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segunda-feira, agosto 30, 2004

Olhar Ruminante 814
Escutas telefónicas incríveis


Nota: O Rudegolpe conseguiu cópia de um documento que se reproduz na íntegra, síntese de 8314horas de escutas, mas não se responsabiliza pela verdade de nada disto.
Trata-se de uma gravação alegadamente roubada de um alegado jornal, realizada alegadamente por uma das polícias e alegados serviços de investigação existentes, com o pretexto dos escutados serem alegadamente conhecidos do alegado proprietário de um monte jet-set alegadamente alentejano onde terá sido alegadamente cometido um crime contra o ambiente, alegadamente o abate de dois sobreiros para a alegada construção de uma piscina. Como se sabe, o pretexto para as escutas não é importante. O importante é escutar e quem é escutado. Dado o número de alegações deve ser verdade.
Não foi até à altura possível identificar os intervenientes, pelo que apenas serão referidos por E1 (escutado1), E2, etc.
Segue-se a transcrição antes de manipulada para a Imprensa.
(?.) significa que a frase era incompreensível

1ª chamada

E1 ? Está? Sou eu. Tens de ser tu a resolver o problema daquelas doidas holandesas, do barco. Disseram-me que vinham para matar futuros portugueses. É um ataque, por mar. Segurança nacional. Tens de ser tu, pelos dois lados?
E2 ? O quê? Resolver o problema das doidas pelos dois lados?
E1 ? Sim, do mar e da defesa, estás a ver o que (?.) vai dizer?. Não podes usar os submarinos? Quase de certeza que elas têm droga, charros, sei lá e sempre se confirmava a justificação para os 750 milhões de contos no combate à droga.
E2 ? De euros. Mas e se não há droga? Aquilo é combinado com as extremistas de cá e elas não caem nessa. Não me lixes?.
E1 ? Claro que há droga. Cabelo vermelho, tipo liberadas, holandesas, uns cinquenta quilinhos em média, huuuuum eu (?.) mas aquilo pelo menos há haxe.
E2 ? Á á quê?
E1 ? Xixe.
E2 ? Xixa? Mas sabes que eu não ?.
E1 ? Não, (?..), haxixe, ganza, canabis, erva, sei lá....
E2 ? Mas ainda não tenho os barcos, é pá, não é assim?
E1 - Desenrasca-te. Avança, que o (?.) também está contigo?
E2 ? Mas isso é mais com o gajo do Interior, pode dar porrada, chatice, estão lá os gajos dos media, é melhor?.
E1 ?(Silêncio prolongado)
E2 ? Estás? Então?
E1 ? Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fica de olho e põe as forças em prevenção vermelha, Roger? (ruídos semelhantes a risos).
(desliga)

2º chamada
E1 ? Está? É o senhor (?..) Está bom? Sou eu. Não, não é para fogos. Olhe, é preciso tomar providências quanto aquelas holandesas do barco, está a ver? É o Estado que está a ser gozado, sim, uma provocação. Uma questão de imagem. Segurança nacional. Sabe o que isso me toca. Avance, tem a minha cobertura.
E3 ? Mas, para que é que eu tenho a cobertura de V.Exa?
E1 ? Impedir que elas façam seja o que for, não quero é chatices, nada de violência, Ok?
E3 ? Mas, eu no mar não posso fazer nada; em terra é com os portos?talvez o meu colega dos portos?.Claro que com todo o meu apoio, o que for preciso?..
E1 ? Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

3ª Chamada
E1 ? Está? Sou eu. Oh Doutor, vamos ter atracadas umas (?.) num (?) você sabe o que é. É preciso não deixar.
E4 ? Não deixar o quê?
E1 ? Sei lá, atracar, desatracar, embarcar gente, desembarcar gente, isso assim?.Segurança Nacional.
E4 ? Mas como? Temos Schengen, as livre circulação na Europa, essas coisas. Só se o barco contivesse matérias perigosas, sei lá, ou se a tripulação não tivesse as qualificações, se houvesse um desvio, sei lá?
E1 ? Olhe que são mulheres e você sabe que (ruído de ligação que tornou inaudível toda a frase).
E4 ? Não, não posso. A última vez que encerramos os portos aos holandeses eles andaram a roubar as nossas naus durante 100 anos? Mas a questão não tem a ver com o aborto?
E1 ? É, segurança nacional, mas o que me chateia não é isso, são os eleitores da direita que acham que Portugal está a ser gozado se eu não fizer nada?. É o direito à Vida, está a ver?
E4 -E o que é que têm a ver os portos com isso? Parece ser mais adequado para a Justiça?
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

4ª chamada
E1 ? Olá doutor. Sabe aquilo do barco das holandesas? Queria que me resolvesse a coisa. Segurança nacional.
E5 ? Resolver? Resolver como?
E1 ? Fazer qualquer coisa para não sermos gozados, está a ver?
E5 ? Mas só se estiverem fora da nossa Lei, carago. E não estou a ver?.porque elas não vão fazer abortos no cais, está a ver?. E no mar o barco é como se fosse Badajoz, na Holanda, claro?. Nós também não podemos ir a Badajoz prender quem os faz ou desfaz, melhor dizendo. Só podemos actuar se houver violação da Lei.
E1- Então arranje uma lei que seja violada?(risos)
E5 ? Talvez pela saúde pública?(silêncio). Salvo melhor opinião de V.Exa acho que é coisa para a Saúde.
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

5ª Chamada
E1 ? Viva doutor, sou eu. Questão de Segurança Nacional. É para que deixe o resto, que se há-de resolver por si e pelo Mercado e mande alguém inspeccionar milimetricamente o barco das holandesas abortadeiras. Zulu.Temos de encontrar qualquer coisinha para as recambiarmos, carago. Desculpe, que acabei de falar com um colega seu do Porto.
E6 ? Mas preciso de um mandato, de uma denúncia, de qualquer coisa?. E só tenho autoridade sobre instalações que estejam em funcionamento médico-o-sanitário no país. Nas águas internacionais é uma questão com a Holanda, um caso internacional. Como os médico-sem-fronteiras, acho. Talvez os Negócios Estrangeiros?
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

6ª Chamada
E1 ? Oh doutor, ando aqui de ricochete por causa do barco do Amor, quer dizer do Aborto. Todos dizem que é uma provocação e por aí fora, mas ninguém se quer meter no caso. É internacional, não é? Segurança nacional.
E7 ? Pois, podemos sempre fazer um protesto. O difícil é o conteúdo do dito. Sobre o que é que protestamos?
E1 ? Tudo aquilo é um protesto, um protesto da esquerda, está a ver. É um barco só de mulheres, está a ver, bonitonas, malucas, quer dizer, calculo. Isso é já uma provocação, não?
E7 ? (ruído não identificado) Pois é, as holandesas são assim,,, Mas vêm cá como, para trabalho?
E1 ? Hum, não é bem, é mais para conselhos, sei lá, educação sexual, parece, mas não me diga agora que quem pode resolver isso é a Educação, ou o finado Trabalho, que consegui que fosse reduzido à sua insignificância (risos).
E7 ? Não, não. Mas se não vêm em trabalho, vêm em turismo. E até se pode virar o bico ao prego, explorando lá fora as potencialidades do país para grupos de esquerda que queiram participar nas faltas do nosso sistema de ensino, ou de planeamento familiar, ou em história das ideias do século XIX?.uma espécie de actividade radical, está a ver?
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

7ª Chamada (em particulares más condições de gravação)
E1 ? Oh doutor, já é (?.) a quem recorro para me resolver a (?) do aborto (?.) das holandesas. E você tem (?..), porque foram os seus pios boys é que morderam o isco dos BEs e se puseram a gritar. Eu por mim, assobiava para o ar?mas vocês (?.) se lhes falam em VGI, IGV ou IVG ou lá o que é. Segurança (?..)
E8 ? Ó (?.), não seja assim! O que é que queria que os (?.) fizessem? Badajoz é Espanha e eles são discretos. O que Portugal não pode permitir é o escândalo. E contrariar o direito à vida é um escândalo, uma barbárie, uma (??..) que acabar.
E1 ? Não me (?..) a música e a letra de cor.. O que é é uma chatice, uma vez que eu estava a contar que o assunto estivesse arrumado, não é, pelo (?.) e agora vêm estes (?..), o PS distraído com os jogos
E8 ? Olímpicos?
E1 ? Nada, os socráticos, mas o barco, com as coisas a arrancarem (?.) fazerem esta (?..). Você não consegue virar o bico ao prego?
E8 ?Eu? Eu não posso, está a ver?.coerência?.Mas isso tem a ver com a cultura do país, não tem? A cultura da Família, o planeamento familiar, o sexo, erotismo, espectáculo, strip e essas (?.). Já falou à cultura?
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

8ª chamada
E1 ? Viva doutora querida Amiga . Tenho um desafio giro para lhe fazer. Resolva-me o embrulho do raio do barco do GVI, IGV ou lá o que é, com nível, tá bem? ´R questão de Segurança nacional.
E9 ? Eu? Mas eu só sei de antiguidades e história e arte e espectáculo e mais não sei o quê. Disso não percebo nada. E terei de estudar, com os meus assessores e alguns consultores internacionais, a melhor atitude, o que requer a triplicação do orçamento para o próximo ano e, pelo menos, dois anos de investigação. Cultura é assim mesmo, para ser séria e não ser tudo feito em cima do joelho,de Claire (risos).Já experimentou a Agricultura?
E1 ? O que é que a Agricultura tem a ver com isto?
E9 ? Não sei. É uma proposta provocadora, um projecto de rotura com a convenção. E o barco parece uma traineira, não é? Então?pescas. E aquilo lida com fetos, não é. E os fetos são verdes e uma das causas dos incêndios das matas, não é? Então?.
E1 - Hum, não está mal visto. Vou-lhe ligar. Mas fique de olho. E imponha a prevenção vermelho. OK?
(desliga)

As cinco chamadas seguintes, por razões técnicas (hora de almoço do funcionário) não foram gravadas.
Apenas existe mais uma última chamada que não tem réplica nem diálogo, ou seja, onde apenas o Escutado 1 fala:

E1 ? Telefonista do dia? Ligue-me à minha secretária do dia, para ligar ao chefe de gabinete do dia para convocar um (?.) extraordinário para resolver a situação de emergência quanto à Segurança nacional que se criou, pois está tudo em alerta vermelho, OK?

ASP









Olhar Ruminante 815
Que patos?.!


O movimento pró-IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez) resolveu para publicitar a sua causa convidar a associação Women on Waves, que actua num barco tripulado por mulheres e que tem a bordo meios clínicos ginecológicos para provocar abortos em mulheres que o queiram até às 6 1/2 semanas.
Na Holanda isso é perfeitamente legal. Mesmo em Portugal esse prazo, em caso de malformação do feto, risco de vida da mãe ou violação, é inferior ao permitido.
O barco pediu autorização para atracar na Figueira, mas o Governo português negou-lhe o acesso, com uma argumentação pouco clara. Só o poderia fazer por razões de segurança nacional ou de perigo para a saúde, o que não é claramente o caso.
Evidentemente que o Governo fez foi contribuir para a publicidade da Causa, tornando assunto das manchetes um caso que teria normalmente passado desapercebido. Quanto mais reagir, melhor para a divulgação da causa dos defensores da IVG.
Ouvi, da arte de uma tia ferozmente anti-aborto uma argumentação extraordinária: ?Então havíamos de aceitar no nosso país pessoas que não respeitam a lei portuguesa??.
Como apenas mais 3 países na Europa partilham lei semelhante à portuguesa no que respeita o IVG, ficávamos sem turistas?.

ASP



Uma Campanha Alegre 24
O que difere, de facto


1. As moções

Li as três moções de orientação estratégica dos candidatos a secretário geral do PS.
Todos dizem, mais ou menos, as mesmas coisas. Partido de esquerda, papel regulador do Estado (mais ou menos intenso, consoante o autor), função social do Estado, as finanças ao serviço da economia e não o contrário, esta ao serviço dos cidadãos e não o contrário, sustentabilidade nos programas económicos, política de qualificação nacional, educação, ensino, etc, etc.
Os principais apoiantes têm muita influência nas moções de estratégia geral, quando não são mesmo eles a redigi-las e como há muita boa cabeça em todas as candidaturas, o resultado são três textos de qualidade e muito parecidos.

Os comentadores e ?opinion makers? ficaram, assim, um pouco frustrados em não encontrarem bem patenteadas nas moções as presumíveis nítidas diferenças de ?esquerda? e ?direita? que , de forma simplista aliás, tinham previamente decidido existirem.
Ora as diferenças de ideologia e de estratégia entre as três personalidades, resultantes do seu percurso políticos e das suas relações pessoais de amizade e confiança, não se encontrarão no seu discurso, mas sim noutras sedes.

2. O Pântano

Por exemplo, é determinante para se perceber e situar os candidatos, referi-los ao chamado Guterrismo, especialmente do período do 2º governo, aquele que o próprio Guterres classificava como ?o Pântano?.
Pântano significava essencialmente imobilismo e corrupção.
Já vinha de trás, do Cavaquismo, mas foi no 2º governo de Guterres que ele se consolidou, foi mais visível e permitiu a sua continuidade no actual Sistema, agora generalizado a todo o país.

3. O Aparelho

Diz-se que quem dele foi o principal responsável e o adoptou como ecossistema ideal para os seus intuitos, foi o chamado Aparelho, ao fim e ao cabo as chefias intermédias da estrutura do partido, num processo lento de conquista de poder, desprovido de ideologia, para a partir desses postos de controlo e organização, consolidar situações de poder pelo poder ou ?subir na vida?.
Passou-se de um política de serviço à Nação, via partido, para uma de carreira pessoal, via partido.
Este Aparelho corresponde, no PS, a uma minoria, mas facilmente assume a direcção dos acontecimentos para, mantendo o formalismo nos processos eleitorais e por vezes mesmo a aparência de participação, manter o status quo, que lhe é favorável. È especialista em ?golpes de secretaria? e acha firmemente que os fins justificam os meios. É nesse Aparelho que se concentram os agentes dinamizadores do chamado Bloco Central de Interesses. Ideologicamente cinzentos ou arco-iris, dependendo das personalidades, usam o Estado com pretexto para os seus negócios.
Estão em todos os partidos, especialmente nos de Poder, ou seja, PSD, PS e, hoje em dia, PP, dada a boleia que Durão lhe deu.

O Aparelho é uma força política considerável. Nem Guterres, nem Ferro, ambos políticos honestos, o conseguiram controlar. Submisso ao poder enquanto lhe convém, não hesita em mudar de chefe e de dedicação se ameaçado. Foi admirável a rapidez com que passaram de Guterres para Ferro e deste, aparentemente, para Sócrates.
Deixando sempre para trás os que, por razões políticas genuínas, acompanharam os lideres, normalmente apelidados de idealistas, o que para eles significa idiotas.

44. As diferenças

A conciliação, a negociação, as meias-tintas, o unanimismo, nunca resolvem este tipo de problemas, fundados em interesses pessoais fortíssimos.
Alegre e Soares prometem roturas. E é gente capaz de as fazer. Roturas para se sair do Pântano.
A fauna que vive do Pântano não quer, claro.
Sócrates garante a continuidade. Mas a continuidade é o guterrismo, mas com um líder de menor qualidade que o anterior. E o guterrismo, especialmente depois de ter deixado criar o tal Pântano, não consegue garantir outra coisa que não seja mais pântano.
Por muito que muitos dos que acreditam na 3ª via ou no socialismo dito ?moderno?queiram contrariar.
Trata-se de uma questão de sobrevivência do Sistema de Interesses. Da Política de conveniências.
É isso, essencialmente, que está em confronto nestas eleições: uma política de ideais versus uma política de conveniências. Uma política imbuída de uma ética de serviço público, versus uma política de gestão de interesses pessoais e de lobbies.
E será em torno desta problemática concreta, de se conseguir ou não, alterar a estrutura, os procedimentos de participação e o sistema de poder interno no Partido, que se conseguirão encontrar as verdadeiras diferenças nas candidaturas.

Claro que há ideias, também. Ninguém corta a raiz ao pensamento. Mas, de facto, em termos políticos, elas não variarão muito de grupo para grupo. Porque mesmo os mais idealistas em torno dos princípios socialistas, sabem que o contexto obriga a bom senso e a pragmatismo.
No fundo é tudo uma questão de intuitos.

ASP

quarta-feira, agosto 25, 2004

Uma Campanha Alegre 23
Tiro-lhe o meu chapéu, oh Nuno

Sim senhor, tiro-lhe o meu chapéu, ao professor Nuno Gaioso Ribeiro, de quem nunca tinha ouvido falar, mas que no artigo do Público de hoje ?A Máscara dos Socialistas? consegue demonstrar que é possível aliar uma extensa erudição a uma sólida cultura.
Peca, talvez, pecha do academismo, por usar uma terminologia apenas acessível sem dicionário talvez a menos de 2% dos portugueses. Mas consegue exprimir-se de forma a que, quem conseguir chegar ao fim do seu texto (os tais 2%) tem de considerar a grande categoria intelectual do autor e reconhecer que a sua análise tem bondade intrínseca e muitos pontos para reflecção mais prolongada.

No fundo trata-se de uma visão da política actual como uma actividade que se auto-sujeita às leis do Mercado, sem ideologias, esgotando-se a militância partidária na definição de uma estratégia comum: a maximização do resultado eleitoral.

Para Portugal, em concreto, considera que vivemos em duopólio repartido entre os dois partidos de massas PSD e PS, transmutados em catch-all parties, ideologicamente despidos, dando vida à premonição schumpeteriana de que a política se limita à actuação no mercado do bem-voto.
Reconheçamos que o linguajar é denso. Mas a análise é correcta.
Para a Campanha, não resisto a transcrever mais dois parágrafos:
José Sócrates é como uma máscara sem cérebro que procura ocultar o vácuo ideológico com promessas de ?modernidade? e ?moderação?. Ilusão tão impossível quanto paradoxal, pois a corrente (mesmo torrente) de apoios do bafiento aparelho do costume desilude qualquer esperança de ?renovação? ou de ?modernidade?.
Claro, o Aparelho e o seu abraço de boa constrictor a quem lhe pode servir.
Já Manuel Alegre é como um cérebro à procura de nova máscara....Compete a Alegre duplamente demonstrar que formação de saber e formação de poder constituem uma unidade indissolúvel, a bem do progressos das sociedades contemporâneas.
Para a Campanha será pouco útil o texto. Duvido que uma grande maioria dos votantes socialistas consiga sequer tirar o sentido geral do texto, votando mais a olhar para o próprio umbigo do que para o parecer dos sábios nas suas torres de marfim.
Mas sendo tal um dado da questão, há que dizer que neste mundo onde raramente um académico ultrapassa a mediocridade cultural geral, dá gosto ver um professor de carreira com espírito tão lúcido num linguajar tão denso.
Parabéns ó prof, sejas lá quem fores....

ASP

Olhar Ruminante 814
As cortes pessoais

Ficou o burgo indignado com os considerados excessos na constituição do gabinete do Primeiro Ministro Santana Lopes: 13 secretárias pessoais, não sei quantas secretárias impessoais, 18 guarda-costas, ?n? motoristas e por aí fora.
Isto para coordenar o inferninho que deve ser este Governo.
Poucos sabem que tal é uma ninharia, comparado com o Inferno propriamente dito.
Segundo um especialista na matéria (hoje chamar-se-ia consultor), João Wierus, em 1563 a corte de Satanás era constituída por 7.405.926 diabos, divididos em 1.111 legiões de 6.666 elementos. O ?gabinete? do líder é constituído por 7 reis feudatários, 6 príncipes, uma arquidiaba, 5 grandes mestres, 23 duques, 13 marqueses, 10 condes, 11 presidentes, 1000 altos dignitários a cavalo, 5 chefes de governo, 1 chanceler, 1 tesoureiro, 1 chefe de polícia, 1 general, 1 almirante, e imensos mestres, servos, eunucos, superintendentes, fornecedores, cozinheiros, dispenseiros e camareiros de 1º e 2º grau.
Hoje parece que aumentou consideravelmente, com inclusão de algumas categorias à data inexistentes, como cantores rock lusitano, jornalistas de escândalos e yuppies de sucesso.
De notar a coincidência dalgumas categorias com o caso português, nomeadamente de altos dignitários, agora não montados, cozinheiros, dispenseiros, tesoureiro, um chefe de polícia, servos, superintendentes e até de um chefe do governo.
De ressaltar a excepção de membros da nobreza, dos reis feudatários e de eunucos.
Há dúvidas quanto aos presidentes e à arquidiaba.

ASP

terça-feira, agosto 24, 2004

Uma Campanha Alegre 20
Filósofos

?Tudo se transforma, nada é?(Platão, c. 390 a.C)
? O que é ser?? (Aristóteles, c. 330 a.C)
?Entendo a suspeição subjacente à pergunta formulada? (Sócrates, 2004 d.C.)
?Se seguirem o meu conselho, pensarão pouco em Sócrates e bastante mais na verdade? (Sócrates, c. 395 a.C.)

ASP




Uma Campanha Alegre 20
Filósofos

?Tudo se transforma, nada é?(Platão, c. 390 a.C)
? O que é ser?? (Aristóteles, c. 330 a.C)
?Entendo a suspeição subjacente à pergunta formulada? (Sócrates, 2004 d.C.)
?Se seguirem o meu conselho, pensarão pouco em Sócrates e bastante mais na verdade? (Sócrates, c. 395 a.C.)

ASP




Uma Campanha Alegre 19
A Sócrates o que é de Sócrates

a) Os guardiões

Sócrates não é particularmente dotado para o discurso político. Por exemplo, não parece ter sentido dizer que não há crise de identidade do PS, quando os seus dois adversários não se cansam de proclamar que não percebem qual a concepção do partido que Sócrates defende, afirmando que aquilo que conhecem corresponde a uma descaracterização do que eles entendem dever ser o PS: um partido de ideais e de causas em abono de uma sociedade mais igualitária, de maior liberdade e funcionando de forma mais solidária.
Sócrates acusa os seus opositores de, como ?guardiões do templo da ortodoxia (socialista)?? fazerem ?o papel ridículo de conservadores de um museu que já ninguém visita?, cortando radicalmente com o socialismo pré-Guterres e a sua dedicação vocacional ao ?mais explorados?.

?Era o que faltava que o PS tivesse uma política de classes revisitada?, diz, tendo-se decorrentemente comprometido a ?reduzir as desigualdades sociais, falando para toda a gente e não apenas para os mais desfavorecidos?.
As frases ou são vazias de sentido ou contraditórias nos conceitos.
Ou será que Sócrates ainda está apegado à visão (anti)marxista da política e não encontra noutras dialécticas a não ser a do trabalhador-patrão o entendimento do decursos dos fenómenos sociais? Mesmo os guardiões de mais de 90 anos já estão noutra, meu!
Eu gostaria de ver as famílias (para não incorrer na antiqualha de dizer as classes) mais favorecidas (leia-se endinheiradas) ouvirem, convencidas, os esquemas de Sócrates para reduzir as desigualdades sociais?.
Isto não é socialismo moderno, é surrealismo político!

Para Sócrates o que é novo, moderno, será forçosamente melhor. Está no espírito do tempo, das marcas, das novidades, da pressão do mercado.
Mas não é verdade em política. Nem a novidade ser forçosamente melhor, nem que ela se deva reger pelo Mercado (dos votos). A política deve ser a forma de por em prática um ideal sobre a sociedade e a forma de a governar. Mas primeiro é preciso formular, bem claro, o ideal. Se não o meio torna-se fim.
Assim pensam os guardiões do socialismo e da democracia. E só saíram do seu estado de vigilantes para encetarem o combate, porque o socialismo e a democracia por que lutaram, está, de facto, a ser ameaçado, até por ?modernices? a que se não percebem bem os contornos, dentro do seu próprio templo , o PS.

b) Assis

A explicação de Francisco Assis (não, não é de Assis, esse era outro) quanto à razão profunda dos ataques a Sócrates: ?..são o sinal de que as pessoas já perceberam que José Sócrates vai ser o próximo secretário-geral do PS?.
Elementar, meu caro Watson. É o grande síndrome dos socialistas, o gosto no ataque aos secretários gerais do Partido, neste caso por antecipação.
Com Ferro o grande ataque terá vindo mais de fora, mas nunca se sabe.

c) Necessária uma postura platónica, Sócrates

Parece que perdeu as estribeiras, diz o Expresso, quando um assistente à sessão de esclarecimento em Évora lhe perguntou qual a sua política de alianças e reagiu dizendo, tenso, que ?entendia a suspeição subjacente à pergunta formulada?.
Depois, não respondeu, ou melhor, disse a frase 112 para não ficar calado: ? Nada direi nesta campanha que possa enfraquecer o PS?.
Acho bem.
Mas ou eu estou tapadinho de todo ou não percebo nada, nem de suspeição subjacente à pergunta, que se me afigura natural, nem em que é que uma resposta poderia prejudicar o PS. Em Évora, deve ser do calor, os raciocínios são complicados.
Um tal Cabeça, alentejano, apoiante socrático e socialista moderno, esclareceu tudo: ?É evidente que nesta campanha se nota o dedo maçónico e haverá rupturas inevitáveis?.
Está tudo esclarecido, pois?.


ASP

Uma Campanha Alegre 18
Mas o que é isso do socialismo?
(continuação da 16)

O lema fundamental do neo-liberalismo é que ?só se pode repartir o que existe e, portanto é prioritário primeiro aumentar a riqueza, para depois a poder dividir?.
Um bom slogan. Evidente e simples.
Mas contém falácias:

a primeira é que nunca se está no nada e se parte sempre da existência de qualquer coisa, cuja repartição pode ser feita por critérios sócio-económicos ou apenas económicos; ou nem isso;
a segunda é que a política e o poder devem estar ao serviço da sociedade e não somente da economia. Esta deve estar ao serviço da sociedade e não o contrário;
a terceira é que, economicamente, está provado que uma repartição justa das mais valias criadas é um poderoso incentivo à produtividade; é perfeitamente possível aumentar o produto nacional a par de uma mais justa distribuição da riqueza criada, nomeadamente através de uma política de incentivos não só ao capital, mas também aos outros elementos dos processos produtivos, nomeadamente a inventividade, o trabalho e o saber;
a quarta é que, hoje em dia, a riqueza deixou muito de ter a ver com o produto, mas sim apenas com o dinheiro, sendo o dinheiro gerado principalmente pela especulação e pouco tendo a ver com a produção;
a quinta é que a experiência diz que quem avança com esta frase, de forma geral está apenas preocupado em subir na vida e usa frases deste tipo para auto justificar esse seu egoísmo e convencer as massas que, por trás da defesa dos interessas das oligarquias, há uma estratégia social.

É uma tendência globalizante, esta de os aspectos financeiro-contabilísticos se imporem sobre os económicos. E é essa tendência que está a criar as crises de desemprego e toda uma nova ética social e política em que o socialismo trabalhista se não soube ainda colocar.

Tal conduz à noção do político apenas como gestor da Coisa pública, para lhe aumentar a eficiência e a produtividade e não, como anteriormente, como promotor de estratégias atinentes a um ideal de sociedade.

Para apoiar e conduzir políticas dentro destes conceitos, os do individulismo, da competição sistemática, do consumo, do crescimento pelo crescimento, do sucesso como fim de vida, há já partidos e grupos políticos suficientes, sob diversas designações. O seu ?créme de la créme?, está presentemente no poder em Portugal.
O que é esperável dum partido que se afirma como socialista é que proponha uma alternativa qualitativa a este estado de coisas, uma alternativa viável e tenha a capacidade de, pela competência e inteligência dos seus dirigentes, convencer a maioria dos portugueses que é possível e desejável avançar-se por essa via, em detrimento da que vem sendo prosseguida desde os meados dos anos 80.
E não apenas que o PS, se for para o governo, poderá ser mais eficaz na gestão do modelo existente, como parece ser, no fundo, o substrato da proposta de José Sócrates.


Claro que o PS deve e tem que demonstrar competência, inteligência e eficácia na governação e é-lhe exigido organizar-se através de critérios de mérito e não de conveniências ou outras afinidades.
Todos os candidatos concordarão com isso. Mas diz-me com quem andas e dir-te-ei como funcionas....
Não acredito que, se Sócrates ganhar, os ?apoderados? do Aparelho do PS, que, como a Ferro, lhe estão a dar um abraço paralisante, permitam qualquer partilha dos poderes que vão detendo, sem ser por exclusivos critérios de fidelidade ou conveniência, mandando a meritocracia para as urtigas.

O socialismo terá de se mostrar como alternativa conceptual, estrutural, ideológica, ética, ao status quo e não apenas uma outra forma, eventualmente mais operacional., de gerir a Coisa pública.
Essa noção do equilíbrio sustentável, na perspectiva da sociedade, entre a Liberdade, a Igualdade e a Solidariedade, para uma geral melhoria da qualidade de vida de todos, passando pela defesa preferencial dos mais desfavorecidos (explorados, minorias, velhos, etc) é que constituirá a essência do neo-socialismo.

Claro que, escrevendo isto, não estou a pretender dar lições de socialismo a ninguém. Apenas a exprimir o meu conceito e a propor que ele seja debatido e confrontado com outras formas de ver a correcta acção política, em termos dos seus objectivos finais. Dentro do quadro ético de ser preferível a cooperação à competição entre os homens e que o ideal da sociedade é ela ser constituída por pessoas que não encontrem a razão das suas diferenças na sorte, mas sim nas suas características individuais.
Pessoas a quem, na medida do possível, sejam dadas pela sociedade as mesmas oportunidades à nascença e o apoio necessário no que concerne os seus direitos fundamentais (saúde, alimentação, habitação, educação, trabalho, lazer, etc).

Terá José Sócrates do socialismo um conceito semelhante a este?

Parece, por algumas das suas afirmações, entender este ?socialismo? como coisa do passado, visões de gente ?do contra?, utopistas, intelectuais com laivos de inspiração marxista.
Parece menosprezar a questão ideológica em detrimento da demonstração de eficácia na tal gestão pública. E confundir ?socialismo? com a acção e os desígnios do PS.
Identifica o discurso dos seus adversários quanto a teoria e praxis socialista, se diversos dos seus, como ?lições? e considera-os insuportáveis actos de arrogância.
Diz-me a experiência que a boutade de ?A mim ninguém dá lições de...? esconde sempre algum sentido de inferioridade na matéria em questão, ao estilo do ?agarrem-me se não eu mato-o? esconder sempre o desejo de ser agarrado ou o ?cuidado, que sou um animal feroz? um implícito desejo de se não ser desafiado.

Mas confesso não ter bem a certeza se Sócrates pensa assim, de facto, ou se apenas fui induzido a tal pensar por deficiente leitura das suas afirmações.
Para o confirmar aguardo sempre com interesse as suas entrevistas e discursos.
Se Alegre e mesmo Soares são claros nos seus conceitos, Sócrates ainda o não foi.

ASP



Olhar Ruminante 813
Revista da imprensa de fim de semana

a) Ai Mexia!
O ministro, na entrega dos dois últimos dos 9 novos catamarãs da Transtejo, afirmou que os TP da Grande Lisboa viram descer a sua quota de mercado, de 1996 para 2003, de 51% para 37%. O investimento em transportes no mesmo período foi de 16.000Meuros, sendo 4200 Meuros na Grande Lisboa.
Razão para perplexidade, já que normalmente nos transportes aumentos da oferta geram aumentos da procura e não decréscimos. Mas na Lusolândia já nada me admira.
Contrariando isto, o INE, quanto a Mar04/Mar03, registou aumento da procura do metro de 9% e nos comboios suburbanos da Grande Lisboa de 5,2%.
Em que ficamos? Terá o anúncio da criação da Autoridade Metropolitana de Transportes, que até agora nada mais fez do que se ir instalando e é pouco provável que tenha meios para ir além disso, conseguido por si só inflectir a tendência?


b) Ai Lopes!
Ana Sá Lopes, uma das mais subtis comentadoras políticas do Público, analisou a carta de conforto que Santana Lopes enviou aos militantes do PSD.
Duas coisas pôde concluir:
-que Santana nunca tinha tido medo e também agora queria que os seus correligionários soubessem que também não tinha. Calcula-se que se referisse ao ?animal feroz? que se candidata para o PS.
- que conta com os laranjinhas para ?no seu dia-a-dia, quando virem pessimismo, derrotismo, conformismo, dizerem alto que o futuro é um tempo melhor?. Complementarmente podem entoar cânticos, juntar as mãos, usar cilício, vestir-se de açafrão ou rapar a cabeça. Se seguirem esse conselho, Portugal vai-se tornar ensurdecedor.

c) Ai Silva!
O artigo ?Os invertebrados? de Augusto Santos Silva, no Público, espantou-me, positivamente.
À frente permito-me extrair duas ou três frases desassombradas.
Não concordo, contudo, com a generalização da última, a dos invertebrados. No caso do PR, por exemplo, não se trata de uma questão de esqueleto (moral, entenda-se), que creio ter bem sólido, mas sim de uma questão de feitio e de leitura minimalista dos seus poderes. Os resultados podem ser os mesmos, mas as causas são diferentes. Nas outras altas posições do Estado, tem dias e tem casos, mas não dá para generalizar, Augusto!

?É hoje claro que o processo Casa Pia tem dois tipos de vítimas e dois tipos de criminosos. Tem as vítimas da desprotecção do Estado e do abuso sexual; e tem as vítimas da difamação e da calúnia?Tem como criminosos, os autores dos abusos e os autores e difusores das calúnias?.
? A triste realidade é que temos hoje, nas mais altas posições do Estado, aquelas que garantem o regular funcionamento das instituições, seres invertebrados?

d) Ai, ai, Lopes!
Foram quase 200 subtis nomeações de santanetes e santanettes para gabinetes e gabinettes do Governo. Pela modorra do Agosto, com a gente na praia, a ver se não dava tanto nas vistas. Só secretárias pessoais do Pedro são 13, que ombreia com o harém do emir Al Maha xo. Depois há as do Paulo e de todos os santos, amén. Secretárias e secretários, adjuntos e adjuntas, guarda-costas e garda-frentes, assessoras e assessores, motoristas e motoristos.
É o primeiro passo para o combate ao desemprego que o Governo diz querer travar.

e) Ai, ai Almeirim
Almeirim vai certificar as caralhotas locais. São pães, senhor.

f) Ai, ai Coutinho
Um comentador em Estado Crítico, no Expresso, JPCoutinho, descobriu, não sei de que maneira, as cabalas de que Ferro se queixa.
Segundo ele são duas, uma interna (ao País ou ao PS?), para o liquidar e outra dos USA, devido às suas posições anti-Iraque, não diz bem para quê, já havendo a primeira. Um caso de descoordenação anti-férrica.
Claro que são aleivosias corrosivas do comentador em Estado Crítico, esperáveis no 24Horas, no Crime ou no Correio da Manha, mas que tem direito à página do editorial do Expresso. Confessa o dito que a fonte foi o Correio da Manhã. Diz que ?percebe porquê? mais ninguém ter glosado o tema.
Eu não.
Começo a perceber é porque o Expresso já não é o que era.

g) Ai, ai, Alqueva, que tão mal estimado és
Santana vai repensar o Alqueva, ara o por na rota do desenvolvimento. Vai ser um grande ?détour?. A dúvida parece ser entre os desportos náuticos (talvez para regatas transoceânicas, que é o que está a dar) ou o golf. Segundo os meus cálculos deverá dar aí para um 1000 greens de 18 buracos. E para alimentar a rega poder-se-á fazer um transvase de zonas onde haja cheias; ou importar um iceberg dos grandes antes que venha uma glaciação.
O que é preciso são ideias, pá.

ASP

sexta-feira, agosto 20, 2004

Uma Campanha Alegre 17
Tipologias de políticos

Mete-me impressão a sanha com que os jornalistas abordam Alegre em torno da sua predisposição para ser primeiro ministro.
Ele já lhes disse que era cedo para tal definição; que se fosse Secretário Geral assumiria todas as responsabilidades que o partido lhe incumbisse; que pensava convocar um congresso para, antes das eleições legislativas, democraticamente se tratar da questão do programa e constituição do governo; etc, etc.

Mas nada os satisfaz.

Para o público a notícia é quem é o candidato a PM e os jornalistas têm que fazer a notícia à medida da satisfação do público. A informação é suplementar.
Também não lhes passa pela cabeça que alguém possa querer fazer política apenas por ideal, por causa ética ou cívica e não para ascender aos mais altos lugares do poder nacional. É como se todo aquele que pratica desporto tivesse obrigatoriamente de estar a treinar para uma medalha nos Jogos Olímpicos.

Tem isto a ver com a existência de dois tipos de ?político?.
O que tem um projecto, um ideal social, uma causa e que pretende o poder para tentar desenvolvê-la em concreto; e o que, prioritariamente quer o poder, pelo poder, na melhor das hipóteses no pressuposto de a partir daí conseguir bem gerir a Coisa Pública, dada a sua auto-convicção de, por ter tido sucesso na ascensão política, será melhor do que os outros nessa tarefa.
O primeiro tipo recolhe a sua compensação na noção de serviço para com a sociedade; o segundo, na sensação de sucesso pessoal e nas compensações materiais que lhes estão acopladas. Alguém que aceite ser, por hipótese, ministro de um sector para que não tem ideias, projectos ou conhecimentos apriorísticos, é um político deste segundo tipo.

O actual governo está cheio deles.

Na verdade em todos os políticos coexistem, em percentagens variáveis, estes dois paradigmas, de forma simplificada referíveis como os idealistas e os carreiristas. Felizmente são pouquíssimos os exemplares puros de qualquer das espécies, a não ser desta última nos aparelhos dos partidos de poder e nas cortes dos respectivos lideres partidários.

Os idealistas puros acabam normalmente suicidando-se.

ASP

Uma Campanha Alegre 16
A mim ninguém me dá lições


Vi como grande título na primeira página do DN, associada a José Sócrates, a frase : ?A mim ninguém dá lições de socialismo?.

Intrigou-me.

Porque, não tendo uma interrogação no fim, não se trata de um pedido, de alguém que tenha de mostrar especialização numa determinada matéria em que se sente menos seguro e pede apoio.

Não sendo um pedido, poderia ser uma queixa, um lamento, o que teria algum sentido sabendo-se que Sócrates está a tirar um mestrado em, salvo erro, gestão e que, por hipótese, não haverá a cadeira de ?Socialismo? no curso, que lhe faria falta curricular, em termos académicos.

Mas não.

A frase era imperativa. Sócrates não quer, não permite, que ninguém lhe dê lições de socialismo. Presumivelmente assumindo, se necessário, a postura de ?animal feroz? face a alguém que tal, arrogantemente, o presuma.
Está no seu direito. Prefere, nomeadamente através do seu mestrado, lições de capitalismo.

Mas também não é claro o que considera ?socialismo?. Porque o nacional-socialismo do Hitler, o socialismo popular, o socialismo democrático, o socialismo directo, o socialismo cooperativista e o socialismo de Estado, por exemplo, são todos ?socialismos?, mas essencialmente diferentes.

Sócrates refere o seu como ?socialismo moderno?, o que aumenta a ambiguidade.
Parece ser uma reciclagem da política AG2 (do 2º governo de Guterres), uma política de pragmatismo em caldo de neo-liberalismo. Semelhante à 3ª via Blaireana. E não muito diferente do XV e XVI governos, se amaciados na sua obcecação do déficit.

Mas será?

(segue)



quinta-feira, agosto 19, 2004

Olhar Ruminante 811
A experiência das águas

António Sérgio dizia que ?o bom chefe, como o bom mestre, tudo devem fazer para se tornarem dispensáveis?.
Sampaio vem demonstrando a sua formação sergiana.
A continuar com as não-decisões recentes, a figura de PR vai, a prazo, demonstrar-se dispensável, salvo como referência respeitável e afectiva, como a bandeira e outros símbolos nacionais.
O medo ou o compromisso (qual não sei), esses grandes paralisantes, parece terem apanhado Sampaio e, quando sujeito a decisões que implicam roturas, segue, com gravidade, as leis da drenagem de líquidos, ou seja, pelas vias imediatamente mais fáceis.
A tendência tem, de facto, uma grande ascendência sobre Sampaio. Agarra-o, embala-o e sedu-lo.

O sistema judicial português está em cacos, desacreditado e não respeitado. A tomada de consciência que os seus principais garantes de isenção e equidade, afinal, usavam os seus privilégios para perseguições de natureza pessoal, deu-lhe o golpe final.
O PGR apenas estrebucha e vêm-se-lhe na imprensa acusações impensáveis num Estado de Direito, como ele estar ? desesperadamente acaparado ao seu lugar de procurador geral, mesmo sem dignidade nem decência? (Fernando Rosas, Público, 18Ago). O bastonário da Ordem dos advogados, ilustres professores de Direito, respeitados senadores da República, pedem a sua demissão.

Quando se esperava que o órgão do Estado hierarquicamente superior viesse por cobro a esta situação, e substituisse o PGR, máximo responsável pela enorme lista de escândalos processuais, que não foram inocentes e objectivamente visavam prejudicar determinadas pessoas e legítimos interesses, o PR nele reforça a sua ?confiança?, como se nada tivesse acontecido e tudo o que se passou (e passa) mais não fossem do que faits divers, que nem beliscaram a figura do magistrado, nem afectaram a confiança geral na Justiça.
Mas não é isso que acontece.

Porque o rol de escandaleiras que se vem conhecendo na Procuradoria não pode ficar sem responsáveis. Lembremo-nos das escutas ilegítimas, das fugas de informações laterais às investigações para penalizar o líder da Oposição, dos altos funcionários que vendiam informações privilegiadas, que faziam desaparecer processos contra dinheiro e que praticavam actos de pura vigarice; recordemos as sucessivas fugas ao segredo de Justiça, que afinal se soube serem canalizadas exactamente pela assessora de imprensa do próprio Procurador; lembremo-nos do espírito persecutório contra os lideres do PS no processo da pedofilia; lembremo-nos das dualidades de critérios, por exemplo apensando ao processo denúncias anónimas objectivamente desprovidas de verosimilhança, mas ignorando as denúncias do blog Muito Mentiroso, que foi calado, aparentemente por conter acusações a gente da própria PGR; pensemos nas contradições frequentes nas entrevistas do PGR, o que indicia que ou ele desconhecia o assunto e se devia calar, ou se o conhecia as fez deliberadamente, o que é mais grave.
A lista é imensa.
Tudo sob o mais seráfico sorriso do PGR e a recorrente promessa de ir proceder aos mais rigorosos processos de averiguações!
Que nunca chegaram a conclusões, evidentemente.

Sampaio continua respeitável e respeitado. Mas tem desiludido muito quando tem que passar dos conselhos e análises teóricas, onde se multiplica, para a acção concreta, que, objectivamente, detesta.
E aí, contrariado, deixa fluir o caudal das coisas.
Como quem não tem poder para alterá-las, como quem não quer assumir o poder que detém e passar pela História apenas como um português suave, honesto e simpático.
Mas estas coisas, o descrédito das instituições, a corrupção, o desnorte, a libertinagem, etc, são como os cancros a que se tem de atalhar o mais cedo e fortemente possível. Se nada se faz, espalham-se e são fatais.

Justifica o PR a sua decisão com a estabilidade. Mas confunde estabilidade com continuidade. Porque uma Justiça em descrédito público nunca constitui base para qualquer estabilidade cívica ou política. E como a estabilidade, neste momento, neste país, é a das águas paradas (de pântano, dizia Guterres), a sua continuidade só agravará a sua putrefacção.
Antes que se transforme inteiramente em fossa, há que agitar as águas e usar muito, mas mesmo muito, oxigénio, que neste caso é a coragem de assumir e dizer a pura e dura verdade, sem verbalizações ou rodeios.

Há que garantir que quando um português diz que ?acredita na Justiça, em Portugal?, o diz com convicção e não por conveniência ou hipocrisia.
ASP

A tempo:
A destruição pelo Correio da Manhã dos originais das cassetes é uma pouca-vergonha e uma obstrução à Justiça.
A somar ao que se tem passado neste país a nível de dislate e descaro dos detentores do poder.
Mas para o Zé, o interessante não é o importante. E sente-se mais à vontade a falar do Figo, do que dos seus direitos de cidadão.
Que acarretam deveres, de que n-ao gosta de ouvir falar
Já está habituado a queixar-se, que é a sua forma específica de cidadania.


Uma Campanha Alegre 15
Ponto de situação em 18AGO

Pelo andar da Campanha algumas conclusões se podem ir tirando:

a) o ímpeto de vitória com que Sócrates começou tem vindo a quebrar-se, tendo algumas sondagens a leitores de jornais e revistas (que, como é habitual dizer-se nestes casos, valem o que valem) reduzido a sua vantagem inicial e, nalguns casos, até o pondo a perder para Alegre;

b) João Soares vem recuperando, nessas votações, mas mantendo-se sempre em último lugar, por vezes não muito afastado do 2º;

c) A ideia inicial que as hipóteses de ganhar outra lista que não a de Sócrates eram quase inexistentes, começa a ser alterada. Para Alegre ou Soares ganharem bastará que Sócrates não consiga mais de 50% no escrutínio. Tal obrigará a 2ª volta e aí não é previsível que os votantes no candidato em 3º lugar votem em Sócrates; este é um cenário com boas probabilidades de poder acontecer. Lembre-se a primeira eleição de Soares para PR, contra Freitas do Amaral;

d) Já para o Congresso e para componentes da CN a coisa é diferente e haverá interesse em unificar as listas, porque aí funcionará o método de Hondt

e) Sócrates, mesmo que diga o contrário (que ainda não disse) é visto como o candidato da ?continuidade? do PS existente, que, por sua vez, é entendido como uma continuidade do Guterrismo. Infelizmente identificado com o 2º PS de Guterres, o do pântano e do lamentável congresso tipo norte-coreano, a sagração do aparelhismo. Esta continuidade não será só de estilo, de organização, de processos, mas também de protagonistas. Tal justifica a adesão imediata da maior parte das figuras que se satisfizeram com o 2º governo de AG e que, depois, continuaram nas mesmas condições, já que Ferro nada ou quase nada mudou;

f) Mas tal corresponde também a uma encarniçada recusa de muitos militantes que se deixaram de reconhecer nesse PS e que querem voltar a um partido de causas, de ideais e não apenas de conquista e gestão do poder, pelo poder;

g) A continuidade significa também a continuidade do sistema político-partidário existente, o do Bloco Central de Interesses, da opacidade dos esquemas de financiamentos partidários, da rotatividade em caldo de vazio ideológico, do profissionalismo dos políticos, o do carreirismo, o do cíclico assalto pelos boys ao Estado. Evidentemente que tal esquema agrada e convém aos ditos boys e a todos os que já consolidaram cargos ou funções interessantes no Partido ou fora, mas dependentes dele;

h) Mas mesmo nessa óptica oportunística e carreirista, há que considerar que tais oportunidades estão praticamente todas já ocupadas. Em continuidade. Às primeiras figuras é usual chamar-se-lhes barões, aparelho ou nomenklatura. Estão quase todos, quase, com Sócrates. Compreensivelmente. E não sairão para dar lugar a ninguém, por muito entusiasta e dedicado que possa ter sido do putativo líder;

i) Por outro lado, as perspectivas dessa ?continuidade? para quem discordava do ?pântano? de 2000/2001 não são nada animadoras; porque o país está mais pobre e a atrasar-se todos os dias; e porque Sócrates é, como político e como líder, apenas uma sombra de Guterres e não lhe são conhecidos, como a este eram, projectos e ideais concretos, bem como toda uma cultura e imagem de humanismo e de estadista que lhe criaram o reconhecido prestígio internacional de que disfruta;

j) Para a reorganização do Partido e para lhe recriar uma?mística? de vitória e de ?causa?, Alegre parece ser o melhor candidato; para a chefia de um eventual futuro governo, já Sócrates tem melhor imagem, pela mediatização da questão da co-incineração e dos debates com Santana Lopes. Soares vale-se da sua passagem pela Câmara de Lisboa, onde foi um bom presidente. Mas Alegre alega que não há qualquer obrigatoriedade do Secretário Geral ser o primeiro ministro e dá exemplos em Portugal e no Estrangeiro de situações deste tipo. Cravinho poderia vir a ter essa função; ou Vitorino ou Maria de Belém; ou muitos dos excelentes socialistas que apoiam Alegre (ou os outros candidatos) com mais provas dadas como estadistas e governantes do que Sócrates ou Soares. Porque só por sorte um bom Secretário Geral dum partido constitui um bom primeiro ministro de um governo. A solução de separar os cargos garante a melhor solução;

k) Sócrates tem fugido, até agora, de se expressar em termos ideológicos quanto à política que quer prosseguir; escuda-se com conceitos vagos, como o socialismo moderno, centro-esquerda, etc e quando instado sobre matéria concreta, por exemplo o papel do Estado, responde com lugares-comuns politicamente correctos, como com a função reguladora que ele deve ter; Alegre propõe-se rever e actualizar o socialismo, criar um neo-socialismo, á semelhança do neo-liberalismo existente. Coexistindo harmonicamente com o Mercado, mas sem esquecer funções fundamentais do Estado e que o Mercado e o Estado fizeram-se para o Homem e não o contrário. Menos flagrantemente, Soares alinha por discurso semelhante.

l) Em termos de cultura (não me refiro a erudição) há uma distância nítida entre Alegre ou Soares e Sócrates. Mas será que a cultura é importante para a generalidade dos militantes socialistas? O que quer, de facto, a maioria dos 75.000 votantes do PS? Cargos, poder, oportunidades de negócios? A partilha em conjunto de um projecto de sociedade melhor, mais solidária? Uma participação num melhor governo e gestão da Coisa Pública? Uma causa congregadora e justificativa de uma vida? Um sentido de pertença a um grupo de poder e de solidariedade? Uma ocupação para o tempo livre? Tudo isto um pouco?

Provavelmente

ASP

quarta-feira, agosto 18, 2004

Uma Campanha Alegre 14
Sobre o artigo de António Costa no Público de 17


Escreveu António Costa, no Público de ontem, uma defesa do candidato que resolveu apoiar, José Sócrates, com contornos de ataque e até ofensa a Manuel Alegre, apesar de ele próprio iniciar a sua exposição dizendo que o debate se deve centrar em ideias e nas intenções políticas dos candidatos e não na desqualificação do adversário.

Gasta assim Costa meio artigo a atacar Manuel Alegre, sem aduzir outra argumentação em concreto salvo a sua opinião, nomeadamente atribuindo-lhe um auto-outorgado estatuto de ?guardião do templo e de detentor da verdade sagrada.... que ciclicamente é chamado a esconjurar uma nova ameaça de descaracterização do PS?. Alegre tribuno do passado, voz clamando nos desertos em abono de noções ultrapassadas do socialismo, mero D. Quixote que se gasta em sistemáticas lutas ?contra moinhos de vento?.
Não refere se concorda ou discorda com a lutas travadas, de que destaca, sem ser compreensível, a ?destruição do sistema público de segurança social? de Ferro Rodrigues, o ?elitismo cultural arrogante? de Carrilho e a Declaração de Princípios, de Santos Silva, que insinua ter sido plagiada.
Sabendo-se que Carrilho e Santos Silva estão com Alegre, não se pode dizer que Costa tenha seguido o seu próprio conselho de não enveredar pela tentativa de desqualificação do adversário.
Os adjectivos são objectivamente desqualificadores e ofensivos até.

*

Costa não se desgosta ?contra? coisa alguma no Partido, em abono do que chama unidade.
A tónica geral é contra os ?pensadores?, os ?intelectuais? do Partido, os críticos, os que contestam o poder estabelecido, consubstanciados nos seus camaradas acima referidos, numa leitura pessoal da história próxima do PS , em que cada descontinuidade nas lideranças passadas terá sido uma ?fragilização? do partido, apesar de ser a partir delas que o PS se foi, de facto, afirmando como o grande partido que é.
E também num populismo que se lhe não esperava, quando os coloca em antítese com as ?raízes populares do PS?. Como se um partido não precisasse de ideais e de ideias sempre em renovação face à dinâmica dos tempos e apenas se pudesse basear numa cartilha fixa, tão desadequada que permite e patrocina todos os chamados ?pragmatismos?.
Um partido que não pensa, que apenas segue o seu catecismo primordial e aceita sem crítica as decisões das cúpulas, desvirtua-se e passa a constituir uma espécie de associação de apoio mútuo, um lobby ou um outro esquema para se fazer carreira e onde importam sobretudo os resultados, menorizando os aspectos éticos, os ideais e as causas subjacentes tradicionalmente à sua existência e funcionamento.

A História demonstrou que não basta o nome e mesmo os intuitos dos seus fundadores para os partidos serem, realmente, socialistas, isto é, virados para a sociedade e em especial para os mais desprotegidos, no sentido de uma crescente igualdade e de uma liberdade generalizada, num contexto de solidariedade, de cooperação e não de competição.
É necessário um permanente esforço de repensamento dos seus princípios, dos seus modos de actuação, dos seus objectivos e das suas estratégias, que adeqúem a acção política às realidades mutáveis de cada época e facilitem, quando tiver o poder, a efectiva realização dos seus objectivos.
A História também demonstra que é fácil, sem uma organização interna que incentive a dialéctica e o debate, os partidos transformarem-se em meros pretextos para carreiristas e oportunistas retirarem proventos próprios.

*

António Costa parece estar satisfeito com o PS que existe e supor que a maioria, se não a totalidade dos militantes, o acompanham nesta opinião.
Parece sempre ter entendido as críticas de Alegre como tiques de antigo combatente, sequelas de uma cultura de oposição.
Parece entender as críticas insistentes de Carrilho, Roseta, Magalhães, Neto e tantos outros, como tácticas de conquista de notoriedade, que, de facto, nunca lhes faltou nas respectivas vidas profissionais.
Parece não admitir que haja outras formas de encarar o PS para além da que o ?establishment?, a situação, entende como a ?boa?, a existente.
Parece nem sequer admitir que elas possam ser tão somente preocupações legítimas de militantes que têm todo o direito e até o dever de se manifestarem perante uma deriva do PS quanto a ideais e procedimentos. De militantes a quem não tem sido dada oportunidade de participarem consequentemente e que se vêm obrigados a organizarem ?clubes políticos? paralelos, para poderem discutir, sem pressões, os seus ideais e as suas ideias políticas.

*

Contra esta visão de Costa (e, parece, de Sócrates) de um PS óptimo, unido e adequado ao país que temos, há uma outra que discorda e mesmo alguns militantes, especialmente os mais antigos, que nem se reconhecem no actual partido.
Milhares de militantes querem mudança, mudança que Ferro prometeu e não fez.
Mudança daquilo que António Costa, exactamente, quer manter.
Mais do mesmo.
A que ?Sócrates saberá dar continuidade?.
A candidatura de Alegre procura, exactamente, congregar esse descontentamento em torno de uma reforma profunda, a começar no repensamento do que é ou pode ser o ?socialismo? hoje, abandonadas as raízes marxistas desde há muito, mas não esquecidos os seus princípios de solidariedade para com os explorados que lhe deram origem.

É certo que, como Costa, há muitos outros militantes que querem manter a continuidade do sistema, o que vem do tardo-guterrismo, o do ?pântano?, o do imobilismo de ideias e de acções concretas, o da falta de rumo e de objectivos nacionais, o dos esquemas da corte em que o partido se transformou.
Para muitos camaradas esse sistema foi pessoalmente vantajoso. Promoveu-os, protegeu-os, impedindo a ascensão e até por vezes a própria expressão no Partido de outros camaradas, quando e se em discordância com o status quo.
Lembremo-nos do último triste congresso de Guterres, com apupos a todos os que ?ousavam? discordar do cânon e mesmo as tristes cenas de, ?via secretaria?, impedirem a candidatura de Henrique Neto no Coliseu, faz agora mais ou menos dois anos. Era o ?establishment? em toda a sua glória, com 90 e tantos por cento de apoio ao candidato único. A unicidade que Costa diz não querer, mas que, de facto, no PS, apoiou e apoia.

É preocupante.

Esse Sistema, o da unicidade, baseia-se, também, no medo. Muitos militantes temem que, se não demonstrarem ?fidelidade? desde já ao putativo líder, poderão perder oportunidades na sua carreira política, no partido ou para lugares de ?boys? com que estarão a contar. É a visão do partido como corte, os militantes como cortesãos e a distribuição de cargos públicos como um mandarinato.
Não diferente do que se passa ou passou na coligação agora no poder e nas suas disputas internas recentes quanto a lideranças.

É preocupante.

*

Reconheço que não li nem ouvi todas as coisas que Alegre e os seus apoiantes têm dito sobre Sócrates. Não me lembro de nada que seja desprestigiante, nem de opiniões tão duras como a que António Costa avança sobre os camaradas acima referidos.
O que se tem dito e escrito sobre Sócrates, a quem ninguém retira qualidades pessoais e políticas, é que ele representa a ?continuidade? contra a ?mudança?, isto é, o continuar com a estrutura, a maior parte dos protagonistas e os processos que foram instalados há uns 7 ou 8 anos pelo grupo de aderentes a Guterres e continuados/consolidados por Ferro.
E que, por enquanto, pelo menos, nada de novo em termos de atitudes ou de ideias trouxe para debate, atitude, aliás, perfeitamente conforme o pressuposto da ?continuidade?.
Nenhum insulto, nenhum apoucamento, nenhuma ?desqualificação pessoal do candidato?, me lembro de ter visto.
Apenas o enfatizar das dialécticas ?centro, esquerda?, ?continuidade, mudança?, ?politica de conveniências, política de ideais?, "conservação, inovação?.
Dialécticas onde Sócrates está, inequivocamente, associado às primeiras partes dos binómios.

Alegre acusa o estado de coisas existente como não correspondendo ao PS que ajudou a formar. Por falta de ideais, por falta de intuitos de reformas sociais, por se ter cristalizado em meia dúzia de protagonistas, por demasiado carreirismo na sua estrutura, clientelismo no seu aparelho e uma obscuridade no seu financiamento que há que aclarar. Um PS de interesses e de conveniências e não de causas e de ideias de reforma.

Costa não concorda. Está satisfeito com o partido que existe. É compreensível.
Assunto arrumado.

*

Mas há mais. Tece António Costa, depois, considerações sobre o enlevo que tem para si uma maioria absoluta do PS, nas próximas eleições legislativas. Como se fosse desejo exclusivo de Sócrates e dos seus apoiantes e não de qualquer líder partidário em vésperas de eleições!
A maioria absoluta não é coisa que se obtenha apenas por se pedir, ou por se ambicionar. Guterres duas vezes e Ferro uma vez, fizeram-no e não a obtiveram. O PSD pede-a e quere-a sempre.
O partido não pode tão somente basear-se na fé de que vai ter uma maioria absoluta e, quando interrogado sobre o que pensa fazer se apenas tiver uma maioria relativa, dizer que ?hoje é consensual reconhecer o esgotamento do modelo de governos minoritários?.
O espirito de Alcacer Quibir deu no que deu. Sus, Sus, por S. Jorge não chega.
É ?tapar o sol com a peneira?, ou seja, afirmar lugares comuns para evitar revelar ausência de estratégia para tais situações.
A atitude política acertada é prever todas as hipóteses e, sem compromisso desde já, não fechar portas que, mais tarde, serão muito mais difíceis de abrir.
Mais do que uma maioria absoluta, que será sempre muito difícil de obter, o que importa é o PS conseguir governar e dinamizar os seus ideais e as suas ideias de governação. E governar com mais competência e transparência do que a actual coligação de Direita.

*

António Costa está no seu direito de preferir Sócrates a Alegre ou a Soares. Sendo aquele o candidato da continuidade e sendo Costa um dos principais agentes dessa continuidade, outra coisa não seria de esperar, até.
E é bom sinal, porque Costa tem sido um bom militante, foi um governante e deputado empenhado e competente e é positivo ver as grandes figuras do Partido distribuídas pelos vários candidatos.
Agora não deve é identificar as posições contrárias, as que querem mudança efectiva no partido (revolução chamou-lhe Alegre) como posições de barões utopistas ?arrogantes e aristocratas?.
Não está certo, até porque milhares de militantes de base partilham as opiniões de Alegre e do seu núcleo-duro de apoiantes, entre os quais estão variadas figuras que, como Costa, foram e são deputados nacionais e europeus, ex-ministros e protagonistas nos tempos que precederam os que correm. E que, como Costa, foram e são competentes, dedicados e merecedores da nossa consideração.
O apelidá-los de arrogantes, guardiões do templo ou de barões é não só injusto como ofensivo.
Não havia necessidade, como dizia o outro?..

ASP






quinta-feira, agosto 12, 2004

Relances 84

Cunha, vales um batalhão!
a) Os antigos combatentes vão receber 155? por ano. Como terão uma esperança de vida de cerca de 10 anos, receberão, ao todo, 1550?, ou seja, cerca de 300 contos.
Quanto a indemnizações, um administrador de uma empresa pública, por hipótese a TAP, corresponde, pelo menos, a uma companhia reforçada, e o presidente a um batalhão, quando sai antes do fim da sua requisição. Já um tal José Nunes, presidente da Associação de Combatentes do Ultramar, lamenta que algumas associações critiquem os valores dos complementos de reforma, os tais 2 contos e tal por mês, porque, veja-se, ?nunca deram a cara para a contagem do tempo passado em combate?!!! Ele há cada um!!!!

O mistério
b) Ora quem havia de dizer! Mas, se o ex-director da PJ conduziu uma campanha objectivada para difamar os lideres do PS, quem lhe encomendou o serviço? Há ideias sobre isso.

Uma campanha Alegre
c) Os inquéritos dos jornais valem o que valem e é pouco. São apenas indicações, ao nível das que o sol poente dá para pescadores experientes sobre o tempo do dia seguinte. Mas, para já, os apoios dos leitores do Público a Alegre estão a exceder o que se esperava, com mais de 40% de respostas a considerá-lo o melhor SGPS. Já Soares fica-se pelos 6 a 7%. Sócrates está hoje nos 50%. Na Visão é Alegre que ganha. Acabada a Volta, é este o ludo que está na moda.

Um pacto de cavalheiros
d) Há matérias que implicam ?pacto de regime?. Há outras que apenas competem ao governo tratarem. Não vejo razão para a reforma do sistema judicial não seja destas. Competirá ao Governo (tem, parece, um óptimo ministro) propor as medidas legislativas a serem discutidas na AR e à Oposição ter a honestidade de aprovar as boas e rejeitar as más. Publicamente. Sem negociações desresponsabilizadoras e, muito provavelmente, que apenas servirão para postergar acções concretas para o dia de São Nunca, à tarde...
Para já nomearam o novo director da Judiciária sem darem cavaco (salvo seja) a ninguém. O PS levou a mal.

ASP

Uma Campanha Alegre 12
Os apoiantes on line
( em linha)
(com semi-tradução para inglês-português e vice-versa)

O site (o lugar, sítio) da Visão (Vision) trás o resumo dos sites (ver atrás) dos três candidatos (candidates).
O breve scanning (leitura em diagonal) realizado sobre os três (the 3), permitiu-me o seguinte briefing (resumo conclusivo):

O site (ver acima) do Alegre (Gay, salvo seja) e do Sócrates ( philosopher pre-Plato) trazem uma lista nominal dos apoiantes (supporters).
Soares (Onlyairs), não.

Na do Sócrates (see above), só na letra ?A? (não tive paxorra para ver mais) havia 5 nomes repetidos, seguramente devido ao entusiasmo dos apoiantes (fans), que fizeram questão em ser reincidentes. Ou então futebol (football) é assim mesmo.

Soares (see above) tem um jogo (game) estilo Totoloto (read Tou Tolo Tou), bem como a própria revista, onde se vota no candidato que se acha melhor para futuro SGPS (The next socialist boss). (NB: now we have to stop translation, sorry; lack of funds):

A última apoiante de Alegre é uma Zelmira; Sócrates vai mais longe, com uma Zulmira.

Os resultados, como soi dizer-se, valem o que valem, mas não deixam de ser surpreendentes, se cotejados com os do Expresso, que já me não lembro em pormenor , mas que eram qualquer coisa do estilo:

Soares 20 e tal%; Alegre outros 20 e tal%; Sócrates 50 e tal%.

No Público, em curso, Sócrates tem 50%, Alegre 42% e Soares fica-se por 6%.

Na Visão e no próprio site do Soares é Alegre o vencedor com 35 a 40%.

Mesmo no próprio site, Soares fica em último lugar, mas honroso, empatado com Sócrates a 30%.

Claro que sondagens sobre o público em geral podem induzir em erro sobre resultados exclusivamente com militantes. Mas pode-se concluir que:

a) Soares não tem chances;
b) Os leitores de Centro- Direita (Expresso) preferem Sócrates na chefia do PS;
c) Os leitores de Centro- Esquerda (Visão) preferem Alegre.

Como era esperável, aliás.

Coisa que soube off record (boca) é que nas últimas eleições apenas votaram pouco mais de 10% dos inscritos no PS. As candidaturas estão atentas, consta.

ASP


quarta-feira, agosto 11, 2004

Relances 83
Com umas pitadas de má-lingua
10AGO04


a) Filomena Mónica, esse admirável vulto da cultura portuguesa, publica hoje, no Público, um texto de antologia, o ?Diário secreto de José Sócrates com a idade de 47 anos?, no estilo do Diário Secreto de Adrian Mole. Uma espécie de picadela de mosquito do Nilo. A não perder.

b) Quando se fala no ?papel do Estado?, por exemplo na sociedade portuguesa, há um grande mal-entendido: uns pensam no Estado-conceito, Estado-ideal, o conjunto de agentes da Coisa pública cuja função é prestarem serviço à Nação; outros pensam no Estado-concreto, o Estado portuga, a mesa do orçamento onde a maior parte das famílias vão mastigar o seu sustento. Um dia desenvolvo o tema. O que é certo é que quando Manuel Alegre fala no papel do Estado, está a pensar no primeiro e os seus opositores a pensar no segundo.

c) O Zé não tem por costume pensar, a não ser no imediato e na medida do que se reporta directamente a si. Pois, oh Zé, a moda do consumidor-pagador, tão em voga nos círculos neo-liberais que comandam o país, já está a congeminar em privatizar as estradas, algumas estradas, por exemplo não permitindo o seu acesso a quem não tenha, por hipótese, o dispositivo de Via Verde. Claro que é absurdo e anticonstitucional, mas como é que hão-de resolver financeiramente o caso das SCUTs?

d) Chega a ser ternurosa a dedicação que os neo-adjuntos dos novos gabinetes governamentais estão a dispensar à sua actividade. Pouco ou nada sabem ou entendem do que têm de tratar, fazendo, subsequentemente, os pareceres mais absurdos; mas estão movidos por uma dinâmica de realização só comparável à de um grupo de baratas numa caixa de sapatos. Mesmo sem baraticida.

e) Que raio de coisas terá dito Adelino Salvado ao telefone que obrigou a substitui-lo? Estou mortinho de curiosidade. Bem como uns dois milhões de portugueses, os que ainda não estão completamente autistas ou alienados pelo FST (futebol, sexo e televisão).

f) Surpreendentemente dou comigo a apreciar a rapidez de decisão do Governo a deitar abaixo uns figurões e a substitui-los por outros. Se isto não é poder, onde é que está o poder? Acho que leram Maquiavel.
ASP


Olhar Ruminante 85
A lógica da nossa Justiça


Um cidadão assiste a um assalto por dois meliantes a uma velhinha num beco escuro.
Escondido, pega no seu vídeo e filma a cena. A PGR critica-o por não ter pedido autorização para as filmagens e diz que elas não têm força de prova contra os assaltantes.
Será esta a lógica da nossa Justiça, presentemente.

Um altíssimo responsável do Estado, teve, ao que se diz, acesso a informação privilegiada e manipulou-a objectivadamente para difamar e prejudicar o partido da Oposição, a que não pertencia, obviamente.
Alguém, num telefonema, grava declarações que confirmam tal crime. Sem conhecimento do dito alto funcionário público, evidentemente, porque, se não, seria uma confissão, que ele não quis, nem quer, fazer. O dito funcionário é alto responsável pelo sistema judiciário nacional. Um presumível exemplo a seguir nas suas condutas. Um garante.
A PGR indigna-se com a ilegalidade da gravação e não com o crime.
Típico.
Todos dizem que acreditam na Justiça.
Há tanta hipocrisia neste mundo!!!!

ASP

terça-feira, agosto 10, 2004

Olhar Ruminante 82
Uma Campanha Alegre 9
O cancro das sociedades democráticas ? a corrupção

Ando a ler, induzido pelos ventos da época, ? Uma Campanha Alegre?, das Farpas, do Eça + Ramalho. Refere-se aos finais da monarquia constitucional, finais do século XIX, mas tem tantas similitudes com alguns aspectos do nosso sistema e situação política, que chega a ser intrigante, no referente à ?decadência? cívica e ética, se tal se não trata de uma pecha endémica nacional.

O país, agora, não estará ainda ?podre?, nem a Política, agora, será, para já, a ?grande porca?, mas para lá caminhamos.
Estão presentes os ingredientes com que se faz esse bolo: amolecimento da ética e do civismo; materialismo e individualismo generalizados; falta de projecto nacional, no sentido de colectividade cultural; rotatividade governativa dos partidos, sem projecto ou ideal; demagogia; ausência de planeamento e organização no Estado, num contexto de penúria financeira; má gestão, gestão incompetente ou corrupção públicas; falta de senso em muitas atitudes dos governantes; desconsideração das instituições, devido aos respectivos responsáveis não serem merecedores de qualquer consideração; etc.
Então, como agora, o principal agente de podridão era a cupidez dos agentes públicos, evidentemente ligada à corrupção, em caldo de ignorância e desinteresse do Povo, que agora se chama População.

Corrupção, termo e conceito que toda a ?inteligenzia? nacional, mesmo a isenta de qualquer suspeita de sua prática, prefere dizer que não existe ou não tem significado em Portugal, se bem que saiba e pense o contrário, vá-se lá saber porquê.
Corrupção, venalidade, simonia, tráfego de influências e de informação privilegiada, chantagem, lavagem de curricula ou de dinheiro, favoritismo, cunhas, assédio sexual, ?preparação? de concursos, abuso de poder, luvas, comissões, condescendências convenientes, fechar olhos, compra de decisões, proteccionismos, contabilidades criativas, desfalques, falcatruas e toda a plêiade de actos e atitudes de meias-tintas quanto a idoneidade pública, ligadas ao negócio e ao dinheiro, hoje em dia tão correntes que quem anda nesse mundo chegue a afirmar que, hoje em dia, não é possível ter qualquer adjudicação pública acima de certa importância, sem ter que ?dar? alguma coisa a alguém, na maior parte dos casos à conta do financiamento do partido A, B, C ou D, concretamente o que ?controla? o agente em questão.

Porque o sistema foi originado e é desculpado por uma acção proactiva por parte dos principais partidos nesse sentido, já que não encontram nos seus meios legais de financiamento dinheiro suficiente para as suas campanhas e a manutenção de muitos dos seus quadros com níveis de vida que eles próprios se acham merecedores.
Cotejando as previsíveis despesas da sua actividade com os seus proventos declarados, não é difícil perceber que a diferença tem de vir de algum sítio.
Infelizmente a realidade tornou os principais partidos ? todos, mas com particular quota para os que detêm o poder ? corruptores activos, na medida em que directa ou indirectamente procuram um financiamento nestas fontes. Para tal promovem a lugares decisórios, no Estado, empresas e institutos públicos, pessoas cujo principal mérito é predisporem-se a serem ?cobradores? de ?comissões? de adjudicação de fornecimentos e empreitadas, alegadamente para o ?partido?, mas que, previsivelmente, apenas lhe fazem chegar um parte do recebido, que se processa em circuitos clandestinos e, assim, permite à linha de ?cobradores? ficarem com alguma parte nos seus bolsos.
Evidentemente tudo se passa longe do fisco.

Nas autarquias funciona um sistema semelhante, existindo autarcas cuja manutenção nos cargos propostos pelos seus partidos, depende de, localmente, angariarem ?apoios? suficientes, nas ocasiões possíveis. E aí os licenciamentos, as empreitadas e os fornecimentos de diversos tipos são um manancial imenso, que ?dá para todos?. Não é novidade nenhuma, basta lembrarmo-nos dos casos da Guarda, Marco, Felgueiras e Oeiras, só para referir os mais recentes.
O esquema está montado e os riscos de detecção e subsequente castigo são minimizados por procedimentos administrativamente correctos, mas que, na prática, conseguem ser viciados por especialistas no assunto, o que até nem é difícil, se existir, nas fases preparatórias dos concursos, o intuito de permitir discricionariedade na decisão.

A legislação, apesar de alguns melhoramentos introduzidos, ainda permite este estado de coisas. E o próprio mercado adaptou-se à situação e receia que inovações nesta matéria agravem mais a discricionariedade e a cobiça, porque o principal defeito não está nos procedimentos, mas sim nos seus agentes.
A justificação de ?ser para o partido? chegará para auto-desculpar os principiantes e diluir a crítica sempre existente por parte da entidade que se vê obrigada a ?entrar? com a maquia. Com o tempo parece que a coisa se torna rotinada e asséptica.
Gente corrupta ou corruptível sempre existiu e sempre há-de existir.
A questão está no Sistema e na Ética social, que favorece ou penaliza esses comportamentos. E o actual Sistema favorece, encobre e desculpa.

A corrupção terá já abarcado mesmo as instâncias judiciais e policiais, pelo que a denúncia concreta passa a ser não só inútil, mas perigosa.
Abundam casos mediatizados onde se denota que ?qualquer coisa está podre? no domínio da Justiça. A forma enviesada como o Ministério Público (incluindo o seu responsável PGR) e o Juiz responsável pela fase do inquérito, conduziram o processo Casa Pia; a ignorância que denúncias claras, se bem que anónimas, apresentadas pelo blog Muito Mentiroso foram ignoradas, quando outras denúncias também anónimas foram apensas ao processo; o conhecimento de que altos funcionários da Procuradoria e da PJ se dispuzeram a ?branquear/desviar? processos a troco de dinheiro; toda a confusão que tem rodeado o caso Apito Dourado, etc, etc, não podem deixar de fazer o cidadão comum interrogar-se sobre a Justiça que temos e o que haverá de interesses por trás de tudo isto.
E quando a Justiça não é respeitada, tudo pode acontecer na vida pública sem restrições, porque não há castigo ou ele é apenas aplicado de forma discricionária. Ás vezes.
Toda a gente conhece situações obscuras ligadas a encomendas, adjudicações ou fiscalizações. Ninguém se dispõe a denunciá-las, em parte devido a um complexo derivado da ideia de ?bufo? do tempo de Salazar e em parte pela noção que tal só lhe pode ser nefasto, a exemplo de casos conhecidos (vejam-se os casos paradigmáticos do ?juiz? Verdasca Garcia, da JAE, etc).

Muita comissão, muito conselho, muitos grupos de trabalho, muitas iniciativas, conferências, artigos de jornal e congressos têm sido feitos sobre este tema, todos a diagnosticarem um nível de corrupção preocupante e a proporem medidas, que, até agora, nunca passaram de palavras.
Opiniões de altas figuras do Estado, criticando a denúncia sem provas, mais não fizeram do que incentivar a corrupção, pois nem se conseguem, geralmente, provas deste género de coisas, estando ambas as partes interessadas sujeitas a segredo, por interesse mútuo, nem compete ao cidadão a investigação sobre tais crimes, para que existem instituições especializadas no Estado. Claro que, se estas instituições são permeáveis ao suborno ou mesmo á prática directa do crime, é impossível resolver-se a situação.
Espero que não se trate, ainda, desse estádio das coisas.

A corrupção é o cancro das democracias. A luta contra a corrupção deve ser a principal luta de todos os cidadãos honestos, nesta fase da Democracia, neste País. A começar nos seus partidos, exigindo uma revisão urgente da Lei do Financiamento Partidário e uma inspecção detalhada às suas fontes de financiamento. A sério e não, hipocritamente, para ?lavar as mãos?.
No PS espero isso do Manuel Alegre, se for eleito para Secretário Geral.
ASP

Olhar Ruminante 84
O sururu ou eu sou estúpido ou aqui há gato
( + um Post Scriptum ainda mais intrigante)
(às 21 h de 9AGO04)

Não percebo a razão do sururu relativo ao (alegado) roubo das (alegadas) cassettes onde o (alegado) jornalista do CM teria (alegadamente) gravado entrevistas telefónicas com o Director da PJ, (alegadamente) comprometedoras para ele, que (alegadamente) não tinha consciência que estava a ser gravado.

Fala-se em crime, mas não se explicita que crime.
Fala-se em demissão do Director da PJ, mas não se explicita porquê.
Fala-se em violação do segredo de Justiça, mas não se refere como nem em quê.

O assunto, contudo, deve ser grave ou entendido como tal pelo Governo, pois justifica andarem os jornalistas a perguntar a todo o ministro ou equiparado a sua opinião. A fluidez ou, no extremo oposto, a rigidez, das respostas reforça a ideia que ?aqui há coisa?. Ao ponto de serem as mais altas instâncias do Governo a tomar o assunto nas mãos. Ele há mistério. O PGR terá sido chamado para deslindar a intriga. Uma espécie de lançar petróleo no fogo....
Para já a sua PGR avança com um duro comunicado a criticar o jornalistas quanto à sua ética profissional e à sua competência. O Sindicato dos Jornalistas responde com um duro comunicado a criticar a PGR quanto à sua competência e ética profissional.
O costume. Mas tanta dureza faz pensar que algo desagradará à PGR. Ele há mistério, digo-vos. A pasmaceira de Verão com chuva também ajuda.

Mas de que é que se está a falar?

Parece que um jornalista fez, a pretexto da Casa Pia, algumas entrevistas, telefónicas. Terá gravado todas, umas com conhecimento do interlocutor, outras sem conhecimento. Facto comum, trivial, déja vu.
A PJ fá-lo quotidianamente. Grava conversas telefónicas dos cidadãos mesmo sem estarem a ser entrevistados, jornalistas incluídos. Neste caso foi o cidadão jornalista que o fez ao chefe da PJ.
Truques profissionais, que a ética jornalística permite, especialmente se se tratar de matéria ?de interesse público?, o que notoriamente é o caso, a crer-se no tal sururu existente. O jornalista procura a ?notícia? e quer segurança nas suas fontes. Donde a conveniência de gravar telefonemas com os entrevistados. Para que não haja o dito por não dito.
Cada qual deve ser responsável pelo que diz e se se tem a categoria para ser entrevistado, deve-se assumir o que se diz. E, por se tratar de órgão da comunicação social, que mais tarde ou mais cedo, pode vir a ser publicado. Gravado ou não. É a lógica irrefutável da notícia.
Não sei, nem sei se alguém sabe, o que é que o Dr. Salvado terá dito que possa constituir notícia e simultaneamente lhe possa ser comprometedor ou nefasto. Porque não é obrigatória a coincidência.
Por enquanto a notícia é que ele disse algo que seria notícia.
E dado o nervosismo do Governo, que tal seria desconforme o ?politicamente correcto?.

A questão da ilegitimidade de gravar declarações para um jornal, é lançada nitidamente para distrair o público da matéria principal. Porque mais grave foi quando foram publicados extractos das gravações dos telefonemas de Ferro Rodrigues que nada tinham a ver com a investigação que os justificava (lembram-se do ?estou-me cagando para o segredo de Justiça??) e o sururu foi mais pequeno. E tratava-se de uma fuga, do Sistema Judicial, objectivada para o prejudicar.
Os portugueses gostam de baralhar problemas e a questão da deontologia jornalística é boa para diluir a questão principal, ou seja, a previsível ?bronca? das declarações do Director da PJ, que lhe terão merecido o despedimento (estou sabendo neste momento).

Uma outra questão é porque se roubam gravações?
A resposta é dupla: ou para publicar o que Salvado disse sem o ónus de o ser feito pelo jornalista gravador, por ser notícia e ?caixa?; ou para constituir prova no processo de acusação ou defesa. Mas para tal, parece que não funciona, pois gravações, para mais não autorizadas, não são juridicamente aceites como prova em juízo.

É, portanto, dedutível que foi para publicar como notícia, que as cassettes foram roubadas. Se assim for, muito em breve saberemos o que foi dito. Ao abrigo da protecção das fontes, que nunca revelarão de quem adquiriram a cassette ou sua cópia. Não me admirava que fosse o próprio jornal roubado a trazer a notícia, depois de re-adquiri-la.
Mais um fait divers.

A não ser que o sururu nas altas esferas do Governo tenha uma razão mais forte do que a imprudência de um alto funcionário.
Ou eu sou estúpido ou aqui há gato.

P.S: Soube agora, exactamente agora, que Aguiar Branco e Santana Lopes, em mano-a-mano, tinham aceitado a demissão (expressão eufemística para designar que o demitiram) de Adelino Salvado. Fiquei sem saber porquê, mas mais me aguçou a curiosidade, porque por dar entrevistas telefónicas não terá sido, seguramente.
Estará no conteúdo das suas declarações onde estará a razão. Mas que raio de coisa se trata, sobre o processo da Casa Pia, para justificar uma demissão? Haverá mais broncas e trapalhadas para além das que já se sabe, agora que o processo deixou de estar em ?segredo de Justiça??
Ou será, à semelhança da argumentação do Ministério Público, mais uma montanha em trabalho de parto de roedores?

ASP

Relances 82
Santana, o demitidor & outros faits divers


a) Diz que Mexia vai fazer mexida na TAP, contra Cardoso & Cunha. Bom sinal. Era escandaloso o que se estava a passar. A lógica da boa gestão venceu os interesses do que o vulgo chama ?coçapadentro?. Contra as cumplicidades antigas de gente importante, nomeadamente de agora super-governantes. Mas a coisa só será para Dezembro. E vamos ver as indemnizações que teremos de pagar.

b) Ele foi o director da PSP; ele é o Director da Judiciária; o Presidente da TAP já se viu; na onda foi o Del Neri. Aplauso para esta purificação no estado a que isto chegou. Pelo menos em termos estéticos fica-se a ganhar.

c) Sampaio promulgou o diploma sobre o internato médico, apesar do Provedor de Justiça o ter declarado inequivocamente anti-constitucional e garantido que o iria levar ao TC para verificação. O que se passa com Sampaio, desde a saída de Durão, que enveredou por caminhos tortuosos de entender?

d) Paquete de Oliveira recomenda ao PS para ?Doa a quem doer, limpar a casa2. Diz ele que ?o povo quer ?percepcionar? seriedade na política. E em política, o que não parece não é?. Será que PO é adepto de Manuel Alegre?

e) Há avantajada questão sobre se a Casa de Camilo é em Seide ou Ceide. A inteligenzia do Norte decidirá após férias. Não, não é o Camilo actor, é o Camilo ?escritor. E não dá autógrafos.

f) Anúncio recomendado a Ferro Rodrigues, a Pacheco Pereira, a Adelino Salvado e a tantos outros azarados contemporâneos: ?Você que sofre de problemas de falta de sorte, inveja ou casos incompreensíveis e desesperados, consulte o Professor Bambo. A especialidade do professor Bambo é libertá-lo de problemas? (com fotografia impressionante de um matulão careca, de túnica tão branca como a sua tez é negra, uma espécie de rosário nas mãos e um olhar infinito). Também na rádio e na TV.

g) A CML anda a por anúncios (caros) na Imprensa a dizer que a anterior gestão PS da Câmara era responsável por uma dose considerável da dívida a fornecedores, finalmente avaliada em 118 Meuros. Vasco Franco contesta. Se continuarem a usar os media para esclarecerem o assunto, a dívida alcançará em breve os 120 Meuros. A questão principal, contudo, nem é tratada. Ela reporta-se ao aumento no 1º semestre deste ano de cerca de 40% na despesa corrente. Com ordenados, mordomias e festas.

h) Em Coimbra um motorista de autocarro usou o extintor de incêndio numa rixa de trânsito, tendo apagado o fogo da discórdia com uma boa dose de neve carbónica. As opiniões dividem-se, em termos de análise custo-benefício, com a atitude de simples aplicação mecânica na cabeça do contendor, muito mais tradicional da zona.

ASP

segunda-feira, agosto 09, 2004

Uma Campanha Alegre7
Uma indispensável clarificação
( reflexões sobre o artigo de José Sócrates no DN de 4Ago)

Li com muito interesse e positividade o ?ponto de Vista? de José Sócrates no DN.
E, concordando com algumas coisas e discordando de outras, devo elogiá-lo pelo progresso desde a entrevista no Expresso.
Nele se constata que há formas muito diferentes de encarar a Política e o próprio PS, o que, na actual fase de esclarecimento para uma ?renovação e abertura? por todos desejada, só pode ser elogiado.
Quanto ao conteúdo, o texto foca 6 temas, precedidos no prólogo de uma espécie de seu equacionamento. Curiosamente Sócrates ignora Soares e apenas refere Alegre, como se a outra candidatura fosse inexistente ou não considerável, nesta fase de debate de ideias, pelo menos.
Defende um ?congresso clarificador?, para que ?é preciso identificar as ideias políticas verdadeiramente contrastantes?.
E até aquí estou 100% de acordo.
Já discordo da visão subjacente a ?se saber a quem se deve dirigir o Partido Socialista?, frase que me soa demasiado a marketing, ou seja, à perspectiva de se ter um partido organizado para um determinado nicho de mercado de votos.
É uma base de partida para a actividade política completamente ao contrário da que defendo e que suponho ser a mesma do Manuel Alegre, na medida em que um partido político não é constituído para agradar a ?clientes? e, portanto, adaptar os seus princípios e bases ideológicas ao que se pensar que ?está a dar?.

Um partido é definido, a priori, por um corpo ético e doutrinal, em termos sociais e de utopia social e se a sociedade não corresponder a essa proposta, a esse projecto, ou por desajuste do seu modelo com o arquétipo do partido, ou por outro género de razões (falta de confiança ou identificação com os seus agentes), a solução não é adaptar as ideias à ?procura?, mas procurar reforçar a demonstração da sua bondade para o público eleitor. Não se trata de vender telemóveis, cuja cor e performances podem ser adaptáveis às modas e ao mercado. Estamos no domínio das ideias puras e dos valores, que são o que são e valem o que valem, devendo apenas ser alteradas por outras ideias e valores julgados melhores e não por razões de maior ou menor clientela.
Reconheço, contudo, que o que se vem fazendo a título de política, pouco mais é do que venda de imagem dos seus agentes, mas tal não significa que tal seja positivo e que o PS se deva submeter a este género de táctica, que o esvaziará de sentido ético. Aliás foi este espírito acomodatício que originou o Bloco Central, já que os partidos que aí se instalaram deixaram de ter ideais e ideologias e fundamentalmente procuram agradar ao eleitorado chamado ?do centro?, ou seja o indeciso, sem ideias ou sem envolvimento.

*
Segundo as suas antigas declarações de princípios, (hoje substituídas por um pot-pourri de intenções politicamente correctas) o PS deverá dirigir-se vocacionalmente aos explorados, sejam eles maiorias ou minorias, no sentido de, por uma acção conjunta, lhes garantir as condições de cidadania julgadas possíveis e desejáveis. E englobar nestes ?explorados?, a terceira-idade abandonada, os trabalhadores imigrantes, muitas mulheres abusadas, algumas minorias étnicas. Porque ?os mais fracos? continuam a existir, mesmo que a ?luta de classes? e outros conceitos já sejam hoje antiqualhas conceptuais.
Mas que são grupos sociais que seguramente nada têm a ver com?os sectores mais dinâmicos da sociedade portuguesa?, com quem Sócrates, no seu natural ímpeto de sucesso, quer ?restabelecer pontes?.
É uma das diferenças no conceito e no estilo da Política. O ? sucesso?, a fama, dificilmente se conseguirão pelo altruísmo e pelo socialismo. Para tal é melhor estar-se do lado dos mais fortes.
Mas se existir uma razão de natureza ética na actividade política, ela forçará à retoma da solidariedade como finalidade e método.

*
Esta opção social e filantrópica não constitui, como Sócrates receia, uma ressurreição da ?lógica de classes? (subentendendo-se marxistas). Apenas tem a ver com a constatação que continua a haver grupos sociais e cidadãos particularmente desapoiados pela sociedade nos seus direitos, que continua a haver exploração e abusos sobre esses cidadãos e que o PS, por natureza e até designação, deverá estar ao lado dessa gente e não dos exploradores ou dos detentores de riquezas ou poder, que não precisam de partidos ou apoios para coisa nenhuma.

*
Esse desencontro primordial de conceitos repercute-se, depois, no ponto 2.
A leitura de Sócrates sobre a situação actual recusa que o sistema político se aparente a um rotativismo parlamentar, em muito semelhante à situação final do regime monárquico.
Alegre, pelo contrário, aponta as semelhanças e teme as consequências. E refere que o status-quo se deve à vacuidade ideológica da política actual, quase que apenas preocupada com os resultados a curto prazo, exclusivamente para douragem da imagem dos políticos.
Acha também Sócrates que o PS de Guterres e Ferro constituíram modelos de governação (ou oposição, o que vai dar no mesmo, para o efeito) que ?contrastaram com o modelo neo-liberal e resistiram ao ?bloco central de interesses?, que não nega existir.
Discordo. Se o modelo neo-liberal se instalou (com Durão, de que se dizia que não tinha carisma ou qualidades para governante e depois com Santana, idem) deveu-se à insatisfação popular com o desempenho do 2º governo de Guterres (bem como o desastre eleitoral para a actual maioria se não deveu ao desempenho da Oposição, mas sim ao despautério da política laranja).
O Bloco Central de Interesses, isto é, a pastelada em torno de negócios e tráfego de influências entre o PS e o PSD para benefício de apenas alguns dos seus militantes, vem já do tempo de Cavaco Silva, perpassou Guterres e instalou-se com armas e bagagens nos governos da actual coligação.
Qualquer observador minimamente atento ou que leia os jornais, percebe tal, sem ser preciso referir os escândalos mais ou menos resolvidos que têm pululado como coelhos nos últimos tempos, nas empresas públicas e no Estado, local e central.

*
Já concordo ? e de há muito ? com a afirmação de que não basta ao partido Socialista dizer que ?é contra? o Governo? e que tem de demonstrar, por propostas concretas, que poderá ser alternativa a esse governo, e uma melhor alternativa.
A estratégia da oposição feita pelo PS, até agora, pode desgastar o Governo, mas é pontual, nervosa e não dá aos portugueses qualquer ideia ou crença que o PS possa fazer melhor. Apenas acentua as causas do rotativismo.

*
Quanto ao debate, para já, de matéria de governo, é bom recordar que o que está em discussão é o cargo de Secretário Geral e importa, antes do mais, antes mesmo das suas ideias sobre a governação do País e as formas de fazer oposição ou governo, saber o que ele pensa sobre o papel do PS no actual contexto. Porque a situação no PS é grave.
Tão grave que alguns dos próprios fundadores admitem que ?teriam dificuldades de aderir ao partido hoje?.
Isso Sócrates não diz, parecendo acreditar que tudo está bem no PS e que Alegre e outros Camaradas que se não revêem no partido de hoje, é que estão enganados e que se deixaram ultrapassar pelos tempos.
Ver-se-á, porque o partido é a comunidade de todos os seus militantes e presentemente o importante é esclarecê-los quanto aos modelos que presentemente estão em jogo. Depois, é aceitar o resultado dos votos.

*
Acha ainda Sócrates que o candidato a 1º ministro pelo PS deve ser eleito pelo congresso, identificando-o com o Secretário Geral. Discordo.
O 1º ministro é um cargo nacional, do governo e, no limite, poderá ser mesmo um independente, ou mesmo de outro partido, quando em coligações. Há funções que se não elegem, como o médico ou um administrador de empresa, escolhem-se, porque não se pretende uma representatividade, mas uma competência.
No caso do Governo a representatividade é dada pelo suporte que deve ter na AR, ou, no caso de iniciativas presidenciais, pelo aval do PR. É a lógica parlamentar em uso na Constituição.
A falácia no caso de Santana Lopes não é formal. É política. Porque foi um engano para os eleitores basear todo um programa de promessas na pessoa do Durão e substitui-lo a meio da jornada, por razões exclusivamente de interesse pessoal do demagogo.
Escolher primeiros ministros a dois anos de distância, por voto dos militantes, é espartilhar o partido em toda uma possível política de associações pré e post eleitorais e rigidificar a estratégia e a táctica eleitoral, quando se não sabe as circunstâncias concretas que rodearão o panorama político nessa altura.

*
A lógica de Alegre parece-me mais coerente: escolher, enquanto na Oposição, com calma e critério essencialmente técnico, mas não só, um governo-sombra que ele próprio coordenará. Esse Governo sombra integrará responsáveis pelos diversos sectores da governação, putativos respectivos ministros, que por sua vez englobarão equipas de técnicos especialistas do Partido para informação, análise, diagnóstico e propostas nas matérias da sua competência. Quando das eleições haverá assim não só um corpo de ideias que podem constituir um adequado Programa de Governo (em vez do esquema habitual de copiar de eleição para eleição as listas de desejos ainda não realizados em cada sector, confundindo desejos com projectos ou programas), uma apreciação do previsível desempenho no Governo dos camaradas que englobaram esse Governo Sombra (o que permitirá uma afinação, se necessário, de alguns nomes) e uma prática de trabalho em cooperação entre todos os elementos, garantindo uma coordenação que tem faltado nos últimos governos, desde o 2º de Guterres, inclusive. O próprio 1º ministro poderá sair deste processo, por hipótese sendo cooptado inter pares ou assumindo, se adequado, o secretario geral esse cargo. Ou ainda escolhido pelas estruturas adequadas entre camaradas recomendados face às circunstâncias concretas que existirem.
Um bom Secretário Geral pode dar um insatisfatório 1º ministro e vice-versa. Não há razão nenhuma para fazer coincidir as duas funções.
A única vantagem que se vê numa sua indigitação para 1º ministro desde já, pelo PS, é de cariz pessoal do candidato, que parece encontrar nessa designação a principal razão para a candidatura a líder do Partido.

A questão das alianças e das presidenciais são especulações que não se me afiguram muito a propósito nesta fase, a não ser para jornalistas. O hábito de saltar etapas e ?futurolizar?, tão ao gosto dos políticos populistas, será de evitar neste processo de eleição do SG do PS.

ASP

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