crianças, mas o dos velhos, abandonados, arrumados em compartimentos sem condições, esquecidos, sós, com pensões de miséria ou  sem o mínimo de recursos para acabarem a sua vida de forma minimamente digna.
São facilmente manipuláveis no seu voto, porque, isolados do mundo, acreditam no poder e nas coisas que ele lhes promete, por muito baboseiras que sejam, de facto.
E muito mais incómodos para toda a gente, pelo que o poder os prefere esquecer.

ASP

Olhar (tristemente) ruminante 723
É fartar, vilanagem

A forma como foi constituído o XVI Governo foi um insulto para os portugueses.
A nomeação de pessoas para lugares do executivo do Estado sem cuidar da adequação dos seus perfis, conhecimentos ou competências, indicia que quem o faz  tem do governo uma noção de inutilidade pública.
Em contrapartida pressupõe particular crença na sua utilidade privada, para si próprio ou para o lobby que o apoia.
Não exigirá, assim, do governo, qualquer reforma ou o lançamento de novas  e adequadas estratégias e políticas, apenas esperando na ocupação dos cargos de mando, que mandem, em seu nome, quais padrões pessoais erectos na Administração Pública.
Uma semeadura  de tachos entre uns tantos amigos de confiança, a troco da sua submissão futura e/ou como prémio pelo seu apoio passado.
Não importa o que pensem sobre  Portugal e os seus problemas, nem sequer se pensam alguma coisa. Segundo o actual 1º ministro não estão lá para isso.
Se não, teria escolhido gente que tivesse projectos e propostas para os sítios para onde vai. Não se lhes conhece coisa alguma. Um deserto de ideias. Um completo vazio de projectos reformadores. Nada.
Que pensa o ministro do Ambiente sobre as medidas de cumprimento do protocolo de Kioto? De quê? E o das Obras Públicas (entenda-se transportes)  da solução para as SCUTs ou do novo aeroporto? E os do Ordenamento, da Agricultura, da Administração Interna , da prevenção e combate aos fogos? E o do Mar, do que se há-de fazer das pescas, ou é que as pescas não são do mar? Ou só serão submarinos ? E por aí fora, caspité ( para usar termo queiroziano).
O governo faz-se governando e todo o rumo, toda a expressão de objectivos, só pode ser nefasta e comprometedora. No governo do barco é preciso é golpe de anca, pragmatismo, muita verve e manter o barco a andar, vá para onde for. E não enjoar.
Nem precisa de rumo ou carta de marear, programa  que o PR obrigou a ser herdado e não novo. Apesar de nunca ter sido cumprido, como o deste governo se calcula que não será. Está num CD, no portal do Governo, acessível a quem se interesse por teoria política
A escolha do governo foi como o teria feito el-Rei D. João II ao subir ao trono, entre a corte dos seus apoiantes.
Seguir-se-á a substituição dos escudeiros, palafreneiros, cozinheiros e restante pessoal das cortes destes novos barões, seguramente por critérios que pouco terão a ver com mérito ou competência para os lugares, mas sim, à semelhança do Rei, por prémio de fidelidade, quando não cumplicidades nas andanças da vida.
É a República gerida como uma corte. É  a carraca tomada pelos piratas. É fartar, vilanagem.
Que triste.

ASP

quarta-feira, julho 21, 2004

Olhar Ruminante 721
O cozido à portuguesa
 
O português pensa como quem faz um cozido à portuguesa:  mistura as vitualhas, por aditamento, se bem que as couves tenham pouco que ver com o arroz, este com o chispe ou com a feijoca. E gosta de comer o conjunto, a debicar analiticamente os diversos sabores, fundidos na panela. Na política e nas ideias a mistura é feita quanto aos objectivos, aos dados, às consequências e às razões.
Por exemplo, se estiver a dissertar ou a discutir sobre a questão do ensino, fatalmente irá buscar a problemática da saúde, da democraticidade no país, dos lobbies ou do último escândalo que chegou a público. As discussões, assim, nunca são conclusivas  e permitem eternizar a troca de argumentos, por vezes sobre matéria já tão afastada do início do debate que já ninguém se lembra do que se estava a falar.
A sistematização do pensamento, a hierarquização das questões,  a capacidade de síntese e concisão, a elaboração de um processo de raciocínio lógico, cartesiano, estão tão longe dos costumes nacionais como o comer ganso ou beber leite de zebú.
Vem isto à colação (bem como o cozido) devido às diversas eleições que periodicamente perpassam a tradicional quietude mental lusitana. E verifica-se da história próxima que, quando se estavam a fazer, por hipótese, eleições  para as autarquias, se estavam nalguns casos a preparar cargos para o Governo ou mesmo a ascensão a Presidente da República; que quando se realizavam eleições para 1º ministro (ao fim e ao cabo o significado das parlamentares), se estava, subliminarmente, a eleger o presidente da Comissão Europeia e que quando se faziam eleições para o Parlamento Europeu, se estava a referendar as antigas eleições para o Governo da Nação. Criou-se, como no cozido, uma originalidade democrática, que é a dos semi-eleitos.
Os cargos acabam por ser meros degraus nas carreiras dos respectivos detentores  e não têm inerentes quaisquer responsabilidades quanto à gestão, à reforma ou ao progresso  da sociedade. Veja-se a composição do actual governo, em que os ministros foram colocados nos diversos ministérios sem qualquer cuidado quanto a conhecerem os sectores ou a terem qualquer ideia ou estratégia para governarem nesse sector. Como nas cortes absolutistas (bastava ser nobre e do circulo intimo do rei) ou no mandarinato do Império do Meio.
Também agora nas eleições para Secretário Geral do PS se pratica esta técnica do sincretismo de objectivos. E Sócrates, por exemplo, afirma que  é candidato a 1º ministro, quando nem os eleitores, agora, são os adequados a tal intuito, nem é disso que se trata, mas sim e apenas, de ?restaurar? e gerir adequadamente o PS, que parece estar nas ruas da amargura.  Porque um  bom secretário geral pode não ser, simultaneamente, um bom futuro primeiro ministro e não é de perverter o objectivo imediato com objectivos de longo prazo.
 
ASP

Olhar Ruminante 720
A populítica
 
O século XXI trouxe uma nova forma de ser político e uma nova praxis política, a populítica.
A populítica, ou poplítica nalgumas regiões, tem por intuito não a criação de condições para instalação de uma sociedade melhor, de acordo com um ideário partidário, mas a simples assumpção do poder, para uso predominantemente pessoal dos seus detentores.
Toda a compleição romântica da Política é assim esquecida e retorna-se, com nova roupagem, à política personalizada das monarquias e das ditaduras.
O Estado deixa de ser um objectivo para a prossecução de reformas, para ser um instrumento. Os quadros políticos partidários deixam de ter uma deontologia de independência , para se tornarem cortesãos e os militantes partidários tornam-se em peões de brega, grupos desqualificados em termos de cidadania, cuja principal função é contarem para as espingardas eleitorais, nos rituais periódicos de macaqueação da participação democrática em que se tornaram os congressos eleitorais partidários.
Por trás de tudo isso está o dinheiro, a ganância do dinheiro e a ?vaidade a que chamamos fama?, dos próceres desta populítica. O Povo deixou de ser o objectivo para se tornar o objecto, consumidor e fornecedor dos meios financeiros necessários aos poplíticos exercerem a sua actividade.
A praxis é a do espectáculo; o discurso é o da lisonja, da promessa vã, da ligeireza elegante no tratamento dos assuntos, do descaramento e mesmo da fantasia, para agradar ao Povo pagador. À falta de uma preparação em termos de formação e cultura, dá-se-lhes distracção, divertimento. E umas ideias frustres, simples, para as minorias eruditas roerem nas suas críticas, que também servem para espectáculo e para dar a ideia da liberdade de pensamento e da pluralidade de opiniões.
Que os poplíticos fazem questão que haja. Mas que seja completamente inconsequente no que respeita à sua aplicação em concreto, ou seja, que em nada altere ou perturbe os seus desígnios e decisões de poder.
Para mim, cidadão do século XX, é uma incompreensão e uma tristeza.
 
ASP

Olhar Ruminante 719
D. Juan Tenório, 1º ministro
 
Se bem que me apeteça, não vou falar mais do Governo até conhecer os secretários de Estado  e o programa da governação, se bem que não seja esperável deste, à semelhança do do governo anterior, mais do que uma lista de promessas e ideias espectaculares, cenouras para os eleitores, mas, como no caso do burro, nunca acessíveis.
O 1º ministro, que tem uma capacidade de gerar promessas  superior à velocidade do bom-senso, vem, em cada entrevista, a avançar com mais uma ou duas santolices (neologismo que não precisa de explicação), que, depois, dão um trabalhão aos seus apoiantes televisionáveis de descartar.
Dá para distrair o lado Dr. Jeckill do Zé (Povo), a debater os prós e contras da ideia, enquanto que o Mr. Hyde continua a apenas se preocupar com a intriga do futebol e os prazeres da TV.
Como excelente populista que é, Santana, propõe projectos que, à 1ª vista, recolhem simpatia e o prestigiam como homem moderno e de visão.
Os ministérios no campo? Porque não, questiona-se o Zé. Claro que não equaciona as dificuldades (e os custos) de transferir milhares de pessoas e suas famílias para 100 ou 200 km de Lisboa e o non-sense de obrigar os cidadãos que demandam esses ministérios, apesar de tudo maioritariamente sediados em Lisboa, a irem tratar dos seus assuntos a Bragança ou Faro.
A descentralização desejável não é isso. É a aplicação sistemática do princípio da subsidiaridade, ou seja, de os assuntos serem decididos ao mais baixo nível possível da hierarquia do Estado, sendo  dados  alargados poderes de decisão aos órgãos regionais e locais dos diversos ministérios para poderem actuar de acordo com esse princípio.
Também na redução do IRS  Santana fez bluff.
Prometeu o que calculava ser musica celestial para o Zé, sabendo  que tal seria impossível, no actual contexto de obrigatórias restrições financeiras. Enganou propositadamente, porque não é crível que desconheça tal contexto, fundamental na sua política, como o foi na dos governos anteriores e, provavelmente, nos seguintes. E Transferiu o odioso da abolição da medida para o Governador do Banco de Portugal, que apenas lembrou a impossibilidade técnica da promessa.
O Zé, como as pessoas sem procura, gosta de ser enganado, de lhe criarem perspectivas, mesmo que falsas, de uma condição melhor, da Felicidade.
É a técnica de todos os sedutores.
Que Santana, segundo a lenda, domina na perfeição.
 
ASP

segunda-feira, julho 19, 2004

Barco da carreira dos Tolos
 
?Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem  disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira?
(de folhetim do século XVIII)
 
N.B. Devido a manter-mos para com o Sr. PR muita consideração, não foi editado o ?Barco? da quinzena passada
 
Lugar na proa desta semana: o Presidente do PSD
 
Por ter permitido, no actual governo, uma representatividade do PP desproporcionada à representatividade democrática que realmente detém;
Por indiciar que para si o Governo serve principalmente para uso interno, como uso e gestão do Poder e não para  reformar, num sentido de progresso, o País;
Por ter transmitido à Nação a ideia de que o PPD/PSD está quase vazio de técnicos e de potenciais estadistas  e é apenas um aglomerado de políticos de carreira, ?paus para toda a colher?;
Por ter dado cabo, com a descarada aproximação ao PP e ao populismo, dos restos da facção social-democrata ainda existente no Partido que tem (ainda) esse nome;
Por as maiores críticas quanto à constituição do governo terem vindo das personalidades mais conceituadas do seu próprio partido;
Por ter transmitido a ideia que o governo não é para servir Portugal, mas sim o contrário, ou melhor, servir os interesses políticos de si próprio.
 
ASP

Relances 75
Camões
 
Com tudo isto  e pensando nas razões que teriam levado algumas das pessoas sérias que aceitaram ministérios de que não sabem absolutamente nada, veio-me à memória o velho do Restelo:
 
? Oh glória de mandar, oh vã cobiça dessa vaidade a que chamamos fama?.
 
ASP

Olhar Ruminante 718
18JUL
Estadistas? E vê-los?
 
Desde a distribuição de terras e títulos por D. João I após Aljubarrota, que se não via tanto descaro na utilização do Estado para fins particulares, como na distribuição das pastas do XVI governo.
Uma aprofundada análise político-sociológica efectuada por peritos do Rudegolpe, enlencou os  critérios que nortearam a  sua  formação.  Foram  por ordem decrescente de importância:
a)      Ser amigo/apoiante de Santana Lopes
b)      Ser amigo/apoiante de Paulo Portas
c)      Ser do PPD/PSD, mas não do grupo que não obedecesse a a)
d)      Ser do PP, mas não do grupo que não obedecesse a b)
e)      Ter um nome conhecido ou ser representante de grande grupo económico, financeiro ou  lobby influente (por exemplo Opus Dei, ou Opus Gay).
Reunido uma cinquentena de pessoas, em geral da nossa melhor sociedade, foi feito um sorteio das pastas, tendo a sorte colocado nalguns casos pessoas com um mínimo de conhecimento do sector em ministérios que tutelavam os respectivos  assuntos.
Espera-se que o critério de nomeação dos secretários de Estado, gabinetes e por ai fora, seja semelhante.
É aventuroso, giro. Uma santalopice engraçada.
E não venha agora o Senhor PR sacudir a água do capote.....
 
ASP

Olhar Ruminante 717
Portugal, S.A.
 
No meio de grandes protestos dos representantes dos trabalhadores, o presidente da mesa da Assembleia Geral desta importante empresa de capital público, nomeou novo Conselho de Administração, na sequência do anterior presidente ter transitado em óptimas condições pessoais para  uma multinacional europeia.
A questão surgiu devido ao Presidente da AG  ter considerado não ser necessário recorrer à convocatória da referida assembleia, onde previsivelmente os representantes dos trabalhadores estariam em maioria, dado o presidente do CA cessante ter indigitado um seu substituto, apoiado pelos representantes do capital.
O novo CA é constituído pelos representantes dos principais grupos financeiros da Companhia e por personalidades conhecidas pela sua familiaridade com o novo Presidente do CA.
Os pelouros foram tirados à sorte.
 
ASP 
  
 

domingo, julho 18, 2004

Olhar Ruminante 715
A bola desafinada
 
Recebi de vários assinantes protestos relativamente à minha devolução da bola de cristal referida no último OR714.
Diziam que os vaticínios, salvo os do Benfica, lhe pareciam perfeitamente fiáveis e que, como tal, queriam saber como, onde e por quanto, poderiam adquirir tão poderoso instrumento de previsão política no País. O processo continua a ser negociado na altura do fecho desta edição.
Um(a) outro(a), cujo nome obviamente não revelo,  mas que vai ocupar um alto posto no actual futuro governo, respondeu com os vaticínios dum espelho que tem guardado no maior segredo e que muito lhe tem valido na Situação, vaticínios que ainda superam, pelo absurdo, os da minha pobre bola de cristal.
Instado(a), lá confessou que se tratava de um descendente em via directa do cruzamento do espelho da Alice com o da rainha madrasta da Branca de Neve, espero que conheçam. A minha bola, da Marinha Grande, surge neste contexto de uma  insignificante plebeice (neologismo significando estatuto de plebeu), que nem o parentesco formal com as Bolas (de Berlim), consegue resolver.
É certo que os espelhos não têm referenciador de datas, o que é um enorme handicap no seu uso. Mas por outro lado a imagem plana é muito mais nítida e permitem, assim, uma focagem dos acontecimentos impossível de obter por outros meios.
Não estranhem todo este clima de imaginação e fantasia, para o que é preciso crença, fé, mas não maior do que a que o Senhor PR deposita no cumprimento do programa de Durão por Santana Lopes.
Na última consulta ao espelho, ele revelou a fusão dos actuais CDS/PP e PPD/PSD, com exclusão das suas franjas, respectivamente à direita e esquerda e a constituição de um novo partido fundido, de nome PPS /Partido Popular Social, já que a junção dos actuais nomes se tornava demasiado dispendioso de imprimir nos logótipos.
Essas franjas, que já hoje em dia começam, desapontadas, a cair dos lugares interessantes nos respectivos partidos, depois de passarem por um período de queixas e rancores, encostar-se-ão, respectivamente, a um PRP (Partido Renovador de Portugal,  ou Partido Radical Português), especializado em cabeças rapadas e empresários durienses e ao núcleo duro do ainda Pê-Esse, constituído pela actual e antiga nomenclatura e os respectivos aparelhos, forças-vivas regionais nas respectivas economias.
Os velhos socialistas, isto é, a maioria daqueles que não vieram de outros partidos, farão, então, muitos jantares,  onde se chegará a propor uma refundação do Partido ou a criação de um verdadeiro Partido Socialista, se bem que ninguém seja capaz de definir com precisão o que isso, hoje em dia, quer dizer.
Quando questionei esse(a) assinante quanto à verosimilhança desse cenário, riu-se e apenas me referiu que esse era a modalidade optimista apresentada pelo espelho, que também tinha uma pessimista e outra tecnocrática, sendo esta decorrente de um modelo matemático de previsão, que só a magia intrínseca ao dito espelho conseguia calibrar. Mas que esse cenário ele guardava-o para si próprio, que a vida está difícil e a época é de competitividade feroz.
 
ASP

Olhar Ruminante 714
A bola de cristal
 
Comprei-a num alfarrabista especializado em esoterismo e long-range planning. Era uma bola de cristal dedicada à política portuguesa, que me apressei a utilizar, usando a palavra mágica que vinha nas instruções.
Foquei para o cmp (curto-médio-prazo).
Dentro de ano e meio, o 1º  ministro demitia-se , para concorrer à eleições presidenciais;o PR pedia à confusão que então se auto-nomeava maioria, para indicar novo 1º ministro, sendo indigitado Bagão Félix, o que originava uma dissidência na dita  maioria, que constituia um pequeno grupo social-democrata, funcionando em termos negociados caso-a-caso com a alegada maioria o seu apoio; os lideres do PP e do PSD acordavam paralelamente um processo de fusão dos dois partidos, em torno de um ?grande partido de direita?; no PS, que mantinha negociações secretas com os Renovadores ex-PCP e os sociais-democratas traídos e abandonados, Sócrates era diariamente zurzido pelas tendências minoritárias no Partido, que o acusavam de apadrinhar os lados mais sombrios da praxis partidária; Freitas do Amaral surgia como candidato da esquerda às presidenciais; Alberto João Jardim apresentava-se como alternativa da Direita a Santana para PR; António Guterres confidenciava a falso jornalista do Vaticano  o que sabia do pântano, originando uma sucessão de demissões no PS e no PSD. O Presidente da Câmara de Lisboa era  Carrilho, depois de elevada (em nível)  discussão interna na Concelhia de Lisboa, com Helena Roseta quanto ao conteúdo programático da candidatura; a  ala esquerda do PS conspirava em jantares com alguns bloquistas de maior idade; uma manifestação não autorizada de pensionistas e gerontes revoltados era brutalmente reprimida  um caso mortal por enfarte; exigiam que as reformas em atraso lhe fossem pagas e protestavam contra o imposto de sobrevivência, proposto pelo Governo para cidadãos de mais de 70 anos; após longo debate no Parlamento e com votos contra de toda a Oposição, era legalizado um grupo para-fascista chamado Força Portugal, integrando alguns elementos da Juventude Centrista; as Forças Armadas portuguesas passavam a ser as mais bem equipadas da Europa, após um programa intenso de re-equipamento e aquisições conduzido com grande empenho por Paulo Portas; a extrema-esquerda falava em comissões vultuosas;  a taxa de desemprego rondava os 15%, havendo todas as semanas manifestações populares; cortavam estradas e queimavam pneus; o Benfica ganhava o campeonato.
Peguei na bola de cristal e fui trocá-la porque não estava, seguramente, afinada.
 
ASP 
 

quinta-feira, julho 15, 2004

Relance 72
Tira ?teimas
14JUL

Os media informaram que o Dr. Arnault seria o futuro ministro das Obras Públicas.
O Dr. Arnault desmentiu tal notícia.
O Dr. Santana Lopes avisou que quem confirmasse qualquer indigitação seria automaticamente excluído da mesma.
Quero ver amanhã quem é o MOPT.

ASP

Relances 71
14JUL04

1. No Público, JMFernandes, sobre a recusa de Vitorino: ?Em muitos aspectos, o PS que viu lembrou-lhe o PSD que a crise revelou, também minado pelos lobbies e pelos jogos de poder, cada vez mais desideologizado ? só assim se entende que se prepare para trocar Ferro por Sócrates sem reparar que todo um mundo os separa ....O país que assim encurrala os seus melhores não os merece, nem pode depois queixar-se. Mas os partidos que temos, filhos do Estado clientelar que alimentamos, são também culpa nossa. E um mal que não se extirpa sem roturas e sem dor?
2. Diz gente respeitável no PS que, antes de se pronunciarem sobre o seu apoio a este ou aquele candidato, querem conhecer os seus programas e ideias. Razoável intenção. Se tal significasse outra coisa que a intuição ou capacidade de previsão daquilo que a maioria dos militantes do PS (quem vota neste caso) gostaria de ouvir. Infelizmente em Portugal a política cada vez menos se baseia em programas ou em ideias e cada vez mais em jogos de poder e de interesses, que se desenvolvem por instinto no dia-a-dia.
3. A nomeação de Arnault para Ministro das Obras Públicas é revelador do que nos espera no XVI Governo Constitucional, em termos de critérios de escolha ? jogos de poder internos. O conhecimento dos sectores dos respectivos governantes não é significativo. O País está depois. Mas há mais. Muito preocupante.
4. No Apito Dourado, o responsável da investigação que conclui pelo envolvimento de Valentim Loureiro ,demitiu-se porque a Judiciária divulgou que uns familiares estavam sob investigação num processo-crime; os investigadores foram afastados um para Cabo-verde e outro para a África do Sul; e agira a juíza foi substituída por um magistrado que é filho de um assessor do major. Eu acredito na Justiça portuguesa.

ASP

quarta-feira, julho 14, 2004

Relances 71
14JUL04

1. No Público, JMFernandes, sobre a recusa de Vitorino: ?Em muitos aspectos, o PS que viu lembrou-lhe o PSD que a crise revelou, também minado pelos lobbies e pelos jogos de poder, cada vez mais desideologizado ? só assim se entende que se prepare para trocar Ferro por Sócrates sem reparar que todo um mundo os separa ....O país que assim encurrala os seus melhores não os merece, nem pode depois queixar-se. Mas os partidos que temos, filhos do Estado clientelar que alimentamos, são também culpa nossa. E um mal que não se extirpa sem roturas e sem dor?
2. Diz gente respeitável no PS que, antes de se pronunciarem sobre o seu apoio a este ou aquele candidato, querem conhecer os seus programas e ideias. Razoável intenção. Se tal significasse outra coisa que a intuição ou capacidade de previsão daquilo que a maioria dos militantes do PS (quem vota neste caso) gostaria de ouvir. Infelizmente em Portugal a política cada vez menos se baseia em programas ou em ideias e cada vez mais em jogos de poder e de interesses, que se desenvolvem por instinto no dia-a-dia.
3. A nomeação de Arnault para Ministro das Obras Públicas é revelador do que nos espera no XVI Governo Constitucional, em termos de critérios de escolha ? jogos de poder internos. O conhecimento dos sectores dos respectivos governantes não é significativo. O País está depois. Mas há mais. Muito preocupante.
4. No Apito Dourado, o responsável da investigação que conclui pelo envolvimento de Valentim Loureiro ,demitiu-se porque a Judiciária divulgou que uns familiares estavam sob investigação num processo-crime; os investigadores foram afastados um para Cabo-verde e outro para a África do Sul; e agira a juíza foi substituída por um magistrado que é filho de um assessor do major. Eu acredito na Justiça portuguesa.

ASP

Relances 71
14JUL04

1. No Público, JMFernandes, sobre a recusa de Vitorino: ?Em muitos aspectos, o PS que viu lembrou-lhe o PSD que a crise revelou, também minado pelos lobbies e pelos jogos de poder, cada vez mais desideologizado ? só assim se entende que se prepare para trocar Ferro por Sócrates sem reparar que todo um mundo os separa ....O país que assim encurrala os seus melhores não os merece, nem pode depois queixar-se. Mas os partidos que temos, filhos do Estado clientelar que alimentamos, são também culpa nossa. E um mal que não se extirpa sem roturas e sem dor?
2. Diz gente respeitável no PS que, antes de se pronunciarem sobre o seu apoio a este ou aquele candidato, querem conhecer os seus programas e ideias. Razoável intenção. Se tal significasse outra coisa que a intuição ou capacidade de previsão daquilo que a maioria dos militantes do PS (quem vota neste caso) gostaria de ouvir. Infelizmente em Portugal a política cada vez menos se baseia em programas ou em ideias e cada vez mais em jogos de poder e de interesses, que se desenvolvem por instinto no dia-a-dia.
3. A nomeação de Arnault para Ministro das Obras Públicas é revelador do que nos espera no XVI Governo Constitucional, em termos de critérios de escolha ? jogos de poder internos. O conhecimento dos sectores dos respectivos governantes não é significativo. O País está depois. Mas há mais. Muito preocupante.
4. No Apito Dourado, o responsável da investigação que conclui pelo envolvimento de Valentim Loureiro ,demitiu-se porque a Judiciária divulgou que uns familiares estavam sob investigação num processo-crime; os investigadores foram afastados um para Cabo-verde e outro para a África do Sul; e agira a juíza foi substituída por um magistrado que é filho de um assessor do major. Eu acredito na Justiça portuguesa.

ASP

Relances 71
14JUL04

1. No Público, JMFernandes, sobre a recusa de Vitorino: ?Em muitos aspectos, o PS que viu lembrou-lhe o PSD que a crise revelou, também minado pelos lobbies e pelos jogos de poder, cada vez mais desideologizado ? só assim se entende que se prepare para trocar Ferro por Sócrates sem reparar que todo um mundo os separa ....O país que assim encurrala os seus melhores não os merece, nem pode depois queixar-se. Mas os partidos que temos, filhos do Estado clientelar que alimentamos, são também culpa nossa. E um mal que não se extirpa sem roturas e sem dor?
2. Diz gente respeitável no PS que, antes de se pronunciarem sobre o seu apoio a este ou aquele candidato, querem conhecer os seus programas e ideias. Razoável intenção. Se tal significasse outra coisa que a intuição ou capacidade de previsão daquilo que a maioria dos militantes do PS (quem vota neste caso) gostaria de ouvir. Infelizmente em Portugal a política cada vez menos se baseia em programas ou em ideias e cada vez mais em jogos de poder e de interesses, que se desenvolvem por instinto no dia-a-dia.
3. A nomeação de Arnault para Ministro das Obras Públicas é revelador do que nos espera no XVI Governo Constitucional, em termos de critérios de escolha ? jogos de poder internos. O conhecimento dos sectores dos respectivos governantes não é significativo. O País está depois. Mas há mais. Muito preocupante.
4. No Apito Dourado, o responsável da investigação que conclui pelo envolvimento de Valentim Loureiro ,demitiu-se porque a Judiciária divulgou que uns familiares estavam sob investigação num processo-crime; os investigadores foram afastados um para Cabo-verde e outro para a África do Sul; e agira a juíza foi substituída por um magistrado que é filho de um assessor do major. Eu acredito na Justiça portuguesa.

ASP

Relances 71
14JUL04

1. No Público, JMFernandes, sobre a recusa de Vitorino: ?Em muitos aspectos, o PS que viu lembrou-lhe o PSD que a crise revelou, também minado pelos lobbies e pelos jogos de poder, cada vez mais desideologizado ? só assim se entende que se prepare para trocar Ferro por Sócrates sem reparar que todo um mundo os separa ....O país que assim encurrala os seus melhores não os merece, nem pode depois queixar-se. Mas os partidos que temos, filhos do Estado clientelar que alimentamos, são também culpa nossa. E um mal que não se extirpa sem roturas e sem dor?
2. Diz gente respeitável no PS que, antes de se pronunciarem sobre o seu apoio a este ou aquele candidato, querem conhecer os seus programas e ideias. Razoável intenção. Se tal significasse outra coisa que a intuição ou capacidade de previsão daquilo que a maioria dos militantes do PS (quem vota neste caso) gostaria de ouvir. Infelizmente em Portugal a política cada vez menos se baseia em programas ou em ideias e cada vez mais em jogos de poder e de interesses, que se desenvolvem por instinto no dia-a-dia.
3. A nomeação de Arnault para Ministro das Obras Públicas é revelador do que nos espera no XVI Governo Constitucional, em termos de critérios de escolha ? jogos de poder internos. O conhecimento dos sectores dos respectivos governantes não é significativo. O País está depois. Mas há mais. Muito preocupante.
4. No Apito Dourado, o responsável da investigação que conclui pelo envolvimento de Valentim Loureiro ,demitiu-se porque a Judiciária divulgou que uns familiares estavam sob investigação num processo-crime; os investigadores foram afastados um para Cabo-verde e outro para a África do Sul; e agira a juíza foi substituída por um magistrado que é filho de um assessor do major. Eu acredito na Justiça portuguesa.

ASP

Nova vaga

O barco da carreira dos tolos que vai aportar esta quinzena a Lisboa não vai partir lesto, com a carga que o espera já no cais. Não há bojo que baste para tanto exemplar de tonto claudicante insistente e embarcado. No lugar de proa vai o senhor presidente e como gosta de decidir sozinho, segue habituado ao espaço só para ele e por isso na proa vai como camafeu no alto do seu trono feio. Quem sabe o que congemina o senhor, até pode estar a matutar na dissolução em 2005 para sair de bem, seis meses antes, reconciliado com a esquerda já que com a direita está feito e de mão dada. Talvez decida no alto mar.
Logo atrás do senhorial lugar segue a tropa dos jornais. Também marcharam. Todos. Estão representados diários, matutinos e vespertinos, hebdomadários e trimestrais, todos no barco para fora. Levam bilhete só de ida. Estavam em terra apatetados, acríticos, eles, os Srs. jornalistas sempre a fazerem perguntas supérfluas, de tontos, e assim, barco com eles, embarque imediato.
Agarrado ao cordame da ré, vai o cara de carneiro, o mister Ed, o cavalo que ri, o senhor passa televisão, o homem de quem se fala, o discreto, probo e sustentado premier da nova vaga. Não se sabe se leva bilhete só de ida. A experiência diz-nos que o cavalo que ri, salta, normalmente a meio do mando e depois pisga-se, aparece mais à frente. LACP
Olhar Ruminante 713
Dúvida

O que é que este Portugal terá que faz com que Guterres (o Pântano), Gama, Barroso e agora Vitorino não queiram assumir funções dirigentes nos partidos nacionais?
Porque será que quem tem bons conhecimentos da forma como se faz política e se vive lá fora, foge como diabo da cruz da política cá dentro?
As respostas que se me ocorrem desgostam-me muito.
Prefiro manter a dúvida.

ASP

Olhar Ruminante 712
Serak

Será que a Esquerda portuguesa (e para definição de Esquerda como eu a entendo há que ver o OR77) é capaz de apresentar a tempo aos portugueses um modelo de governação e um objectivo para o País mais convincente do que a Direita populista presentemente instalada?
Aquilo que eu conheço dela, presentemente, não.
Não por fortaleza do populismo, sistema vazio de ideias de Estado e de consequências concretas, mas por fraqueza da própria esquerda, que ainda não recuperou da queda do Muro e da falência do paradigma soviético como via para a Utopia.
A Direita gerou, desde os anos 80, uma nova ideologia, chamada neo-liberalismo, onde a quantidade emergente da crença do crescimento eterno conduziu a alterações qualitativas sensíveis no liberalismo clássico do laissez faire, laissez passer. A prova é que ainda não há ? e estamos longe disso ? um neo-socialismo norteador.
A Esquerda, depois de Reagan e da Tatcher, tem-se limitado a lamber as feridas, com alguns ais à mistura.
Assim não vai a lado algum.
Falta-lhe uma elite de pensamento. Independência. Amor à verdade. Generosidade. Altruísmo. Poesia. Panache.
Os chamados seus lideres renderam-se à ética dominante, à da competição e ao individualismo e tentam jogar ao poder com as mesmas armas e processos que a Direita, que joga em casa. As bases apenas os seguem nesses desígnios e tratam da sua vidinha, que isto não está para poetas.
Assim não se vai lá, a menos de duas gerações.

É uma pena.
ASP

Olhar Ruminante 711
Dúvida

Será que o PR tem algum compromisso com o eleitorado que o elegeu, ou, por ser ?presidente de todos os portugueses? se desquita dessa responsabilidade?
A mesma questão se pode pôr, por exemplo, ao Governo, que deverá funcionar ?para todos os portugueses?, mas é normal que se preocupe especialmente com os seus eleitores.
Contrariamente aos governos, que acham que têm de agradar prioritariamente ao seu eleitorado, até porque precisam dele para permanecerem no poder, o (actual) PR não sente qualquer vocação para o fazer.
Constato, mas não sei comentar.

ASP

Olhar Ruminante 710
Outras maneiras de ver

Não há comentador político, pequeno, médio ou grande, que não diga que Sampaio se saiu mal nesta crise política, que está para durar.
Mas já surgem interpretações de que, afinal, a sua atitude foi intrinsecamente de esquerda, só que com uma visão estratégica de longo prazo, coisa que os portugas normais não enxergam.
A reacção da Esquerda terá sido, então, injusta, pacóvia e estúpida.
Com a noção que o PS não estaria bem chefiado e que, para vencer em eleições o populismo de direita, seria necessário um líder mais dinâmico e consensual do que Ferro, ao ter o conhecimento do próprio que se demitiria se não avançasse para eleições, decidiu o contrário, forçando a sua saída, mas avisando que, a prazo, caso o governo falhasse nos seus compromissos, dissolveria então a AR.
Dando tempo ao PS para se reorganizar em torno de líder mais adequado.
Estratégia elaborada, só possível dada a educação anglo-saxónica do Presidente.
Digna de romance de John Le Carré.
Falta ver se:
a) o PS se consegue organizar operativamente e arranjar um líder melhor do que Ferro, atendendo à nomenklatura, usos & costumes existentes;
b) o PR consegue, no futuro, assumir qualquer rotura com a maioria, o que se não afigura plausível, conhecendo-se o seu estilo e conduta passada.
Resta a hipótese de o actual 1º ministro, dentro de um ano, mais ou menos, querer ser candidato a qualquer cargo nacional ou internacional e largar o Governo, que se demonstra óptimo trampolim para saltos em altura.
O PR não terá de passar por outra crise existencial, porque já estará fora de prazo para dissolver a AR. E, fiel aos seus actuais critérios, pedirá ao PSD para indigitar novo 1º ministro. Talvez seja então a chance do inenarrável Dr. Jardim.
À Oposição foram concedidos mais dois anos para se repensar, organizar e preparar para as legislativas de 2006. Mas tem as autárquicas e presidenciais pelo meio, que dá para treinar a apresentar cartões de várias cores ao Governo, se bem que, pelos vistos, tal não sirva absolutamente para nada.

ASP

Olhar Ruminante 79
The show must go on

Com o XVIº Governo constitucional da IIIª República, o país vai entrar num regime de espectáculo permanente, inspirados os governantes no imperador Tito e no seu panem circensis (passe algum erro no latim).
São lideres com clientela fixa, que cultivam a imagem, Santana com sedução suave, uma espécie de Batatun para tias e beatas televisoras; Portas, devido à pompa e circunstância com que se faz acompanhar, como herói de uma terceira idade confundida com o ritmo dos tempos. E de yuppies particularmente ambiciosos.
Vão ser tempos de espectáculo e de simpatia. O populismo é, como o futebol, assim mesmo. Gera uma sensação de segurança no cidadão comum, que tudo vai bem, que se está a ser bem governado e de que os críticos de gente tão simpática seguramente o são por cobiça do poder /dinheiro. Uns chatos.
A conta, quando vier, mais tarde, alguém que a pague.
Santana Lopes é pródigo em ideias ligeiras, daquelas que, à primeira vista, parecem ser ovos de Colombo e que são um sarilho para serem implementadas. Sempre teve ideias de mais para os meios de que dispõe para as implementar. Donde ficarem, na maioria dos casos apenas como ideias para a memória futura ou, quando alguém resolve iniciar a sua realização, como imbróglios de difícil solução. Veja-se Lisboa, o túnel, o Parque Mayer, a Feira Popular, o Casino, etc. Em plantação de palmeiras, contudo, é bom.
A ideia de levar os ministérios para o campo insere-se nesta classificação. Ideia gira, inserida na onda da descentralização/desconcentração, mas objectivamente um bluff, irrealizável na prática. O tirar os ministérios do Terreiro do Paço, idem. Projectos-foguete.
Paulo Portas, sendo também um demagogo populista, vai mais pela verbalização de promessas que respondem a anseios antigos de gente psicologicamente magoada, que foi abusada no passado, vide reformados, ex-combatentes, etc, com tanto mais ênfase e cara séria quanto sabe que nunca conseguirá os meios financeiros suficientes para as cumprir. A esperança é um poderoso conforto, um paliativo até. Que Portas sabe calculisticamente gerir como ninguém. Mas o ar circunspecto não lhe fica bem à idade e transmite a sensação, como dizia Eduardo Lourenço, de estar sempre a transportar a própria estátua. Uma canseira.
Mas há também gente de maior consistência política no novo Governo.
Espera-se que levem a sério os seus papeis e se não deixem apanhar pela vertigem do poder, das nomeações, da importância, da fama. E que tenham menos vocação para as práticas histriónicas que os vultos máximos da governação.
De qualquer forma a tónica esperável é o espectáculo e a mediatização sistemática da praxis governativa. Dominantemente nas TVs . Em monólogos ou em frentes-a-frentes de estilo pugnas de gladiadores das palavras. E muita inauguração, pré-inauguração e post-inauguração, com festa e foguetório.
Vai sair caro. Vai durar dois anos.
A não ser que eu me engane. Deus queira.

ASP


segunda-feira, julho 12, 2004

Olhar Ruminante 78
Inquietação, uma longa inquietação

Jorge Sampaio errou.
E foi pena ficar para o futuro ligado a um tal erro, após tantos anos de impecável conduta.
Errou, em primeiro lugar, na noção que tinha dos seus deveres e, sobretudo, poderes, dentro do regime constitucional português, semi-presidencial, como se sabe.
Como vinha a demonstrar e concluiu na recente decisão de continuidade da coligação PSD/PP no governo, crê o PR que o seu poder se limita ao de um fiscal da Constituição, um árbitro ou um crítico da acção governativa, mas que não lhe compete qualquer iniciativa de natureza política, salvo em situação de salvação nacional, de que seria o último garante.
Assume, assim, o regime como determinantemente parlamentar, donde, desde que haja uma maioria, ela terá total direito a governar durante o período do seu mandato, aconteça o que acontecer. Essa minimização dos poderes e papel do Presidente, nomeadamente da sua intervenção política, quando necessário, não corresponde aos pressupostos da maioria dos seus eleitores, que o encaravam como seu representante na defesa dos valores da Esquerda, com capacidade interventora na defesa da Democracia e elemento de equilíbrio na Política nacional.
Esse carácter de Rainha de Inglaterra ou de Notário da Constituição, o sumo-árbitro do Governo, traduziu-se na prática numa fiscalização da constitucionalidade através de vetos e em verbalismos densos, onde as partes conseguiam sempre encontrar interpretações que as apoiavam. Mas para a avaliação da inconstitucionalidade há o TC e para críticas inconsequentes, a Opinião Pública e a Oposição.
Na solução da crise provocada pelo salto do Barroso era preciso mais do que isso.
Não foi capaz.
Não foi capaz de assumir uma posição política própria e independente do poder parlamentar.
E, mesmo a contrasenso, fez o que pôde para encontrar nos mecanismos parlamentares, fundamentos para , a partir da maioria, justificar a transição do poder executivo, sem eleições, para outros agentes não escrutinados.
Preocupou-se mais com a forma do que com o conteúdo do problema, mais com o aspecto do que com a essência da democracia.

Errou também na sua leitura das circunstâncias:
Havia (e há) uma crise política, voluntariamente produzida Barroso, então responsável pela Maioria, conduzido por interesses exclusivamente pessoais. Criou um vazio de poder. Não preparou essa maioria a sua sucessão. Antes permitiu que tudo surgisse de improviso, com carácter de golpe palaciano, apoiado pela pressa que Barroso tinha de não perder o lugar. Toda a responsabilidade da crise se situa, assim, em Durão Barroso, no PSD, na Maioria. O PR estava completamente à vontade de resolver essa crise da forma que entendesse.
É pueril a leitura de que o poder executivo real está no Parlamento. Todos sabem que os partidos mais não são, hoje em dia, do que correias de transmissão ao serviço do governo. Os deputados não detêm qualquer independência relativamente ao Poder executivo e votam, em bloco, consoante as instruções que lhes vêm do Partido e este funciona como estrutura de poder ao serviço do Governo, ou melhor, do chefe do Governo, o 1º Ministro. Com as oposições funciona um sistema muito semelhante.
É assim pueril a ideia de que nas eleições são os deputados os eleitos, por pertencerem a este ou aquele partido e que o que está em causa quase exclusivamente é a escolha pelos eleitores do potencial líder de um futuro governo, mais ou menos apoiado por um programa, que a maioria das pessoas nunca chega a conhecer.

Errou assim o Presidente ao admitir que um novo governo, com um diferente (e que diferente!) 1º ministro, como novos elementos e novo estilo de governar, estaria validado em termos de representatividade democrática, apenas se prometesse cumprir o programa do governo anterior ( que , por sua vez, o tinha esquecido por completo), só por se manter a maioria no parlamento que apoiava o governo anterior.
Seguramente quem votou Durão Barroso e o seu programa social-liberal em 2002, não votou a dupla Santana-Portas e o seu populismo de direita radical. E apenas isso, se mais não houvesse, justificaria o apuramento, em eleições, de quem apoia quem.
Mais. Existiam dados concretos ? sondagens, manifestações populares, resultados das europeias ? que indicavam que a chamada ?maioria? parlamentar já não representava mais do que 1/3 da confiança dos eleitores, daí decorrendo uma sua ilegitimidade democrática real, coberta apenas por uma legitimidade formal.
Ninguém tinha dúvidas que se houvesse eleições esta Direita perderia. O PR, ao desprezar estes indicadores, patrocinou uma visão ?farisaica? do poder democrático, a forma sobrevindo às essências, visão que surpreendeu todos os seus eleitores.
Curiosamente a única condição que o PR coloca ? e que nunca terá oportunidade de controlar, pois perdeu a última ocasião para demonstrar a sua capacidade de intervenção política em concreto ? é que haja continuidade na política, na política que conduziu o País à recessão e à neura pública conhecida, quando o que é necessário é exactamente mudança nessa política (necessidade que até alguns discursos do PR pareciam apontar).
Quando ao Presidente é dada de bandeja a oportunidade de repor a autenticidade democrática e devolver ao Povo a escolha do Governo, ele demite-se de ser o garante dessa autenticidade e coloca-se no papel do árbitro de futebol que, ao intervalo, quando o treinador e a equipa que está a perder deserta do campo, aceita um novo treinador e uma nova equipa, e recomeça apenas para a 2ª parte, repondo o resultado a zero-zero, com a condição de a nova equipa seguir a táctica da anterior.

Errou também o Presidente na suposição de que tem alguma capacidade de controlo sobre o Governo. Com a afirmação de que iria ?acompanhar? a governação, apenas se comprometeu com ela ? o tal um governo, um presidente, e uma maioria ? mas sem capacidade prática de exercer qualquer controlo, porque deixou de ter mecanismos de sanção para qualquer incumprimento.
Até porque os prazos formais são curtos e o tempo não dará.
É quase seguro que os compromissos agora assegurados não serão cumpridos. O estilo de governação da dupla agora no poder, com proliferação de ideias ligeiras, a vulso, atraentes numa primeira abordagem, mas dificílimas de concretizar, irá pontificar. E certíssimo que o PR, que agora com todos os apoios conhecidos não teve a coragem de provocar a rotura de dissolver o parlamento, nunca mais a terá, com a Oposição globalmente crítica da sua atitude e uma cumplicidade com o Governo que passou a ter, subsequentemente a sua decisão, ao nomear o governo e a garantir o seu controlo ( que se não vê como possa fazer).

Apoiando um governo de legitimidade duvidosa, tão duvidosa que levou à demissão do líder do PS, indisponível para continuar nestas condições, que se sabe que irá reforçar o carácter de Direita na Governação, quando os dados de sondagens e das últimas eleições apontam que cerca de 70% dos eleitores são de esquerda e recusam a política desenvolvida, o poder do PR surge diminuído, sofrendo de arrastamento da maioria parlamentar, como se não tivesse autoridade e legitimidade de politicamente ter opiniões diversas da maioria e de, no âmbito da correcção constitucional, as revelar e agir em consequência.
Pôr como condição o seguimento da política anterior, a política que a maioria dos portugueses haviam rejeitado através dos números há apenas 1 mês e que por manifestações e greves demonstram discordar, é a pior maneira de garantir a estabilidade pretendida. Agora, mais o que antes, há sustentação para essas manifestações crescerem e serem apoiadas pelos partidos da Oposição, que sempre referiram esse perigo se se não devolvesse a possibilidade ao povo de escolher.
Estranha estabilidade, ao fim e ao cabo, o objectivo declarado do PR de sustentação da sua opção!

Pessoalmente o PR isolou-se, confiando numa Direita que nunca confiará nele e desconsolando uma esquerda que o elegeu e que globalmente não entende a sua atitude.
Foi um grande erro, que aumentou a instabilidade, apoiou um governo que não merece a confiança da maioria do Povo, chefiado por uma personalidade controversa, não respeitada, sequer, por franjas significativas do eleitorado.

ASP


sábado, julho 10, 2004

Olhar Ruminante 77
Exortação esquerdista (com o devido respeito pelas opiniões contrárias) um bocado extensa

1.Ainda não sei qual a decisão do PR, mas sei que se vai entrar em campanha eleitoral.
Na melhor das hipóteses, de 3 meses, na pior, de dois anos.
Entre a chamada Direita e a chamada Esquerda.
A Direita concentrada na coligação entre o pequeno partido de Paulo Portas (PP) e o partido partido de Santana Lopes (SL); a Esquerda centrada no PS de Ferro Rodrigues (FR), mais ou menos apoiado pelo BE e o PCP ( com sua cereja verde). Talvez o Manuel Monteiro não tenha desistido e arranje, com dificuldade, um espaçozinho entre a Coligação e o abismo. O Centro nunca existiu e muito menos agora. É uma abstracção, um zero da geometria. O fiel dos dois pratos da balança de que o que interessa e funciona são os pratos.

2. Serão eleições e campanhas num contexto de desilusão e mesmo de repulsa pelo sistema político existente. Viu-se pelos 60 e tantos por cento das abstenções nas europeias. Vê-se pelo descrédito público e generalizado da política e dos políticos .
É a grande ocasião para inflectir o caminho até agora trilhado, o da política paroquial, dos barões, dos interesses particulares, da intriga, da falta de ideias estratégicas, da falta de objectivos, das chefias difusas, da mentira, da corrupção, dos carreirismos a olhar para o próprio umbigo.

3. Se forem 2 anos dá para a Esquerda se pensar demoradamente sobre a sua reforma. Se forem 3 meses tal terá de ser mais expedito e mais intenso. Mas tem de se mudar. A se manter o actual esquema de centrão de interesses, a quase indiferença comportamental entre o PS e a Coligação, a se manter o conservadorismo, a incapacidade ou desinteresse de mudança, então as abstenções crescerão e Portugal ficará completamente entregue ao jogo dos lobbies que o (nos) utilizarão para seu proveito exclusivo, em detrimento dos equilíbrios sociais e do orgulho de pertença. Se se prosseguir uma política de personalidades e não de ideias, a Direita pode ganhar, porque os seus campeões têm mais trunfos e são mais cuidados na promoção da sua imagem que os da esquerda, nomeadamente Ferro Rodrigues. Há, assim, que centrar a campanha na surpresa de se apresentarem ideias que sejam mais do que promessas e projectar com clareza objectivos e metas da governação que sejam viáveis e mudança quanto à sociedade em que se vive. E de se acreditar mesmo nessa ideias.

4. À Esquerda a actividade política deve reportar-se nitidamente à sociedade e não ao indivíduo, na protecção aos mais desfavorecidos, no sentido da Igualdade; deve inserir-se numa dinâmica reformista, de mudança e não no conservadorismo, no pressuposto que é sempre possível, com imaginação, vontade e crença, encontrar alternativas, para melhor, da sociedade em que se vive; deve acreditar que a cooperação é mais positiva que a competição; deve pautar-se pelo respeito pelo outro e de forma muito clara, pelos Direitos Humanos; deve promover a Justiça, respeitar a Verdade, a Transparência, a Razão e a Honestidade nos comportamentos públicos.
A Direita é aquilo que é: individualismo, competição, a economia como objectivo, crescimento sistemático, o dinheiro como indicador de sucesso e o sucesso como finalidade nas vidas.
Mas não basta à esquerda combater este sistema de valores. Tem que ser proactiva, tomar iniciativa, propor soluções, inovar, demonstrar-se empenhada numa mudança de acordo com os seus princípios, não apenas em palavras, mas na praxis política quotidiana e nas suas estratégias e políticas. Tem de ser clara, responsabilizar-se e demonstrar-se responsável, interessada no serviço ao Estado e não em servir-se do Estado, imaginativa, corajosa, culta, acreditando em si, empenhada.

5. Os meios disponíveis para essa campanha são, no contexto, os partidos, os seus dirigentes e os seus procedimentos internos de acerto de princípios, de estratégias e de propaganda.
Existem críticas à nomenclatura do PS e a algumas insuficiências quanto aos seus actuais dirigentes. São, contudo, os que existem e é com eles que a Esquerda tem de apresentar as suas propostas e convencer a maioria dos eleitores que será melhor do que a Direita. Se as eleições forem em Outubro, não dá tempo para se pensar em reformas internas. Apenas se poderá esperar que apareça iluminação e força aos dirigentes para criarem uma organização e uma dinâmica suficientes para oferecerem suficiente credibilidade num seu governo ser capaz de remediar a situação de desorientação e empobrecimento em que o barrosismo deixou o País.
Tal dinâmica e crença não se conseguem se tudo for feito pelas mesmas figuras, já queimadas muitas delas, que constituíram o último governo guterrista e que continuaram a pontificar no Partido. Há que criar novidade e mobilizar todas as competências e boas vontades que se têm mantido, à falta de chamamento, adormecidas e críticas, fora da estrutura e aparelho socialista. Basta comparar a qualidade de qualquer reunião, por exemplo, dos clubes políticos socialistas que foram nascendo, com as pobres reuniões das estruturas partidárias, para se ver a quantidade e qualidade notáveis que existe nas franjas do poder no partido e que não participam normalmente na vida partidária corrente.

6. O líder Ferro não será, para alguns, o líder ideal, em termos de dinâmica, capacidade arrastadora, iniciativa ou ideias. Mas inequivocamente tem outras qualidades, é o líder possível e, seguramente, suficiente para se ganhar. E, como partido de Esquerda, o PS tem de se deixar da ideia que é apenas o seu líder que conduz o partido, mas sim que são todos os militantes organizados que o podem fazer. Todos. Um partido não é uma corte. Um bom líder tem a capacidade de mobilizar todos os que estejam comprometidos com o Partido e de usar as naturais contradições e dialécticas positivamente. É fatal a convicção que se instalou nas chefias portuguesas de que o bom é ter-se cortes de bajuladores e cortesãos e quem critica ou discorda é forçosamente um adversário, para não dizer um inimigo. 30 anos de democracia ainda não foram suficientes para mudar as mentalidades, pelos vistos.
Ferro ainda não deixou de estar à defesa e, face aos infames ataques de que foi vitima no último ano, até se pode compreender. Mas tem de alterar completamente essa sua atitude.
É em torno dele que toda a esquerda, filiada ou não, se deve concentrar. Espera-se dinâmica, iniciativa, imaginação, segurança, abertura.
Assim seja

ASP

quinta-feira, julho 08, 2004

Olhar Ruminante 76
O aperto

1. Barroso abandonou a liderança do País para ir para um lugar mais vantajoso. Para ele.
Originou uma solução na continuidade governativa. Inequivocamente.
A solução que propôs não é minimamente consensual, mesmo dentre alguns dos seus esperáveis apoios.
Não há governo. Há declarações de não aceitação da legitimidade da solução apresentada pela Maioria. O País está dividido. Quem disser que isto não é uma crise política é tonto.

2.Quanto mais tempo passar sem uma solução, mais a intriga e a desinformação vão agravar a crise, corromper a simplicidade dos factos e as leituras da decisão presidencial.
Hoje já há quem tenha branqueado a ligeireza egoísta do Barroso e diga que a responsabilidade da crise é do PR. Por demorar em excesso a clarificação. E quem relacione qualquer decisão como cedência pessoal, por fraqueza ou outras razões, à esquerda ou à direita. Esta insulta-o e agita os espíritos com golpes de estado e contra?golpes, como o troglodita político da Madeira já o fez. Os ânimos apaixonam-se, fruto da ansiedade da espera.

3. A decisão será exclusivamente política, pois em termos formais qualquer das conhecidas será legítima. Sampaio é o líder mais popular em Portugal e de longe. A decisão será, segundo anunciou, exclusivamente sua e tomada de acordo com a sua visão do mais adequado politicamente. É uma revelação do seu pensar político que se está à espera, não um acto administrativo de um juiz de Supremo Tribunal Administrativo. Será mesmo a única ocasião em que o regime lhe permite ser discricionário, assumindo a quota parte (o quanto será agora medido) do poder semi-presidencialista. Os argumentos pró e contra a dissolução da AR já estão todos equacionados e ponderados.
Se assim é, porque demorar tanto tempo?

4.O melhor parece ser devolver a decisão ao Povo. Aí estará a expressão da verdade democrática, ou seja , a vontade da maioria. Assim também afasta, fundamentadamente, a responsabilidade por maus governos futuros. Ganhará, para um governo de 4 anos ? e não para um semi-governo de 2, - quem mostrar ser mais convincente face ao Povo. E o Povo é quem mais ordena dentro de ti, ó Cidade.
Aí o PR pode e deve ser apenas observador não envolvido.
Aqui já não. Nesta questão, Sampaio, se queria ser árbitro, desiluda-se ? já passou a jogador. Ainda se não sabe é de que lado. Já está envolvido. Espera-se que em coerência com a linha ideológica que o elegeu.

ASP

Olhar Ruminante 75
Para a culpa morrer solteira basta emigrar.
(ou a saga do King Liar)

1. A não ser o futebol, estava tudo a correr mal a José Manuel (ex-Durão) Barroso: sacrifícios e chatices com os trabalhadores em geral e a Função Pública em particular; promessas incumpridas, nem tentadas; fogos a reacenderem-se todos os verões, com pouca coordenação e muita acusação; escândalos e baldas por todos os lados; a justiça numa lástima; as medidas para equilíbrio das finanças públicas um verdadeiro flop; a Cultura quase invisível; a Agricultura apenas lembrada nas aulas de história antiga; a Pesca só desportiva; as Obras públicas, lentas e caras, na base do calote e na mão dos empreiteiros; a Assistência social tesa, gerida como um banco; o Ambiente ainda não completamente saído de uma visão terceiro-mundista; incompetência, descrédito, corrupção, desnorte por todo o lado. Ai.
A Oposição queixava-se, mas as oposições queixam-se sempre. Poucos lhes dão crédito.
2. O povo em geral sentia a má governação nos bolsos, nas inteligências e manifestava-se em apupos, vaias, e assobiadelas. Buuuu! Os mais eruditos ou de cariz mais esotérico, pesquisavam nas sondagens desígnios negros para a Coligação reinante. Mas as sondagens valem o que valem e, ipsis verbis, não valem o que não valem. Mas são úteis como números e havia quem acreditasse. Há sempre.
O descontentamento popular era concreto. Na primeira ocasião deu ao Governo um cartão muito amarelo, ainda mais do que o sorriso do 1º ministro ao dizer que ia atentar seriamente aos resultados eleitorais.
Pelos vistos atentou e pirou-se.
3. Sorte grande para Barroso. Salta, lépido (acho que é a 1ª vez que escrevo esta palavra), para novo cargo, cheio de uma convicção íntima que, por cá, todos os dele se haveriam de arranjar.
Sabe-se que não e tudo se vem complicando. Felizmente, que o status quo estava pantanoso e chato. Para gente seduzida e abandonada, é notável a forma mansa e respeitável com que o CDS/PP e o PSD vem tratando o fujão. Ainda não recuperaram do choque que os pôs em estado comatoso. O instinto boys life instinct impôs-se e as cortes reconstruíram-se rapidamente em torno de um novo caudilho.
4. Mas agora, que já não há quem insultar, como resolver esta insatisfação, quase a revolta, que nos aflige? Quem responsabilizar e culpar pelo descalabro dos últimos anos? Sobre quem vociferar insultos calmantes dos nervos e frustrações?
Agora, a quem pedimos contas da governação havida? Hã?
Se for o PS a governar, ainda dá para autopsiar os exageros de contabilista, os escândalos, as promessas demagógicas nunca realizadas, os sacrifícios inúteis, a incompetência instalada, etc; mas se for o Santana, como é que a gente se desenerva, já que é outro líder e outro governo e o programa antigo, mesmo que retomado, nunca foi cumprido e parece que ninguém a tal ligou?
Para desculpar o barrosismo há sempre o argumento de estarem a meio do mandato e de devermos estar agradecidos ao ex-lider pela sublime honra que nos deu de ir desta para melhor. Intocável, portanto.
Perigosíssimo para a saúde mental portuguesa, que, se não identifica culpados e os exorcisa em autos de fé, mesmo que de curta duração e intensidade, é capaz dos maiores desnortes.
5. Vamos ter de calar, está visto. A não ser que haja eleições.
ASP

quarta-feira, julho 07, 2004

Olhar ruminante 74

Quem está bem deixa-se estar
Quem não está tem ambições
Não ligar ou convocar
Umas novas eleições
(poema vagamente popular)

Se houver eleições é muito previsível que a actual dita ?maioria? as perca. Tal justifica o empenho com que ela pretende salvaguardar-se face à situação em que Durão Barroso a colocou.
A sensação geral, comprovada pelas sondagens e pelos resultados das europeias, é que ela, de facto, já não é representante, como foi, da confiança da maioria dos eleitores.

Sendo legítimo nomear-se um novo governo a partir da coligação parlamentar PSD + PP, face ao atrás referido subsiste a desagradável sensação que, por trás de um correcto formalismo, se esconde uma inverdade em termos democráticos essenciais, nomeadamente no respeitante a que os governantes devam ser representantes da maioria dos governados.
A única forma de tirar essa conjectura a limpo é ir às urnas, antecedendo 2 anos as eleições que estavam previstas para 2006.

Qualquer governo que seja oriundo da actual maioria acentuará o carácter de Direita já existente (afastando os laivos de social-democracia que ainda existia). Será também muito difícil de responsabilizar pelos dois anos passados.
Trata-se, de facto, de um completamente novo governo em estilo, em caras, e em conteúdo. Uma nítida rotura na governação.
Será o 3º de apenas 2 anos, acentuando a instabilidade de não terem 4 anos, como previsto.
Quem votou PSD/Durão em 2002, votou centro e um programa, que hoje em dia se verifica não ter sido minimamente cumprido. Muito provavelmente não se reconhece em Santana/Coligação, nas suas ideias e no seu programa, mesmo que seja dito ser na continuidade do anterior, pois ele já não é cumprível.
È uma dúvida perfeitamente legítima e muito provável.

O PR é muito mais do que um secretário ou um auditor da Constituição. Ambas as soluções são constitucionalmente legítimas. Pede-se ao PR uma avaliação política, pessoal, da situação, em termos de estabilidade e genuinidade da representação democrática. Contra o que é costume, ao PR não se pede apenas uma função reguladora ou de árbitro, mas uma verdadeira opção política, que o sistema semi-presidencialista patrocina.

Em democracia, eleições são sempre bem vindas. Afirmações como as habituais do dono da Madeira são aberrações democráticas. Trata-se de antecipar dois anos as já marcadas. Sem custos suplementares. Que clarificam a vontade, agora, dos portugueses; e dão uma incontestável legitimidade ao poder de delas advier.
Dê-se, assim, a palavra ao Povo.

ASP


Olhar Ruminante 73
Alguns morrerão calçados
Há um processo em curso de criação de um grande partido de direita, populista e de cariz liberal, construído a partir dos restos do CDS/PP e de uma cisão no PPD/PSD.
A dominância de Paulo Portas no finado governo, face a um Durão de ideologia pouco nítida, salvo no que concerne o Barrosismo radical, foi um sinal.
A ascensão de Santana Lopes à presidência do PPD/PSD, um outro indício, este muito claro.
Sabe-se do seu intuito de manter e consolidar a coligação existente, populista e de direita.
Sabe-se a contrariedade que tudo isto tem provocado nos poucos sociais-democratas ainda existentes no PPD/PSD, os dos tempos do PPD, hoje em dia encarados pela nova geração de yuppies e gestores hiperliberais como antiqualhas desadequadas aos seus interesses.
A fractura interna está aberta. A continuar-se assim, o CDS (já fossilizado no PP) e o PPD (digerido pelos radicais liberais do PSD) dissolver-se-ão num novo partido e as franjas da esquerda, que nele se não reconhecerão, tentarão pateticamente, como o fez a ASDI e os Renovadores comunistas, agruparem-se numa Associação que se extinguirá a prazo ou, aqueles onde não existirem aversões intransponíveis, a namorarem a ala direita do PS, então representante incontestável da social-democracia portuguesa.
A implosão do PSD iniciou-se com Durão Barroso. Santana Lopes conclui-la-á.
Frutos da época. É bem feito.

ASP

segunda-feira, julho 05, 2004

Olhar Ruminante 72
Frutos do tempo
O chamado neo-liberalismo alterou muito o sistema de valores morais pré-existente.
Por exemplo, enquanto antigamente (espantoso como o antigamente hoje só tem 20 anos) a vida das pessoas se reportava a determinados grupos sociais, onde o sentido de pertença era importante e relativamente aos quais se procurava uma admiração e um reconhecimento, família, nação, grupo profissional, etc, hoje em dia esse reporte à sociedade quase que se esvaneceu e os objectivos da vida de cada um praticamente se limitam à procura do ?sucesso?, consubstanciado na fama, no poder e no dinheiro, se possível concomitantemente. E depressa.
Há muito que se não via um individualismo tão nítido, acompanhado de uma série de comportamentos decorrentes, como o transitório, o descartável, o toca-e-foge, o rápido, o urgente, o desapego e quase abandono aos pais e velhos parentes, a solidão mais ou menos generalizada em que hoje em dia vive grande parte das pessoas, as urbanas, pelo menos.
Esta tão grande mudança nos costumes acompanhou a passagem das políticas socialistas e sociais-democráticas, para as liberais.
Este individualismo nota-se, também, no estilo das lideranças políticas, muito centradas no culto do mito de si próprio e nas suas ambições pessoais e muito pouco em programas, ideais ou reformas para a sociedade, ou seja, num serviço ao País, como o era antigamente.
Agora, quando as coisas começam a correr mal para a imagem ou o prestígio, é normal, a pretextos vários, ?fugir-se para a frente?, abandonando o cargo enquanto ainda se tem o poder ou prestígio suficiente e saltando para outro mais prestigiante, se possível, sem terminar mandatos ou sequer concluir os projectos que se têm em mãos.
Como exemplos disto temos Durão Barroso e Santana Lopes.
Frutos do seu tempo.
Infelizmente.

ASP
Olhar Ruminante 71
Meia de Pensamentos desvairados

1) Pobre país o nosso
Escreve-o?pensa-o-di-lo Pacheco Pereira.
Porque será que o faz precisamente agora?

2) Arrepiou-me ver na TV a reportagem da reunião do Conselho Nacional (Comissão? União?) do PSD.
A cobiça e a vaidade chegam-se sempre ao poder. Esperto que nem um anho, o Santanás, é pela lisonja e pela promessa que leva as almas públicas aos seus intentos. O Barroso, manhoso, tenta descartar-se da irresponsabilidade, a por compromissos na boca do Presidente em que ninguém acredita a não ser quem quer.

3)Tem um lado bom: o PSD ir-se-á transformar na maior organização de eventos da Europa. E a época é de circo.

4) Perante uma assembleia de tubarões, dentro de um grande abraço do polvo unido, ao cherne sucedeu o peixe-palhaço, o Nemo lusitano. Ritmo, suspense, humor negro, violência, psicodrama. Grande evento! Toda a assistência anseia pelo desfecho, nos próximos capítulos (produção: José Barroso; realização: B.Sampaio; protagonista-heroi: Pedro Lopes).
?Ferrokan reconquista Mompracém? estreia nos próximos meses.

5)Os últimos 15 dias confirmam a minha teoria de Portugal ser a última reminiscência da Atlântida, esse povo arrogante cujos responsáveis meteram tanta água na governação que lhes aconteceu o que se sabe. Só gente muito especial aguenta catarses de histeria colectiva de três em três dias, sujeitos a condições de ruído e javardice alegre muito acima do permitido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. Felizmente. Ao menos haja festa.

6) O amigo americano
Serak que o périplo europeu de há uns 15 dias do president Bush influenciou de alguma forma a aceitação de Barroso pela França e Alemanha? Se não, como pagou Bush o cattering das Lajes?


ASP

domingo, julho 04, 2004

Barco da carreira dos Tolos

?Para descarregar esta cidade
Da multidão dos tolos que a povoa
Com maré, vento em popa e brevidade
Vem este barco ao porto de Lisboa
Leva tolos de toda a qualidade
Mas tem sempre um lugar vago na proa
Quem disser ou fizer alguma asneira
De mês a mês tem barco de carreira?
(de folhetim do século XVIII)

Lugar na proa deste mês: José Manuel Barroso (ex-primeiro ministro)

Pela irresponsabilidade demonstrada, na sua ambição de carreira, ao abandonar tudo e todos por um lugar ao sol.
Pela sua cobardia e falta de palavra, ao abandonar o Governo que havia garantido manter por muitos anos, na altura em que ele se encontra mais fragilizado pela banhada eleitoral e perdido em termos de estratégias para resolução dos problemas do País.
Pela hipocrisia na condução do processo.
Pela traição ao PSD e aos seus correlegionários mais directos.
Pela perfídia de tentar transferir para o PR a responsabilidade de eventuais eleições antecipadas, fazendo entender que este lhe havia garantido a não dissolução do Parlamento.
Por três anos de enganos e de demagogia.

ASP

quinta-feira, julho 01, 2004

Olhar Ruminante 612
O homem do leme


Barroso comprometeu-se a ?ficar ao leme e estar atento? face aos resultados das últimas eleições europeias.
Logo que viu um porto salvador na tormenta em que a vida nacional se tornou, abandonou o leme e pôs-se a salvo.
Lá do porto acena e deseja boa-viagem à tripulação.
Simpático.

ASP
Olhar Ruminante611
Serak?

Será que um governo Santana-Portas é democraticamente legítimo? Ou seja, representativo dos eleitores que votaram PSD-Durão Barroso?
Será que esses eleitores, que acreditaram que o PSD ia realizar o programa que se propunha (desde a abolição das listas de espera ao choque fiscal), se identificarão, agora, com um outro líder que se sabe pensar de forma muito diferente e que terá uma política nitidamente mais à direita (reforçando por exemplo o poder de Portas) daquela que foi votada em 2002?
Será que uma eventual legitimização de uma chefia no PSD de Santana Lopes, equivale a uma automática transferência dos votos de 2002 em Durão para ele e Portas, agora?
Será que, na eventualidade de o PR aceitar a golpada de secretaria que conduzirá a direita populista ao poder, à conta dos votos no centro de há dois anos, tal corresponde a uma estabilidade política futura?
Será que a indignação popular e o protesto dos partidos da Oposição não tornarão o País quase ingovernável?
Será que a forma mais democrática de se esclarecer a vontade dos portugueses não é o voto?
Será que a irresponsabilidade do abandono do governo nas actuais circunstâncias de dificuldade não jusitifica um repensar, nas urnas, da situação?
Será que, havendo tanto dado- eleições europeias, sondagens, manifestações, etc ? que aponta que a base popular de sustentação do Governo já não corresponde a uma qualquer maioria, mas sim a uma minoria, não é preferível realizar eleições a curto prazo para se esclarecer qual é a representatividade democrática real do poder?

ASP
Olhar Ruminante 610
É preciso lata. Não queremos nem barões , nem tubarões. Nós só queremos eleições.

?Durão pressiona PSD e Sampaio para garantir estabilidade? (Público 29JUN)

1. A saída de Durão ignorou, a seu proveito, quer os interesses da governação do país, quer os do seu próprio partido e do grupo de fieis que o apoiavam. Quase que configura uma traição, por motivos determinantemente pessoais, razões de carreira.
Se houve alguma coisa que tenha gerado a instabilidade que agora pretende remediar foi ele próprio.
2. A estabilidade no governo é desejável, em princípio. Mas tem várias leituras. O governo de Salazar era estável, por exemplo. Não creio que fosse desejável.
Porque a inexistência de tensões e conflitos na governação não é um seu fim último. O governo serve para o serviço público, o progresso, a consolidação da democracia, etc. Não tem finalidade em si próprio.
Esta óptica da ?estabilidade? aconselha uma continuidade do governo, isto é, do seu programa, das suas políticas e tanto quanto possível dos seus protagonistas.
Foi uma continuidade quebrada por DB ao cuidar da sua vidinha antes das suas responsabilidades para com o País. A alternativa que o aparelho laranja pretende nada tem de continuidade, antes constitui um ?golpe de estado? interno, como lhe chamaram diversos notáveis sociais-democratas. É a consolidação do populismo berlucosniano luso, a política do espectáculo e do negócio.
É, por chapelada, entregar o governo da formiga,à cigarra associada ao grilo.
Dificilmente se conseguirá repor, seja com quem for que assuma a chefia e que reconstitua o governo, as condições e características em que os eleitores PSD votaram nesse partido em 2002. O líder é outro (era até seu rival, lembram-se), as promessas não foram cumpridas e perderam validade, etc, etc.
As manobras conhecidas para, em sede administrativa, Durão e os seus capatazes cooptarem por um novo presidente e um novo primeiro ministro, cheiram demasiado a chapelada e a golpe de estado interno, para lhe darem o mínimo de legitimidade necessária, no contexto difícil em que o país está.

Outra espécie de estabilidade é a conferida pela representatividade democrática.
Será que a Coligação PSD+PP representa, hoje em dia, a maioria dos votos dos eleitores?
Sondagens, atitudes espontâneas em diversos sítios e os resultados das eleições de há três semanas apontam que não.Os partidos da Oposição, em peso, já referiram que não consideram qualquer cooptação pelo PSD de um novo primeiro ministro como legítima e que o governo daí resultante será, como tal, encarado com ilegítimo, valha isso o que valer em termos parlamentares.
Inclusivamente dentro do próprio PSD e diversas personalidades independentes, consideram o processo que se está a preparar de transferência do poder (no PSD e no País) para o Dr. Santana Lopes, como pouco transparente em termos democráticos e, inclusivamente perigoso em termos de regime.
Ou seja, se se nomear, agora, novo governo, ele enfermará de prévia classificação de ilegitimidade democrática das outras forças partidárias e tal criará, sem dúvid, enorme instabilidade política, o que se pretenderia evitar.
Porque é que se não promovem eleições e se põe tudo a limpo?
ASP

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